3. MATERYAL VE YÖNTEM
3.3. Karbon Ayak İzinin Hesaplanması
Como ficou indicado nos procedimentos metodológicos, fazem parte do nosso corpus alguns depoimentos de docentes em resposta à questão "Qual a sua visão de mundo?". Embora não tivéssemos a intenção de influenciar nossos colaboradores, alguns desses testemunhos falam diretamente sobre a questão do medo na escola.
Procederemos à análise desses depoimentos, seguindo os mesmos parâmetros utilizados nos documentos anteriores, isto é, apresentaremos os depoimentos e, em seguida, faremos os comentários.
Depoimento 1
Minha visão de mundo inclui a escola e como e como vejo o medo nela. O medo nas escolas se divide em várias etapas: uma delas é o aluno em relação ao professor, pois o aluno ainda tem a visão do professor como um ser superior, que está acima do bem e do mal e apesar diversas mudanças ocorridas no decorrer dos últimos anos, há uma certa reserva de existir o diálogo e o entendimento entre ambos, principalmente em disciplinas consideradas como as mais importantes pelos alunos (Port., Mat.). Outra, o medo do professor em relação ao aluno, e ele se vê pressionado por mudanças tecnológicas, pedagógicas e não há capacitações para se acompanhar essas mudanças. Também existe o medo da comunidade, pois todos têm conhecimento que ela precisa participar de tudo o que acontece na escola, mas falta o direcionamento para que esta parceria (escola/comunidade) obtenha resultados positivos para ambas. A falta de segurança, a desestrutura familiar, as drogas que estão muito presentes na vida da maioria dos jovens, o desemprego, enfim, todas estas coisas reforçam minha visão de mundo e o medo na educação.
Como integram o universo retórico a controvérsia e a opinião, no depoimento acima a situação retórica está posta na exposição que faz o
retor sobre a categoria passional do medo na escola, caracterizada,
previamente, pela primeira frase do texto, a partir da qual se instaura a instância retórica: "minha visão de mundo inclui a escola e como vejo o medo nela". Temos, então, como tema a ser discutido pelo retor o medo e, conseqüentemente, como problema retórico, a extensão dessa paixão nas relações escolares, assim evidenciadas: medo do aluno em relação ao professor; medo do professor em relação ao aluno; medo da comunidade — e para os quais o retor não apresenta nenhuma solução, pois apenas descreve as situações em que esses medos aparecem.
Situamos como elementos que precondicionaram a instância retórica a perda do prestígio, da autoridade, da importância social e até da auto- estima do professor. Com esses pressupostos, a tese se faz notar em termos particulares e concretos, visto que o retor fala do medo nas relações escolares, acentuando, especificamente, a relação professor/aluno. Além disso, dirige-se a um auditório particular (pedagogos, outros professores, direção, coordenação), o que nos permite identificar como limitações impostas ao que se pretende dizer a ausência de diálogo entre professor e aluno, a pressão das mudanças tecnológicas, a ausência de capacitação para acompanhar tais mudanças. Devido a tais circunstâncias, o objetivo concreto que desencadeia a situação retórica é a realidade das condições de trabalho do professor. Embora o retor não mostre uma saída, deixa implícito o que pretende modificar: sua condição de professor. Como o discurso apresenta um tom denunciativo, em que aparece a censura à realidade da escola, o gênero do discurso predominante é o epidítico, justificado pela predominância das formas verbais no presente: "inclui", "vejo", "divide", "está", "há", "vê", "existe", "precisa", "falta", "reforçam". Sobre os valores de referência nos quais se inserem os gêneros do discurso, na perspectiva retórica, o epidítico considera o que é nobre ou vil. No texto em questão, o retor louva, denunciando pela censura o que considera vil em sua realidade de profissional da educação.
Supondo o ato retórico como ação intencional, é possível determinar, nesse depoimento, algumas partes da dispositio: exórdio, proposição e provas. O primeiro mostra-se no texto em "Minha visão de mundo inclui a escola e como vejo o medo nela". Se "a proposição assinala em relação ao tema, à questão, o partido que o orador vai tomar" (Tringali, 1988:83), nesse texto o retor assume a posição de defesa do professor, pois "ele se vê pressionado", "reserva em existir diálogo entre professsor/aluno", "falta de capacitação para o professor". Ressaltemos ainda, como o que caracteriza a partição, o fato de a categoria passional do medo, na escola, estar dividida nos pares aluno/professor, professor/aluno e escola/comunidade (em que "comunidade" designa o conjunto dos moradores do bairro ou região em que a escola se insere), num movimento de dentro para fora, em que o par
aluno/professor representa a sala de aula; o par professor/aluno, a escola; e o par escola/comunidade, a realidade para além dos portões da escola.
O retor descreve sua visão de mundo e apresenta como argumentos para defender seu ponto de vista o medo que sente do aluno, a pressão que sofre pelas mudanças na educação, a falta de direcionamento para efetiva parceria entre escola e comunidade. Além disso, deixa transparecer, em seu discurso, indícios de um ethos que apela para as paixões do auditório, exatamente ao revelar quanto o incomoda sua realidade como profissional da educação. Mas, se por um lado, não sugere nenhuma solução, por outro, não deixa de se sentir com medo de enfrentar a realidade em que atua.
Depoimento 2
A minha "visão de mundo"
Eu nem sei por onde começar o meu relato sobre como vejo o mundo em que vivo. Tenho a minha visão de cidadão e a minha visão como professor da rede Estadual de Ensino, no qual sou professor de história. Falar sobre o que vejo, sobre o que sinto neste mundo não é tão difícil, porém, não há nada de positivo! Como professor, há 8 anos, vejo em sala de aula o reflexo do que acontece do lado de fora da escola. Alunos pobres, violentos, que não respeitam e nem sempre querem aprender. Não os culpo, mas vejo ali, o futuro de nosso país, e isso não é muito bonito. Eu sinto medo, como cidadão, até de sair de durante o dia. Isso tudo por causa da violência que nos rodeia, do preconceito do qual sou vítima por ser homossexual, dentre outras coisas. Da violência, não sei o que esperar. Vejo em sala de aula que a violência só tende a aumentar e isso me afeta, afinal, eu estarei andando pelas ruas e poderei ser vítima à qualquer momento, de pessoas que não enxergam seu futuro; e nem poderiam. Já fui assaltado várias vezes, sinto um verdadeiro pânico só de ouvir um barulho mais forte, pensando que pode ser um tiro. Digo isso porque já estive perto de armas atirando e não é nada agradável se ver perto da morte nestas situações. Por ser homossexual fico mais apreensivo. Vejo as pessoas e seus preconceitos atacando e matando pessoas simplesmente por serem diferentes. Ao lidar com o jovem em sala de aula, vejo estampado em suas personalidades o preconceito, a vontade de agredir com palavras ou ações, alguém só por
ser diferente. É muito estranho ter a visão de um professor, porque ele vê em sala de aula, exatamente o que vai encontrar nas ruas, as situações que enfrentará com aqueles jovens que sairão da sala de aula para fazer “não se sabe o que” lá fora! O mundo prega cada vez mais o individualismo, o “ter”, e com isso, as pessoas ficam cada vez mais necessitadas, mais pobres, sem expectativas. Para algumas, a violência é a única saída, afinal, eles precisam sobreviver. Para quem fica do outro lado, na maioria das vezes como vítimas, resta rezar para que nada aconteça em cada novo dia que surge.Infelizmente, eu não posso relatar nada de positivo, porque não consigo ver muitas saídas e tenho medo de ser mais uma vítima, todos os dias. Me sinto acuado ao saber que posso sofrer alguma agressão, sinto medo... Ultimamente, só saio de casa para trabalhar e fazer o essencial, nada mais do que isso! Sou pobre, homossexual, já sofri muito com a vida e temo por ter que saber que ainda vou enfrentar mais situações constrangedoras. A educação está falida, as pessoas sem esperanças e eu vejo, sinto, que nada vai mudar durante um bom tempo, porque não há interesse de que mude. Mais pobreza virá, mais preconceitos se firmarão. O que vai ser de mim? Não gosto nem de pensar... Vou vivendo porque tenho que viver e nada mais.
Nesse texto, o retor enuncia sua visão sobre dois mundos: um que representa a escola (alunos) e outro, o mundo fora da escola. O primeiro aparece caracterizado como "reflexo do que acontece fora da escola", assim descrito: "alunos pobres", "violentos", "que não respeitam e nem sempre querem aprender", "futuro do país", "preconceituosos e que agridem com palavras e ações o diferente". Já o mundo (as pessoas) fora da escola é "violento", "preconceituoso", "individualista", "necessitado", "pobre", "sem expectativa", etc. Como se pode notar, há muita semelhança entre os dois mundos, mas o da escola é reflexo do que está fora. Segundo o Dicionário
Aurélio da língua portuguesa, reflexo é "o que não atua diretamente;
indireto". Assim, esses dois mundos, embora tão parecidos, estão, de certa forma, distantes um do outro, ou seja, o que acontece fora da escola não deveria faz parte da realidade que a escola vive. São realidades diferentes. Em conseqüência desse distanciamento, a relação entre aluno e professor fica marcada por sentimentos como medo, angústia, raiva e opressão,
revelados nas mais variadas formas de violência: agressão verbal ou física, preconceito, não aceitação da diferença, falta de respeito, falta de vontade de aprender, etc.
Destaque-se ainda, nesse depoimento, a argumentação pelo lugar da quantidade, caracterizada pela hipérbole do "eu" (são ao todo, se bem contamos, 30 referências à primeira pessoa), que se mostra apreensivo, afetado, sofrido, acuado, vítima, com medo de sofrer e já imerso no sofrimento, que vive por viver e que aponta como causa desse sofrimento o medo de não ser aceito como homossexual e como pobre, o que se pode notar em "sou vítima", "isso me afeta", "poderei ser vítima", "não consigo ver saídas", "sou pobre", "me sinto acuado", "não gosto de pensar", "já sofri muito", "o que vai ser de mim?". Tais expressões reforçam, além da argumentação pelo ethos (sofrido, vítima, sem esperança), o apelo ao
pathos do auditório, a quem o retor quer manipular com sua imagem de
"coitado", que culmina na expressão "Vou vivendo porque tenho que viver e nada mais".
Como obstáculo a ser ultrapassado, o discurso apresenta situações concretas para ele (retor), tanto da sala de aula, como fora da escola.É, pois, a partir desse obstáculo que se revela a instância retórica composta pelo tema "violência na escola", desdobrada em "preconceito", "falta de interesse do aluno em aprender", "desrespeito do aluno ao professor" — como reflexo do que acontece fora da escola — cuja finalidade no discurso é reforçar a fragilidade do retor diante dos conflitos que enfrenta dentro e fora da escola: "Eu nem sei por onde começar o meu relato sobre como vejo o mundo em que vivo. Tenho a minha visão de cidadão e a minha visão como professor da rede Estadual de Ensino..." Temos então, como controvérsia, o medo da realidade da escola e da realidade fora da escola, para o qual o retor não apresenta solução, pois apenas expõe o que sente diante de tal situação. Entretanto, ao fazer seu depoimento a partir da observação dessas realidades, caracterizadas no texto por meio de atributos como "preconceituosa", "desrespeitadora", "violenta", "pobre", "sem futuro", "com uma educação falida", o retor deixa implícito que é isto o que pretende
modificar, pela mediação do discurso. Cabem, então, como elementos que precondicionam a instância, as expressões "já fui assaltado", "já estive perto de armas", "poderei ser vítima a qualquer momento" e "sinto medo como cidadão até de sair durante o dia".
Como o retor apresenta em seu discurso realidades específicas — o mundo da escola e o mundo fora da escola —, a questão coloca-se de forma particular e concreta, diante de um auditório também particular — a sociedade em geral —, pois o orador retrata o medo da violência na escola como reflexo do que acontece para além dos seus portões. Evidencia-se, portanto, como elemento concreto que desencadeia a situação retórica, "uma sociedade individualista", "preconceituosa", "sem perspectiva", "violenta", "com uma educação falida", que traz como conseqüência "alunos pobres", "violentos", "preconceituosos", "desrespeitadores" e que "não querem aprender". Tendo como referência a estrutura do discurso, apontemos ainda alguns componentes da dispositio: o exórdio "Eu nem sei por onde começar meu relato sobre como vejo o mundo em que vivo", mediante o qual se busca contato com o auditório; como partição o fato de o
retor pontuar as ações que, na sua opinião, caracterizam a realidade da
escola como reflexo do que vem de fora, ou seja, "desrespeito", "preconceito", "agressão", "individualismo" e "falta de interesse", que também lhe servem de argumento em defesa do seu ponto de vista, além de fazer menção a outras ações como, por exemplo, "já fui assaltado" e "sinto medo de sair até de dia".
Ao observar que, nesse discurso, o retor expõe sua visão de mundo e, de certa forma, censura as ações que considera como manifestação de violência e, que, por sua vez, lhe causam medo, classificamos esse discurso no gênero laudatório. Observe-se que, nesse sentido, o retor, além de censurar, considera vil a maneira como a realidade externa à escola interfere na realidade da escola e atua negativamente sobre ele. Cabe assinalar, que predominam, no texto, as formas verbais do presente.