Em Casa Branca, os dados levantados por Sérgio Milliet acerca da quantidade de arrobas produzidas demonstram o auge da produção em 1886, salto desde o primeiro dado, de 1854.
Quadro 3
Produção de café em Casa Branca e em São Paulo
Anos Café em arrobas em Casa
Branca Café em arrobas em São Paulo 1854 1.750 3.579.035 1886 300.000 12.371.613 1920 211.140 20.243.948 1935 155.330 12.600.000
Fonte: FONTANARI, Rodrigo. O problema do financiamento : uma análise histórica sobre o crédito
no complexo cafeeiro paulista. Casa Branca (1874-1914). Franca: [s.n.], 2011. Apud: MILLIET,
Sérgio. Roteiro do café e outros ensaios: contribuição para o estudo da história econômica e social do Brasil. 4.ed. São Paulo: Hucitec, 1982. p.53, CAMARGO, J. F. Crescimento da população do Estado de São Paulo e seus aspectos econômicos: ensaio sobre as relações entre a demografia e a economia. São Paulo, 1952. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, vol. II, Tab. 62; Vol. III, Tabs. 107 e 108. Apud: CARVALHO, Diego Francisco de. Café, ferrovias e crescimento populacional: o florescimento da região noroeste paulista. Revista Histórica, São Paulo, nº 27, nov. 2007. Disponível em < http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao27/materia02/> Acesso em 12 set. 2014 e COSTA, Iraci Del Nero da; HERNANDES, Valério A.; LIMA JOSÉ L. (comp). Estatísticas
básicas da agricultura paulista (1839-1988). São Paulo: FEA-USP, 1990. Disponível em <
http://www.ipeadata.gov.br/doc/Estat%C3%ADsticas%20b%C3%A1sicas%20da%20agricultura%20paul ista%20(1839-1988).pdf > Acesso em 12 set. 2014.
A produção na região de Casa Branca e São José do Rio Pardo aumentou nos anos de 1870 e 1880, indicando que o auge da cafeicultura do oeste paulista atingiu também a cidade. No “Almanach Administrativo, Commercial e Industrial da Província de São Paulo”, para 1888, há a listagem dos produtores de café de São José do Rio Pardo. Eram 65 fazendeiros, mas não há os índices de produção para o ano, nem o total de sacas produzidas individualmente. Encontramos os números relativos aos anos de 1887/1888, 1888 e 1893 no Arquivo da Câmara Municipal de São José do Rio Pardo. Em 1887/1888, foram registrados 59 contribuintes do tributo do café, angariando no total 9:157$760 (nove contos cento e cinquenta e sete mil e setecentos e sessenta réis). Em 1888, encontramos apenas os números referentes à arrecadação e às dívidas a serem quitadas por alguns cafeicultores. A vila deveria ter recebido 6:595$600 (seis contos quinhentos e noventa e cinco mil e seiscentos réis), mas foram pagos apenas 4:703$600
(quatro contos setecentos e três mil e seiscentos réis). Já em 1893, foram 83 contribuintes que pagaram 13:251$600 (treze contos duzentos e cinquenta e um mil e seiscentos réis) ao poder municipal. O imposto era de quarenta réis, cobrado pela municipalidade na província de São Paulo sobre cada arroba de café.93 Rodolpho Del Guerra levanta o número de sacas de café e impostos pagos à municipalidade em 1898 com dados retirados do jornal “O Rio Pardo”, de abril de 1899. Eram 104 fazendeiros, cujas contribuições estão dispostas no quadro e no gráfico.
Quadro 4
Valores arrecadados de impostos em São José do Rio Pardo
Ano Valores arrecadados de
impostos Número de cafeicultores Quantidade de arrobas produzidas 1887/1888 9:157$760 59 226.444 1888 6:595$600 65 164.890 1893 13:251$600 83 331.290 1898 11:882$000 104 733.700
Fonte: Arquivo da Câmara Municipal de São José do Rio Pardo. São José do Rio Pardo / SP.
Já sabemos que a cafeicultura era a principal fonte de renda da região, mas é importante ressaltar que conviviam em São José do Rio Pardo cafeicultores de todos os portes, com produções em quantidades muito diferenciadas.94 Isso pode evidenciar a presença de pequenos produtores em meio aos grandes cafeicultores da região, indicando a convivência entre dois tipos de lavoura. O pequeno produtor, provavelmente, também vendia sua safra para o mercado externo, mas com menos vantagens, como afirmou Fontanari.
93
Sobre os impostos e comércio de café ver: RANGEL, Sylvio Pereira. O café. Rio de Janeiro: SNA, 1908. Sobre os números de São José do Rio Pardo, ver Arquivo da Câmara Municipal de São José do Rio Pardo. São José do Rio Pardo / SP.
94
SÃO JOSÉ DO RIO PARDO. Arquivo da Câmara Municipal de São José do Rio Pardo. São José do Rio Pardo / SP.
Temos algumas listas de cafeicultores de São José do Rio Pardo, mas elas não estão completas e se referem aos impostos pagos e não à produção.95 A relação dos contribuintes dos tributos relativos à colheita de 1893 foi retirada do Arquivo da Câmara Municipal de São José do Rio Pardo. Seus dados seguem abaixo e podem confirmar a diferença na quantidade de arrobas fiscalizadas.
Quadro 5
Relação dos Contribuintes de Imposto de Café Relativo à Colheita de 1893
Nº Nome Arrobas Imposto
1 Major José Dias Machado 3000 120000
2 Machado e Irmãos Fazenda do Peão 1500 60000
3 Damazo Ribeiro Nogueira 2000 80000
4 Dr. Luiz Augusto Pinto 3500 140000
5 Dr. José da Costa Machado 10000 400000
6 José Divino Nogueira de Sá 1800 72000
7 D. Prudenciana de Meirelles 300 12000
8 José Fortiny 1000 40000
9 Antônio Broxado 400 16000
10 Pedro Broxado 400 16000
11 Antônio Muza 1500 60000
12 Dr. Fernando Antônio de Barros 1000 40000
13 Capitão Saturnino da Aguiar Muza 400 16000
14 Militão Venâncio Rodrigues 1500 60000
15 D. Maria C. Ribeiro 2000 80000
16 Adolpho de Oliveira Lima 700 28000
(continua)
95
(Continuação)
Nº Nome Arrobas Imposto
17 D. Joaquina Maria de Jesus 200 8000
18 Lúcio Ribeiro de Carvalho 300 12000
19 Luís C. de Mello 500 20000
20 Joaquim Custódio Dias 1500 6000
21 D. Mariana L. Nogueira 2000 80000
22 Anastácio Marçal Nogueira 300 12000
23 Antônio Marçal Nogueira Barros 200 8000
24 Antônio M. N. B dos Órfãos Marçal, Generaldo e Olimpio 200 8000
Total: 1.520.000
A listagem de impostos pagos em 1898 tem valores muito superiores ao de 1893, mas também proporciona a indicação da maioria de pequenos produtores, como é possível observar no gráfico abaixo.
Gráfico 1
Gráfico do número de cafeicultores com suas produções cafeeiras em 1898
Gráfico 1. Número de cafeicultores com suas produções cafeeiras em São José do Rio Pardo. Dados retirados de: DEL GUERRA, Rodolpho José. O décimo terceiro. São José do Rio Pardo, SP: Graf- Center, 2007, p.324-326.
Em 1893 e 1898, podemos observar que a maioria dos fazendeiros produzia entre 200 e 5.000 arrobas de café por ano, sendo que aqueles que atingiam mil sacas anuais eram a maioria do grupo. Isso corrobora a suspeita de que havia pequenos produtores entre os grandes, mesmo com as dificuldades de se perpetuarem no mercado.
Observamos que os cafeicultores com maiores índices produtivos, em 1893, foram: Dr. José da Costa Machado (10 mil arrobas), Dr. Luiz Augusto Pinto (3.500 arrobas) e Major José Dias Machado (3 mil arrobas). Em 1898, eles eram: Francisco de Paula Lima (450 mil arrobas), Dr. José da Costa Machado (30 mil arrobas), Dias & Irmãos, Eliziário Luiz Dias (12 mil arrobas) e José Ezequiel de Souza (10 mil arrobas). O Dr. José da Costa Machado, recordista de produção em ambos os anos que encontramos dados, fundou o clube republicano em São José do Rio Pardo e o jornal “O Tiradentes”, mas não estava presente no jantar do hotel Brasil que desencadeou a revolta republicana. O major José Dias Machado era pai de José Octaviano, que tomou parte na revolta republicana, mas não foi chamado para depor no inquérito.96 O maior de todos os produtores foi Francisco de Paula Lima, casado com Paulina Cândida de Sillos, pai de José de Paula Lima e irmão do Barão de Mogi Guassu,97 provavelmente, um dos conservadores de Casa Branca.
São José do Rio Pardo é uma cidade do oeste paulista, criada na segunda metade do século XIX em meio à corrida para as terras férteis, em torno da igreja de São José e às margens do rio Pardo. Seus povoadores eram mineiros, brancos e negros, mas também paulistas e italianos. Em uma escala maior, a pequena São José até hoje não havia chamado a atenção da historiografia, mas ao ser estudada em escala menor, foi possível identificar alguns de seus moradores e a participação deles na revolta que
96 “SÃO JOSÉ do Rio Pardo, Major José Octaviano Machado”, Correio Paulistano, 29 jun. 1938, ano
LXXXV, nº 25248, p. 2.
97
GENEA MINAS. Disponível em < http://www.geneaminas.com.br/genealogia-mineira/pessoa.asp?cod pessoa=29990> Acesso em 15 out 2013.
proclamou a república na cidade três meses antes da proclamação. Os atores da revolta nos trazem a possibilidade de analisar como se deu o enraizamento das ideias republicanas na cidade, o que sugere certa participação popular na revolta. Essas duas questões, juntamente com a ideia de que os paulistas ignoravam suas desavenças políticas para manejarem economicamente os empreendimentos cafeeiros, nos possibilita estudar São José do Rio Pardo com mais cuidado e confrontar premissas da historiografia para o oeste paulista.