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8. EMİNE SEVGİ ÖZDAMAR’IN MUTTERZUNGE ADLI ESERİNDEKİ

8.3. Deyimler

8.3.4. Eşdeğerlilik (Gleichwertigkeit)

O Krisis é um coletivo editorial e grupo de discussão alemão formado por intelectuais inspirados no pensamento de Debord e Theodor Adorno. Obviamente, por ter essas duas referências intelectuais, são também leitores de Karl Marx. A criação do grupo, em 1986, se dá com a publicação da Revista Krisis: contribuição para a crítica

da sociedade da mercadoria.243

A base do pensamento do grupo se encontra no entendimento de que existem dois Karl Marx: um exotérico e outro esotérico244. O primeiro seria aquele teórico da luta de classes, que acredita na oposição da classe proletária à classe burguesa, e que dessa luta surgiria uma sociedade sem classes. O segundo Marx seria responsável por uma crítica mais profunda contra o trabalho, baseado na crítica do trabalho abstrato e no valor. A partir dessa ideia, o grupo lança o “Manifesto contra o trabalho”, em 1999, no qual apresenta sua base crítica ao trabalho e os modos de superá-lo.245 Esse texto é bastante conhecido por sinalizar o fim da sociedade do trabalho.

242 BAUDRILLARD. A sociedade de consumo, 2007. 243 KRISIS, 1986.

244 KURZ. O pós-marxismo e o fetiche do trabalho: sobre a contradição histórica na teoria de Marx, 2003. 245 KRISIS. Manifesto contra o trabalho, 1999.

Para o grupo Krisis, bem como para Robert Kurz, seu membro mais destacado, Guy Debord realizava a leitura esotérica de Marx, mas ainda insistia na luta de classes. Mesmo com essa divergência, é a partir de Guy Debord que Kurz e os outros membros do grupo passam a ter uma leitura da sociedade da mercadoria na sua manifestação espetacular.

O lançamento do “Manifesto contra o trabalho” é posterior ao falecimento do autor francês. Dessa forma, não saberemos se Guy Debord consideraria a discussão sobre o “fim do trabalho” uma atualização de suas teses sobre o espetáculo. Porém, muitos leitores atuais de Guy Debord tomaram conhecimento de seus textos após ler os textos do Krisis, passando a pensar a teoria do espetáculo por esse viés. A opção pelo Marx “esotérico” significa a necessidade da atualização das categorias fundamentais do autor para a contemporaneidade.

A recepção de Kurz na América do Sul, especialmente no Brasil, é muito grande especialmente na década de 1990, quando tivemos o lançamento de O colapso da

modernização246 e Os últimos combates247. O mesmo podemos dizer sobre Anselm Jappe, um dos maiores especialistas em Guy Debord, que também foi um dos responsáveis pela divulgação do autor.

Em 1999, o livro Guy Debord é lançado no Brasil248. É importante lembrar que esse livro de Anselm Jappe é posterior ao lançamento da primeira edição brasileira de A

sociedade do espetáculo.249 Ressalto que Jappe não é membro do Krisis, porém publica diversos artigos em sua revista, pois compartilha do mesmo pensamento sobre a sociedade das mercadorias.

246 KURZ. O colapso da modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia

mundial, 1996.

247 KURZ. Os últimos combates, 1997. 248 JAPPE. Guy Debord, 1999a.

249 Sobre as edições de A sociedade do espetáculo, Emiliano Aquino faz uma exposição histórica na

apresentação de uma edição pirata em português, lançada em formato potlatch no Brasil: “A primeira edição de A sociedade do espetáculo só veio à luz no Brasil em julho de 1996, quase trinta anos após a primeira edição francesa e mais de duas décadas depois de sua tradução nas principais línguas do mundo. Em 1972, houve uma primeira edição em Portugal, que Debord considerou a única que, com certeza, tivera até então uma boa tradução logo na primeira tentativa. Esta (sic) presente edição, pelo Coletivo

Acrático Proposta, é feita a partir dessa tradução portuguesa com as naturais e não prejudiciais

alterações linguísticas. Sua intenção é baratear o acesso à obra e facilitar o potlatch: daí porque ela venha fotocopiada, e com páginas duplas em folha de tamanho A4, em formato brochura (que, ao serem retirados os grampos, possibilita a sua reprodução barata em qualquer esquina). Revela com isso suas intenções práticas: quer contribuir não apenas para a difusão não acadêmico-editorial da obra, mas para que a nova geração de contestadores sociais possa fazer das teses aqui apresentadas algum uso.” (AQUINO. Anotações sobre “A sociedade do espetáculo”: apresentação de uma edição pirata, 2003, p. 21)

O grupo Krisis e os autores aqui comentados são conhecidos por realizarem uma crítica contundente sobre leituras e teorias que eles consideram distorcidas. Essas críticas enfocam tanto as recepções de Guy Debord quanto conceitos que acabam sendo amparados em suas teses sobre a sociedade espetacular. Para eles, resguardar a integridade da crítica empreendida pelo autor das teses significa mantê-lo íntegro na luta contra a sociedade do espetáculo.

Robert Kurz escreveu no prefácio do livro de Anselm Jappe o seguinte:

Guy Debord e os outros situacionistas franceses estão na moda. É o pior que lhes poderia acontecer. Pois a moda é o oposto da crítica. Crítica radical não pode virar modismo sem perder a alma. O que está na crista da onda é a maneira como ideias são transformadas em lixo de praia. Na leitura pós- moderna em voga, a declaração de guerra situacionista à ordem dominante parece uma crítica aos meios de comunicação, tão ao gosto da própria mídia, no melhor estilo de um Neill Postman, ou uma manobra culturalista para esquerdistas "criativos" que gostam de surfar, aparentemente de modo radical, nas ondas da indústria da consciência. Mas Guy Debord não merece ser confundido com Baudrillard e ser reduzido ao formato de um pôster pop cultural.250

Guy Debord lido como modismo parece, no entender de Kurz, invalidar o caráter crítico do autor francês. Se ele se encontra na moda e está sendo bem aceito nos círculos acadêmicos que ele tanto criticou, parece haver algo de errado, a menos que a autocrítica tenha se tornado disciplina obrigatória nos cursos das universidades251.

A pergunta que paira é: se o Debord que se está discutindo é o mesmo Guy Debord da ocasião em que foi convidado a falar sobre o cotidiano para o Grupo de Investigações sobre a Vida Cotidiana no Centro de Estudos Sociológicos do CNRS, no dia 17 de maio de 1961. Nesse encontro, ele não apareceu, mas enviou uma fita magnética que continha uma gravação, uma palestra sobre as “Perspectivas da transformação consciente da vida cotidiana” que, mais tarde, foi também publicada na revista Internacional Situacionista.252

A preocupação com uma leitura de Guy Debord em concordância com as teses do fim do trabalho, tal como propõe Robert Kurz e Anselm Jappe, é o que faz os autores

250 KURZ. A sociedade do espetáculo trinta anos depois, 1999.

251 A respeito da discussão sobre a universidade brasileira, especialmente na área de Letras, há um ensaio

importante, “O fim das ilusões”, de Eneida Maria de Souza (2004). Nesse ensaio, a autora discute o papel do intelectual na universidade e critica os processos sociais e culturais que acabam levando a uma formação de quadros descompromissados. Para a ensaísta: “A lógica do efêmero e do provisório, a flexibilidade das opiniões, o gosto pelo espetacular e a inconstância das ações e mobilizações sociais redesenham o traçado contemporâneo, seja no campo artístico, literário, cultural ou político. As diferenças de atuação e de atualização dessas mudanças operacionais conforme o campo é o que produz o caráter ambíguo e paradoxal do presente.” (SOUZA. O fim das ilusões, 2004b, p. 108)

criticarem aqueles que desenvolvem teorias divergentes do Krisis e de sua leitura da sociedade do espetáculo. Com isso eles constroem um Guy Debord que interessa à sua posição crítica.

Um exemplo dessa demarcação é uma brochura, de 2003, As novas vestes do

Império: notas sobre Negri, Hardt e Rufin, na qual mostram que seu pensamento não se aproxima das noções trazidas pelos autonomistas italianos, uma vez que estes ainda se apegam a duas concepções, a de império e a de multidão, ambas relacionadas a formas não mais importantes no capitalismo atual253. A outra principal diferença de Jappe e Kurz para Negri e Hardt é a questão do trabalho que nos autores de Império não se encontra em colapso, mas em transformação, algo que vimos mais claramente em Franco Berardi e o trabalho cognitivo.

Por fim, é necessário dizer que mais do que atualizar teoricamente o que pensou Guy Debord, Anselm Jappe passou a analisá-lo frente a seu tempo e à contemporaneidade, tentando revelar suas contribuições. É o que ele realiza no capítulo “O passado e o presente da teoria (de Debord)”254.

A seguinte passagem representa bem a leitura que Jappe faz do teórico francês:

Para Debord, no entanto, a imagem não obedece a uma lógica própria, como pensam, ao contrário, os pós-modernos “a la Baudrillard”, que saquearam amplamente Debord. A imagem é uma abstração do real, e o seu predomínio, isto é, o espetáculo, significa um “tornar-se abstrato” do mundo. A abstração generalizada, porém, é uma consequência da sociedade capitalista da mercadoria, da qual o espetáculo é a forma mais desenvolvida. A mercadoria se baseia no valor de troca, em que todas as qualidades concretas do objeto são anuladas em favor da quantidade abstrata de dinheiro que este representa. No espetáculo, a economia, de meio que era, transformou-se em fim, a que os homens submetem-se totalmente, e a alienação social alcançou o seu ápice: o espetáculo é uma verdadeira religião terrena e material, em que o homem se crê governado por algo que, na realidade, ele próprio criou.255

Para Anselm Jappe,

Debord anunciou, no entanto, o aparecimento de um movimento de contestação de tipo novo: retomando o conteúdo liberatório da arte moderna, teria como programa a revolução da vida cotidiana, a realização dos desejos oprimidos, a recusa dos partidos, dos sindicatos e de todas as outras formas de luta alienadas e hierárquicas, a abolição do dinheiro, do Estado, do trabalho e da mercadoria. Por isto, Debord sempre considerou o conteúdo profundo de 1968 como uma confirmação de suas ideias.256

253 JAPPE; KURZ. Les habits neufs de l'Empire: remarques sur Negri, Hardt et Rufin, 2003. 254 JAPPE. Guy Debord, 1999a.

255 JAPPE. A arte de desmascarar: um dos principais libelos contra o capitalismo, "A sociedade do

espetáculo", 1997.

256 JAPPE. A arte de desmascarar: um dos principais libelos contra o capitalismo, "A sociedade do

Portanto, Maio de 1968 não representa apenas a utopia do teórico francês, mas a manifestação prática (e concentrada) da resistência de mais um momento revolucionário, este, no século XX, tal como a Comuna de Paris (1871) significou para o século XIX. Como um momento histórico, difere do cotidiano espetacular, Maio de 1968 foi não apenas um levante de estudantes, mas também uma greve geral, a experimentação coletiva de grandes proporções que teve como meio (e, assim, resultado) a expressão da revolução estética associada à revolução social. Esse “algo novo” dificultou, por exemplo, que os partidos e sindicatos da época controlassem a experiência de imediato. As associações livres e em pequenos grupos, que decidiam na hora e local que surgiam as demandas, ditavam um novo ritmo em um espaço e tempo diferenciado. A similaridade com os Conselhos de operários (e também de estudantes e trabalhadores em geral) não é mera coincidência, mas resultado dos debates gerados na primeira metade do século XX, portanto, Guy Debord configura uma utopia a partir da sua teoria, mas esta parte da forma real do Conselho.

Para Robert Kurz, as leituras estritas de Jappe acabam por resgatar um Guy Debord comprometido com a crítica da economia política e não com a crítica da cultura. Há também um resgate da questão da mercadoria em sobreposição à moda da discussão sobre as mídias e a comunicação257. Jappe é um ativista e, tal como Kurz, um anticapitalista que recebe a teoria crítica de Guy Debord. Essa perspectiva programática, segundo Kurz, seria o principal mérito das leituras de Anselm Jappe sobre Guy Debord, ao mesmo tempo em que são esses os principais méritos da crítica do autor francês.

Benzer Belgeler