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5. ÇEVİRİ TÜRLERİ VE TEKNİKLERİ

5.5. Çeviri Stratejileri

5.5.5. Dönüştürüm (Verwandeln)

Entender a memória como passível de reordenação no presente. Compreender a arte no movimento de sua supressão. Realizar o desvio para alcançar sentidos novos na medida em que intervém e rearranja elementos retirados de seu contexto. Opor-se a ideias fixas e paradigmas consagrados. Estas são afirmações e práticas da vida de Debord que parecem expressar um sujeito decisivo, ativo, em uma vida unitária. Entretanto, esse sujeito está dividido entre a imagem, pois está dentro da sociedade que as produz, e a superação delas (enquanto separação). A vida, em Guy Debord, se expressa sempre na sujeição do indivíduo à separação a qual criticava, portanto, a vida do autor só pode ser entendida enquanto resistência à separação.

Com base no artigo sobre “Imagens da memória, imagens da nação”, do crítico Wander Melo Miranda, podemos pensar que a composição no livro Memórias ocorre por uma montagem via técnica do desvio. Se o desvio é gerador de um choque provocado pelo deslocamento de elementos de um contexto e a inserção em outro, há uma quebra da linearidade para garantir um novo sentido, agora modificado. A partir de Walter Benjamin e seu conceito de mônada, o autor afirma:

No nível da escrita, parar a progressão linear do tempo é, de alguma forma, desencadear o acontecimento revolucionário do descentramento do sujeito.

169 DEBORD. Perspectivas da transformação consciente da vida cotidiana, 2002b, s.p.

170 Para um estudo específico sobre a potência em Giorgio Agamben, deve-se recorrer ao trabalho de Raul

Antelo (2007) sobre La comunità che viene, de autoria do filósofo italiano. Nesse texto, Antelo realiza um estudo da ontologia da potência, desvendando os conceitos de comunidade e potência, dentre outros relacionados ao sujeito em Giorgio Agamben.

171 No segundo capítulo desta tese, quando estiver apresentando as teorias contemporâneas que

incorporam a crítica da sociedade do espetáculo, voltarei a essa discussão sobre o sujeito na aproximação de Guy Debord e Giorgio Agamben. Em Debord, enquanto os conselhos, as situações, o détournement etc. são as armas do seu sujeito para lutar contra o espetáculo, em Agamben o sujeito tem na “profanação” a forma de negar a sociedade dos dispositivos. Tanto em um quanto no outro autor o sujeito se encontra na possibilidade de se afirmar, estando ainda em uma condição de espectador – em Debord – ou espectro – em Agamben – formas regidas pela duplicidade.

Não mais sua restrição à positividade de uma presença ou à consciência de si, mas antes a abertura às dimensões involuntárias e inconscientes da experiência da qual se viu espoliado com o advento do moderno. A memória, enquanto forma de determinação histórica dessa experiência prestes a desaparecer, cumpre aí a função operatória de espaçamento do tempo, por meio da marcação de intervalos, pausas ou suspensões que interrompem a linearidade num registro temporal diferenciado. (...) [Assim,] no caso do texto memorialístico, empreender a busca de si equivale a tomar a memória como lugar de consciência biográfica e histórica do presente, a partir de imagens geradas pelo que falta ou se perdeu.172

Mesmo não entendendo Memórias como um livro memorialista, o uso da memória na caracterização da obra, no caso de Guy Debord, equivale a uma metodologia específica, conforme exposto pelo crítico. Há uma metodologia que, obrigatoriamente, se espelha nos processos da memória não apenas para formar o sujeito, mas para constituir uma obra do sujeito em nova condição. Essa prática de Debord, tomando como base a avaliação de Miranda sobre a configuração da memória, hoje, é um método para formação de uma escrita do sujeito:

O lastro da história pessoal não é a relação entre evento e seu registro no decorrer do tempo homogêneo e vazio, mas a capacidade de estabelecer correspondências inesperadas entre o passado e o presente, ou entre o novo e o velho.173

Nesse movimento, Debord passa a colecionar memórias à medida que faz o desvio delas, libertando-as das funções que podem ter tido quando submetidas à lógica espetacular. Escrever Memórias é retirar imagens e textos de um contexto e inserir em outro, sob novo sentido, substituindo o velho, constituindo uma nova temporalidade, agora ordenada, conforme o desejo do autor.

Ao produzir Memórias, Guy Debord estava sujeito à condição de artista, e como artista utilizou os elementos e técnicas que estavam ao seu alcance (o desvio, a forma do anti-livro, a fragmentação da memória como representação etc.) para constituir uma obra metafórica, crítica de sua condição. Porém, como se verá no último capítulo, quando poderei desenvolver melhor a questão do desvio, o autor não escapa totalmente do lugar artístico. Mesmo assim, Memórias é realizado como um jogo de elementos suspensos em uma narrativa da vida.

Ao final do seu livro, mostrou que era possível – após os recortes, colagens, lances de tinta, roubos de textualidades – ser sujeito construtor do desejo: “Eu queria falar a bela língua do meu século.” Portanto, mesmo que essa frase seja um desvio da

172 MIRANDA. Imagens da memória, imagens da nação, 2010, p. 39-40. 173 MIRANDA. Imagens da memória, imagens da nação, 2010, p. 42.

última frase de Charles Baudelaire, do poema A solidão174, não se anula seu mérito autoral no desvio empreendido.

Entre a dúvida do sujeito e sua potência transformada em objeto de desejo, reside, inquieto, o pretérito “querer”.

CAPÍTULO 2

A CONTEMPORANEIDADE DE GUY

DEBORD

Benzer Belgeler