1. KONUNUN TAKDİMİ, ÖNEMİ VE SINIRLANDIRILMASI
1.3. KONUNUN SINIRLANDIRILMASI
2.1.1. Kamu Alacağı Kavramı
Após essa breve introdução relativa à crítica, hora de voltar aos textos de Rilke
shake. Leia-se o poema “treze de outubro”:
escrever um poema sem calor em são paulo
quando eu morava na augusta, escrevia poemas sobre a augusta a augusta não me deixava dormir
(escrever um poema em que se durma na augusta e sobretudo, escrever um poema sobre dormir sem você.) esta é a primavera fajuta da delicadeza (não consigo terminar este poema).
(FREITAS, 2007, p. 52)
Aqui a metalinguagem é explícita: entre a primeira palavra, “escrever”, e a última, “poema”, entre o projeto e o objeto é que a poesia pode acontecer. Estatisticamente, a carga metalinguística também é densa: o substantivo “poema” aparece seis vezes em oito versos, e o verbo “escrever” (no infinitivo ou no pretérito imperfeito) aparece quatro vezes. Formalmente, o poema é composto de quatro parelhas, sem rimas, em verso livre, marcado pelas interpolações em parêntesis.
De saída, a primeira estrofe apresenta a imagem de uma São Paulo impossível, gélida, estática, esvaziada, sem a avenida que simboliza o centro comercial e financeiro da metrópole. Segundo Giorgio Agamben (2009), no ensaio “O que é o
contemporâneo?”, a adesão ao presente se dá pelo deslocamento e pelo anacronismo.
Esta imagem de São Paulo apresentada no poema é anacrônica, de acordo com a segunda acepção do vocábulo no dicionário: “atitude ou fato que não está de acordo com sua época” (HOUAISS, 2001). Sharon Zukin (1995, p. 7) destaca a economia simbólica da cidade: “The look and feel of cities reflect decisions about what – and who – should be visible and what should not, on concepts of order and disorder, and on uses of aesthetic power”. Angélica Freitas, portanto, pavimenta uma São Paulo desconhecida, revelando o desejo por uma cidade sem a cacofonia urbana, os milhares de estímulos, ruídos e encontros, marcados e aleatórios, previstos e imprevistos, escapáveis e inescapáveis na metrópole.
Compare-se esta imagem à da Avenida Paulista em 1906: “Quando as irmãs da Ordem de Santa Catarina adquiriram o terreno para construir a sede da sua congregação,
nesse trecho da avenida Paulista nada existia senão ilhotas de vegetação e caminhos sinuosos” (PORTO, 1996, p. 133, grifos nossos). Agamben argumenta que ser
contemporâneo é perceber o arcaico no presente, identificar a origem, retornar a um presente que não vivemos: “reconhecer nas trevas do presente a luz que, sem nunca poder nos alcançar, está perenemente em viagem até nós” (AGAMBEN, 2009, p. 66).
enunciação de um sujeito lírico que se afirma, e que afirma uma possibilidade de escrita: "quando eu morava na augusta, escrevia poemas sobre a augusta". O advérbio de tempo "quando" combinado ao pretérito imperfeito de "morava" instaura no poema um tempo anterior – tempo subjetivo57, um tempo em que a escrita era possível; mais que possível: realizável. Este desejo por uma metrópole vazia encontra, então, seu significado: a criação de um espaço em que a escrita possa se realizar.
Qualquer discussão relativa à poetas e cidades remete a Platão. A história é conhecida: n’A República, baseado em uma crítica moral, Sócrates expulsa os poetas da república sob as acusações de que eram “criadores de fantasmas, ignorantes, charlatães, corruptores da juventude, ímpios” (FATONE, 2012, p. 3), nocivos pela capacidade de corromper a educação dos jovens atenienses. Angélica Freitas opera uma inversão na lógica platônica: na cidade desejada em “treze de outubro” tudo que simboliza e personifica São Paulo está expulso, com exceção da poeta. A criação dessa São Paulo alternativa, entretanto, não conduz à resolução do impasse, antes à sua intensificação. O impasse é tamanho que a dificuldade de escrita se torna mais dramática a cada estrofe, culminando na conclusão do verso final, no qual a crise da poesia, e do poeta, pulsa com máximo vigor. Cumpre notar que o desejo por solidão e isolamento parece uma das forças que impulsionam a poesia de Angélica Freitas ao longo de Rilke shake.
Na terceira e na quarta estrofes o desejo de escrita se amarra ao desejo amoroso (e à falta, em ambos os casos) quando o sujeito lírico deseja escrever um poema “sobre dormir sem você”; o enjambement praticado entre as estrofes intensifica a experiência da falta por causa da hesitação entre o corte sintático e a continuação semântica. Com seu reconhecimento de que “esta é a primavera fajuta da delicadeza”, o penúltimo verso denuncia a consciência metalinguística e a crítica do lirismo: o sujeito lírico sabe que a linguagem só consegue denunciar a falta, que seu desejo mesmo é o ser amado, ou ao menos escrever um poema em que seja possível dormir sem o ser amado, uma vez que na realidade “dormir sem você” deixa o sujeito lírico intranquilo e confuso. O verso final, autoconsciente, soa como uma confissão sobre a experiência da escrita. Surge aqui um lirismo como que enviesado, no qual o peso metalinguístico reforça o amoroso58, em uma união potencializadora do sentimento reflexivo, ambíguo de solidão.
57 De acordo com Benedito Nunes o tempo subjetivo é aquele “vivido da duração interior, psicológica, não coincidente com as medidas temporais objetivas” (1998, p. 135).
58 Impossível deixar de lembrar de um fragmento de Barthes em seu Fragmentos de um discurso amoroso (1988, p. 93): “Saber que não se escreve para o outro, saber que as coisas que vou escrever não me farão nunca amado por aquele que amo, saber que a escritura não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente aí onde você não está – é o começo da escritura”.
O título “treze de outubro”, escrito por extenso, não remete a nenhuma data comemorativa nem a algum lugar específico, embora guarde o elemento do aspecto diarístico (subvertido, se comparado, por exemplo, à anotação das datas em Luvas de
pelica, de Ana Cristina Cesar), abrindo o poema para a ambiguidade e para a indeterminação: treze de outubro é a data em que o poema foi escrito, a data em que algum dos poemas foi planejado, a data em que o poema terminou inacabado etc.? Mais do que a busca da resposta definitiva, “treze de outubro” é a data da crise.
2.7.3 Metalinguagem
Ramon Pérez Parejo define metalinguagem como produto e reprodução do relato a partir do conceito de mise en abyme, conforme desenvolvido por Lucien Dällenbach. Nesse tipo de construção em abismo, de acordo com o teórico espanhol, “la obra se vuelve sobre sí misma, se manifiesta como reflejo de todo su conjunto. Recuerda su propia creación y condición de representación” (PAREJO, 2002, p. 117). Dentro do
mise en abyme é possível discernir dois tipos de construções metalinguísticas59: a
reduplicação simples e a reduplicação paradoxal. Na primeira, temos a história dentro da história, como no exemplo de Hamlet, de William Shakespeare. Na segunda, temos a obra falando de si própria, como no exemplo de Don Quijote, de Miguel de Cervantes.
No caso específico do poema “treze de outubro” ocorrem as duas reduplicações. A reduplicação simples é aqui representada pelos poemas dentro dos poemas, os quais se desdobram por contiguidade, detonados pela explosão da memória (“quando eu”) e das recordações (“dormir sem você”); pode-se analisá-la da seguinte maneira: a) o próprio poema “treze de outubro”, que funciona como a moldura na qual o próprio poema se aprofunda; b) o projeto de um poema sobre a cidade de São Paulo; c) as referências aos poemas escritos na e sobre a Rua Augusta; d) o projeto de poemas sobre dormir na Rua Augusta; e) o projeto do poema sobre “dormir sem você”. A reduplicação paradoxal ocorre na evidente dimensão metalinguística do poema, na crítica poética levada a cabo pelo sujeito lírico, principalmente na estrofe final, quando discute a organização da linguagem exposta e seu estatuto como poeta incapaz de
59 Parejo (2002) cita ainda um terceiro tipo de reduplicação, a ilimitada, e dá como exemplo a heráldica. Tal reduplicação, contudo, não é discutida mais alongadamente, provocando dúvidas sobre sua possibilidade de aplicação prática.
terminar o poema.
Dado que uma das funções da metalinguagem é “garantizar el código, revisarlo y redefinirlo” (PAREJO, 2002, p. 115), o poema de Angélica Freitas levanta alguns questionamentos prementes no contexto da poesia contemporânea.
Uma vez que a poesia de “treze de outubro” ocorre entre os intervalos dos projetos de escrita e seus objetos, os poemas, esta construção poética também faz repensar o lugar do poeta, não mais identificado com as concepções platônicas do poeta inspirado pelos deuses (vide Íon, de Platão), nem mais o gênio criador romântico semelhante a um demiurgo. Ao questionamento da hierarquia do poeta se liga o questionamento do gênero lírico tradicional,
[…] in which the isolated speaker (whether or not the poet himself), located in a specific landscape, meditates or ruminates or some aspect of his or her relationship to the external world, coming finally to some sort of epiphany, a moment of insight or vision with which the poem closes (PERLOFF, 1985, p. 157).
Como se vê, o sujeito lírico neste poema de Angélica Freitas não está acima do leitor, não consegue iluminar seu estar-no-mundo60 senão através do reconhecimento da crise, comunicada ao leitor de forma problemática: “o poema está em luta consigo mesmo. Por isso está vivo” (PAZ, 1982, p. 231). Esta crise é vista, no plano formal, na própria interrupção do discurso, interpolado pela presença dos parêntesis. No plano do conteúdo, a crise se ressalta nas constantes mudanças de tema, nas reduplicações simples e paradoxal: em lugar de se fixar em um assunto, o sujeito lírico salta pelos poemas conforme os versos avançam. Como afirma Marcos Siscar (2010, p. 178-9), em seu livro sobre as relações entre poesia e crise na modernidade e na poesia contemporânea, “‘a poesia’ não é exatamente aquilo que está em crise, mas é o nome da própria crise, daquilo que impõe e explicita a experiência do impasse e dá forma ao escrito”. Esta experiência do impasse é o que abre o poema (e os poemas dentro do poema) ao leitor, desafiado em suas expectativas habituais e convidado a habitar os intervalos e os espaços não ocupados pelo poema inacabado; é neste estado de suspensão que a leitura e a poesia acontecem.
O poema de Angélica Freitas desloca a ênfase para o processo e não para a
60 Segundo Marjorie Perloff (1985), na poesia contemporânea a subjetividade lírica não objetiva mais organizar a narrativa em direção à epifania mallamairca, nem busca uma “alquimia verbal” ou “purificar as palavras da tribo”. Este argumento tem sua contrapartida na análise e crítica de Paulo Henriques Britto (2000) e Ricardo Domeneck (2006), como discutido no item 2.2.
realização, comunica a experiência da tentativa, na qual a memória e a recordação impulsionam mas também atravancam o poema, desdobrando-o e dobrando-o em uma construção em abismo metalinguística. “Treze de outubro” promove uma abertura para a indeterminação: o solto, o contingente, o incompleto e a incompletude da e na linguagem e experiência.