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Conforme o exposto anteriormente, o SLM - Modelo de Aprendizagem de Fala
(FLEGE, 1995) oferece uma base teórica importante para o entendimento do processo de aprendizagem fonológica em L2. As concepções propostas pelo modelo referem-se a bilíngues com experiência na L2 e à aprendizagem que acontece em contextos de imersão linguística. Considerando que a principal dificuldade de falantes não nativos adultos é com a pronúncia na L2, geralmente marcada pelo sotaque estrangeiro, o SLM procura oferecer explicações referente aos limites de idade para o desenvolvimento da habilidade de percepção e produção de segmentos em segunda língua.
A premissa de que parte o modelo é a de que o sistema fonético usado na percepção e na produção de vogais e consoantes permanece adaptativo durante a vida e de que os sistemas fonéticos reorganizam-se em resposta aos sons encontrados na L2 através da adição de novas categorias ou através da modificação de categorias já existentes (FLEGE, 1995, p. 233). Adultos são, nesse sentido, hábeis para adquirir o sistema fonológico de uma nova língua, pois, à medida que ganham experiência na L2, tendem a gradualmente desenvolver habilidades de diferenciação de contrastes fonológicos.
Entende-se que, em um primeiro momento, os sons que compõem a L1 e a L2 encontram-se em um mesmo espaço fonológico, e sons da L2 são percebidos em relação a uma categoria fonológica já existente na L1. À medida que o indivíduo ganha experiência na L2, pode ocorrer o reposicionamento das categorias da língua-alvo em relação às categorias da língua nativa e a probabilidade é de que os sons da L2 passem a ser identificados como novas instâncias, separadas das categorias da L1.
Pelo exposto, seguindo a proposta do SLM, a aprendizagem de L2 é explicada em termos da formação ou não de uma nova categoria para os sons que são contrastivos na L2 e não contrastivos na L1. São previstos, desse modo, segundo Flege (1995), dois diferentes mecanismos no processo de aquisição: a assimilação e a dissimilação. O mecanismo de
assimilação deve ocorrer quando uma nova categoria para os sons da L2 não é estabelecida e
esses sons são percebidos como equivalentes aos sons da L1. O mecanismo de dissimilação, por sua vez, acontece quando há a formação de novas categorias para os sons da L2 e os sons são identificados como instâncias diferentes da L1.
Nesse sentido, o SLM prediz, assim como a Análise Contrastiva, referida no início desta seção, que a L1 tem um importante papel no processo de aquisição da L2 e concorda
com o postulado de que muitas das dificuldades dos aprendizes podem ser explicadas com base na influência da L1 sobre a L2. Entretanto, diferentemente da explicação dada pelo modelo contrastivo, o SLM postula que os sons da L2 similares aos sons da L1 devem ser os mais difíceis para o aprendiz, o que se explica pelo fato de que, em razão da semelhança, esses sons são frequentemente associados e assimilados em relação às categorias já existentes da L1. A pressuposição do modelo é de que, nesses casos, a formação de categorias para os sons da L2 deve ser bloqueada pelo “mecanismo de equivalência”, isto é, uma única categoria fonética deve ser usada para, perceptualmente, processar os sons da L1 e os sons da L2 (FLEGE, 1995, p. 239).
Dificuldades na percepção e na produção de sons da L2 podem assim ser preditas com base na similaridade e na distância entre os sons da L1 e os sons da L2. Considerando a distribuição dos sons no espaço fonético, pressupõe-se que, quando os sons da L2 são próximos e similares aos sons da L1, a tendência é de haver maior dificuldade na percepção e na formação de novas categorias para esses sons, o que pode resultar em uma pronúncia inadequada. Por outro lado, quando os sons da L2 são distantes e foneticamente distintos dos sons da L1, a probabilidade é de ocorrer o mecanismo de dissimilação ou de formação de novas categorias.
Ou seja, a proposta do SLM sustenta que quanto mais distante for o som da L2 em relação ao som da L1, maior é a probabilidade de o aprendiz perceber a distinção e, consequentemente, formar categorias separadas para esses sons. Por outro lado, subtende-se que, quanto mais próximos dois sons, maior será a tendência para ocorrer o processo de assimilação ou a falha na formação de novas categorias para os sons da L2. Nesse caso, a exemplo do presente estudo, as vogais médias /e/ e /o/ do português, próximas e semelhantes às vogais /e/ e /o/ existentes tanto no espanhol quanto no português, tendem, inicialmente, a ser percebidas e assimiladas por falantes nativos do espanhol como instâncias referentes a uma mesma categoria, a qual corresponde às vogais presentes na língua nativa, no caso /e/ e /o/, respectivamente. Com o tempo e a contínua exposição à língua-alvo, esses aprendizes devem separar as duas categorias de vogais médias que fazem parte do sistema da L2. Uma nova categoria de vogais, então, deve ser formada e as vogais médias abertas (/ε/ e /o/) devem ser diferenciadas das vogais médias fechadas (/e/ e /o/).
Nesse caso, a partir da proposta do SLM e das previsões em relação aos processos de
aprendizagem dos contrastes entre vogais médias do português /e/ - /ε/ e /o/ - /o/ por falantes nativos do espanhol, as quais são expostas a seguir.
a) Vogais da L2 são percebidas como b) Nova categoria é formada para sons da L2
equivalentes a uma dada categoria da L1 /e/ (L2) /e/ (L1) /ε/ /e/ /e/ /ε/ /ε/ /o/ (L2) /o/ (L1) /o/ /o/ /o/ /o/ /o/
A possibilidade (a) deve ocorrer nos estágios iniciais da aprendizagem, nos casos em que as vogais da L2, não existentes no sistema fonológico da L1 (/e/ e /o/), são assimiladas em uma única categoria da L1, ou seja, quando há o processo de assimilação ou a não formação de novas categorias para as vogais da L2. Diferentemente, a possibilidade (b) deve representar os casos em que se verifica o processo de dissimilação, em que uma nova categoria é formada para os sons da L2 e, por conseguinte, o aprendiz percebe as vogais /e/ e /o/ como categorias distintas das vogais /e/ e /o/.
Pode-se pressupor também, com base no SLM, que as falhas na percepção de sons da L2 são frequentemente explicadas pelo fato de que o indivíduo deixa de prestar atenção nos detalhes fonéticos que diferenciam os sons da L2 em relação aos sons da L1. Diante disso, supõe-se que o treinamento e o foco em pistas específicas que diferenciam os sons da L1 e da L2 podem contribuir para o bom desempenho na percepção e na produção de sons não nativos. São, dessa forma, esperadas diferenças individuais no processo de percepção e de produção e correlação com outras variáveis, tais como a quantidade de exposição à língua e o acesso ou não à instrução formal na língua-alvo.
Desse modo, entende-se que o SLM, proposto por Flege (1995), constitui base teórica apropriada para a explicação das dificuldades envolvidas no processo de aquisição fonológica de L2. No caso deste estudo, o modelo mostra-se adequado para explicar as proposições referentes à percepção e à produção de contrastes não nativos (i) pela proposta do modelo adequar-se aos aprendizes de L2 em situação de imersão linguística e (ii) por ser avaliado aqui como o modelo mais adequado para os tipos de experimentos de percepção aplicados nesta pesquisa. Percepção do aprendiz Percepção do aprendiz (L2) (L2)
Devem também ser consideradas para este estudo algumas das predições apontadas pelo PAM (BEST, 1995) e pelo subsequente modelo PAM–L2 (BEST; TYLER, 2007). Embora o SLM e o PAM constituam modelos com propostas distintas, conforme será discutido na seção que segue, assemelham-se no que se refere às previsões quanto à influência da língua nativa na aprendizagem fonológica da L2. Em alguns pontos, o PAM mostra vantagem em relação ao SLM: primeiro, por deixar explícita a base teórica na qual a avaliação de similaridade entre os sons da L1 e os sons da L2 se apoia; segundo, por fornecer previsões que sustentam também aspectos relacionados à variação fonética.