3. MATERYAL VE YÖNTEM
3.1. İncelenen İşletmenin Tanıtımı
Relembrando o que já ficou dito, a idéia central deste trabalho é a retórica do medo. Aqui não se pretende, nessas condições, mostrar ou apresentar pontos de vistas sobre outras categorias passionais que não a do medo. Todavia, no decorrer da análise do corpus que compõe esta pesquisa, tocaremos no teclado das paixões aristotélicas e, inevitavelmente, surgirão outras paixões, até mesmo com finalidade subsidiária ao medo.
Aristóteles, ao abordar o medo, o faz a partir de duas questões: o que ou a quem se teme? E em que estado de ânimo estaria quem tem o temor? Em reposta à primeira questão, seriam temidos aqueles que podem provocar em outros grandes desgostos ou danos e aquelas coisas que parecem possuir grande capacidade de arruinar ou de causar danos ou grandes desgostos. Teme-se, também, o que seria capaz de ameaçar a segurança
estabelecida, porque desestabiliza o que já foi determinado, instituído. Depreende-se, a partir dessas considerações, que, como em outras categorias passionais, o temor surge da relação com "um outro", seja pessoa, seja coisa. Além disso, teme-se o desconhecido, o que não está presente, mas próximo, eminente (cf. Aristóteles, 2003).
Assim, o que pode justificar o não-medo da morte seria o fato de com esta se conviver desde sempre — além do que, para cada um, a morte se faz muito distante, se considerada no sentido literal, e, por isso, não constitui fator de ameaça a nossa estabilidade e nossa segurança.
De acordo com as idéias de Aristóteles sobre o tema em questão, o estado de ânimo de quem tem medo altera-se, na medida que em se aproximam quem teme e o que lhes causa esse temor. Essa alteração despertaria em quem teme duas outras paixões, o ódio e a cólera, advindos justamente dessa proximidade. Aristóteles enfatiza que a virtude ultrajada pela injustiça pode despertar no sujeito injustiçado o desejo de vingança. Assim, quem cometeu injustiça deve temer não os que usam de franqueza ou aos arrebatados pela emoção declarada, mas os calmos, os dissimulados e os astutos, exatamente por se desconhecer seu grau de agressividade e nem prever quando esta agressividade pode vir à tona. Dessa forma, a dependência de outrem, que está em condição de superioridade, de segurança, também pode causar em quem teme o medo do abandono e até o medo de ser denunciado.
Complementando a resposta às duas questões, acrescenta o filósofo que tem medo quem pressente o mal. Ademais, não seriam temerosos os que estão ou parecem estar em prosperidade, que, na opinião de Aristóteles, são os insolentes, os desdenhosos e os temerários — criados pela riqueza, pela força e pelo poder — e os que sofreram muitos medos e, por isso, são indiferentes quanto ao futuro.
O medo em oposição à confiança justifica-se pelo afastamento do objeto do medo e pela proximidade dos meios que podem nos conduzir à ausência deste. Seria isso o que gera a confiança, sentimento presente nos inexperientes, nos que têm proteção, seja porque nunca enfrentaram
situação de perigo provocada pelo medo, seja porque, se a enfrentaram, o medo não deixou seqüelas. Não obstante, a confiança pode inspirar a cólera no que sofreu uma injustiça, o que pode acontecer, talvez, pela fraqueza do injustiçado em admitir seu desejo de vingança ou por não ter como realizá- la. Nesse caso, sem poder exteriorizar a vingança, resta como consolo a cólera ou a atitude de "deixar nas mãos de Deus", único socorro para quem não pode realizar a vingança.
Apesar da distância cronológica e do contexto sócio-histórico, político e cultural em que se inserem as idéias aristotélicas, não seria essa a saída da grande massa popular em nossos dias? Quantas vezes se ouviu e ainda se ouve, ante um problema cuja solução parece inviável, frases do tipo "Não liga, não! Entrega nas mãos de Deus, Ele sabe o que faz!" Isso nos faz pensar numa questão para a qual a resposta não seria nada simples: expressões como essas palavras deveriam ser entendidas como manifestação de medo ou de covardia?
Entretanto, quem teme traz consigo a esperança de se livrar do medo e alcançar seu objetivo. Isso habilitaria quem teme à deliberação que pode gerar uma ação que conduz à mudança.
Considerando que a deliberação pode gerar uma ação para a mudança, pensamos sobre a questão dos discursos constituídos e constituintes nos mais diversos segmentos sociais. Vamos nos referir, especificamente, à instituição escola e às suas várias maneiras de coibir — livros de ocorrências, atas de reuniões de pais e de Conselho de Escola, documentos enviados ao Conselho Tutelar, regimentos escolares, etc. Todos ilustrariam o discurso constituído, já que representam a voz da maioria socialmente aceita como condutora das regras da boa conduta. Quanto aos possíveis discursos, senão constituintes, pelo menos a ser constituídos para que se possa vislumbrar, mesmo que a longo prazo, uma outra realidade que não a da opressão, do medo e do silêncio que não permite nenhuma reflexão que leve a mudanças significativas na escola, quem sabe possamos encontrá-los no material que compõe o corpus desta pesquisa. Assim, se por um lado, deliberar leva a uma ação movida pela
esperança que parece sufocada pelo discurso autorizado das instituições, por outro, ver-se-á que a esperança de que nos fala Aristóteles, ao tratar da questão passional do medo, está latente naqueles compõem a instituição pública de ensino.
Lembremos, ainda, que o ano letivo na escola pública consta de 200 dias; que, durante todo esse tempo, bem ou mal, uma infinidade de discursos, nos mais variados gêneros, são produzidos na escola; e que, nesta ou em qualquer outra circunstância, os discursos não são destituídos de intencionalidade. Eis aqui a razão por que se acredita na escola e, em especial, na função do professor como agente que, de posse da linguagem, pode conduzir-nos à tão esperada mudança. Entretanto, uma saída possível pode ser a de continuar aceitando o discurso com passividade, como se nas suas entrelinhas, não se escondessem sentidos que podem até nos conduzir a pensar que,
quando é melhor que os ouvintes sintam medo, é preciso pô-los nessa disposição de espírito, dizendo-lhes que podem sofrer algum mal, pois outros mais fortes que eles sofreram; e mostrar-lhes que pessoas como eles sofrem ou sofreram, por parte de quem não imaginavam essas provocações e em circunstâncias que não esperavam (Aristóteles, 2003:34).
Assim como só se argumenta com a participação do outro, também as paixões devem ser pensadas na relação com outro. Na abertura de Retórica
das paixões, Meyer (2003) comenta o temor e a confiança a partir das
dicotomias amor versus ódio, calma versus cólera. Na concepção do autor, o amor seria, na relação com o outro, um elemento associativo, que permite a conjunção e cria vínculo de identidade nessas relações por ser recíproco. Já o ódio, oposto ao amor, cria a dissociação, a disjunção; não cria, portanto, vínculo de identidade, mas também seria recíproco. Ainda segundo Meyer (2003), a assimetria posta nas diferenças entre as pessoas funciona como base para paixões como a calma e a cólera, pois são essas paixões que oscilam entre o amor e o ódio, quando se trata dos conflitos nas relações. Assim, a calma e a cólera ora anulam, ora respeitam, ora enfrentam as
diferenças. Eis aí a razão por que a distância entre as pessoas é insignificante. O que, por sua vez, não ocorre na dicotomia temor versus confiança, já que tanto um sentimento quanto o outro pressupõem, na concepção de Meyer (2003), diferença maior, logo significativa, entre as pessoas. Afinal, temem-se os fortes e não os fracos. Isso, sem dúvida, acentua e muito a assimetria presente em todas as relações e mais ainda a que existe entre fortes e fracos. A seguir, contaremos, brevemente, a história dos nossos medos.
Capítulo III