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8. EMİNE SEVGİ ÖZDAMAR’IN MUTTERZUNGE ADLI ESERİNDEKİ

8.3. Deyimler

8.3.2. Öykünme (Nachahmung)

Assim como Michael Hardt e Toni Negri, autores como Franco Berardi (conhecido no movimento autonomista italiano como “Bifo”) e Paolo Virno atualizam Debord com o pensamento sobre as possibilidades que o conceito de multidão oferece. Na luta contra o poder dominante, ambos os autores ponderam sobre a comunicação e o conceito de multidão.

211 ROSSO. Multidão pode substituir classe operária nos dias de hoje?, 2006.

212 Para um desenvolvimento mais fluente da tese, apenas introduzi os conceitos de Hardt e Negri, pois

irei continuar essa discussão nos tópicos que se seguem. Assim, diminuí a repetição de alguns conceitos que outros autores também desenvolvem, tal como o de multidão.

A sociedade contemporânea é o enfoque tanto de Bifo quanto de Virno, que discutem o conceito de multidão aliado à noção de espetáculo de Guy Debord, até a ideia de sociedade da informação ou sociedade tecnológica. Esses autores também refletem sobre a ideia da conectividade contemporânea e biopolítica213, bem como os impactos desse tempo nos indivíduos da multidão.

A sociedade do espetáculo como geradora da sociedade cognitiva (a sociedade atual organizada a partir do trabalho cognitivo) está mais presente no pensamento de Bifo, enquanto Virno, tal como afirma Emiliano Aquino,

acentua que, sob a categoria de espetáculo, o que está em questão é um modo de produção, no qual "a comunicação humana tornou-se mercadoria". Daí que, segundo Virno, a interpenetração entre trabalho assalariado e expropriação da comunicação humana expresse, no pensamento de Debord, a exigência de que a crítica do capitalismo deva comportar a crítica da concepção instrumental da linguagem, de modo que a "abolição do trabalho assalariado" se constitui também, de modo essencial, em "liberdade da linguagem”.214

Portanto, Franco Berardi prefere compreender a sociedade do espetáculo como uma sociedade cujo trabalho passa a se concentrar na produção de conhecimento e conteúdos. Dessa forma, a multidão também passa a ter maior quantidade de indivíduos pertencentes a essas cadeias produtivas, e não mais assumir a forma de “proletário da fábrica”, tal como se via nos séculos XIX e XX. Esse pensamento justificaria, em Bifo, a superação não apenas da categoria “proletário”, ainda existente em Debord, mas daria também a continuidade à noção de “multidão” como antagonista ao espetáculo.

Berardi, além de ter participado do movimento autonomista italiano da década de 1970, como Antonio Negri e Paolo Virno, talvez tenha sido, dentre eles, o que se manteve em articulação com o movimento anticapitalista autônomo e sua prática215. Nesse lugar, sua leitura parece mais próxima do cotidiano do movimento ao qual a mídia costuma chamar de “antiglobalização”. A partir das ações dos grupos desse movimento, e da opinião de Bifo sobre eles, é que podemos traçar a visão do autor como um atualizador das teses de Debord sobre a sociedade do espetáculo. Um exemplo são as impressões do autor italiano sobre as ações globais contra o capitalismo após as manifestações de Seattle, nos Estados Unidos, e de Gênova, na Itália:

213 BERARDI. Biopolitics and connective mutation, 2005, s. p.

214 AQUINO. Espetáculo, comunicação e comunismo em Guy Debord, 2007, s. p. 215 GODDARD. Interminable Autonomy: Bifo’s symptomatologies of the present, 2009.

A emergência desse movimento não pode ser interpretada com os critérios da dialética e do socialismo novecentista, ele não poderá exprimir-se através das formas políticas da revolução, nem nas do reformismo.216

A necessidade de atualização do pensamento do século XX, apesar do que é dito por Bifo, será por ele incorporada a partir da seguinte filiação:

Talvez possamos buscar um conceito útil na tradição teórica do pensamento operário italiano (que interpreta os processos políticos com base no futuro da composição política do trabalho), na tradição da esquizoanálise francesa (que interpreta os processos sociais como manifestações da imaginação desejosa), e na prática da netculture e do Open Source.217

Quando diz que pode ser útil resgatar um conceito da “tradição teórica do pensamento operário italiano”, Bifo acaba por afirmar a aproximação com Antonio Negri e Mario Tronti, bem como a forma de organização autônoma que beira a proposta dos conselhos. Porém, enquanto Debord refletia sobre os “proletárizados”, indivíduos assalariados, sejam em fábricas ou nos novos processos de produção de espetáculos, Bifo acredita que:

Depois de Gênova, o movimento precisa sair da espiral repetitiva das manifestações de reação antiglobalista. A auto-organização do trabalho cognitivo deve ser o seu programa: os cientistas, os pesquisadores, os operadores da comunicação, os próprios funcionários da electronic

governance são os agentes sociais e produtivos dessa perspectiva de auto- organização da inteligência coletiva.218

Voltado para a prática da luta contra o espetáculo, tal como Guy Debord, o autor italiano não pensa apenas na organização das pessoas, mas também em como as ações devem ser feitas, através de sabotagens, socialização de resultados de pesquisas etc.219 Por outro lado, para Bifo, diferente do autor francês, a sociedade contemporânea está centrada no trabalho cognitivo, o qual deve ser prioritariamente articulado através dos atores supracitados. A forma de desenvolvimento desse trabalho não seria mais o de produção tal como descreveu Debord em A sociedade do espetáculo.

216 BERARDI. Auto-organização da inteligência coletiva global: uma estratégia para o movimento pós-

Seattle-Gênova, 2002, p. 107.

217 BERARDI. Auto-organização da inteligência coletiva global: uma estratégia para o movimento pós-

Seattle-Gênova, 2002, p. 107-108.

218 BERARDI. Auto-organização da inteligência coletiva global: uma estratégia para o movimento pós-

Seattle-Gênova, 2002, p. 109.

219 As propostas de Bifo assemelham-se às atividades levadas a cabo pelo site Wikileaks

(http://wikileaks.ch/), cujo principal membro do conselho consultivo, Julian Assange, é considerado o primeiro preso político internacional da “era da Internet” (IHU. A ciber-guerra da Wikileaks, 2011). Assange é acusado de abrigar e disponibilizar informações sigilosas sobre governos no site Wikileaks. O

Wikileaks é um espaço colaborativo no qual as pessoas podem divulgar informações diversas no intuito de “manter os governos abertos” como eles próprios afirmam.

A influência do teórico francês é visível até o ponto em que as ideias de Franco Berardi passam a se concentrar na questão do trabalho imaterial. O trabalho imaterial foi teorizado pelos autonomistas italianos, também chamados de teóricos pós-fordistas. Esse tipo de trabalho seria aquele da linguagem, da criação através do uso de máquinas computacionais ou por outros instrumentos, bem como a produção de conteúdos no mundo midiático. A diferença entre Debord e os teóricos do trabalho imaterial se manifesta como uma atualização da teoria crítica do espetáculo. Esses autores acreditam que a teoria do espetáculo já trazia essa compreensão da sociedade, pois Debord via o espetáculo atingir profundamente a linguagem enquanto meio da comunicação humana.

Por esse motivo, Bifo refere-se à organização econômica da sociedade atual como “semiocapitalismo”, que é o capitalismo baseado no trabalho cognitivo e na produção de sentidos. Ele deve ser combatido em um espaço imaginativo, tal como a “situação”, que para Berardi é um “espaço existencial que é imaginado e construído de acordo com regras que não obedecem qualquer princípio de totalidade”220. Para Bifo, “o Espetáculo é o que deve ser visto, mas não pode ser vivido.”221 Para Guy Debord, a totalidade não poderia ser atingida pela vida no espetáculo, mas sim pela crítica a ele. Essa crítica não é simplesmente escrita, mas experimentada através de ações diferentes daquelas espetaculares, ações que retirem o sujeito da condição de espectador, retirem- no do seu cotidiano de produção alienada, como as realizadas por Debord nas vanguardas.

A teoria de Paolo Virno, sobre a sociedade contemporânea, não se distancia daquela de Negri e Hardt, ou de Franco Berardi. Talvez a diferença principal venha de sua formação semiológica, o que facilita a leitura a respeito da linguagem em sua manifestação na sociedade.

Como já foi afirmado aqui, quando Guy Debord escreve sua teoria crítica do espetáculo, coloca em cena a linguagem222. A linguagem, como elemento fundamental do livro de Debord, foi o caminho que Virno seguiu com o objetivo de usar a teoria debordiana para entender a sociedade contemporânea. Para ele,

a noção de “espetáculo”, não pouco equívoca de per si, constitui ainda um instrumento útil para decifrar alguns aspectos da multidão pós-fordista (que é, se quisermos, uma multidão de virtuosos, de trabalhadores que, para

220 BERARDI, La premonizione di Guy Debord, 2004, s. p., tradução nossa. 221 BERARDI, La premonizione di Guy Debord, 2004, s. p., tradução nossa.

222 AQUINO. Linguagem e reificação em André Breton e Guy Debord, 2005; Reificação e linguagem em

trabalhar, recorrem a qualidades genericamente “políticas”. (...) Para Guy Debord (...), o “espetáculo” é a comunicação humana tornada mercadoria.223

O teórico italiano acredita que o espetáculo, hoje, se tornou uma “indústria dos meios de comunicação”, mas não apenas restrita aos meios de comunicação enquanto uma indústria específica, mas a toda a sociedade. Segundo ele, isso é algo que ocorreu com a sociedade no pós-fordismo.224

Além disso, Virno tem uma leitura peculiar da teoria crítica de Debord. Alguns apontamentos dele merecem destaque. Para Virno, no espetáculo torna-se difícil separar a experiência pública da privada, tal como se vê em Hardt e Negri225. Dessa mesma forma, o cidadão e o produtor não são mais categorias bem delimitadas, justamente por inexistir separação entre o público e o privado226. “Multidão” seria a categoria capaz de congregar ambos os conceitos, em um contexto no qual o sujeito desse tempo se modificou.

Paolo Virno considera o sujeito como passivo, um espectador. Para Eneida Maria de Souza,

A crítica de Virno aos costumes e mentalidades da época pós-moderna associa o modernariato à sociedade do espetáculo, à “exposição universal” de seu próprio poder-fazer, transformando o sujeito em epígono de si mesmo, em espectador de sua própria vida.227

Mesmo assim, Virno entende o indivíduo como capaz de constituir a individuação, primeiro movimento para a formação do sujeito. A individuação é como “o passo da bagagem psicossomática genérica do animal humano à configuração de uma singularidade única [e] é, quem sabe, a categoria que, mais que qualquer outra, é inerente à multidão.”228 A sua inerência à multidão deve-se ao contexto econômico e político em que esse conceito se encontra. Portanto, a individuação é o que provoca a singularidade do indivíduo, sendo anterior a sua individualidade, esta que é um processo de significação que o constitui como diferente dos outros, enquanto aquela é o que provoca a separação dele dos outros.

A sociedade do espetáculo, ao diminuir a importância do “povo” e ascender à “multidão”, constituiu um sujeito “anfíbio”, um sujeito que tem uma característica de

223 VIRNO. Gramática da multidão: para uma análise das formas de vida contemporâneas, 2003, p. 32. 224 VIRNO. Gramática da multidão: para uma análise das formas de vida contemporâneas, 2003, p. 34. 225 HARDT; NEGRI. Império, 2001.

226 VIRNO. Gramática da multidão: para uma análise das formas de vida contemporâneas, 2003, p. 8. 227 SOUZA. Crítica cultural em ritmo latino, 2007, p. 146.

trazer vários “eus”, sendo um “multipl@”, ao mesmo tempo em que não é individual. Nas palavras de Virno:

Para o bem e para o mal, a multidão mostra a mescla inextricável de “eu” [“yo”; je] e de “se”, singularidade não reproduzível e anônima da espécie, individuação e realidade pré-individual. Para o bem: ao ter, cada um(a) d@s “múltipl@s”, atrás de si o universal, a modo de premissa ou de antecedente, não tem a necessidade desta universalidade postiça que constitui o Estado. Para o mal: cada um(a) d@s múltipl@s, enquanto sujeito anfíbio, pode sempre distinguir uma ameaça em sua própria realidade pré-individual, ou ao menos uma causa de insegurança. O conceito ético-político de multidão funda-se tanto sobre o princípio de individuação como sobre sua incompletude constitutiva.229

Desse modo, a “multidão” ascende o múltiplo e não o individual ou o coletivo. De acordo com Virno, não mais temos identidades bem definidas que se aliam para mudar o contexto. Finalmente, multidão é uma noção que diz respeito às condições atuais de produção no capitalismo – o trabalho imaterial – em que o modo de afirmação da identidade (que era a de classe no contexto da produção material) estaria superada pelo advento da produção imaterial.

A separação generalizada, tal como se vê na sociedade do espetáculo de Guy Debord, estaria representada no distanciamento físico entre as pessoas que, segundo os teóricos do trabalho imaterial, passaram a utilizar mais os meios de comunicação de massa para se relacionarem. Esse distanciamento gera a eliminação de uma individualidade, criando uma multiplicidade. Quando pensamos no contexto do Estado, o ator “povo” é crucial para sua composição política, mas quando pensamos em Império, uma nova configuração passa a se formar.

Essa perspectiva, percorrendo caminhos para a formação da subjetividade, assemelha-se, por sua ambiguidade, à noção de sujeito em Guy Debord e em Giorgio Agamben. A atualização do pensamento de Guy Debord, por Paolo Virno, está na união da noção de “sujeito” ao conceito de multidão, enquanto o sujeito de Guy Debord estaria vinculado a uma classe que se encontra no capitalismo tardio. Em A sociedade

do espetáculo, a categoria correspondente ao “sujeito anfíbio” da multidão, em Paolo Virno é o “proletariado”, visto por Guy Debord como sujeito e como representação.230

229 VIRNO. Multidão e princípio de individuação, 2002, p. 84.

Benzer Belgeler