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Kamu Malları Kavramı Çerçevesinde Vakıf Üniversitesinin Mallarının

Dentre as diversas atividades desenvolvidas pelas equipes do CSSJ, o trabalho educativo grupal tem sido priorizado por algumas trabalhadoras e foi citado por vários sujeitos como uma atividade que propicia a troca de saberes entre os profissionais e entre estes e os usuários. Pode-se perceber que o grupo constitui-se num instrumento eficaz para trabalhar a promoção/educação em saúde. Caracterizando-se como uma atividade interdisciplinar, da qual participam médicas, enfermeiras e ACS, esse trabalho permite uma visão mais comunitária da saúde, da realidade e das experiências da população. Vale notar que as auxiliares de enfermagem, no período da coleta de dados, não estavam participando dos grupos, pois estavam ocupadas com as atribuições específicas do trabalho de enfermagem. Nesse período, a equipe prata trabalhava com grupos de hipertensos e de gestantes, a equipe diamante com grupos de hipertensos e começava a organizar o grupo da terceira idade e a equipe ouro não estava trabalhando com grupos operativos, embora já tivesse desenvolvido essa atividade anteriormente.

Um dos fatores que diferencia a atividade de grupo das demais, e exatamente por isso merece destaque, é a criação de um espaço mais informal que propicia o estabelecimento de relações mais próximas, mais espontâneas entre profissionais e usuários, facilitando o encontro e a construção conjunta de saberes. Aí, as trabalhadoras aproximam-se da realidade da comunidade, ficam cientes das várias estratégias utilizadas pelos indivíduos para encaminhar a vida e, ao mesmo tempo, os usuários têm a oportunidade de expor as situações vivenciadas, discutir experiências e tirar dúvidas, tornando-se momentos de trocas, de orientação e mesmo de desabafo para os participantes.

A estratégia trabalha a potencialidade para a mudança de modelo, pois prioriza o vínculo com a população e facilita um rompimento no comportamento passivo dos profissionais dentro das unidades básicas de saúde, permitindo a extensão das ações para e na comunidade. Cria, assim, a possibilidade de se lidar diretamente com a demanda trazida para o grupo, estabelecendo novas relações de compromisso e de co-responsabilidade entre os trabalhadores e usuários

(CAMPOS, 1999). Algumas profissionais, dentre as diversas atribuições, priorizam a atividade grupal, valorizando sua ação e a aceitação da população:

Entendo que esse trabalho no grupo, mais junto da população, é mais efetivo. Porque na verdade, eu ficar nas consultas, é como ficar apagando fogo, as coisas vão demorar mais. (M Célia - DC Grupo de Hipertensos 20/06/2006)

E quando elas saem [usuárias] nenhuma delas deixa de agradecer e sair com a carinha mais boa de quem gostou muito, por isso eu gosto do grupo. (ACS Vilma - DC Grupo Gestantes 20/06/2006)

Os trabalhadores da ESF são educadores e educandos, alternando papéis, num processo ativo de ensinar-aprender. Todo ser humano é dotado de conhecimento próprio, resultante de sua experiência de vida, e o respeito por esse saber é fundamental para a prática educativa (FREIRE, 1985, 1998; DEMO, 1997). Alguns sujeitos do estudo declararam sua opção por uma abordagem compreensiva na atividade grupal, respeitando o saber do outro, trocando conhecimentos e aprendendo, o que possibilita o crescimento pessoal e a realização profissional:

Eu gosto muito desse meu trabalho e apesar das dificuldades eu não abro mão não, porque aqui eu sinto que sou muito útil. Esse contato mais próximo, as mulheres ficam mais à vontade pra fazer perguntas. É quando vejo que valeu a pena tantos anos de estudo, não que as outras atividades não valham. Mas no grupo eu sou referência para as mulheres e elas pra mim, porque suas histórias me ajudam, elas muitas vezes falam com suas palavras o que eu ia dizer e essa participação é importante, aprendo com o jeito delas. É um momento em que eu faço aquilo que planejei, aquilo que eu acredito como meu perfil de enfermeira. (E Laura - DC Grupo de Gestantes 20/06/2006)

Fazia grupo também no outro Centro de Saúde. Aqui a relação é dinâmica, todos falam, tem hora que paro de falar pra pedir silêncio, porque ficam todos falando juntos (...) A troca é natural e acho que por isso tem muito efeito. (M Regina - DC Grupo Hipertensos 10/05/2007)

A iniciativa de promover o trabalho educativo em grupo determina que os participantes estejam absorvidos na interatividade da ação, buscando juntos soluções para as questões levantadas. Nesse sentido, Freire (1998, p. 32) assinala

que ensinar “tanto implica no respeito ao senso comum no processo de sua necessária superação, quanto o respeito e o estímulo à capacidade criadora do educando.” O depoimento abaixo é um exemplo claro dos saberes da experiência da usuária compartilhados com a médica e o grupo, dando solução para um problema supostamente ‘insolúvel’:

A troca de experiência é muito grande mesmo, vou aprendendo com a simplicidade deles, como lidam com as dificuldades na vida. Aprendo a simplicidade da linguagem, como se expressam seus males; aprendo nas soluções simples que eles arrumam – e aí eu até uso o exemplo de um, com outros pacientes. Por exemplo, outro dia a gente falava do uso do sal na comida e queixavam que sem sal fica muito ruim e a gente sempre esbarra nesse problema insolúvel!! Eu já estava sem saída, quando uma Sra. explicou que ela usa bastante alho batindinho na hora, muita salsinha, cebolinha e coentro – o que dá mais sabor e disfarça a falta do sal. Você sabe que isso dá certo mesmo? Agora já vou sugerindo pros outros pacientes e quando retornam pergunto se tentaram fazer desse jeito. Tem dado certo! (M Célia - DC Grupo Hipertensos 26/03/2007)

A concepção que o profissional tem a respeito do processo educativo, do educador e do educando, será o fator norteador do rumo e da forma da sua atuação pedagógica nos grupos. A condução do trabalho educativo, respeitando os saberes populares, demanda tempo e experiência para que se possa consolidar, pois o conhecimento em si não é transformador, a geração da consciência crítica não é automática, mas um processo político de conquista, de construção, de criação (FREIRE, 1985, 1998). Assim, a construção do saber, a partir da contribuição dos envolvidos, possibilita uma aprendizagem mais significativa e, por esse motivo adquire, para eles, maior sentido:

A informação também tem muito mais valor e corre muito mais... É que eles passam mais essa informação porque eles participaram dela. Eles levantam as necessidades, dificuldades e discutem. Então, toma mais sentido pra eles (...) é o conhecimento construído por eles e por isso é mais valorizado e passado adiante. Como no grupo passado, quando falamos que não adianta substituir o sal pelo Sazon que tem muito mais Sódio – ficaram tão surpresos! (...) e a coisa correu em todo Centro de Saúde. (M Célia - DC Grupo Hipertensos 26/03/2007)

Aqui é melhor porque dá pra conversar, se tenho dúvida eu pergunto. Na consulta não dá pra isso (...) Aqui a gente pode falar e é ouvida – se você conta um caso, todo mundo pára pra escutar e dá a opinião (...) Por isso saio de casa queimando a mufa nesse sol. (Usuária - DC Grupo de Hipertensos 26/03/2007)

Fica evidente, então, a importância por eles atribuída à possibilidade de interação, de participação, de poderem conversar sobre as suas coisas, como algo produtivo, prazeroso – que os motiva a saírem de casa e ‘queimar a mufa’ num sol escaldante, das quatorze horas.

Nessa perspectiva vão, aos poucos, substituindo o conhecimento não sistematizado, por uma aprendizagem da ciência, que deve ocorrer num processo diário de desenvolvimento do conhecimento (DEMO, 1997), de forma lenta e gradual:

Aqui é um trabalho lento, na informação tudo é muito lento, você fala uma coisa que o sujeito não sabe, mas vai vendo um progresso. Eles se sentem gratos (...) Toda informação é muito bem vinda pra eles. Agora, a mudança de comportamento é lenta meeeeesssmo e muito complexa. Porque nós estamos propondo a mudança da vida deles e isso dentro de uma situação social muitas vezes nada fácil... O acesso ao saber a gente vai propondo, mas o processo é muuuuito lento. Mas o nosso papel é esse mesmo, trabalhar devagar. (M Célia - DC Grupo Hipertensos 26/03/2007)

Segundo Alonso (1999, p. 123), o trabalho grupal é fundamental na construção dos saberes, pois os indivíduos sentem-se valorizados ao perceberem- se vistos e ouvidos pelos outros. Por intermédio dos outros, o indivíduo sabe-se e se reconhece:

na modalidade grupal o indivíduo tem a oportunidade de perceber que as pessoas vivenciam situações de saúde-doença com manifestações clínicas, angústias e preocupações parecidas e, nestas situações, o processo educativo tem um forte aliado, que é o ato de compartilhar os mais variados saberes e experiências relacionados aos cuidados para com a saúde, trazidos da vivência cotidiana das pessoas, com base no saber popular, na cultura, nas informações obtidas através da mídia, de experiências educativas formais anteriores e também na criatividade e na arte de viver.

Pode-se dizer que é através do olhar do outro que os indivíduos enxergam a si mesmos, daí a importância dos testemunhos e comportamentos

manifestados, pois quando algo é testemunhado como publicamente relevante é, então, referendado como verdadeiro. A fala de uma das enfermeiras que coordena o grupo de gestantes e de uma das participantes ilustra bem a afirmação:

No grupo vale o exemplo do outro, elas aprendem mais. Você viu, elas aprendem com as experiências umas das outras. Uma diz: parto normal dói demais, a outra diz: dói nada (...) É um processo lento, mas elas se convencem muito mais pela experiência da outra do que o profissional falar várias vezes. (E Laura - DC Grupo Gestantes 20/06/2006)

Aqui as outras também ensinam a gente, contam suas histórias e quando vem aquelas histórias de exagero (...) a enfermeira sempre coloca que cada uma vive uma história diferente, então, a gente fica mais tranqüila. (Usuária - DC Grupo de Gestantes 20/06/2006)

Uma forma para contornar as resistências internas dos usuários é a própria informalidade presente na relação grupal, que propicia a constituição de vínculos pela proximidade entre os participantes, permitindo que os sujeitos se expressem de uma maneira mais espontânea:

Vocês viram o seu Zé, outro dia ele falou na maior que não estava tomando o remédio, mas a Dra. percebeu (risos). (ACS Vilma - DC Grupo Hipertensos 26/03/2007)

As histórias que os pacientes contam são ótimas! Sou médica da D. Maria desde 1999 e não sabia que ela fuma. Uma informação tão importante, mas não sabia! E no outro grupo ela deu uma saída pra fumar, na maior, quando vi, até arregalei os olhos e perguntei: - A Sra fuma? E ela: - É, só um pouco por dia. E ela soltou assim sem querer. (M Célia - DC Grupo Hipertensos 26/03/2007)

O conhecimento da realidade enfrentada pelos usuários e as formas de que se utilizam para lidar com a vida são saberes determinantes para a conduta dos profissionais. Nesse sentido, Freire (1998) assinala que, sem o conhecimento das manhas com que os grupos humanos produzem sua sobrevivência, sem conhecer a leitura que fazem de seu contexto imediato e do contexto maior, do qual o seu é parte, não há como constituir um processo educativo:

Um trabalho que não abro mão é o grupo (...) Pra mim é importante porque vou aprendendo como eles lidam com a sua doença, com as suas dificuldades, o que fazem, isso não acontece no consultório. (M Regina - DC Grupo de Hipertensos 30/05/2007)

Por isso não importa a quantidade de usuário que vem ao grupo, nem os resultados imediatos, nosso papel é esse, discutir, nos aproximar do saber deles, da vida deles. (E Laura - DC Grupo Hipertensos 26/03/2007)

A compreensão do outro, de seu mundo-vida, do seu saber, remete o profissional a uma realidade dura que vai interferir, muitas vezes, nas possibilidades de efetivação do auto-cuidado:

Aqui é bom porque o pessoal [trabalhadoras] vê bem como é que o povo vive, o que eles enfrentam. Um vê o outro falar e aproveita pra falar também. (ACS Vilma - DC Grupo Hipertensos 26/03/2007)

A dureza da vida dos usuários é um dos fatores que torna a atividade educativa árida e dificulta o desenvolvimento do autocuidado. Confrontados com as restrições do real, somos levados a questionar: o que é produção de saúde, nessas condições? Quais os saberes devem ser trabalhados? E entendemos que o caminho passa pela implicação do sujeito no processo terapêutico na medida da sua possibilidade.

O usuário chega ao serviço, na maioria das vezes, em estado de dependência do outro e de alienação. Buscar caminhos que o levem à compreensão da sua realidade e discutir possibilidades de saídas pode ser uma das formas de produção da saúde, ou seja, auxiliar no desenvolvimento de uma visão mais crítica, capaz de substituir explicações mágicas pela busca de princípios autênticos e de causalidade, que refuta as posições quietistas (FREIRE, 1979). Lembramos assim, que a mudança de atitude vai depender das escolhas feitas pelo usuário, desde que lhe seja dada essa possibilidade. Este é um dos caminhos que levam à autonomia do ser, resgatando o sujeito “da repetição, da fragilidade e da condição de indefeso”, permitindo a renovação do seu potencial, muitas vezes adormecido para uma consciência e ação libertadoras:

Acredito no grupo porque ali eles percebem que não estão sozinhos, que os problemas são comuns e sempre tem aquele que acha uma saída (...) Quando fico mais desanimada não esqueço daqueles que conseguiram mudar, um pouquinho que seja. E olha que, o que pra gente parece pouco, pra eles é demais - porque se trata da vida deles. (M Regina – DC Grupo de Hipertensos 30/05/2007)

Fugimos assim, do furor curandis, construindo uma prática de saúde na qual, “por meio do vínculo, pode-se desenhar um campo de propostas terapêuticas que recoloquem o sujeito no trilho da responsabilização pela própria vida.” (ONOCKO CAMPOS; CAMPOS, 2006, p. 683). O trabalho educativo grupal é, portanto, uma forma de ampliar os meios de intervenção para a prevenção das afecções, promoção da saúde e compreensão da vida na comunidade, trazendo o sujeito dentro da sua realidade para a auto-responsabilização.

5.2.3 As técnicas do Cuidado: uma competência inscrita no corpo das