1982 SONRASI KAPATMA KARARLARI VE DEMOKRATİKLEŞME
YÖNELİK ETKİ VE SONUÇLAR
3.2.2. Avrupa İnsan Hakları Mahkemesi Kararları ve Militan Demokrasi Yönünden Değerlendirilmes
3.2.2.3. Kapatma Kararları Bakımından Avrupa İnsan Hakları Mahkemesi'nin Militan Demokrasi Anlayışı
Conjuntamente à penetração de capitais e tecnologias externas, veio o aporte tecnocientífico7. Nesse sentido, nada seria mais adequado aos países centrais que alimentar,
a seus moldes, a formação – ou aperfeiçoamento – intelectual da burocracia da “periferia”. O processo de modernização da formação dos economistas esteve indubitavelmente envolvido – para lembrar as teses de Fernando Henrique Cardoso (1995, p.19) – com uma “articulação estrutural” de interesses entre classes dominantes nas economias centrais e nas dominantes locais (nos países subdesenvolvidos).
O trânsito de estudantes, docentes e pesquisadores do país para os Estados Unidos e Europa e dos países ‘metropolitanos’ para as regiões periféricas é regulado, de um lado, pelas necessidades de formação de cada nova geração das elites ‘periféricas’ e, de outro, pelas exigências da agenda para trabalho de campo formuladas pelos especialistas acadêmicos regionais, os brasilianistas no caso do sistema acadêmico
7 Conforme o conceito, consagrado por Milton Santos, a própria divisão territorial – e internacional – do trabalho
se relaciona com as implicações da tecnologia sobre o território e a sociedade, finalidade para a qual há (cada vez mais) uma inequívoca contribuição da ciência – a serviço da técnica (SANTOS; SILVEIRA, 2005, p.21).
norte-americano e seus congêneres europeus, e pelas sumidades teóricas dos países desenvolvidos (MICELI, 1990, p.39).
Internamente, a crescente complexidade da administração do Estado propiciou a consolidação e institucionalização de certos profissionais, logo chamados a exercer um papel modernizador. Na observação de Loureiro (1997, p.84),
[...] a participação dos economistas no governo cresceu enormemente a partir do regime militar. A intensificação da centralização política, a hipertrofia do Poder Executivo e de seus braços de controle econômico, e ainda a necessidade de legitimação do autoritarismo através da eficiência econômica fizeram aumentar o número de postos de governo praticamente monopolizados por eles.
Tendo em vista uma separação fundamental a ser feita, segundo a qual a filiação ideológica dos economistas esteve à parte de suas atuações no quadro político- administrativo nacional, observa-se que os profissionais do planejamento estavam às voltas com a afirmação de suas áreas, tanto em termos de renovações teóricas, quanto à busca de espaços de atuação, sobretudo, na máquina estatal, a qual, durante a ditadura militar, teve uma expansão e um aumento de sua complexidade até então desconhecidos. A intenção de preparar os quadros dirigentes modernizadores resultou em uma efetiva participação desses novos técnicos em uma rede constituída por órgãos governamentais, instituições de ensino e meios empresariais, a qual se ampliou desde então (LOUREIRO, 1997, p.35/42). A idéia segundo a qual o desenvolvimentismo compreenderia um imaginário de legitimação da “modernização brasileira” (MARTINS, 1993, p.15/17) desdobrava-se em um espectro ideológico, o qual trafegava, esquematicamente, entre as teses estruturalistas8 e ortodoxas9.
Se nas agências surgidas entre o Estado Novo e o início da década de 1950 (DASP; Sumoc; BNDE, etc.) houve caminhos que permitiram o desenvolvimento de competências técnicas (a Seção de Estudos do Ministério da Fazenda [1943-1945], por exemplo, contou com a participação de Octavio Gouveia de Bulhões, que também participaria da Sumoc [1945] e da Comissão Abbink [1948]; além do Comissão CEPAL-BNDE, a qual
8 As teses estruturalistas voltavam-se para uma preocupação relativa, dentre outros elementos, à conceituação
do subdesenvolvimento periférico e à teorização em favor da industrialização, protecionismo e planejamento. Segundo tal perspectiva, o subdesenvolvimento se deveria à existência de uma estrutura econômica
heterogênea na periferia, coexistindo setores modernos – dedicados à exportação – e setores de subsistência. “Em conseqüência, o desenvolvimento dos países periféricos [poderia ser] entendido como um processo de homogeneização dos níveis de produtividade em todo o sistema econômico” (BIELSCHOWSKY, 1996, p.137).
9 Para a interpretação ortodoxa, o ponto central de análise se fixaria, sobretudo, em duas áreas: estabilidade
política “como condicionante para assegurar um clima de confiança no futuro da nação” e “formação contínua e crescente de capital físico para ampliar a capacidade de produção, gerar empregos e os fundos necessários para as reformas institucionais indispensáveis ao progresso” (RICHERS, 1975, p. XV).
proporcionou uma qualificação técnica ao seu corpo burocrático)10], no tocante à composição da burocracia atuante durante o período militar, a modernização da economia relacionou-se logicamente à preferência por certo espectro teórico. Isto se deu fundamentalmente através de sua internacionalização, na qual se notou uma “incorporação sistemática, por parte das instituições de ensino e pesquisa do país, dos padrões teóricos e metodológicos vigentes nos países desenvolvidos” (LOUREIRO, 1997, p.65).
Tratou-se, igualmente, de uma modernização, pois, relacionada à formação daqueles que mais interessavam aos quadros governamentais e, nesse particular, dos grupos que mais se beneficiaram – ao menos num primeiro momento – de acordos e convênios entre Brasil e Estados Unidos, pois o puderam fazer já às vésperas do 31 de março de 1964, ou mesmo após o golpe; principalmente, os economistas do IBRE, da EPGE (Escola de Pós-Graduação em Economia) – ambos pertencentes à FGV – e da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (FEA)11.
Através de seu Instituto Brasileiro de Economia e da EPGE, a Fundação Getúlio Vargas já denotava, na década de 1950, a aproximação de instituições brasileiras com profissionais norte-americanos. Por meio de outro de seus braços, a Escola Brasileira de Administração Pública (EPAB), a FGV contatara, entre 1956 e 1957, John Friedmann (autor de bastante influência sobre os planejadores), o qual ministrou um curso em Belém sobre a Amazônia. Em São Paulo, a FGV criou a Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), em 1954, impulsionada, a partir da década seguinte, por convênio com a USAID12, através do qual o governo norte-americano manteve, até 1965, uma “missão universitária” de especialistas, recrutados na Universidade Estadual de Michigan,
10
O BNDE (1952) contou com Roberto Campos, Lucas Lopes, Ignácio Rangel, etc. e o Grupo Misto BNDE- CEPAL (1953), sob os auspícios de Celso Furtado, reuniu nomes como Aníbal Villela e Roberto Campos (LOUREIRO, 1997, p.31).
11 O caso do curso de administração da Faculdade de Economia e Administração da USP evidencia a relação
entre a demanda por novas profissões e desenvolvimento da atividade industrial no país. Regulamentada em 1965, a profissão de administrador de empresas veio preencher a necessidade dessa categoria em um contexto econômico caracterizado pela presença de grandes empresas privadas, sobretudo, transnacionais, e pelo grau crescente de burocratização dos quadros públicos.
12 A U. S. Agency for International Development foi criada por John F. Kennedy, em setembro de 1961,
objetivando criar programas de assistência econômica de caráter não-militar baseados numa suposta responsabilidade à qual os Estados Unidos eram chamados perante as transformações mundiais, no sentido de que a ajuda econômica aos países subdesenvolvidos era imprescindível como meio de segurança nacional (inclusive dos EUA); desde que esses países buscassem uma ordem democrática em detrimento do “comunismo”; numa idéia, em suma, típica, aliás, dos escritos da Escola Superior de Guerra, de que o desenvolvimento econômico do “Terceiro Mundo” seria vital, para usar os termos de Golbery do C. e Silva, à “segurança hemisférica”. (USAID HISTORY. <http://www.usaid.gov/about_usaid/usaidhist.html>).
enquanto a própria FGV passou a enviar seus docentes para estudos de pós-graduação nos EUA (BIDERMAN, 1997, p.17).
O desinteresse dos “países centrais”, notadamente, dos EUA, pelos chamados estudos de América Latina, percebido nos anos seguintes à 2ª Guerra, transformou-se substancialmente na virada para a década de 1960.
A revolução cubana [...] foi o fator determinante de toda uma reorientação da política externa norte-americana para a América Latina, a começar pela Aliança para o Progresso, e tendo prosseguimento através da criação de um programa de bolsas individuais para treinamento avançado em ciências sociais e humanas [...] e das iniciativas que culminaram em 1966 na criação da Associação de Estudos Latino- Americanos (S. MICELI, 1990, p.13).
Ora, essa aproximação direcionaria, em uma mão dupla na qual pesavam tanto a importância relativa do Brasil, enquanto país “receptor” de investimentos, quanto, logicamente, os níveis de desenvolvimento e a diferenciação da produção em ciências sociais entre Brasil e Estados Unidos, quais instituições, categorias profissionais e mercados seriam (ou não) favoreceu pelos intercâmbios acadêmicos (MICELI, 1990).
Os anos de 1960 foram, assim, um ponto nevrálgico para a formação dos economistas no Brasil. Para tanto, dois “mecanismos básicos se destacam na internacionalização da ciência econômica no Brasil” (LOUREIRO, 1997, p.66): além da vinda (ao longo dessa década) de professores norte-americanos para lecionar nos então recém-criados cursos de pós-graduação, o amparo, não somente da Usaid, como da Fundação Ford13.
Dos programas estabelecidos com as agências norte-americanas beneficiou-se também a Faculdade de Economia da USP (FEA/USP). Com a colaboração da Usaid, da Fundação Ford e do Conselho de Cooperação Técnica da Aliança para o Progresso, houve a instalação do curso de pós-graduação em economia em São Paulo, no ano de 1964, crucial para o desenvolvimento dessa faculdade. Fundada em 1946, a Faculdade de Ciências Econômicas e Administração (FCEA) fora até então uma unidade de pouca expressão na Universidade de São Paulo. Segundo Delfim Netto, somado aos investimentos externos, houve a participação fundamental de Ruy Aguiar da S. Leme – economista cujas pesquisas se centraram bastante nas teorias locacionais –, o qual, na qualidade de interventor do Conselho
13 Ao lado da USAID, a Fundação Ford teve importância capital, a partir do início da década de 1960, nas
relações acadêmicas Brasil-EUA, subvencionando universidades norte-americanas no campo das relações internacionais, e investindo diretamente nos próprios países latino-americanos, “através do financiamento de projetos, instituições, lideranças científicas e culturais” (MICELI, 1990, p.17).
Universitário, impulsionou o Instituto de Pesquisas Econômicas (Delfim Netto, apud BIDERMAN, 1997, p.95-99), constituído em canal de comunicação da FEA-USP com professores estrangeiros; norte-americanos, sobretudo.
Da FGV de São Paulo e do Rio de Janeiro, da PUC-Rio, da FEA, da UNICAMP, do CEPRAB e da UFRJ (dentre outras instituições) sairia, durante os anos do regime militar, uma geração de graduados e pós-graduados em economia cuja contribuição para os desígnios do planejamento oficial e para a crítica ao modelo econômico em curso na época, foi fundamental, nesse ambiente de reestruturação dos currículos acadêmicos e dos diversos cursos universitários brasileiros14.
Necessário dizer que, nos quadros do planejamento brasileiro, economistas, geógrafos, administradores, dentre outros profissionais, forneceram o substrato tecnoburocrático para uma política desenvolvimentista a qual, nos anos do regime militar, afastara-se do intervencionismo típico cepalino, reivindicador de uma industrialização entendido como alavanca para a homogeneização social, aproximando-se, ao invés, de um sentido marcadamente geopolítico, visando a uma ocupação técnica do território (SAES, 2006). Mas, se esse projeto de nação dos governos militares identificou-se profundamente com as teorias da economia espacial e do planejamento, é preciso, preliminarmente, destacar a retórica do discurso econômico que o revestia; tal qual o fizeram diversos economistas ligados aos altos escalões dos governos pós-1964.