Os modelos de percepção propostos por Flege (1995) e Best e Tyler (2007), conforme exposto na seção anterior, têm mostrado que a aprendizagem fonológica de L2 por adultos é constantemente influenciada por padrões da língua nativa, o que se deve à tendência de, em um primeiro estágio, os aprendizes buscarem estabelecer “equivalências” entre os sons da L2 e os sons da L1. Com isso, os contrastes da L2 podem não ser reconhecidos como novas instâncias fonológicas e ser consequentemente associados a uma categoria já existente na L1. Ambos os modelos reivindicam, entretanto, que, com o aumento da experiência e da exposição à língua-alvo, novas categorias podem ser formadas para os sons da L2.
São inquestionáveis as contribuições que o SLM e o PAM–L2 oferecem para o entendimento do processo de aprendizagem de L2, no sentido de explicar a forma como aprendizes comportam-se em relação a contrastes fonológicos não existentes em sua língua materna e de apontar predições quanto ao grau de dificuldade que esses aprendizes deverão encontrar na percepção fonológica em L2, dependendo do tipo de contraste envolvido. No entanto, conforme salientam Strange e Shafer (2008, p.173), nenhum dos dois modelos explica em detalhes o processamento cognitivo envolvido na recuperação da mensagem a partir de sinais acústicos. Não há no SLM e no PAM-L2 uma preocupação direta com os aspectos que envolvem o processo de atenção e/ou os esforços cognitivos envolvidos na categorização fonética.
Diante disso, a proposta de Strange e Shafer (2008) e Strange (2011) para o modelo de
Percepção Automática Seletiva (ASP) representa uma contribuição adicional para o
entendimento do processo de percepção fonológica em L2, mais precisamente no que refere- se à forma como a recuperação fonética é realizada e o processamento cognitivo envolvido na atividade de percepção.
Segundo aponta Strange (2011, p. 457), a percepção é uma atividade com um propósito, no sentido de que, na comunicação diária, ouvintes direcionam sua atenção para o sinal de fala com o objetivo de compreender a mensagem que está sendo transmitida pelo falante. Desse modo, a primeira parte do processo de percepção é extrair o sinal acústico de uma sequência de segmentos, o que pressupõe que o ouvinte primeiramente direcione sua atenção para os aspectos físicos que envolvem a produção do som, para então reconhecer as palavras produzidas e a mensagem como um todo.
De forma comparável ao proposto pelo PAM-L2, discutido na seção anterior, o ASP postula que o processo de aquisição segue um caminho que passa pelo modo fonético para então chegar ao modo fonológico e ao reconhecimento de palavras, processo que requer “atenção” para os detalhes fonéticos, os quais podem ser semelhantes ou diferentes da língua nativa. A percepção fonológica em L2, na perspectiva do ASP, constitui, nesse caso, uma atividade que demanda atenção e esforços cognitivos por parte do ouvinte para acessar as informações fonéticas e dela extrair as informações necessárias para captar a mensagem.
Quando se trata da língua nativa, o processo de recuperação da mensagem tende a ser automático; entretanto, na segunda língua, aprendizes, principalmente adultos, necessitam de um maior esforço cognitivo e devem requerer recursos de atenção para as formas não facilmente reconhecidas (STRANGE; SHAFER, 2008, p.171). Há, portanto, na aquisição da L1 um processo diferente do que ocorre com aprendizes de L2. A percepção da língua nativa envolve uma Percepção Seletiva Regular (SPRs), a qual se desenvolve e se torna automatizada com a experiência. Sendo assim, adultos não necessitam em sua L1 prestar atenção a detalhes fonéticos e recuperam a mensagem automaticamente (STRANGE, 2007, 2011). Na L2, diferentemente, aprendizes primeiro devem captar os detalhes fonéticos para então reconhecer os sons.
Frente a esse processo, para a proposta do ASP, a percepção de contrastes não nativos depende, entre outros fatores, da demanda da tarefa, a qual determina o grau de atenção envolvido no detalhe fonético dos estímulos. Postula-se que, quando os estímulos materiais são relativamente simples e a estrutura da tarefa direciona a atenção do ouvinte para um detalhe fonético específico, aprendizes de L2 podem responder sem maior esforço às diferenças entre os segmentos da L1 e os segmentos da L2.
Diferentemente, à medida que os estímulos materiais são mais complexos e as tarefas demandam maior esforço cognitivo, a hipótese é de que os aprendizes que não têm desenvolvida a Percepção Seletiva Regular (SPRs) para a L2, devem recorrer a esse recurso na L1. Por manter sua atenção ocupada na compreensão da mensagem, esses aprendizes podem falhar na discriminação de sons da L2. Se, de outra forma, o aprendiz de L2, depois de considerável experiência, já tem estabelecido a SPRs para a L2, a tendência é de que faça uso desse recurso para o reconhecimento de sons, embora não de forma automática como na L1.
Pressupõe-se, portanto, seguindo a proposta do ASP, que os estímulos cuidadosamente controlados, frequentemente utilizados em tarefas de discriminação e de identificação,
relativamente mais simples, devem acessar a habilidade perceptual em uma situação distante do real, não oferecendo um diagnóstico convincente da habilidade perceptual do aprendiz em situações cotidianas.
Em situações reais de comunicação, ouvintes necessitam fazer a identificação ou a discriminação de segmentos fonéticos e o reconhecimento de palavras em produções oriundas de diferentes falantes em um contínuo rápido de fala, ou seja, situações não ótimas e diferenciadas das situações de sala de aula ou de laboratório, em que há o controle de silêncio e as tarefas são bem definidas. O processo de reconhecimento de palavras em circunstâncias reais requer, consequentemente, maior atenção e esforço cognitivo para que ouvintes consigam extrair as informações fonéticas e relacionar os segmentos ouvidos com as representações já internalizadas em termos de categorias.
Perante tal situação, Strange (2011, p. 462) reivindica que, para dar conta do processamento e dos padrões de assimilação na L2, os experimentos devem ser realizados com materiais mais próximos dos discursos cotidianos com os quais os aprendizes estão envolvidos, o que implica cuidados, tais como a alternância dos falantes na produção dos estímulos a serem apresentados, bem como a variação dos contextos consonantais em que os segmentos analisados são inseridos. Nesse tipo de tarefa, além de atender ao sinal acústico, o ouvinte necessita “ignorar” diferenças não relevantes, como a variação intrafalante e a variação prosódica, entre outras, na produção dos estímulos. Isso, consequentemente, demanda um maior esforço cognitivo, mas permite um diagnóstico mais preciso da habilidade perceptual em situações linguísticas cotidianas.
As pesquisas em laboratório são ideais, principalmente para os contextos de aprendizagem formal, mas não dão conta de explicar o processo de aprendizagem em contexto natural ou em situações de imersão linguística, em que a aprendizagem acontece informalmente. Para pesquisas dessa modalidade, em que se encaixa o estudo aqui proposto, infere-se que as tarefas devam ser ajustadas de forma que os estímulos invoquem no indivíduo uma representação mais próxima do contexto real, tal como sugerem Strange e Shafer (2008, p. 169).
Se estamos interessados em diferenças interlinguísticas em processos de categorização fonética, materiais de estímulo devem incluir variabilidade intracategoria fonética assim como diferenças sistemáticas entre categorias. Encaixar os segmentos a serem diferenciados em contextos fonéticos e prosódicos variáveis também torna a tarefa ecologicamente mais válida e esclarece dificuldades relativas a realizações fonéticas particulares de contrastes não nativos. 9
Por tais reivindicações, o ASP oferece, para este estudo, uma reflexão importante em termos de elaboração de tarefas de percepção. Uma vez que o interesse desta pesquisa volta-se para o entendimento de como falantes adultos imersos à L2, em uma situação natural, adquirem contrastes fonológicos e processos variáveis, os experimentos devem atender a tal objetivo, de forma a captar o processo de aprendizagem em tarefas o mais próximo possível das situações cotidianas.
Se o indivíduo está inserido em um contexto natural da L2 e exposto a estímulos variáveis sem um controle de contexto ou de aspectos prosódicos produzidos por falantes diversos, as tarefas de percepção só podem fornecer um diagnóstico preciso da habilidade perceptual desses aprendizes com experimentos que contemplem variações contextuais e variações intrafalantes. No que tange aos aspectos variáveis, esse cuidado deve ser ainda maior, uma vez que, pressupõe-se, na percepção desses estímulos, não somente o sinal físico interfere na decisão (percepção), mas também informações referentes ao falante e às experiências linguísticas e não linguísticas, armazenadas pelo aprendiz na L1 e na L2.
Com isso, não se pretende defender que os experimentos sejam elaborados sem nenhum tipo de controle. O que se salienta é que a tarefa deve estar de acordo com os propósitos a serem avaliados, razão pela qual julga-se importante, para este estudo, trabalhar com estímulos reais, variar os contextos consonantais circundantes, o falante e as condições prosódicas de produção dos estímulos, questões que, segundo Strange e Shafer (2008, p. 169), tornam os experimentos mais adequados, à medida em que permitem diagnosticar as reais dificuldades dos aprendizes de L2.
As discussões envolvidas nesta seção apontaram para as contribuições de modelos teóricos como o SLM, o PAM-L2 e o ASP para o entendimento do processo de aprendizagem fonológica em L2. Embora as questões envolvidas estejam mais diretamente relacionadas ao processo de percepção de contrastes não nativos, previsões podem ser também apontadas no
9 If we are interested in cross-language differences in phonetic categorization processes, stimulus materials
should include within-phonetic-category variability as well as cross-category systematic differences. Embedding the to-be-differentiated segments in variable phonetic and prosodic contexts also renders the task more ecologically valid and will shed light on the relative difficulties of particular phonetic realizations of non-native contrasts (STRANGE; SHAFER, 2008, p. 169, tradução nossa).
que se refere à produção desses contrastes ou, mais precisamente, à relação entre as habilidades de perceber e de produzir. Flege (1995) assinala que a pronúncia de sons da L2 está relacionada com a percepção desses sons, o que implica o entendimento de que o indivíduo deve primeiro desenvolver a habilidade de perceber para então produzir os sons da língua. Entretanto, a relação entre as duas habilidades, perceber e produzir, conforme será exposto na seção subsequente, não necessariamente segue uma única direção.