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8. EMİNE SEVGİ ÖZDAMAR’IN MUTTERZUNGE ADLI ESERİNDEKİ

8.2. Atasözleri

Antônio Negri, tal como Debord, é um ativista político. Ficou preso (primeiro em 1979 por quatro anos, em prisão preventiva, depois entre 1997 e 2003, quando retornou à Itália para cumprir a pena) sob a acusação de ter participado do assassinato de Aldo Moro, líder da Democracia Cristã Italiana, executado pelo grupo Brigadas Vermelhas. Antes, durante e após sua prisão, o autor se dedicou ao estudo da sociedade e às formas de resistência ao poder concentrado no que ele e Michael Hardt chamaram de “Império”. Essa categoria surge, a partir do pensamento dos autores, após a queda de noções liberais sobre o Estado. Para eles, o contexto da economia global fez surgir esse novo protagonista. Hardt e Negri acreditam que, agora, não mais o Estado seria o responsável pelo controle, mas o Império.

O livro Império195 foi um dos que mais circularam no meio ativista no início do século XXI por ter sido distribuído na Internet em inglês e de ter aparecido rapidamente uma tradução para o espanhol. Com a grande circulação no meio ativista, e por se referir à teoria de Guy Debord, o livro acabou por tornar o autor francês mais popular.

Já no livro Multidão196, os autores acabaram por trazer um programa específico para o ativismo do século XXI na medida em que delimitavam outro ator, antagonista, que já aparecia em Império. A categoria “multidão” é otimista frente à impossibilidade de ação contra o poder do Império. A multidão é concebida como rede(s) de pessoas. Essa(s) rede(s) teria(m) a potência de criação de uma sociedade global sem um controle. O conceito de multidão aparece, em Michael Hardt e Antonio Negri, em 2000, na última parte do livro Império. Naquele momento, o que mais chama a atenção no

195 HARDT; NEGRI. Império, 2001.

conceito é a possibilidade de transformação da “multidão” em um sujeito político.197 A formação da multidão é uma resposta à globalização das relações sociais nos domínios imperiais. Para os autores198, o capitalismo, na forma de Império, não consegue controlar os caminhos da multidão. O Império é um não lugar que pratica o controle, mas esse novo sujeito político potencial se movimenta criando um novo lugar199. Esse novo lugar se deve à mobilidade das pessoas tal como circulam as mercadorias (no caso a mercadoria trabalho), além das novas formas de trabalho que se dão cooperativamente.

O conceito de multidão, em resumo, refere-se ao corpo total da sociedade que agora não pode mais ser entendida como povo frente a uma nação ou Estado. A maior facilidade no trânsito entre os países e culturas seria um dos sinais práticos dessa multidão que tem, através da Internet, uma forma mais veloz de (tele)presença em qualquer parte do mundo, seja para trabalhar ou, simplesmente, para interagir com outras pessoas. O acesso à tecnologia digital, mas também às novas configurações do mundo do trabalho (que agora seria cognitivo), está relacionado à constituição da multidão. A ascensão da noção de multidão no mundo também se relaciona com o amplo acesso às mercadorias industrializadas e a uma logística global que permite ao indivíduo consumir produtos de qualquer parte do globo, produzidos ou não em seu país, como os alimentos nas redes de fast food, ou as mercadorias em gigantescas lojas de departamento, que vendem, inclusive, pela Internet.

O livro de Paolo Virno, Gramática da multidão, lançado em 2001, traz uma percepção desse autor sobre o conceito que atualiza as noções de Negri e Hardt, mostrando que essa nova forma social constitui uma linguagem dentro da sociedade capitalista contemporânea. Para tanto, é necessário pensar não apenas a linguagem do espetáculo, mas também a linguagem da multidão.

O filósofo italiano também é responsável por delimitar a diferença entre povo e multidão, o sujeito que lhe substituiu no cenário público. Em linhas gerais a noção de povo se forma a partir da organização do Estado – dimensão jurídica – ou da Nação – dimensão cultural. Homi Bhabha afirma que

o conceito de povo não se refere simplesmente a eventos históricos ou a componentes de um corpo político patriótico. Ele é também uma complexa estratégia retórica de referência social. Sua alegação de ser representativo

197 HARDT; NEGRI. Império, 2001, p. 418. 198 HARDT; NEGRI. Império, 2001, p. 422. 199 HARDT; NEGRI. Império, 2001, p. 419.

provoca uma crise dentro do processo de significação e interpelação discursiva.200

Bhabha também questiona o argumento de que “o povo é uma conjugação de indivíduos, harmoniosos sob a lei.”201 A partir de Franz Fanon, ele considera o “povo” uma “zona de instabilidade oculta” quando procura descobrir para onde o intelectual nativo deve se dirigir. Porém, o campo do qual Bhabha fala, ao tratar do povo, parte da justaposição da “cultura-como-luta-política” e dos “princípios nacionais”.202 O conceito de povo é diferente de multidão, pois este considera o mundo espetacular no qual “nação” e “cultura” (mesmo que “como-luta-política”) são noções cuja importância tem diminuído.

Conforme Virno, “povo” foi o vencedor da disputa histórica que sempre houve entre ele e a noção de “multidão”. As contraposições entre os dois conceitos são analisadas a partir de Thomas Hobbes. Paolo Virno lembra que:

O conceito de povo, segundo Hobbes, está estreitamente associado à existência do Estado; não é um reflexo, uma reverberação: se for Estado, é povo. Se faltar o Estado, não pode haver povo. Em De Cive, onde expôs longamente seu horror pela multidão, lê-se: “O povo é um Uno, porque tem uma única vontade e, a quem se lhe pode atribuir uma vontade única”.203

O filósofo italiano viu que, para Hobbes, a multidão seria algo que precede à organização política do Estado, podendo ainda ser uma ameaça para a soberania. Se, conforme Hobbes, o povo é uno, a multidão é múltipla. A multiplicidade tornaria difícil o controle.

Com a publicação de Multidão, Michael Hardt e Antonio Negri, como o subtítulo brasileiro afirma, pretendem discutir a “guerra e [a] democracia na era do Império”204. O povo, nesse livro, é visto como uma categoria política dupla, que se mostra como partícipe do Estado. Para eles,

O povo muitas vezes serve como meio-termo entre o consentimento dado pela população e o comando exercido pelo poder soberano, mas de maneira geral a expressão serve apenas como tentativa de validar uma autoridade estabelecida.205

200 BHABHA. O local da cultura, 1998, p. 206. 201 BHABHA. O local da cultura, 1998, p. 104. 202 BHABHA. O local da cultura, 1998, p. 65.

203 VIRNO. Gramática da multidão: para uma análise das formas de vida contemporâneas, 2003, p. 48. 204 HARDT; NEGRI. Multidão: guerra e democracia na Era do Império, 2005.

Tanto em Virno quanto em Hardt e Negri, o povo é refém do jogo político repetitivo e condescendente com o Estado, diferente de Bhabha, para o qual o povo é uma categoria instável (“zona instável”), que recebe significações diferentes dependendo da retórica (e do uso dele nela) do discurso no qual é utilizado. Assim, o povo poderia afirmar governos de direita, bem como poderia sustentar a ideia de revolução apenas discursivamente. A forma “multidão”, para Hardt e Negri, pode se tornar uma alternativa sem “cartas marcadas” nesse jogo.

Essas questões não foram discutidas em A sociedade do espetáculo, ou mesmo nos Comentários à sociedade do espetáculo, uma vez que para Debord a luta de classes ainda delimitava muito bem o produtor/trabalhador, que era o sujeito principal da sua teoria. Para Negri e Hardt,

a análise da sociedade do espetáculo feita por Guy Debord, mais de trinta anos depois de sua composição, parece cada vez mais oportuna e urgente. Na sociedade imperial o espetáculo é um lugar virtual, ou mais corretamente um

não-lugar da política. O espetáculo é de tal maneira unificado e difuso ao

mesmo tempo que se torna impossível distinguir um dentro de um fora – o natural do social, o privado do público. A noção liberal do público, o lugar exterior onde agimos na presença de outros, foi universalizada (porque estamos sempre sob o olhar de outros, monitorados por câmaras de sistemas de segurança) e sublimada ou desefetivada nos espaços virtuais do espetáculo. O fim do fora é o fim da política liberal.206

O ponto de partida para o entendimento do campo político em Hardt e Negri é a discussão levada a cabo por Guy Debord em suas teses sobre a sociedade do espetáculo. A perspectiva da universalização do público não se encontra diretamente em Guy Debord. Pensar que o teórico francês acredita que o espetáculo é uma super exposição da vida é tão possível quanto acreditar que ele pensa em uma privatização da vida. Na verdade, como se viu anteriormente, é mais recorrente nos textos situacionistas a ideia de que a vida está colonizada, tal como foram colonizadas as Américas, por exemplo.

Em Michael Hardt e Antonio Negri o entendimento do espetáculo como espaço de universalização da noção liberal de público significa a substituição da categoria “povo” por “multidão”. Nesse sentido, há uma atualização de Debord.

Em outra parte de Império, vemos o seguinte:

O campo aberto de luta que parece surgir desta análise, entretanto, rapidamente desaparece quando examinamos os novos mecanismos pelos quais essas redes híbridas de participação são manipuladas do alto. De fato, a cola que segura os diversos corpos e funções da constituição híbrida é o que Guy Debord chama de espetáculo, um aparato integrado e difuso de imagens e ideias que produz e regula o discurso e a opinião públicos. Na sociedade do

espetáculo, o que já foi imaginado como esfera pública, o terreno aberto da permuta e da participação política, evaporou-se completamente. O espetáculo destrói qualquer forma coletiva de sociabilidade – individualizando atores sociais em seus automóveis pessoais e diante de suas telas separadas de vídeo – e ao mesmo tempo impõe uma nova socialidade de massa, uma nova uniformidade de ação e pensamento. Nesse terreno espetacular, formas tradicionais de luta por causa da constituição tornam-se inconcebíveis.207

Com a ideia de separação, Hardt e Negri, no trecho acima, apontam para o modo que o espetáculo constitui a multidão208. Esses atores da multidão, antagonistas ao Império, foram formados pelo espetáculo e por seu movimento de separação: a individualização. A multidão se forma no processo de massificação do sujeito e na universalização do espaço público onde as pessoas são como o personagem do conto de Edgar Allan Poe209, “O homem na multidão”, visto apenas pelo observador mais interessado: um narrador.

O narrador, a título de exemplo metafórico nesse conto, pode ser considerado o próprio espetáculo, única entidade abstrata capaz tornar o homem da multidão visível e, ao mesmo tempo, de manter unido o separado através de uma narrativa que, no movimento de contemplação, parece ser perpétua. O homem é observado à distância pelo narrador que o persegue como se estivesse filmando-o. O narrador de Poe fala assim do estranho perseguido:

Ele, porém, como de costume, limitava-se a caminhar de cá para lá; durante o dia todo, não abandonou o turbilhão da avenida. Quando se aproximaram as trevas da segunda noite, aborreci-me mortalmente e, detendo-me bem em frente do velho, olhei-lhe fixamente o rosto. Ele não deu conta de mim: continuou a andar (...)210

207 HARDT; NEGRI. Império, 2001, p. 342-343.

208 Aqui é importante pontuar que essa visão de Hardt e Negri sobre o espetáculo como um “aparato

integrado e difuso de imagens e ideias que produz e regula o discurso e a opinião públicos” é um modo de ler a teoria crítica de Guy Debord. O teórico francês mostra, através de suas teses, que o espetáculo controla todas as instâncias da vida e regula essa vida. A opinião pública, discursos ou ideias acompanham em maior ou menor grau esse controle a partir dos fatos e acontecimentos cotidianos. Dizer que há uma regulação da opinião pública e seu discurso, como é afirmado acima, parece significar a impossibilidade de construção de um discurso clandestino contrário a essa regulação, quando é ainda possível, inclusive, fazer esse discurso e opinião gerado pelo espetáculo ser invertido. Essa forma de ler o espetáculo provoca em alguns autores, como Georges Didi-Huberman (2011), por exemplo, a impressão de que Debord lidou com a impossibilidade de constituir experiência no contexto espetacular quando, na verdade, é dessa condição espetacular que se parte para qualquer oposição. Quando Guy Debord propôs uma luta antiespetacular, ele não estava falando de um “outro mundo” ou de “um outro lugar” de onde partia (tal como a esquerda partidária e sindical, inclusive, recentemente, viram como possibilidade para renovar seu próprio discurso através do Fórum Social Mundial). É do lugar mesmo no qual não há diálogo possível, onde há desnudamento do sujeito e neutralização da experiência, que o teórico propõe partir e intervir criando situações.

209 POE. Histórias extraordinárias, 2008. 210 POE. Histórias extraordinárias, 2008, p. 267.

Nele, imprime os seus próprios significados. Esse homem na multidão não é tocado, mas é visto quando o narrador deita seu olhar sobre ele tal como uma câmera em foco, procurando entendê-lo, suspendê-lo, colocá-lo em um lugar de suspense e como suspeito no meio da multidão. Essa tensão levada a cabo no conto é semelhante à tensão vivenciada pelo sujeito no conceito de multidão que não é individual, mas encontra-se no processo de individualização.

O pensamento de Hardt e Negri, sobre a sociedade contemporânea, atualizando as teses de Guy Debord, prende-se a dois aspectos. O primeiro é de que a visão dos autores sobre o que é o espetáculo repousa no campo da publicidade/propaganda e meios de comunicação, mais do que na questão das separações provocadas desde o processo produtivo até o consumo. Essa visão é uma opção estratégica dos autores, uma vez que o seu conceito de multidão parte da junção do consumo com a produção, eliminando o enfoque que Debord concentrava no processo de produção na sociedade. O segundo aspecto é a não incorporação do papel da organização a partir do local de trabalho, através dos conselhos, assumindo a criação de redes variadas que fazem parte da “multidão”. Essa opção também corrobora sua teoria que elimina as categorias “povo” e “classe trabalhadora” da arena espetacular. Portanto, o caminho de atualização das teses de Debord tomado por Hardt e Negri vai ao encontro da substituição da luta de classes pela ideia de multidão211 (ROSSO, 2006) e seu antagonismo ao Império.212

Benzer Belgeler