Apesar de serem em pequena escala, alguns médicos optam por trabalhar como empregados de pessoas físicas ou jurídicas de direito privado, estando sujeitos ao regime da CLT.
No que concerne a normas específicas, os médicos possuem regulamentação própria, prevista na Lei n. 3.999/61. Dentre outras disposições, essa lei determina que o salário mínimo dos médicos, seja qual for a especialidade, deve ser pago no valor correspondente a três vezes o salário-mínimo comum das regiões ou sub-regiões em que exercerem a profissão56. Esse salário mínimo é aplicado aos médicos que, não sujeitos ao horário de 2 a 4 horas diárias, prestam assistência domiciliar por conta de pessoas físicas ou jurídicas de direito privado, como empregados delas, mediante remuneração por prazo determinado.57
Para aqueles que mantêm contrato por prazo indeterminado, a duração normal do trabalho, salvo acordo escrito, será de no mínimo 2 horas e no máximo de 4 horas diárias (art. 8º). Para cada 90 minutos de trabalho, gozará o médico de um repouso de 10 minutos (§ 1º do art. 8º). Aos médicos que contratarem com mais de um empregador, é vedado o trabalho além de 6 horas diárias (§ 2º, art. 8º). Mediante acordo escrito, ou por motivo de força maior, poderá ser o horário normal acrescido de horas suplementares, em número não excedente de 2 (§ 3º, art. 8º). A remuneração da hora suplementar não será nunca inferior a 25% (vinte e cinco por cento) à da hora normal (§ 4º, art. 8º). O trabalho noturno terá remuneração superior à do diurno e, para esse efeito, sua remuneração terá um acréscimo de 20% (vinte por cento), pelo menos, sobre a hora diurna. (art. 9º).
55 ANTUNES, Camila, Vida de residente, cit., p. 32. 56 Artigo 5º da Lei n. 3.999/61.
A interpretação do Tribunal Superior do Trabalho tem sido no sentido de que a Lei n. 3.999/61 não impõe a jornada de 4 horas aos médicos, e sim estabelece o salário mínimo da categoria para uma jornada de 4 horas. (Súmula n. 370 do TST).
Seguindo essa orientação, o Tribunal Regional de Trabalho da 2ª Região (São Paulo), em acórdão proferido em recurso ex officio e ordinário, negou provimento ao pedido de horas extras realizadas após as 4 horas, por entender que o artigo 8º da Lei n. 3.999/61 disciplina o salário mínimo dos médicos e auxiliares para a jornada de, no mínimo, 2 horas e, no máximo, 4 horas, o que não induz ao entendimento de que deva ser considerado extraordinário o horário realizado após a 4ª hora. Ou seja, dispõe sobre o salário mínimo horário, e não a limitação da jornada desses profissionais.58
A contratação de médico empregado59 é uma raridade, não só atualmente, já que o trabalho de forma autônoma proporciona remuneração muito maior.
58 TRT-2ª Região − 7ª Turma, Rel. Gualdo Fórmica, acórdão n. 02970250645, Proc. n. 02960106398, j.
02.06.1997, DO, de 19.06.1997.
59 Vale lembrar que empregado, segundo define o artigo 3º da CLT, é “toda pessoa física que prestar serviços
de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário”. Por “dependência” entenda-se subordinação, que é o principal elemento diferenciador entre relação de emprego e a autônoma. A 3ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais, no julgamento do Recurso Ordinário n. 00451-2006-059-03-00-8 (DJMG, de 18.11.2006, rel. Bolívar Viégas Peixoto), deu provimento ao recurso ordinário interposto pelo Hospital Imaculada Conceição, no processo movido pelo médico Edilscon Gonçalves de Barros, cuja ementa é: “Médico. Relação de emprego. Inexistência. A despeito da participação integrativa e de certa colaboração do autor, chega-se à conclusão de que o trabalho do reclamante não era subordinado, pois desenvolvido com flexibilidade, sem limitação ao exercício da atividade dentro de sua especialização. Não resta dúvida que os médicos, profissionais liberais que são, podem prestar serviços de forma autônoma, mediante contrato de natureza civil, ou de forma subordinada, na condição de empregados. A circunstância de o recorrente ter que observar os regulamentos do hospital não induz subordinação, sendo mera decorrência de disciplina que se faz necessária a qualquer atividade, possibilitando a utilização permanente das dependências e infra-estrutura para atendimento de seus clientes particulares e conveniados. De igual modo, embora integrante do corpo clínico do hospital, o autor atuava como médico autônomo, não restando evidenciado o vínculo empregatício, subordinação hierárquica, exclusividade ou cumprimento de horário determinando, recebendo por consultas e procedimentos cirúrgicos realizados, sendo o hospital o local onde o profissional da medicina pode desenvolver plena, satisfatoriamente e de forma autônoma sua profissão, dentro de todo um aparato estrutural inexistente em um consultório”. No mesmo sentido: “Relação de emprego. Médicos credenciados ao hospital. Ausência de subordinação jurídica. Restando incontroverso que os reclamantes integraram por longos anos o corpo clínico do hospital reclamado, atendendo clientes conveniados e particulares, sem qualquer traço de efetiva subordinação jurídica e mediante o pagamento de honorários médicos atinentes à especificidade de cada serviço prestado, inviável pretender-se declarada a relação de emprego, pois, na condição de integrantes do corpo clínico do hospital reclamado, os reclamantes atuavam como médicos autônomos, sem vínculo empregatício, subordinação hierárquica, exclusividade ou cumprimento de horário, sendo o hospital o local onde o profissional da medicina pode desenvolver plena e satisfatoriamente e de forma autônoma sua profissão, dentro de todo um aparato estrutural inexistente em um consultório médico.” (TRT-MG − Processo n. 00604-2004-023-03-00-5 - RO, 6ª Turma, rel. conv. Maria Cristina Diniz Caixeta, DJMG, de 18.11.2004). “Contrato empresarial para prestação de serviços médicos. Relação de emprego inexistente. O
Em busca de redução da carga fiscal, remuneração digna e insubordinação, é comum os médicos constituírem pessoa jurídica e tornarem-se verdadeiros prestadores de serviços. Não encontramos dados estatísticos a respeito da remuneração desses profissionais, já que eles podem negociar da forma que melhor lhes convier.
No Estado de São Paulo, segundo pesquisa do Cremesp, o médico trabalha, em média, em três diferente empregos, “o ganho mensal no exercício profissional – somando os vários locais de trabalho, fica entre R$ 3 mil e R$ 6 mil para 26% dos médicos; 19% ganham entre R$ 6 mil e R$ 9 mil. Os jovens e as mulheres médicas têm menor salário. Um terço dos médicos mais jovens recebem até R$ 3 mil. A maioria das mulheres está nas faixas salariais que vão até R$ 6 mil (48% contra 25% dos homens)”60. A pesquisa revela ainda que o valor médio declarado por consulta particular é de R$ 145,00, e valor médio pago pelos planos de saúde é de R$ 30,00.
Importante citar que vinte e três médicos renomados de diversas especialidades e que atuam em São Paulo foram entrevistados e a maioria revelou que no consultório recebem em média R$ 480,00 por consulta (a mais barata é R$ 300 e a mais cara R$ 1.000)61. Alguns chegam a atender 30 pacientes por dia, a R$ 400,00 por consulta62. Desses médicos, 100% são homens, 70% têm especialização no exterior, 52% exercem
sócio de empresa prestadora de serviço não pode se considerar empregado do cliente apenas porque lhe presta serviços pessoais. A lei não proíbe que as pessoas jurídicas prestem serviço diretamente através dos seus próprios sócios. O contrato neste caso é intuitu personae em relação à empresa e não em relação ao sócio.” (TRT-2ª Região − Processo n. 20010476312 - RO, ano 2001, Ac. n. 20020431257, 9ª Turma, rel. Luiz Edgar Ferraz de Oliveira, DO, de 12.07.2002). Em sentido contrário: “Médico. Relação de emprego. Não é trabalhador autônomo o médico que cumpre horário em casa de saúde, submetido a regime de plantonista atividade subordinada mediante pagamento mensal, o que evidência a presença dos pressupostos do artigo 3 da CLT.” (TRTRJ − Processo n. 03692-82 - RO, 2ª Turma, j. 17.05.1983, rel. Juiz Juracy Martins dos Santos, DORJ, III, de 08.06.1983,). “Relação de emprego. Médico prestador de serviços. A constituição de empresa de serviços médicos após o início da prestação de serviços evidencia o intuito de mascarar a relação de emprego existente entre as partes, corroborada pela existência de pessoalidade e subordinação jurídica.” (TRT-2ª Região − Processo n. 01903-2002-433-02-00-0- RO, ano 2003, Ac. n. 20040515022, 6ª Turma, rel. Rafael E. Pugliese Ribeiro, DO, de 22.10.2004,).
60 PESQUISA do Cremesp revela que médicos acumulam empregos e têm carga horária excessiva.
31.10.2007. Disponível em: <http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=SalaImprensa&id=189>. Acesso em 12 nov. 2007.
61 ZAPPAROLI, Alescsandra. Os médicos que os médicos indicam, Veja São Paulo, ano 40, n. 41, p. 32, de
17 out. 2007.
carreira acadêmica e 61% afirmam que ganham acima de R$ 50 mil por mês63. Esses médicos constituem verdadeira exceção!
O que se vê, na prática, são contratos feitos por equipes, tais como ortopedistas e cardiologistas, os médicos se revezando na prestação de serviços, sem estarem submetidos à subordinação e exclusividade, mas apenas à observância do regulamento do nosocômio.
Já a situação dos médicos que atendem pelo Sistema Único de Saúde beira ao caos. Levantamento feito pelo Conselho Federal de Medicina demonstra salários baixos, plantões de 14 horas e 3 empregos para ganhar no fim do mês menos de R$ 2.000,00.64
Estudo intitulado O médico e seu trabalho, feito em 2004, com 14 mil médicos de todos os Estados, prova uma triste realidade na saúde pública do país: apenas 17% dos profissionais têm um único emprego. Segundo o presidente da Federação Nacional dos Médicos Eduardo Santana, “isso mostra que o salário pago ao profissional da saúde não dá para mantê-lo”.65
Ainda de acordo com esse estudo, no Piauí, Acre, Sergipe, Goiás e em outros seis Estados, o piso médio do profissional que atende pelo SUS está abaixo de R$ 1.500,00. Sergipe é o Estado que paga o salário mais baixo à categoria (salário médio de R$ 750,00); no Distrito Federal, que paga um dos maiores salários do país, o salário médio do médico é R$ 2.800,00.
O baixo salário e a falta de tempo refletem diretamente na qualidade dos serviços prestados. Para Cláudio Marinho Molle, da Associação Médica Brasileira (AMB), o maior problema dos médicos que trabalham muito e ganham pouco é a falta de tempo e dinheiro para se atualizar na especialidade. “A medicina evolui diariamente e os profissionais precisam estudar para não ficarem desatualizados. Um médico que recebe R$ 2 mil por
63 ZAPPAROLI, Alescsandra, Os médicos que os médicos indicam, cit., p. 32.
64 MÉDICOS do Brasil pedem socorro, diz pesquisa do CFM. Correio Braziliense, de 27 ago. 2007, Seção:
Geral. Disponível em: <http://www.jovensmedicos.org.br/, link notícias>. Acesso em: 23 set. 2007.
mês e não tem tempo para estudar terá dificuldades para se tornar um bom profissional”, ressalta Molle.66
Segundo estatísticas67, cerca de 60% dos médicos brasileiros atendem planos de saúde, “que lhes pagam entre R$ 29,00 e R$ 42,00 por consulta realizada, e 70% trabalham pelo menos parte do tempo em hospitais da rede pública. Um cirurgião que em seu consultório particular cobra R$ 5.000,00 por uma cirurgia receberá apenas R$ 400,00 se o mesmo procedimento for feito através de um plano de saúde, e R$ 115,00 se for feito no hospital público do SUS”.
As razões acima, que demonstram uma frustração profissional da classe médica, faz com que 70% deles migrem de outras especialidades para dedicar-se à medicina estética, porque nas clínicas estéticas podem ganhar dez vezes mais do que nas especialidades antes escolhidas. Calcula-se que 3.000 médicos atuem em tratamentos estéticos, o dobro de cinco anos atrás. Como a medicina estética não é reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina, oficialmente esses médicos mantêm sua especialidade original e fazem um curso na área estética oferecido por algumas escolas de medicina, com duração média de 2 anos68.
Como se sabe, a boa remuneração funciona como estímulo para qualquer profissional. No caso dos médicos, a necessidade é ainda maior, pois precisam de atualização profissional constante. Sem tempo e ganhando pouco, essa atualização fica muito difícil e o erro, infelizmente, aproveita-se dessa carência para chegar cada vez mais próximo.
66 MÉDICOS do Brasil pedem socorro, diz pesquisa do CFM. Correio Braziliense, de 27 ago. 2007, Seção:
Geral. Disponível em: <http://www.jovensmedicos.org.br/, link notícias>. Acesso em: 23 set. 2007.
67 ZAKABI, Rosana. Vaidade dá mais dinheiro.Veja, edição n. 2.025, ano 40, n. 36, p. 120 de 12 set. 2007. 68 Ibidem, mesma página.