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Karşılıklı Diğer İddiaların Değerlendirilmes

ANADOLU’YA MESAFE (DÖNMEZ BR.)

3. Karşılıklı Diğer İddiaların Değerlendirilmes

A colaboração de Sávio Araújo com o Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare se deu de forma mais aprofundada durante o período do processo de criação de Megera doNada (1998), terceiro espetáculo do coletivo e o primeiro com assinatura de um encenador externo ao Grupo, convidado a ocupar tal função. Essa colaboração se caracteriza também como a primeira relação de troca mais aprofundada do coletivo potiguar com colaboradores, tendo em vista que anteriormente, os Clowns de Shakespeare só haviam tido contato com outros artistas através de três oficinas pontuais de curta duração, realizadas durante o processo de Noite de reis (1995).

Segundo [Fernando], após a experiência malograda de Noite de reis (1995), o Grupo – que até então havia em seu currículo duas montagens baseadas em obras shakespearianas – optaria por um novo processo, tendo como estímulo inicial textos variados de outros autores. Porém, após conversa com Araújo sobre os rumos do Grupo, seus integrantes decidiram permanecer investigando a obra do bardo, e propuseram que Araújo dirigisse seu próximo processo, oferecendo uma oportunidade para os integrantes do Grupo aprimorarem seus conhecimentos acerca dos elementos teatrais. Há, assim, na aproximação de Araújo com o Grupo, o desejo de passar por um processo de formação na linguagem teatral pelo qual nenhum dos integrantes do Grupo até aquele momento havia passado.

Curiosamente, a partir da experiência com Araújo, as principais investidas na obra shakespeariana realizadas pelo Grupo vinculam-se à condução de diretores

externos ao coletivo, em processos que, de distintas maneiras, sempre retomam em certo grau essa perspectiva formativa para seus integrantes – perspectiva que é dada a partir do olhar do Grupo sobre esse processo e independe, de certo modo, dos procedimentos desses diretores serem permeados por uma prática e um pensamento especificamente pedagógicos.

O processo de criação de Megera doNada (1998), que durou cerca de dois anos, se configurou realmente como uma troca entre Araújo e o Grupo: se esse precisava de um processo de formação teatral, aquele necessitava de um grupo de trabalho para realizar a parte prática de sua pesquisa de mestrado. Desse modo, o processo criativo de Megera doNada (1998) foi registrado e analisado na dissertação de Araújo, denominada Teatro e educação: uma visão de área a partir de práticas de ensino (1998). Já na introdução de sua pesquisa, Araújo enfatiza o viés pedagógico de sua atuação, seja como professor ou como diretor, ao frisar que realizará “[...] uma reflexão sobre a prática de ensino de teatro, tanto no âmbito da educação formal [...] quanto no âmbito da educação informal, nos casos aqui relatados, a oficina de teatro e o trabalho com o grupo Clowns de Shakespeare” (ARAÚJO, 1998, p. 6).

Em sua análise, Araújo (1998) divide o processo de criação de Megera doNada (1998) em quatro fases distintas: o estudo da obra, a adaptação do texto, a preparação dos atores e a montagem do espetáculo. O autor ressalta que a preparação dos atores ocorreu concomitantemente às demais etapas, sem considerá-la como uma etapa acabada, permanecendo o elenco em constante aprimoramento.

Araújo (1998) também identifica três “momentos pedagógicos” no processo: o estudo da realidade (no qual foram identificados os principais temas presentes em A megera domada), a organização do conhecimento (em que foram realizados encontros formativos com especialistas de outras áreas para ampliar as impressões iniciais do coletivo acerca dos temas presentes na obra) e a aplicação do conhecimento (no qual, após o momento anterior, houve a adaptação do texto original, visando também aproximá-lo do contexto social no qual o Grupo estava inserido).

Araújo informa também de que maneira era estruturado o ensaio de Megera doNada (1998):

Cada sessão de trabalho, de quatro horas de duração, foi estruturada em três partes. Na primeira parte trabalhamos atividades voltadas para a consciência corporal como: sensibilização através de massagem, exercícios de alongamento

e de força, trabalho de ritmo e soltura e a partir de uma certa altura do trabalho introduzimos também exercícios de capoeira e outras danças dramáticas afro- brasileiras.[...] Após a sessão de trabalho corporal é realizado o aquecimento vocal com exercícios de controle de diafragma, projeção vocal, controle de respiração e exercícios de articulação, dicção e inflexão. [...] Após este primeiro momento de preparação passamos aos jogos dramáticos com vistas a observar e eliminar vícios de representação apresentados pelos atores (ARAÚJO, 1998, p. 93).

É interessante notar que os Clowns de Shakespeare, ao convidarem Araújo a conduzir o processo de montagem de um de seus espetáculos, acabaram por irmanar-se a um profissional atento às necessidades de formação artística e teatral dos integrantes do Grupo, contribuindo para que o processo de criação possuísse um caráter a um só tempo artístico e pedagógico. Do mesmo modo, é significativo perceber que o processo realizado por Araújo com os Clowns de Shakespeare na criação de Megera doNada (1998) remete diretamente ao processo de formação vivenciado pelo próprio Araújo no Grupo Estandarte, durante os dois anos de processo de criação de Não se paga, não se paga (1989), sob a condução da Profa. Dra. Vera Rocha; o que evidencia tanto uma espécie de filiação entre os dois coletivos, quanto a importância do teatro de grupo enquanto espaço de formação para seus integrantes, no estado do Rio Grande do Norte. No capítulo da dissertação referente ao processo de trabalho com o Grupo, Araújo destaca que para além da realização do espetáculo, houve também a intenção de cumprir outros objetivos, tais como:

[...] construção do grupo, desenvolvimento de um estudo de texto com a participação de profissionais de outras áreas do conhecimento, trabalho de formação dos atores tanto em relação às técnicas de representação quanto em outros conhecimentos e capacidades instrumentais valiosas ao trabalho do ator em geral. Esses objetivos podem ser resumidos nas questões que levantei no capítulo anterior acerca da formação do ator: como o ator vê sua prática e o que ele espera do resultado de seu trabalho em relação a sua realidade (ARAÚJO, 1998, p. 84).

A escrita de Araújo privilegia o treinamento realizado diariamente com os atores, detalhando os procedimentos de criação do espetáculo Megera doNada (1998). Contudo, ainda que não seja o foco da análise, a questão da construção do coletivo e de sua “profissionalização”, também está contemplada:

Ao longo deste trabalho foi possível observar como os atores foram modificando sua visão acerca da atividade teatral, como foram amadurecendo seu conceito de teatro enquanto atividade construída coletivamente, na medida em que iam se familiarizando com todos os elementos que compõem uma encenação. A prática teatral, que no início era para alguns apenas uma atividade extra, uma curiosidade, passou a ser uma atividade sistemática e até para alguns, uma alternativa profissional. O trabalho teatral passou a ocupar

uma prioridade maior na vida dos membros do grupo, que tiveram que adaptar sua vida social aos horários nem sempre razoáveis que dispúnhamos para os ensaios. Este aspecto revelou, principalmente entre os membros mais jovens do grupo, um senso de responsabilidade e compromisso que não existia no início do trabalho ou em trabalhos anteriores realizados pelo grupo (ARAÚJO, 1998, p. 95).

Para o autor, a profissionalização depende de uma prática sistemática e um compromisso especial, até então ausente da vida dos indivíduos do Grupo. O relato de Araújo remete ao momento da criação de um coletivo, quando as individualidades são reunidas em torno de um sujeito plural, na conquista de afinidades que não eliminam as discordâncias, mas superam as expectativas de uma satisfação puramente egocêntrica, com uma potência quiçá utópica, conforme descrito por Trotta:

Há alguma forma de utopia na constituição de um coletivo. O exercício constante de construção da aparente e transitória fusão das instâncias individuais permite emergir, entre as diversidades uma entidade enunciada como “nós”, que pode se tornar a semente de uma instância coletiva. Em outras palavras, para que o coletivo se constitua como tal não basta que se somem as individualidades e nem mesmo que elas reconheçam entre si algumas afinidades. Trata-se de um processo mais longo e que requer investimento para que o diálogo entre os sujeitos – aproximados em suas afinidades, conflitados em suas diferenças e liberados da fantasia de que o grupo absorverá suas expectativas – produz um campo comum de atuação (TROTTA, 2011, p.220). O processo de criação com Sávio Araújo, conforme já citado no capítulo anterior, não perpassa apenas uma instrumentalização técnica dos Clowns de Shakespeare, mas inclui também a articulação e transformação do coletivo até então reunido em um “grupo de teatro”, orientado para uma prática criativa direcionada e sistemática, sob a influência exemplar da ideologia do movimento de teatro de grupo e de sua forma de produção correspondente.

Esse fato ganha ainda maior relevância ao ser destacado que, no encontro entre Araújo e o Grupo, optou-se pela colaboração pontual de Araújo como diretor em um processo de criação e não por sua permanência enquanto mentor. Tampouco, como o principal condutor artístico do Grupo: ainda que neste processo Yamamoto – que já demonstrava inclinação para assumir a função de diretor do Grupo, tendo codirigido a peça anterior do coletivo, Noite de reis (1995) – tenha participado como ator, não houve a proposta de Araújo de assumir em definitivo a direção do coletivo, mas a priorização da autonomia do Grupo, para além dessa experiência específica.

Outro aspecto passível de ser ressaltado no convite a Araújo – e que se torna uma constante ao longo da trajetória do Grupo – reside no fato de Araújo já ser, à época

de seu convite, reconhecido e respeitado na cena teatral potiguar, por sua atuação junto ao Grupo Estandarte. [Sávio] e [Fernando] avaliam que foi a partir da associação de Araújo ao Grupo, que os Clowns de Shakespeare passaram a ser reconhecidos como fazedores de teatro pelos outros atuadores da cena teatral natalense.

No histórico dos Clowns de Shakespeare, é possível identificar seguidas propostas de convites a artistas que, já sendo reconhecidos em determinados círculos, quando associados ao Grupo, acabam por projetá-lo a novos circuitos teatrais. Se essa espécie de validação que os Clowns conquistam a unir-se a certos colaboradores aparece como uma consequência quase acidental nesse primeiro processo de intercâmbio com Araújo, esse aspecto aos poucos será conscientemente utilizado e pretendido pelos Clowns de Shakespeare na elaboração e no desenvolvimento de projetos com colaboradores externos; tornando-se um fator determinante tanto para o aumento de possibilidade de aprovação em editais, como também enquanto possível atrativo e facilitador para a circulação dos espetáculos gerados a partir dessas associações. Desse modo, para além dos aspectos formativos, a questão da chancela passa também a ser outra faceta dentre aquelas que caracterizam as trocas estabelecidas pelos Clowns de Shakespeare.

Araújo é o responsável por introduzir também outro aspecto que será de grande importância na trajetória do Grupo. Trata-se da aproximação (estética e de procedimentos de criação) entre o processo de Megera doNada (1998) e o espetáculo Romeu e Julieta (1992), dirigido por Gabriel Villela com o Grupo Galpão. Araújo assinala tal influência em sua dissertação:

Aos primeiros dias do planejamento do estudo encontrei na revista Máscara, do Movimento Nacional de Teatro de Grupo, um artigo do diretor Gabriel Vilela [sic], falando sobre seu processo de estudo do texto Romeu e Julieta, com o Grupo Galpão, de Belo Horizonte-MG. Neste artigo, Vilela [sic] expunha suas diretrizes para o estudo do texto, que incluíam uma discussão sobre os modelos de família contidos no texto e sua relação com a região onde estavam trabalhando. O estudo incluía também a visita a sítios do patrimônio arquitetônico mineiro para captar a atmosfera seiscentista do barroco mineiro e sua relação com o espaço em que ocorria a ação de Romeu e Julieta. (ARAÚJO, 1998, p. 86)

Pelo relato de Araújo, pode-se intuir que o procedimento de criação do espetáculo do grupo mineiro influenciou o processo da obra do coletivo potiguar. Dentre esses procedimentos, estariam a apropriação do texto clássico através da mescla com elementos da cultura local; a pesquisa de campo e a revisão do regionalismo. Esses

aspectos, apesar de não serem muito salientados nas descrições do processo realizadas por Araújo, serão retomados e aprofundados pelo Grupo no decorrer de sua trajetória artística.

Pode-se supor que foi a partir do processo de criação de Megera doNada (1998) que o Grupo Galpão começou a figurar como modelo privilegiado no imaginário dos Clowns de Shakespeare. Se tem seu início pela via dos procedimentos criativos e da linguagem estética adotada pelo grupo mineiro, esse modelo aos poucos começa a abarcar também o formato organizacional e a estrutura administrativa. Essa relação entre Clowns de Shakespeare e Galpão irá se fortalecer nos anos posteriores, sobretudo através de novos encontros e trocas com artistas oriundos do Grupo Galpão, a partir da aproximação com Eduardo Moreira.