Como apresentado anteriormente, acreditamos que um estudo sobre textos, principalmente em uma plataforma colaborativa como os wikis, deve se concentrar, mais do que no produto final, no processo de produção e interpretação deste nas situações comunicativas das quais emerge sua textualidade. Considerando que um artigo da Wikipédia é, potencialmente, fruto da edição de diversos colaboradores em busca de um consenso, parece-nos fundamental mapear e problematizar as intervenções feitas nas versões dos artigos, conceituando e identificando as diferentes formas de tratamento dos textos produzidos coletivamente.
Neste sentido, procuramos inicialmente caracterizar e diferenciar as noções de “retextualização” e “reescrita” e mapear as operações mais comuns nessas formas de intervenção em textos48. Esta articulação nos ajudará, em seguida, a problematizar o uso desses procedimentos no contexto das redes profissionais de produção editorial e, em um segundo momento, a caracterizar a dinâmica de edição dos textos ã luz das especificidades da Wikipédia.
Parece não serem consenso entre os linguistas (e pesquisadores de áreas afins) as diferenças entre os conceitos de retextualização e reescrita. Em várias ocasiões, dois ou mais desses conceitos são citados como sinônimos, enquanto em outros contextos alguns pesquisadores procuram, ainda que de forma pouco conclusiva, apresentar diferenças e limites entre eles.
Marcuschi (2001), provavelmente o pesquisador brasileiro mais citado quando o assunto é retextualização, não define explicitamente essa noção, mas, em nota de rodapé, dá indícios do alcance do conceito. Retomando a ideia original proposta por Travaglia (1993), que usou a expressão para caracterizar o processo de tradução de um texto de uma língua para outra, o autor afirma que “aqui [na retextualização] também se trata de uma ‘tradução’, mas
de uma modalidade para outra, permanecendo-se, no entanto, na mesma língua” (p.48, grifo
nosso). Pouco adiante, dá pistas do que chamaria de “reescrita”, afirmando que, para substituir retextualização, “igualmente poderíamos usar as expressões refacção e reescrita, (...) que observam aspectos relativos ãs mudanças de um texto no seu interior (uma escrita para outra, reescrevendo o mesmo texto)”. Embora sugira uma equivalência entre as expressões, 48 Uma primeira versão desta discussão foi publicada em d'Andréa e Ribeiro (2010).
acreditamos que o autor não deixa de apontar uma diferença importante: na reescrita (ou refacção), atua-se sobre “o mesmo texto”, enquanto na retextualização, passa-se de “uma modalidade para outra” (no caso dos estudos de Marcuschi, as “modalidades” podem ser compreendidas como a oralidade e a escrita).
Dell’Isola (2007, p.10), por sua vez, define a retextualização como um “processo de transformação de uma modalidade textual em outra, ou seja, trata-se de uma refacção e uma reescrita de um texto para outro, processo que envolve operações que evidenciam o funcionamento social da linguagem”. Nessa definição, embora em alguma medida também aponte como sinônimos os conceitos de retextualização, refacção e reescrita, a autora indica que as características operacionais dos dois últimos têm uma finalidade diferente em relação ã retextualização, que é a passagem de “um texto para outro” em “modalidades” diferentes, tal como define Marcuschi (2001).
Matencio (2002) aponta com mais clareza as diferenças entre as noções de reescrita e retextualização. Partindo do pressuposto de que “retextualizar é produzir um novo texto”, a autora aponta “que toda e qualquer atividade propriamente de retextualização irá implicar, necessariamente, em mudança de propósito”. A reescrita, por outro lado, “é atividade na qual, através do refinamento dos parâmetros discursivos, textuais e linguísticos que norteiam a produção original, materializa-se uma nova versão do texto”. As diferenças entre a “mudança de propósito” da retextualização e a criação de uma “nova versão do texto” a partir da reescrita parecem reforçar a característica estrutural da primeira atividade, em oposição a um aperfeiçoamento interno de um mesmo texto (um “refinamento”) visado pela prática de reescrita49.
A reescrita, portanto, pode ser atrelada ao processo de edição de texto cujo objetivo maior é a alteração de trechos de um original mantendo-se sua estrutura básica, mesmo que o volume de alterações seja significativo. Assim como na retextualização, há na reescrita, conforme propõem Fiad e Barros (2003), um “agir sobre a textualidade e sobre a 49
Em outro trabalho, a autora explicita que a retextualização é a “produção de um novo texto a partir de um ou mais textos-base” (MATENCIO, 2003, p.1), dando ênfase ã condição derivada do texto retextualizado. Ao trabalhar sobre “as estratégias linguísticas, textuais e discursivas identificadas no texto-base”, o editor projeta um novo texto “tendo em vista uma nova situação de interação” (MATENCIO, 2003, p. 3-4). Assim, parece-nos que o conceito de retextualização pode ser, sem dificuldades, associado a uma mudança entre modalidades de veiculação e entre gêneros textuais, aqui entendidos como “formas verbais de ação social relativamente estáveis realizadas em textos situados em comunidades de práticas sociais típicas e em domínios discursivos específicos” (DELL’ISOLA, 2007, p. 17).
discursividade”. Este agir, no entanto, não impacta a estrutura inicial da produção textual - a rigor, opera para mantê-la. A alteração não-estrutural da reescrita e o propósito de “refinamento dos parâmetros discursivos, textuais e linguísticos” (MATENCIO, 2002) muitas vezes aproxima-a do que Jesus (1997, p.102) chamou de “higienização do texto”, uma operação cujo “objetivo principal consistia em eliminar as impurezas previstas pela profilaxia linguística (...)”. Ainda que a expressão “higienização do texto” tenha, na argumentação de Jesus (1997), uma conotação negativa, já que representaria o apagamento de marcas autorais do texto (no caso, produzido por alunos) em nome de rigorosa adequação a parâmetros normativos da língua, podemos entendê-la também como uma ação muitas vezes necessária na elaboração de um texto “refinado” e, principalmente, adequado a dada situação comunicativa.
Apesar da impossibilidade de definir precisamente os limites entre reescrita e retextualização, o esforço para diferenciar estas duas formas de intervenção em textos visando adequá-los a uma dada situação comunicativa nos ajudará, ao final deste trabalho, a caracterizar e compreender os processos de edição da Wikipédia. De antemão, podemos apontar que as formas de intervenção textual propostas pelo próprio projeto sugerem que a dinâmica de “evolução” dos artigos se baseia essencialmente nas práticas de reescrita, pois é a partir de diferentes tipos de modificações não-estruturais (embora algumas, como a “Reciclagem”, sejam mais profundas) que os artigos devem ser aperfeiçoados. Assim, as retextualizações parecem ser atividades raras no processo de edição dos textos da Wikipédia, uma vez que, em função da construção gradual do texto a partir da intervenção de diferentes colaboradores, espera-se que o artigo seja aperfeiçoado, com base nas edições prévias, em um processo contínuo, e não de rupturas quanto ã modalidade ou ao gênero textual.
2.2.1 Operações da reescrita
Fiad (1991) e Menegassi (2001), baseados em Fabre (1987), mencionam quatro operações comuns no processo de reescrita: adição, substituição, supressão e deslocamento. Em todas as quatro operações, as intervenções podem ser de ordem mais pontual, alterando-se a pontuação ou um grafema, por exemplo, ou mais abrangente, alterando palavras ou frases.
Já Faigley e Witte (1981) procuram sistematizar parâmetros para relacionar as mudanças na estrutura ou em trechos de um texto com as alterações de sentido acarretadas por
elas. Ao proporem um “sistema para analisar os efeitos das alterações da revisão no significado” dos textos, os autores procuraram diferenciar um conjunto de revisões que não alteram o significado do texto, chamadas de “mudanças superficiais”, das que interferem no conteúdo, nomeadas “mudanças de sentido” (p.401). Embora reconheçam a dificuldade de estabelecer a separação entre os dois tipos de revisão, propõem que as “mudanças de sentido” sejam consideradas em função da inclusão de novas informações e, no caso de exclusão de trechos do texto, pela impossibilidade de recuperá-los numa leitura, mesmo através de inferências.
As “mudanças superficiais” são divididas pelos autores em duas subcategorias: mudanças formais e mudanças que preservam o sentido. A primeira subcategoria inclui a “maioria, mas não todas, operações convencionais do copidesque”: ortografia; tempo verbal, flexões de número e modalidade; abreviaturas, pontuação; e formato. São intervenções pontuais no texto, visando “consertar erros” de ordem essencialmente gramatical. Já as mudanças superficiais que preservam o sentido do texto implicam em alterações, ainda que mínimas, na estrutura do texto editado, impactando palavras, frases ou mesmo unidades maiores.
Já para diferenciar as variações das revisões que culminam em “mudanças de sentido”, os autores recorrem aos conceitos de microestrutura e macroestrutura de Teun van Dijk. Nomeiam “alterações macroestruturais” aquelas que alteram o “sumário de um texto” (p.404), isto é, seu tema central; as “alterações microestruturais”, por outro lado, não alterariam o sumário do texto, limitando o impacto ao trecho editado. O modo mais confiável de separar os dois níveis de alterações, afirmam, é “determinar se os conceitos envolvidos numa mudança pontual afeta a leitura de outras partes do texto” (p.405)50.
Acreditamos que a categorização de Faigley e Witte (1981) tem como virtude a tentativa de diferenciar as revisões textuais considerando não apenas a estrutura do texto, mas também seu sentido, o que nos oferece elementos complementares ãs categorias de Fabre (1987), segundo Fiad (1991) e Menegassi (2001), e aos processos de retextualização e 50
Para Faigley e Witte (1981), tanto as mudanças superficiais quanto as de sentido podem ser divididas em seis tipos de operação (p.443): adições (quando uma informação que antes poderia ser inferida é explicitada no texto), exclusões (operação oposta, torna necessário – mas possível - inferir uma informação antes explícita), substituições (troca de palavras ou expressões mantendo o mesmo conceito), permutas (rearranjo do texto com substituições de trechos), distribuições (quando um trecho de texto é colocado em mais de um segmento) e consolidações (elementos de duas ou mais unidades textuais são fundidos em uma só).
reescrita caracterizados antes. Em uma das raras pesquisas acadêmicas que se concentram na dinâmica de produção textual da Wikipédia, Jones (2008), baseado na categorização de Faigley e Witte (1981), analisou um total de 10 artigos da Wikipédia em inglês, sendo cinco selecionados como artigos destacados e outros cinco que tiveram sua candidatura reprovada após votação. O autor procurou identificar os padrões de edição realizados pelos colaboradores e eventuais relações entre estes padrões e a noção de “qualidade” na enciclopédia wiki (o que determina, no caso, a aprovação ou não de uma página como destaque).
Dentro da amostragem analisada, Jones identificou nos dois grupos de artigos “um grande número de edições macroestruturais que resultaram em inclusão de textos, se comparadas ã exclusão de informações ou alterações estruturais” (p.279). De forma complementar, a análise mais aprofundada de dois artigos levou o autor a apontar que “as edições posteriores tendem mais a expandir e desenvolver seções dos artigos do que a rearranjá-las”, o que pode ser, segundo Jones (2008), resultado das orientações oficiais da Wikipédia. Além disso, ao propor um padrão para a introdução de um artigo, o projeto faz deste trecho uma “pequena encapsulação do assunto” que tende a ser preservada pelos próximos editores (p.280).
Considerando que a “enciclopédia que todos podem editar” procura conciliar as possibilidades da internet com as características esperadas de uma obra de referência, parece- nos fundamental identificar como este projeto colaborativo dialoga com as práticas das redes de produção editorial historicamente constituídas, conforme discutimos a seguir.