Os estudos linguísticos, inicialmente, não tinham uma preocupação voltada ao entendimento da relação língua e sociedade. Embora os estudiosos, já no século XIX, tivessem a percepção de que a língua não é um sistema estável, as mudanças eram interpretadas como um processo natural, decorrente das modificações da própria língua.
A obra de Saussure (2006 [1916]) – Curso de Linguística Geral – considerada um marco da Linguística Moderna, apresenta a definição de língua como produto social da faculdade da linguagem, isto é, como um instrumento que permite a comunicação entre os indivíduos. Por essa concepção, a língua/langue, vista como um sistema de signos, distingue- se da fala/parole, a qual corresponde aos usos concretos que os indivíduos fazem da língua nas diversas situações de interação social. Seria então a fala, mecanismo físico e eminentemente individual, a responsável pela expressão do sistema língua, isto é, o produto da fala ou a parte psíquica armazenada pelo indivíduo (SAUSSURE, 2006, p. 21 -22).
No entendimento saussureano, o objeto de estudo da Linguística é a língua e não a fala. A preocupação de Saussure não foi, portanto, com o ato individual que corresponde à fala, mas com o entendimento das regras que subjazem ao sistema língua. Ao separar língua e fala, o autor deixa explícito seu reconhecimento da natureza homogênea da língua, enquanto sistema de signos compartilhado pelos indivíduos, e o caráter heterogêneo que assume a fala, como um resultado das diversas manifestações individuais. Segundo Weinreich, Labov e Herzog (2006 [1968], p. 56), os estudos saussurianos caminham na mesma direção da doutrina neogramática de Herman Paul (1880), na qual o indivíduo era o agente principal da mudança. Para os autores, embora Saussure tenha reconhecido a dicotomia langue/parole, separando a fala, ato eminentemente individual, da língua, caracterizada como sistema, a heterogeneidade reconhecida à fala volta-se para o fato de ser esta uma ação individual, mas não sujeita à descrição sistemática.
A Teoria Gerativa de Chomsky, na década de 50, trouxe para a Linguística um novo enfoque no que se refere ao entendimento da língua, a qual passou a ser entendida como um sistema de regras presente na mente dos indivíduos. A base do modelo teórico foi a noção de competência linguística, interpretada como a capacidade inata que todos os indivíduos possuem para compreender e produzir diferentes estruturas linguísticas (CHOMSKY, 1965). Nessa concepção, distingue-se a competência, o conhecimento internalizado que o falante tem da língua, do desempenho, que diz respeito ao uso que falantes efetivamente fazem da língua.
Ao definir a competência como um mecanismo inato e comum a todos os indivíduos, os gerativistas deixam explícita a noção de um falante/ouvinte ideal e a concepção homogênea de língua. As diferenças de comportamento linguístico, quando existentes, seriam então explicadas a partir do desempenho individual, determinado por aspectos físicos ou cognitivos. Busca-se no modelo, portanto, entender as possíveis generalizações, traduzidas na formalização de regras, que poderiam ser estabelecidas com base na competência cognitiva e invariante do falante.
Os estudos de William Labov, iniciados na década de 60, representam um marco no entendimento da heterogeneidade linguística emergente do uso concreto que os usuários fazem da língua. Os pressupostos basilares para esse tipo de análise são resumidos na obra
Empirical Foundations for a Theory of Language Change, publicada em 1968 por Weinreich,
Labov e Herzog, obra fundamental para o desenvolvimento da Sociolinguística Variacionista. Passa-se, a partir de então, a se considerar uma abordagem sistemática sobre a forma como processos de variação são governados e implementados em comunidades de fala.
Com a publicação da obra Sociolinguistic Patterns de Labov (1972a), resultante dos estudos do autor em comunidades de fala real, se sedimentou o modelo teórico metodológico da Teoria da Variação ou da Sociolinguística Quantitativa, que analisa os processos de variação e de mudança linguística a partir da correlação de determinantes linguísticos e sociais. Por essa concepção, o uso de uma variante ou de um alofone em detrimento de outro é explicado com base em variáveis internas ao sistema linguístico, tais como contexto precedente, contexto seguinte, entre outros, e variáveis externas, tais como o gênero, a escolaridade, a idade, entre outros. Fatores estruturais e sociais, desse modo, são previstos para conjuntamente atuar no comportamento linguístico dos falantes e, consequentemente, respondem pelos processos de mudança implementados na comunidade.
Introduz-se, então, no modelo laboviano a noção de regra variável, entendida como duas ou mais formas possíveis de ocorrer em um mesmo contexto e com um mesmo valor de verdade. Essa noção de regra variável na Teoria da Variação, de acordo com Sankoff (1988), está relacionada à aplicação dos processos em variação e, portanto, procura identificar os efeitos de fatores contextuais e/ou de fatores sociais na variação da língua.
Ao introduzir a noção de língua como um sistema dinâmico e variável, Labov (1972) oferece uma nova abordagem para a descrição das línguas, rompendo com a noção de “homogeneidade” proposta por gerativistas. No entanto, embora a proposta da Teoria da
Variação tenha avançado em relação à proposta gerativa, no sentido de propor e definir regra variável com base em dimensões linguísticas e sociais, ainda manteve, em sua formulação (LABOV,1972b), concepções do formalismo ao adotar o conceito gerativo de regra opcional para representar os processos de variação (Black English). A noção de que um grupo de indivíduos, representantes de uma comunidade de fala, compartilha das mesmas regras, conduz, segundo Camacho (2010, p. 155), à ideia de que regras variáveis são aplicáveis a grupos e não a indivíduos. Nesse caso, o autor ressalta que o conceito de regra variável da Sociolinguística Quantitativa remete-se à noção de que há uma relação isomórfica entre a gramática do indivíduo e a gramática do grupo social.
O desenvolvimento dos estudos variacionistas revelam que a implementação do modelo final de regra variável deixou de ser um dos objetivos da Teoria da Variação, o que foi motivado, segundo Camacho (2010, p 156), pelo declínio do próprio modelo governado por regras da gramática gerativa. Entretanto, de acordo com ou autor “o abandono do conceito de regra variável não desviou a Sociolinguística dos trilhos do formalismo adotado na década de 70” (p. 157). Isso se reflete, segundo tal concepção, no fato de que “a escolha entre variantes descarta a maximização de informação em favor de efeitos mecânicos, como o condicionamento fonético e a mera repetição de estruturas precedentes (CAMACHO, 2010, p.157)”.
Independentemente das críticas recebidas no âmbito do conceito de regra variável (LAVANDERA, 1978; ROMAINE, 1981), a Sociolinguística Quantitativa oferece uma contribuição inquestionável quanto à relação língua e sociedade e quanto ao papel de fatores linguísticos e sociais para o entendimento dos processos de variação. Além de buscar entender a atuação de aspectos sociais do indivíduo, tais como o sexo, a idade, a escolaridade, a profissão, entre outros, Labov (1972) abrange em seus estudos questões relacionadas ao prestígio e à identidade linguística, buscando, com isso, entender as diferentes motivações sociais e/ou culturais que conduzem falantes a adotar ou não em sua fala usos variáveis.
De acordo com o modelo, a língua constitui, assim como outros padrões sociais e culturais, uma forma de inserção no meio, em que o uso ou não de determinada variante pode ser uma questão de identidade local, tal como sugere Labov (1972) para a centralização da vogal base dos ditongos (ay) e (aw) por falantes nativos e não nativos na ilha de Martha’s Vineyard, Estados Unidos. Nesse estudo, os falantes nativos mantinham em sua fala a variante conservadora (centralização do ditongo) como uma forma de marcar a identidade de
“vineyarder”, como reação ao grande fluxo de pessoas de fora da localidade, principalmente nos meses de verão.
Se o uso de uma dada variedade pode relacionar-se a uma questão de identidade com a comunidade de fala, presume-se que, para os falantes não nativos que encontram-se em situação de imersão linguística, como é caso dos informantes que fazem parte deste estudo, a adequação aos falares nativos em termos de uso de variantes pode representar uma forma de o falante não nativo inserir-se e identificar-se com a comunidade ou com o grupo. Tal fato, entretanto, está relacionado a questões individuais de socialização, de necessidade e de exposição à língua, nesse caso, com destaque para o contato que o indivíduo possui com os falantes nativos. A aprendizagem de L2, sob a perspectiva de um sistema variável de língua, que segue das concepções sociolinguísticas, correlaciona-se, portanto, não somente com o reconhecimento dos usos variáveis para o entendimento e a comunicação na língua, como também pode estar associada às perspectivas individuais de socialização.
Embora os estudos desenvolvidos na perspectiva da Teoria da Variação sejam centrados na produção e pouca atenção tenha sido dada à percepção, subjaz ao processo de espraiamento dos processos de variação a habilidade que o ouvinte possui para detectar e compreender os padrões comunicativos do ambiente social em que se encontra. Segundo aponta Labov (2010, p. 38), a partir do reconhecimento de diferentes usos linguísticos, falantes, no intuito de ajustar-se aos padrões da comunidade, podem modificar seu comportamento linguístico.
Sugere-se, diante do exposto, que o processo de aprendizagem por falantes não nativos, em contato com uma variedade de fala da L2, envolve questões relacionadas à percepção, responsável por detectar os diferentes usos, e à produção, regida por aspectos sociais e linguísticos que emergem da interação do aprendiz com falantes nativos. Diante do entendimento de que a relação entre percepção e produção é imprescindível para explicar a forma como variedades de fala podem ser transmitidas entre falantes da mesma língua ou mesmo de diferentes línguas, a Sociofonética, discutida na próxima seção, tem se preocupado em entender não somente os aspectos que envolvem o falante e a produção, frequentemente evidenciados nos estudos sociolinguísticos, mas também o papel do ouvinte nesse processo.