8. EMİNE SEVGİ ÖZDAMAR’IN MUTTERZUNGE ADLI ESERİNDEKİ
8.1. Kalıp İfadeler Tablosu
Como se pôde perceber até aqui, Giorgio Agamben é um intelectual cujo pensamento se vale da teoria de Debord. A relação do autor francês com os intelectuais italianos foi muito concreta, seja com Gianfranco Sanguinetti, Mario Perniola, ou Agamben.
Em cartas enviadas por Debord ao filósofo italiano, de 24 de agosto de 1989, 24 de janeiro e 16 de fevereiro de 1990, o teórico demonstra o desejo de que Agamben não apenas organize a tradução de A sociedade do espetáculo e Comentários..., publicados juntos em italiano em 1989, como também informa ser importante que o volume seja apresentado explicando o “aparente paradoxo”: a publicação dos Comentários... antes de A sociedade do espetáculo naquele mesmo volume.176
Seja pensando sobre o seu cinema177 ou lendo A sociedade do espetáculo178, Agamben considera a teoria de Debord válida para a análise da sociedade do final do século XX, tal como se vê em seu texto “Glosas marginais aos Comentários sobre a
Sociedade do Espetáculo”:
176 DEBORD. Correspondance, 2008b, p. 105; 2008c, p. 165; 2008d, p. 172. 177 AGAMBEN. Le cinéma de Guy Debord, 1998.
Os dois livros de Debord, apresentados aqui ao público italiano em um mesmo volume, constituem a análise mais lúcida e severa das misérias e das servidões de uma sociedade – a do espetáculo, na qual vivemos – que estendeu hoje sua dominação sobre todo o planeta. Considerados desse modo, esses livros, não precisam de esclarecimentos nem de elogios, e menos ainda de um prefácio.179
Giorgio Agamben180 desenvolve o conceito de Estado de exceção como uma tese no campo da filosofia do direito. Como um dos maiores leitores italianos da obra de Walter Benjamin, tal conceito não poderia escapar de suas anotações a respeito do filósofo alemão. O que motivou o seu pensamento é a existência de uma afirmação de Benjamin na oitava tese do seu artigo "Sobre o conceito de história": “A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade.”181
Walter Benjamin (1892-1940) vivenciou uma guerra e não chegou até o fim de outra. Ao pensar sobre a sociedade de seu tempo, percebeu que o "Estado de exceção", que era uma condição do Estado em situações de rebelião civil, catástrofes e guerras, se tornou um marco regulatório permanente, suspendendo o Estado de Direito.
O que acontece, então, na condição de Estado de exceção? Para o autor italiano, esse Estado suspende a vida das pessoas tal como a ideia de sacrifício, como visto no primeiro capítulo desta tese. Isso significa que as pessoas tornam-se desprovidas de todas as coisas, estando sob controle de um poder. Há sobre elas um poder soberano. O poder soberano é uma força capaz de suspender o direito de uso do que se produz ou o que se faz. Ele também suspende o direito de ir e vir e o direito de viver. A partir do momento que o Estado de exceção se tornou regra, há apenas essa vida nua.182 O “Homem sagrado” que resulta desse processo permanente, vivo no Estado de exceção, é fruto da perda das liberdades e direito, restando apenas sua potência. A relação entre poder soberano e vida nua atualiza a teoria crítica do espetáculo no campo do direito, uma vez que se baseia na ideia de suspensão da liberdade de viver.
Em Giorgio Agamben, a condição de homo sacer garante ao sujeito a sua duplicidade. Primeiro, entre ser sagrado (não pode ser sacrificado) e ser "matável" (pode ter a existência suspensa sem justificativa). Segundo, pela manutenção desse status com a sua sujeição aos dispositivos. Desse modo, a condição do exercício do poder pelo
179 AGAMBEN. Glosas marginais aos Comentários sobre a sociedade do espetáculo, 2002, p. 72. 180 AGAMBEN. Estado de exceção, 2007a.
181 BENJAMIN. Sobre o conceito de História, 1994a, p.226.
soberano acaba constituindo um indivíduo sujeitado. Por esse motivo, em texto que trata do pensamento de Agamben, Alexandre Nodari afirma que:
a comunidade humana não se define positivamente nem negativamente (pela ausência de toda propriedade, pela sua impropriedade), mas pela não- coincidência entre voz e linguagem (propriedade e impropriedade). Se o homem é aquele que transita somente neste resíduo entre propriedade e impropriedade, a tentativa de articular bios e zoe não consiste em uma conjunção, mas na criação de duas esferas separadas que antes não existiam: a separação do homem de si.183
A aproximação de ambas as teorias repousa no entendimento da sociedade como organizada a partir da soberania, que retira a liberdade de cada qual viver sua vida diretamente, tudo está mediado por espetáculos, a vida se torna contemplação, pois “tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação.”184 A regulação desse modo de existir se dá pelos dispositivos, presentes em todos os setores da sociedade, e não mais restritos a hospitais, escolas, prisões etc., como apontava Michel Foucault185.
Se, em Giorgio Agamben, cada dispositivo implica um processo de subjetivação186, com a proliferação dos dispositivos na sociedade contemporânea, gera- se uma correspondente disseminação de processos de subjetivação. Para o filósofo,
Isso pode produzir a impressão de que a categoria da subjetividade no nosso tempo vacila e perde consistência; mas se trata, para ser preciso, não de um cancelamento ou de uma superação, mas de uma disseminação que leva ao extremo o aspecto de mascaramento que sempre acompanhou toda identidade pessoal.187
O que aproxima o pensamento de Debord do filósofo italiano é a caracterização de um sujeito que, para alguns, remete ao sujeito do iluminismo por não estar submetido a um processo de “identificação”188 ou fragmentação da identidade. Giorgio Agamben afirma que
o que acontece agora é que processos de subjetivação e processos de dessubjetivação parecem tornar-se reciprocamente indiferentes e não dão lugar à recomposição de um novo sujeito, a não ser de forma larvar e, por assim dizer, espectral. Na não-verdade do sujeito não há mais de modo algum a sua verdade. Aquele que se deixa capturar no dispositivo “telefone celular”, qualquer que seja a intensidade do desejo que o impulsionou, não adquire, por isso, uma nova subjetividade, mas somente um número pelo qual pode ser, eventualmente, controlado; o espectador que passa as suas noites
183 NODARI, 2007, p. 55.
184 DEBORD. A sociedade do espetáculo – Comentários sobre a sociedade do espetáculo, 1997a, p.13. 185 FOUCAULT. Vigiar e punir: nascimento da prisão, 1977.
186 AGAMBEN. O que é o contemporâneo? E outros ensaios, 2009, p. 38. 187 AGAMBEN. O que é o contemporâneo? E outros ensaios, 2009, p. 41-42. 188 HALL. A identidade cultural na pós-modernidade, 2007.
diante da televisão recebe em troca da sua dessubjetivação apenas a máscara frustrante do zappeur ou a inclusão no cálculo de um índice de audiência.189
O sujeito espectral de Agamben conserva em si a sombra do que pode ser ao mesmo tempo em que está condicionado às máscaras que os dispositivos lhe conferem. Como o espectador que existe em função da peça, esse sujeito pode sair do “teatro” quando perceber que está apenas contemplando a vida.190
Como se as proximidades apontadas já não bastassem, Giorgio Agamben cita Guy Debord também no “estilo da negação”191. Enquanto para o autor francês “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos”192, para o filósofo italiano: “Não seria provavelmente errado definir a fase extrema do desenvolvimento capitalista que estamos vivendo como uma gigantesca acumulação e proliferação de dispositivos.”193 Desse modo, o conteúdo da afirmação do autor francês é modificado mantendo-se a sintaxe e libertando o que afirma do dispositivo autoral, jogando com o sentido ao mesmo tempo em que mostra estar em débito com a teoria de Debord.
Do mesmo modo que as situações tornaram-se método e categoria primordial da luta de Guy Debord contra o espetáculo, Agamben acredita que toda forma de resistência aos dispositivos é uma profanação. Para o autor italiano, “A profanação é o contradispositivo que restitui ao uso comum aquilo que o sacrifício tinha separado e dividido”194. Para ambos os autores, a resistência ao espetáculo e aos seus dispositivos é necessária. Em Agamben, a prática da profanação é tudo que não se submete à lógica do espetáculo, revelando algo que está além da vida nua, constituindo sentido para ela. Como conceito, o contradispositivo da profanação é um aprimoramento da prática de vanguarda. Ela constata que devemos fazer algo, tal como criar situações, para
189 AGAMBEN. O que é o contemporâneo? E outros ensaios, 2009, p. 48.
190 Em Guy Debord a questão da “consciência” merece um estudo específico e profundo. Quando se trata
da consciência de classe deve-se lembrar da influência visível de Georg Lukács (2003) em sua obra. Apesar de reconhecer a importância do tema para o pensamento de superação da economia política em Debord, aqui é suficiente afirmar que, no pensamento do autor, o “espectador”, enquanto sujeito da classe proletarizada deve adquirir consciência para se livrar do espetáculo. Para Guy Debord (1997, p.58): “A burguesia chegou ao poder porque é a classe da economia que se desenvolve. O proletariado só poderá ser o poder se ele se tornar a classe da consciência. O amadurecimento das forças produtivas não pode garantir tal poder, nem mesmo por meio da despossessão ampliada que esse amadurecimento provoca. A conquista jacobina do Estado não pode ser o instrumento do proletariado. Nenhuma ideologia lhe pode servir para disfarçar objetivos parciais em objetivos gerais, porque ele não pode conservar nenhuma realidade parcial que seja efetivamente dele.”
191 DEBORD. A sociedade do espetáculo – Comentários sobre a sociedade do espetáculo, 1997a, p. 132. 192 DEBORD. A sociedade do espetáculo – Comentários sobre a sociedade do espetáculo, 1997a, p. 13. 193 AGAMBEN. O que é o contemporâneo? E outros ensaios, 2009, p. 42.
contribuir com a formação de experiência. O filósofo italiano procura descobrir um lugar mais prático para sua atuação que ultrapasse um lugar do texto sem função prática, sem efetividade na vida cotidiana. É isso que a noção de profanação mostra, quando possibilita uma operação mais radical sobre o dispositivo criticado. Essa dimensão prática da teoria resguarda a proximidade com a atuação de Debord.