O primeiro deles nada mais é que o dever de informação, que deve ser exercido em seu sentido mais amplo. Ao médico incumbe informar o paciente de seu real estado de saúde, a evolução de sua doença e eventuais riscos de tratamento.
A informação ainda deve ser clara e precisa, a ponto de permitir ao paciente sua total compreensão, seja quanto ao diagnóstico, exames, riscos, tipo e duração do tratamento. Em caso de procedimento cirúrgico, deve ser informado sobre sua real necessidade, riscos e conseqüências indesejadas, efeitos colaterais, tipo de anestesia, se necessária, exames a que será submetido, bem como os seus riscos e a parte do corpo a ser tratada.
No tocante aos riscos, há aqueles que são previstos, os que são previsíveis e aqueles que, embora previsíveis, não podem ser prevenidos, e todos devem ser esclarecidos trabalhador ou da comunidade. Artigo 12 - O médico deve buscar a melhor adequação do trabalho ao ser humano e a eliminação ou controle dos riscos inerentes ao trabalho. Artigo 13 - O médico deve denunciar às autoridades competentes quaisquer formas de poluição ou deterioração do meio ambiente, prejudiciais à saúde e à vida. Artigo 14 - O médico deve empenhar-se para melhorar as condições de saúde e os padrões dos serviços médicos e assumir sua parcela de responsabilidade em relação à saúde pública, à educação sanitária e à legislação referente à saúde. Artigo 15 - Deve o médico ser solidário com os movimentos de defesa da dignidade profissional, seja por remuneração condigna, seja por condições de trabalho compatíveis com o exercício ético-profissional da Medicina e seu aprimoramento técnico. Artigo 16 - Nenhuma disposição estatutária ou regimental de hospital, ou instituição pública, ou privada poderá limitar a escolha, por parte do médico, dos meios a serem postos em prática para o estabelecimento do diagnóstico e para a execução do tratamento, salvo quando em benefício do paciente. Artigo 17 - O médico investido em função de direção tem o dever de assegurar as condições mínimas para o desempenho ético-profissional da Medicina. Artigo 18 - As relações do médico com os demais profissionais em exercício na área de saúde devem basear-se no respeito mútuo, na liberdade e independência profissional de cada um, buscando sempre o interesse e o bem-estar do paciente. Artigo 19 - O médico deve ter, para com os colegas, respeito, consideração e solidariedade, sem, todavia, eximir-se de denunciar atos que contrariem os postulados éticos à Comissão de Ética da instituição em que exerce seu trabalho profissional e, se necessário, ao Conselho Regional de Medicina.”
ao paciente. Aliás, o médico tem a obrigação de obter o consentimento do paciente em casos de tratamento que podem implicar riscos à sua saúde.
Risco previsto é aquele que o médico calcula, considera e prevê com relação ao benefício que o paciente vai obter com o tratamento médico ou cirúrgico a que será submetido. Este risco pode ser previsível, mas não necessariamente prevenido.
Risco previsível, mas que não é possível de se prevenir, por exemplo, é uma hemorragia que pode ocorrer numa intervenção cirúrgica, pois não há um modo de prevenir-se por nenhum meio diagnóstico.
Risco que se pode prevenir, por exemplo, ocorre no caso de um paciente hemofílico, que apresenta uma hemorragia durante um procedimento cirúrgico. A hemorragia em um hemofílico é previsível e pode ser prevenida.
Enfim, seguindo tendência da “escola americana”, o médico deve informar o paciente ou a família sobre o estado dele e sobre a possível evolução da doença.200
O dever de informação é reflexo do princípio da transparência, previsto no caput do artigo 4º do Código de Defesa do Consumidor. Está legalmente previsto no Código de Defesa do Consumidor, em seu artigo 6º, III, como direito básico do consumidor, a informação adequada e clara sobre os serviços prestados, bem como sobre os riscos que apresentem. A soma dos dois significa que o consumidor (paciente) tem o direito de ser informado sobre o as características do serviço médico oferecido, ou seja, de todo o conteúdo do contrato, sempre de forma ampla.
O novo Código Civil reforça o dever de informação do médico, quando trata dos direitos da personalidade, ao dispor que ninguém pode ser constrangido a se submeter, com risco de vida, a tratamento médico ou a intervenção cirúrgica (art. 15).
Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery comentam sobre esse dispositivo que “a escolha de tratamento médico ou cirúrgico que imponha risco de vida ao paciente deve ser a ele comunicada pelo médico responsável, com minuciosa descrição das conseqüências danosas, especialmente aquelas que possam impor ao paciente risco de vida”.201
Renan Lotufo é incisivo ao afirmar que “mesmo que haja pleno convencimento dos médicos de que o tratamento ou cirurgia serão em benefício do paciente, há a obrigação de esclarecer o paciente sobre a envergadura, o alcance e as possíveis conseqüências de tal ato”.202
Por seu turno, o artigo 59 do Código de Ética Médica determina que o médico informe ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e objetivos do tratamento, salvo quando a comunicação direta ao mesmo possa provocar-lhe dano, devendo, nesse caso, a comunicação ser feita ao responsável legal. René Savatier alerta que:
“Este dever de advertir o paciente dos riscos da operação ou do tratamento recomendado apresenta, para o médico, duas dificuldades principais. A primeira devido à ignorância técnica do paciente, a segunda devido ao seu estado emocional. Tendo em conta o primeiro, a jurisprudência reconhece inútil fornecer ao paciente detalhes técnicos. A segunda implica as precauções tornadas necessárias pelo estado psicológico do cliente. E o médico não tem que explicar aquilo que o paciente parece-lhe já saber. Mas não é necessário exagerar nestas reservas. O médico nunca deve tratar paciente senão como um ser humano com um princípio de razão e de liberdade. Abster-se de detalhes técnicos não impede que mostre, sumariamente, os riscos do tratamento aconselhado; a necessidade de salvaguardar o moral não deve ser superestimada em relação ao seu direito de saber onde o conduzem. Em todo o caso, se considerações de ordem psicológica impedem o médico de instruir o paciente completamente, o médico deve a verdade completa às pessoas que possuem, por direito ou fato, autoridade sobre o paciente.”203
201 NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade, Código Civil anotado e legislação
extravagante, cit., p. 160.
202 LOTUFO, Renan, Código Civil comentado: parte geral (arts. 1º a 232), cit., v. 1, p. 63.
203 No original: “Ce devoir d’avertir le malade des risques de l’opération ou du traitement conseillés soulève,
pour le médecin, deux difficultés principales. La première tient à l’ignorance technique du malade, la seconde à son état moral. Tenant compte de la première, la jurisprudence reconnaînt unutile de fournir au malade des details techniques. La seconde implique les precautions rendues nécessaires par l’état psychique du client. Et le médecin n’a pas à expliquer ce que le malade lui paraît déjá savoir. Mais il ne faut pas exagérer ces reserves. La médicin ne doit jamais cesser de voir dans le malade un être humain, chez qui existe um principe de raison et de liberté. L’absence de détails techniques n’empêche pas de lui indiquer, em gros, les risques du traitement conseillé; la necessité de sauvegarder son moral ne doit pas
O Superior Tribunal de Justiça manteve a decisão de primeiro grau que condenou solidariamente dois médicos pela ausência de informação à paciente sobre os riscos da cirurgia a que foi submetida nos olhos. Segundo o relator, “a despreocupação do facultativo em obter do paciente seu consentimento informado pode significar − nos casos mais graves − negligência no exercício profissional. As exigências do princípio do consentimento informado devem ser atendidas com maior zelo, na medida que aumenta o risco ou o dano”.204