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3.4. İç Denetçinin Görevleri

3.5.2. Üniversitelerin Finansmanı İle İlgili Değişiklikler

3.5.2.3. Kalite Güvencesi

A história da produção cafeeira brasileira é essencial para a contextualização das atividades econômicas da cidade de São José do Rio Pardo. O tema foi alvo de uma gama de autores que analisaram a situação do café no contexto brasileiro, demonstrando sua importância e seu atrelamento ao desempenho financeiro do país. Esses autores também discutem a decadência dos cafezais e as crises relativas ao produto, especialmente, as supersafras do início do século XX. 74

Ana Luiza Martins tentou estabelecer um levantamento da historiografia do café e observou as dificuldades dessa sistematização. Para tentar minimizar esse problema e abarcar o máximo de obras possível, ela dividiu a bibliografia em alguns

74

Para a história do café, ver: BAPTISTA FILHO, Olavo. A fazenda de café em São Paulo. Rio de Janeiro: Serviço de Informação Agrícola, 1952; HUNNICUTT, Benjamim H. Produção Agrícola no

Brasil. Rio de Janeiro: SNA, 1925; MERGULHÃO, Benedicto. Santa inquisição do café. [Rio de

Janeiro]: Irmãos Pongetti, 1940; MINAS GERAIS. Minas e o Bicentenário do cafeeiro no Brasil, 1727-

1927. Contribuição da Secretaria da Agricultura do Estado de MG. Belo Horizonte: Imprensa Oficial,

1929. MOTA SOBRINHO, Alves. A civilização do café (1820-1920). 2.ed./rev. São Paulo: Brasiliense, [19-]; RAMOS, Augusto. O café no Brasil e no estrangeiro. Rio de Janeiro: Pop. Santa Helena, 1923; TAUNAY, Affonso de E. História do café no Brasil, no Brasil colonial, 1727-1822. Rio de Janeiro: Dep. Nacional do Café, 1939, tomo II. Sobre a historiografia da produção cafeeira: SILVA, Sérgio.

Expansão cafeeira e origens da indústria no Brasil. São Paulo: Editora Alfa-Ômega, 1978;

HOLLOWAY, Thomas. Vida e morte do Convênio de Taubaté: a primeira valorização do café. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978; DELFIM NETTO, Antônio. O problema do café no Brasil. São Paulo: IPE/USP, 1981; LIMA, João Heraldo. Café e indústria em MG (1870-1920). Petrópolis: Vozes, 1981; NOZOE, Nelson Hideiki. São Paulo: economia cafeeira e urbanização. São Paulo: IPE/USP, 1984, entre outros.

grupos por data e assunto. Segundo ela, no século XIX e início do século XX, os textos se referiam às técnicas de plantio e divulgação da lavoura. Nos anos de 1920, 1930 e 1940, a produção historiográfica voltava-se para a história econômica brasileira. Nos anos de 1950, Martins observou que a bibliografia da cafeicultura estava relacionada ao 4º centenário da cidade de São Paulo e foram produzidas matérias em jornais e alguns trabalhos acadêmicos sobre o tema. Nos anos de 1960, os brasilianistas adotaram o assunto e se dedicaram aos estudos da rubiácea, produzindo uma série de obras de análise da produção cafeeira em seus diversos aspectos. Por fim, Martins define que, com a entrada dos anos de 1970, as produções acadêmicas sobre a cafeicultura tomaram novos rumos e diversificaram ainda mais a abordagem, lidando com o tema associado a muitos outros que contribuem para a compreensão da atividade e de sua história.75

Para conhecermos a participação econômica de São José do Rio Pardo na economia cafeeira do último quartel do século XIX é necessário fazer um pequeno apanhado da cafeicultura no vale do Paraíba. O intuito disso é compreendermos o deslocamento da cultura do café do vale para o oeste paulista.

Alves Motta Sobrinho contextualiza a chegada da rubiácea ao Brasil. Segundo ele, o café atingiu as terras brasileiras pelo norte, na província do Amazonas, no primeiro quartel do século XVIII. Foi levado para o Maranhão no terceiro quartel daquele século e, em 1774, desceu para o Rio de Janeiro, pelas mãos do Dr. J. Gualberto Castelo Branco76, que plantou mudas em um jardim. O primeiro cafezal foi cultivado nos arredores da cidade do Rio de Janeiro por um belga que multiplicou as sementes trazidas do Maranhão. Em 1817, D. João VI distribuiu sementes de café que vieram de

75

MARTINS, Ana Luiza. Historiografia do café: sugestão de percurso. In: II Seminário de História do

Café - História e Historiografia, 2. 2008, Itu. Anais... Itu, Museu Paulista, 2008. Disponível em <

http://memoria.fundap.sp.gov.br/memoriapaulista/sites/default/files/publicacao/TEXTO_COMPLETO_A NA_LUIZA.pdf> Acesso em 01 set 2013.

76

Roberto Simonsen afirma que o nome do desembargador era João Alberto Castello Branco e ele teria levado mudas de café do Pará para o Rio de Janeiro. SIMONSEN, Roberto C. Aspectos da história

econômica do café: contribuição para o Congresso de História Nacional, promovido pelo IHGB, em

Moçambique entre fazendeiros locais e as plantações foram feitas em chácaras na Tijuca e Corcovado, em sítios na baixada fluminense e dali para o vale do Paraíba fluminense e paulista.77 Nessa região floresceram, então, os primeiros cafezais de produção para o mercado externo.

Nos mapas a seguir, a cor vermelha indica a localização dos vales do Paraíba fluminense e paulista.

Na página seguinte, segue um mapa que reúne as informações das duas regiões, identificando-as com sua continuidade peculiar. A extensão da região paulista é maior que a fluminense.

77

MOTTA SOBRINHO, Alves. A civilização do café (1820-1920). 3 ed. São Paulo: Brasiliense, 1978. Mapa figurativo 1 e 2: da esquerda para a direita, mapa do Vale do Paraíba paulista e fluminense. (sem escala)

Fontes: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Fi cheiro:SaoPaulo_Meso_ValedoParaibaPa ulista.svg> e <http://pt.wikipedia.org/ wiki/Ficheiro:RiodeJaneiro_Micro_Valed oParaibaFluminense.svg>

Os vales do Paraíba fluminense e paulista foram ocupados pelos cafezais ao mesmo tempo, começando nas primeiras décadas do século XIX e convivendo com a

Mapa figurativo 3: Vale do Paraíba paulista e fluminense. Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/co mmons/2/28/Vale_do_Para%C3%ADba.P NG

Mapa 4: Áreas Produtoras de Café RJ/SP no vale do Paraíba paulista e fluminense. Fonte: O PROCESSO de Ocupação do Estado de São Paulo. Disponível em <http://www1.univap.br/sandra/ocupacao.pdf> Acesso em 15 out. 2013.

cana-de-açúcar já existente no local desde o século XVII. Em 1830, ainda havia canaviais no vale, plantados lado a lado aos cafezais.78

Segundo Motta Sobrinho, o processo de produção cafeeira se inicia com a aquisição de mão de obra cativa e terras para o plantio, investimento alto para uma cultura que demorava alguns anos para florescer. Em seguida, eram plantados os cafeeiros e se aguardava o momento da floração. Isso ocorria após quatro anos e a primeira florada ainda não oferecia uma boa safra porque o pé era jovem.

O cotidiano do cultivo, segundo o autor, se modificando com o tempo, o que gerou “o aumento da produção e dos lucros”.79

Cita a fazenda de Resgate, em Bananal, estudada anos depois por diversos autores, como Hebe Castro e Eduardo Schnoor80, e Rafael Marquese, que analisa a paisagem da fazenda, suas benfeitorias e seu cotidiano.81 Stanley Stein também se dedica às fazendas cafeeiras e estuda aquelas da região de Vassouras no Vale do Paraíba. Ele descreve sua economia, analisando as plantações, a mão de obra, sua vida social, discutindo o papel dos homens livres e dos cativos, e, por fim, a decadência desses empreendimentos com o envelhecimento dos pés e o desgaste da terra.82

Relativo ao estado de São Paulo, Roberto Simonsen afirma que as fazendas se dedicavam ao açúcar, antes da produção cafeeira. Com a expansão das lavouras de café, a rubiácea tornou-se principal produto, mas a atividade açucareira não

78

MOTTA SOBRINHO, op. cit., 1978. O autor não cita a região da Zona da Mata Mineira, onde havia muitas e representativas fazendas de café, como a fazenda Santa Clara, dos Fortes de Bustamante, ou a fazendas de Cataguazes entre outras. MACHADO, Marina Monteiro. Entre fronteiras: terras indígenas

nos sertões fluminenses (1790-1824). Tese de doutorado apresentada a UFF, ICHF, Departamento de

História, 2010. CASTRO, Celso Falabella de Figueiredo. Os sertões de leste: achegas para a história

da Zona da Mata. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987. Essa obra cita algumas fazendas de café na

região, mas pouco contextualiza seu funcionamento e cotidiano.

79

MOTTA SOBRINHO, op. cit., 1978, p.52

80

CASTRO, Hebe Maria Mattos de; SCHNOOR, Eduardo (Org.). Resgate. Uma janela para o

oitocentos. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995 81

MARQUESE, Rafael de Bivar. O Vale do Paraíba cafeeiro e o regime visual da segunda escravidão: o caso da fazenda Resgate. Anais do Museu Paulista, vol.18, n° 1, São Paulo, Jan./June 2010.

82

STEIN, Stanley. Grandeza e decadência do café no Vale do Paraíba: com referência especial ao

foi abandonada e seguia em segundo lugar na região, ainda que com grande distância da primeira em números. Para Simonsen, o oeste paulista, que não é definido por ele de maneira precisa, já produzia café antes da chegada das ferrovias. Com o avanço do transporte ferroviário, o escoamento das sacas pôde, então, ser realizado com mais facilidade, o que impulsionou a atividade e acelerou o processo de decadência da cafeicultura fluminense.

Sandra Lima, em “O oeste paulista e a república”, afirma que o caminho da cafeicultura em São Paulo seguiu do Vale do Paraíba para o Oeste Paulista e, mais tarde, para o Novo Oeste.83 Essas denominações são arbitrárias e escolhidas pelos estudiosos segundo critérios pouco definidos. Encontramos algumas classificações diferentes para essas áreas, mas as mais usadas foram o oeste paulista dividido em novo e velho. Este último engloba as atuais mesorregiões de Campinas, Araraquara e Piracicaba e o novo as de Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Bauru, Araçatuba, Marília e Presidente Prudente. Sandra Lima diferencia a produção de café do Vale do Paraíba com aquela realizada pela região do Oeste Paulista, observando nessa última um maior dinamismo e desenvolvimento tecnológico, mas não diferencia o velho do novo.

Sérgio Milliet estudou o café em sua obra “Roteiro do café e outros

ensaios”84. Segundo ele, a produção cafeeira passou pelo estado de São Paulo causando grandes mudanças geográficas, econômicas, demográficas e culturais. Onde chegava, o café ocupava as paisagens, atraía mão de obra e desgastava o solo. Com o desgaste da terra, a cafeicultura migrava para novas fazendas e deixava ali as marcas do tempo áureo da produção e o esvaziamento local. Desses vestígios, o autor compreende que é possível traçar um roteiro do café em São Paulo e, para isso, estabelece mapas com a ocupação dos cafeeiros nas terras paulistas. No mapa que ele define como “Esquema da

83

LIMA, Sandra Lúcia Lopes. O oeste paulista e a república. São Paulo: Vértice, 1986.

84

MILLIET, Sérgio. Roteiro do café e outros ensaios. 4 ed. Ver e aum. São Paulo: Editora HUCITEC, 1982.

invasão cronológica do café”, o autor estabelece que São José do Rio Pardo foi ocupado

pelos cafezais em 1886, concordando com outros autores que definiram o crescimento de São José a partir dos anos de 1870/1880.

Segundo Rodolpho José Del Guerra, São José do Rio Pardo foi ocupada por grupos de migrantes e imigrantes; pelos primeiros na primeira metade do século XIX e pelos segundos a partir do final dos anos de 1870 e início dos de 1880. O primeiro grupo era formado por paulistas de outras regiões do estado, mineiros e negros associados às famílias mineiras, que chegaram àquelas terras em dois momentos: nos dois primeiros quartéis do século XIX e, mais tarde, nos anos de 1860 e 1870. Os migrantes mineiros foram para São José para adquirir novas terras e produzir café. Já o segundo grupo chegou a partir do final dos anos de 1870 e início dos de 1880. Eram imigrantes italianos trazidos ao Brasil para trabalharem nas fazendas cafeicultoras do

Mapa 5. Ocupação dos cafezais em São Paulo. Adaptado do mapa “Esquema da invasão cronológica do café” de Sérgio Milliet. Fonte: MILLIET, Sérgio. Roteiro do

café e outros ensaios. 4 ed. Ver e aum. São Paulo: Editora HUCITEC, 1982.

oeste de São Paulo, mas que também se empregaram em atividades urbanas, como sapataria, comércio, costura e construção.

A mudança do primeiro grupo para São José do Rio Pardo estava atrelada à aquisição de fazendas para plantio do café. Isso significava uma nova concepção para a terra, ligada à formação de um futuro mercado. No Brasil colonial e imperial, as propriedades rurais eram ofertadas pelo Estado a partir da doação de sesmarias, até que em 1850, a Lei de Terras, Lei nº 601 – de 18 de setembro de 1850, previu em seu artigo quinto que as áreas ocupadas por meio de posse mansa e pacífica e cultivadas passavam a ser legitimadas, garantindo a propriedade desses terrenos.85 Por outro lado, no artigo 11, a lei previa o pagamento de um imposto no valor de 9$000 réis86, o que ultrapassava, algumas vezes, o valor da terra, como era o caso das fazendas em Goiás. Monbeig afirma que houve uma especulação no oeste de São Paulo e os terrenos dobravam de preço a cada venda e esse dinheiro era usado para adquirir terras mais baratas mais a oeste e ao norte e plantar outras lavouras de café.87

Não encontramos documentos que mencionassem o valor do hectare em São José do Rio Pardo, mas utilizamos números de localidades próximas. Carlos de Almeida Prado Bacellar analisa o mercado de terras em Ribeirão Preto, Batatais e Orlândia, também no oeste paulista. Os dados dispostos no quadro 2 indicam a

85

Art. 5.º Serão legitimadas as posses mansas e pacificas, adquiridas por occupação primaria, ou havida do primeiro occupante, que se acharem cultivadas, ou com principio de cultura e morada habitual do respectivo posseiro ou de quem represente, guardadas as regras seguintes:

§ 1.º Cada posse em terras de cultura, ou em campos de criação, comprehenderá, além do terreno aproveitado ou do necessário para pastagem dos animais que tiver o posseiro, outro tanto mais de terreno devoluto que houver contíguo, contanto que em nenhum caso a extensão total da posse exceda a de uma sesmaria para cultura ou criação, igual ás ultimas concedidas na mesma comarca ou na mais vizinha. BRASIL. Lei de Terras, Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850.

86 “Art. 11. Os posseiros serão obrigados a tirar titulos dos terrenos que lhes ficarem pertencendo por

effeito desta Lei, e sem elles não poderão hypothecar os mesmos terrenos, nem alienal-os por qualquer modo.

Esses titulos serão passados pelas Repartições provinciaes que o Governo designar, pagando-se 5$ de direitos de Chancellaria pelo terreno que não exceder de um quadrado de 500 braças por lado, e outrotanto por cada igual quadrado que de mais contiver a posse; e além disso 4$ de feitio, sem mais

emolumentos ou sello.” BRASIL. Lei de Terras, Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850. 87

valorização do preço das fazendas. Reunimos duas tabelas elaboradas pelo autor em apenas uma para compararmos os dados das duas regiões.

Quadro 2

Quadro dos Preços do Hectare em Ribeirão Preto, Batatais e Orlândia88

Anos Valores em

Ribeirão Preto Batatais e Orlândia

1850-1859 - 3$996 1860-1869 - 7$927 1876 3$845 - 1878 8$440 - 1870-1879 - 9$364 1879-1883 14$592 - 1884 23$603 - 1885 25$572 - 1886-1888 32$624 - 1880-1889 - 16$932 1891 31$068 - 1890-1899 - 47$272

Fonte: BACELLAR, Carlos de Almeida Prado. “Uma rede fundiária em transição”. In.: BACELLAR,

Carlos de Almeida Prado (org). Na estrada do Anhangüera: uma visão regional da história paulista. São Paulo: Humanitas FFLCH/USP, 1999, p. 92-116.

Podemos observar no quadro que os preços da terra aumentaram muito dos anos de 1850 para 1890. Segundo Bacellar, isso ocorreu por causa da demanda criada pela cafeicultura. Ele cita alguns exemplos de terrenos vendidos em São Simão por 169$000 o alqueire, em 1888, e 826$000, em 1896. Para ele, a chegada da ferrovia, especialmente em Ribeirão Preto, teve papel fundamental na valorização das propriedades. Assim, partindo desse argumento, podemos sugerir que os hectares em São José do Rio Pardo também se supervalorizaram nos anos de 1870 a 1890, seguindo os parâmetros do mercado regional. Desde 1880, São José do Rio Pardo era contemplada com o transporte ferroviário para que as sacas de café seguissem em

88

Dados retirados das declarações de pagamento do imposto da sisa e dos processos de divisão e demarcação de terras existentes nos cartórios dos Fóruns de Batatais e Orlândia, 1846-1899.

BACELLAR, Carlos de Almeida Prado. “Uma rede fundiária em transição”. In.: BACELLAR, Carlos de

Almeida Prado (org). Na estrada do Anhangüera: uma visão regional da história paulista. São Paulo: Humanitas FFLCH/USP, 1999, p. 92-116.

direção ao Porto de Santos. Isso, provavelmente, aumentou os valores das terras da localidade.

Os investimentos financeiros se intensificaram no oeste paulista com o deslocamento da economia cafeeira do vale do Paraíba para as terras roxas. Rodrigo Fontanari estuda “o crédito no complexo cafeeiro” e afirma que ele era “„multifacetado‟, ou seja, subsistiram diferentes modalidades de financiamentos na

cadeia creditícia”. Esses financiamentos estavam, para ele, associados à cafeicultura e

eram fundamentados em hipotecas e penhores agrícolas. Inicialmente, os escravos eram os principais bens fornecidos como abono para o crédito; mais tarde, as propriedades e as safras de café passaram a ser as principais garantias dos fazendeiros para obter os empréstimos necessários à produção. Fontanari observou que os menores produtores tinham mais dificuldades em obter boas quantias com juros baixos e prazos longos, em detrimento dos maiores que, por terem mais dinheiro, recebiam mais apoio na obtenção do crédito.89 Nesse sentido, podemos perceber que a concepção da terra passou por modificações nesse processo de expansão cafeeira para o oeste paulista. A valorização do bem para venda e como garantia para empréstimos e a existência de um mercado passou a ser uma realidade entre os fazendeiros e negociantes de capitais.

Para além de seu sentido econômico, a terra representava poder e um dos exemplos disso está na formação da freguesia de São José do Rio Pardo. A formalização da propriedade doada para a igreja foi feita em um momento ritualístico, em que a terra figurava simbolicamente como principal vínculo entre o ato de doar e a constituição da capela. No ano de 1872, quando a igreja ficou pronta90, Antônio Marçal Nogueira de Barros aguardava a bênção do bispo para a consagração da capela. O sacerdote, porém,

89

FONTANARI, Rodrigo. O problema do financiamento: uma análise histórica sobre o crédito no

complexo cafeeiro paulista. Casa Branca (1874-1914). Franca: [s.n.], 2011. 90

DEL GUERRA, Rodolpho José. No ventre da terra mãe (São José do Rio Pardo). São José do Rio Pardo, SP: Graf-Center, 2001.

afirmou que só poderia fazê-lo com a regularização dos registros do patrimônio doado. Para isso, era necessário formalizar a posse da terra, que era feita a partir do uso do terreno para plantio de árvores e abertura de lavoura, como previsto na lei de terras. Assim, Antônio Marçal Nogueira de Barros, diante do tabelião e de testemunhas, realizou uma espécie de ritual oficial: “cortou ramos de uma árvore e com eles cavou a

terra”, selando-se como possuidor da gleba doada.91 Ao que tudo indica, o bem já era considerado pela comunidade como propriedade de Barros, que estava ali desde a primeira metade do século XIX, mas o bispo, distante da localidade, desconhecia o grupo e precisava de uma certificação. Esse pequeno rito indicava como foi parte do processo de tomada de posse das terras na região de São José do Rio Pardo, especialmente na primeira metade do século XIX. Já na segunda metade do século, a ocupação se deu pela aquisição das propriedades dos antigos possuidores.

Como já afirmamos, a corrida para o oeste paulista tinha o intuito de criar lavouras para o café, que levou os fazendeiros, então, a desbravarem as matas para abrirem novas plantações. Os índices de produção do grão encontrados para o estado de São Paulo e para aquela região indicam a relevância do fruto para a economia da sociedade riopardense. Para isso, utilizaremos os dados citados por José Francisco Camargo e suas divisões do estado em zonas92, números coletados para Casa Branca por Rodrigo Fontanari e a listagem de impostos do ano de 1893, arquivada na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.

91

DEL GUERRA, Rodolpho José. O décimo terceiro. São José do Rio Pardo, SP: Graf-Center, 2007, p. 312.

92

José Francisco Camargo dividiu o estado de São Paulo em dez zonas cafeeiras, estabelecidas a partir das estradas de ferro e da produção de café. São elas: 1ª- Capital; 2ª- Vale do Paraíba; 3ª- Central; 4ª- Mogiana; 5ª Araraquarense; 6ª- Paulista; 7ª- Noroeste; 8ª- Alta Sorocabana; 9ª- Sorocabana; 10ª- Baixa Sorocabana. São José do Rio Pardo fica na região da Mogiana.

Tabela 2

Produção de café em arrobas no Estado de São Paulo por zonas

Zonas Anos 1854 1886 1905 Capital - - 8.275 Vale do Paraíba 2.373.639 2.117.134 1.804.355 Central 525.296 4.795.850 4.490.684 Mogiana 81.750 2.366.599 2.145.312 Araraquarense 223.470 2.458.134 7.417.916 Paulista - - 5.780.946 Noroeste - - 93.821 Alta Sorocabana - - 3.931.375 Sorocabana - - 117.403 Baixa Sorocabana - - 28.992 Total 3.579.035 12.371.613 35.819.079

OBS: O total dos anos de 1854 e de 1886 não corresponde à soma; parcelas referentes às outras zonas, como segue: 1854: 10.600 arrobas; 1886: 633.896 arrobas. Fonte: CARVALHO, Diego Francisco de. Café, ferrovias e crescimento populacional: o florescimento da região noroeste paulista. Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo, n. 27, ano 3, 2007. Disponível em: