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TÜRKİYE’DE ULUSALCI SOL HAREKETLER: 1932 –

2.1. KADRO HAREKETİ

Sem pretender dar conta da infinidade de fenômenos urbanos que interferem na

geração dos espaços exclusivos de moradia no Brasil50, objetiva-se aqui resgatar alguns

aspectos procedentes da internacionalização econômica, discutida até então, cujas ações têm reflexo direto na questão.

Quando nos detemos em analisar as transformações operadas em nível intra- urbano, verificamos que a soma das transformações globais à dinâmica (política, social, econômica e cultural) interna dos países e cidades pode resultar em efeitos bem diversos. Por exemplo, ao final do milênio (2000), as perspectivas anunciadas sobre uma nova geografia espacial, baseadas nos avanços da alta tecnologia e dos meios de comunicação em nível global, as quais especulavam sobre decadência das cidades e sua perda de importância na reestruturação da economia mundial, foram contrariadas (SASSEN, 1998). Inversamente, o fator tempo e os efeitos de aglomeração cresceram em importância e fizeram com que as áreas com maior acessibilidade e conectividade, principalmente as “cidades globais”, continuassem a ser as mais disputadas pelas matrizes das grandes indústrias, como já foi mostrado anteriormente. Entretanto, como passamos aqui a verificar nas cidades brasileiras, os avanços nas tecnologias e comunicações, em nível real ou às vezes somente simbólico, ajudaram a formatar novos padrões de uso e ocupação, que se afastam do modelo historicamente definido centro- periferia, no qual a carência por serviços e infra-estrutura urbanos cresce na mesma proporção em que há o distanciamento dos núcleos centrais.

Caldeira (2000) identifica cronologicamente três formas diferentes de estruturação urbana na cidade de São Paulo, acrescentamos aqui, que são comuns à maioria das cidades brasileiras. Estas formas, segundo a autora, estão associadas aos tipos de segregação produzidos e preponderantes em cada um desses momentos. O primeiro formato, datando do final do século XIX e mantendo-se até a década de 1940, apresentava uma cidade concentrada dentro de um limite reduzido fisicamente, quando a segregação era identificada através de variação das tipologias arquitetônicas. A segunda

50Seabra (1995) divide em três tipos as habitações para alta renda com características exclusivas

e de auto-segregação: (1) os condomínios fechados (exemplifica como Alphaville, Tamboré); (2) “casas térreas” guardadas com guaritas, vigilância armada, cães, etc., “isoladas em bairros inscritos na textura da cidade”; e, (3) edifícios residenciais de alto luxo; com apartamentos com área de até 1.200 m², piscinas, jardins e heliportos (SEABRA apud FRÚGOLI JÚNIOR, 1995, p. 87). Apesar da existência de diversos tipos de habitação exclusiva e com características de auto-segregação, este estudo tem como objeto os condomínios horizontais.

forma, predominante entre 1940 e 1980, e ainda percebida até os dias de hoje, caracteriza-se pela dicotomia centro-periferia; segrega grupos sociais por grandes distâncias físicas (os ricos no centro e os pobres nas áreas periféricas). A terceira forma começou a se configurar a partir dos anos 80, sobrepondo-se à segunda; é modificadora de paisagens urbanas e metropolitanas. Neste último padrão, grupos sociais diferentes se aproximam, na mesma proporção que se isolam através de “muros e tecnologias de segurança, e tendem a não circular ou interagir em áreas comuns”. Isso significa que à medida que se reduzem distâncias físicas, crescem os abismos econômicos e sociais. Caldeira identifica como instrumento básico desse terceiro modo espacial de segregação os “enclaves fortificados”.

Trata-se de espaços privatizados, fechados e monitorizados para residência, consumo, lazer e trabalho. A sua principal justificação é o medo do crime violento. Esses novos espaços estão abandonando a esfera pública tradicional das ruas para os pobres, “marginalizados” e os sem-teto (CALDEIRA, 2000, p. 211).

Souza, J. (2003) corrobora com este pensamento, quando afirma:

O conjunto de todas essas inovações pode estar apontando para um novo tipo de matriz de organização espacial urbana, superposta à anterior ainda não desaparecida, que tem como característica fundamental, para os estudos urbanos e geográficos, uma maior autonomia espacial (SOUZA, J., 2003, p. 3).

3.3.1 A relação centro-periferia e formas de segregação

Observa-se que esse padrão centro-periferia começou a ser desmontado a partir dos anos 1960, associado à degradação dos imóveis derrelitos e ao desinvestimento do

poder público nas áreas centrais51. Nesse momento a formação de novas centralidades

passa a ser favorecida. Aparecem em torno das grandes construções comerciais e de

serviços em diversos pontos da cidade52. Surgem os chamados eixos de atividades

múltiplas e a opção de moradia nos condomínios fechados, localizados, inicialmente, nas franjas das cidades, todos impondo alterações significativas contrárias a esse modelo dualista centro-periferia, já citado.

Por um lado, Azevedo (2001, p. 23) observa que:

51No Brasil várias cidades tentaram revitalizar seus centros históricos a partir de 60 e nas décadas

posteriores (Olinda, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Natal, entre outras), entretanto poucos foram os êxitos logrados desses esforços. As avaliações desses projetos apontam entre as falhas mais citadas a não inclusão da função habitacional de maneira eficaz.

52Ver Frúgoli (1995) sobre a expansão dos hipermercados, shoppings centers e sedes das

empresas do capital financeiro, ícones da nova economia e das novas formas de consumo, indutores de novas centralidades.

A recessão econômica, a crise fiscal do Estado e do Sistema Financeiro da Habitação, SFH, a partir da década de 80 levou ao estancamento do chamado padrão de crescimento periférico (expansão horizontal da cidade). Com isto há uma clara tendência de revigoramento de cortiços, adensamento de favelas centrais (inclusive, com o incremento da verticalização) e o surgimento de novas franjas consolidadas das grandes cidades, em áreas de infra-estrutura precária.

Por outro, a pouca disponibilidade de grandes glebas disponíveis na área urbana e conseqüente encarecimento do solo levam cada vez mais empreendimentos habitacionais de luxo, na forma de condomínios fechados – verticais e/ou horizontais – a buscarem áreas mais baratas, inicialmente nas periferias urbanas, passando posteriormente a ocupar também os interstícios de bairros populares. Há, portanto, uma dinâmica combinada, mobilidade tanto de fora para dentro, quanto de dentro para fora, na criação e expansão das moradias para pobres e ricos. O resultado se traduz em bolsões valorizados dentro de grandes áreas de pobreza, seja internamente, na área consolidada da cidade, seja nas periferias urbanas, dado que a reprodução da classe menos favorecida sobrepuja o crescimento da mais abastada.

3.3.2 Avanços tecnológicos e nas comunicações

Esse novo padrão se apoiou, em parte, nos avanços das novas tecnologias, algumas vezes ao buscar agregar um valor simbólico de status, outras visando encurtar distâncias físicas e/ou temporais e relativizar o fator localização.

Villaschi & Fernandes (2000) assim se referem ao Condomínio dos Ingleses, localizado no município de Nova Lima, a aproximadamente 30 Km de Belo Horizonte:

Hoje, devido aos avanços da tecnologia e à globalização da economia, as relações de trabalho têm se tornado mais flexíveis e a variável espacial menos determinante, possibilitando a população de classe mais alta “migrar” para condomínios residenciais mais afastados dos centros urbanos (VILLASCHI & FERNANDES, 2000, p. 1).

Leitão (2000), também, observa a evolução dos slogans publicitários utilizados na comercialização dos condomínios fechados da Barra da Tijuca, a partir da década de 1990, destacando o novo conceito de “Home Office”. Os anúncios chamam a atenção para a disponibilidade de facilidades como: rede computadorizada, conexão à internet em tempo integral, centrais de impressão com máquinas a laser e scanners, centrais de fax,

xerox e PABX com ramal individual nas unidades, que permitiriam e incentivariam, pelo menos em tese, as pessoas realizarem seus trabalhos em casa (ver Leitão, 2000).

3.3.3 Reestruturação econômica mundial do trabalho

Outros movimentos, em menor escala e de forma mais isolada, também contribuem na formação dos condomínios horizontais. Por exemplo, a mobilidade da população detentora de rendas baixa e média, que tende a migrar junto com a de renda mais alta, ajudando a materializar as novas centralidades. Segundo a pesquisa de Villaschi & Fernandes (2000), elas seguem junto a fim de dar o “suporte” necessário à prestação de serviços variados. Segundo estes autores, no Condomínio dos Ingleses, próximo a Belo Horizonte, há fortes indicativos de que um grande contingente de pessoas de baixa renda tenderá a se radicar em áreas vizinhas, de melhor acessibilidade física e financeira, de modo a atender à demanda por mão-de-obra do condomínio. Associar esse fenômeno somente à polarização da reestruturação econômica mundial do trabalho nos parece prematuro sem juntar isto a uma avaliação do conjunto das questões econômicas e habitacionais operadas em âmbito regional e local. Mas mostram, por outro lado, a dependência dos mais ricos em relação aos mais pobres no atendimento de suas demandas sofisticadas, como sinalizou Sassen (1998) ao se referir aos efeitos dessa polarização.

A diferenciação das cidades se opera em decorrência tanto da dinâmica do processo da internacionalização da economia, quanto de fatores regionais ou locais, como já indicado acima. Assim, perpassar o papel das políticas públicas nacionais, refletindo as transformações econômicas e culturais desde a década de 80, ajuda na compreensão da transformação dos condomínios horizontais em modelos cada vez mais atrativos de moradia no Brasil.

3.3.4 As políticas públicas recentes e a expansão dos condomínios fechados

Depois de discutidos alguns aspectos possíveis entre a globalização da economia e a produção dos espaços exclusivos para moradia dos brasileiros ricos, complementarmente serão aventados fatores outros, de abrangência nacional, que guardam conexões mais próximas com a produção dos condomínios horizontais, como as políticas públicas, habitacional e econômica, e a atuação do mercado imobiliário de moradia operadas nas últimas décadas.

Assim, o problema habitacional não pode ser visto de maneira uniforme e genérica, pois ele decorre da história onde marcam presença os três elementos básicos: o capital, a força de trabalho e o Estado. Estes são elementos fundamentais que hão de ser levados em conta no trato da questão habitacional. É da combinação destes elementos, a qual varia historicamente, que resulta a situação habitacional, ou seja, para compreendermos o problema habitacional não podemos prescindir das dimensões econômicas, sociais e políticas. Pois é do processo construtivo de nossa sociedade que emana o problema habitacional (PERUZZO, 1984, p. 22).

A questão habitacional relaciona-se diretamente com as políticas públicas. A elaboração de programas habitacionais, criação de linhas de financiamento e estabilização da economia são fatores que permitirão um maior ou menor desempenho da produção imobiliária, além de delinear as formas como esta produção prioritariamente se dará. Assim, não sendo objetivo desta pesquisa exaurir a questão habitacional brasileira, esboçar-se-á, de forma sucinta, a participação do Estado no surgimento e consolidação desse padrão auto-segregacionista de moradia, destacando momentos e ações mais relevantes das políticas públicas no âmbito da moradia, buscando associações com fatos históricos, sociais, políticos e econômicos. Assim, as considerações serão tecidas a partir da década de 80, quando se iniciou com mais vigor o aparecimento dos condomínios horizontais nas cidades brasileiras.

Contribuindo para o surgimento e posterior desenvolvimento dos condomínios fechados nas cidades brasileiras, podemos destacar os (1) transtornos ocasionados pela rápida urbanização nas últimas décadas; (2) as mudanças na política nacional de financiamento de moradias; (3) o avanço da política neoliberal; (4) a estabilidade econômica, desde o Plano Real, permitiu que o mercado imobiliário passasse a investir em empreendimentos voltados para classes de renda antes tidas como não solváveis (SILVA, 2001).

A intensa urbanização que mudou a cara do país de agrário para urbano em poucas décadas levou a uma agudização da já existente crise do setor habitacional na década de 80, ou como ficou conhecida, “a década perdida”. Esse momento de intensas transformações econômicas e políticas no país foi agravado por acontecimentos no cenário mundial, como a crise do petróleo e o fechamento dos empréstimos internacionais ao terceiro mundo. Internamente, a deficitária economia brasileira acumulava problemas de recessão, desemprego e altíssimos índices de inflação, inviabilizando a sustentação de um sistema habitacional baseado no pleno emprego e na capacidade de poupar dos brasileiros. Tudo isso se somou a uma seqüência de

escândalos financeiros53, e, ainda, à consolidação dos movimentos sociais, surgidos no

final dos anos 70, reivindicando a democracia e abertura política54, que desgastaram

ainda mais o poder político do governo militar vigente.

Até meados da década de 80, a política habitacional do país estava sob a responsabilidade do Banco Nacional de Habitação (BHN) e do Sistema Financeiro Habitacional (SFH), instituídos no período 1964-66. Estes órgãos, quando criados, foram pensados de forma a não incorrer nos mesmos erros que levaram à extinção do seu

antecessor, a Fundação da Casa Popular – FCP55. Assim, uma nova moeda instituída,

corrigida ao ritmo da inflação, balizaria os reajustes dos financiamentos disponibilizados através de duas linhas diferenciadas: uma para populações de baixa renda (“poupança compulsória”, com base nos recursos do Fundo de Garantias do Tempo de Serviço – FGTS) e outra para aqueles com renda média/alta (através das cadernetas de poupança, ou poupança voluntária). Como coloca Valença (1992), a base desse sistema relacionava-se diretamente com a estrutura econômica nacional:

[...] De fato, todas suas fontes financeiras estão sujeitas às oscilações da economia. O nível de emprego e o nível de renda são de maior importância visto que o sistema é baseado na capacidade de poupar da população (e do sistema atrair poupadores) e na capacidade dos mutuários pagarem seus débitos (VALENÇA, 1992, p. 44).56

Desde a sua implantação até o início da Nova República57, o SFH sofreu inúmeros

problemas (como os altos índices de inadimplência) e foram realizadas inúmeras tentativas para solucioná-los, entretanto nunca lograram o êxito pretendido. Entre as soluções testadas se destacam: o plano de Equivalência Salarial e o Fundo de Compensação de Variações Salariais, a opção por atender uma clientela com maior

53Quebra de várias instituições financeiras (dentre as quais: a DELFIN, Comind, Continental,

Economisa, Letra, Aspa), asseguradas pelo BNH, deixava “um rombo de vários bilhões de cruzados” no SFH (ROLNIK, 1983), e desconstruía a imagem de crescimento que dominou o Brasil na época do Milagre Brasileiro (VALENÇA, 1992).

54Caldeira (2000) chama a atenção para o fato curioso de que esses movimentos, deflagrados nos

anos 70, foram levados à frente pelos novos proprietários de casas isoladas, o que contrariava a idéia da “estabilidade social e docilidade do trabalhador” promovida pela casa própria, tese defendida por vários e que motivou em grande parte os altos investimentos em habitação durante o governo militar, objetivando manter a ordem instaurada.

55Criado em 1946, primeira iniciativa do Governo Federal em instituir um órgão especializado na

questão da habitação. Ficou distante de atingir seus objetivos (ANDRADE & AZEVEDO, 1982, p. 30).

56 “[...] In effect, all its financial sources are subject to the oscilations of the economy. The level of

employment and the level of income are of major importance as the system is based on both the capacity of the population to save (and of the system to attract savers) and the capacity of mortagagors to replay their debts” (VALENÇA, 1992, p. 44).

poder aquisitivo, as alterações nas taxas de reajustes das prestações dos extratos médios, entre outras. A cada solução se configurava um novo problema.

Finalmente, da maneira como foi estruturado o SFH, eram os agentes financeiros que se beneficiavam dos rendimentos financeiros do sistema, porque além de captar grande parte dos recursos (o FGTS, por exemplo, ficava 40 dias girando nos bancos privados antes de ser repassado ao BNH) também repassava maior parte desses recursos aos agentes promotores, sob a proteção e garantia do governo. Assim, mesmo que não tivessem ocorrido os desvios de verbas, empréstimos com juros subsidiados a quem podia pagar juros de mercado e contratos irregulares que triplicavam os custos e faziam as mesmas despesas serem pagas duas vezes, o Sistema, assim como foi concebido, não teria sido capaz de acabar com o problema de moradia do país. (ROLNIK, 1983, p.19).

Valença (1992) acrescenta que o sistema foi pensado para funcionar em uma economia em crescimento, incompatível com o quadro recessivo que se configurava no Brasil naquele instante. Assim, seu desempenho sofreu inúmeras críticas, muitas dessas centradas no seu “caráter ‘redistributivo às avessas’” (AZEVEDO, 2001, p. 11). Como colocado por Peruzzo (1984, p. 47):

O sistema Financeiro de Habitação é um mecanismo através do qual o Estado desempenha a sua função de transferência de renda das classes subordinadas para as outras classes, visto que a fonte dos recursos originais no FGTS é compulsória e socializada. Dela participam todos os assalariados. Porém, as aplicações desses recursos são canalizadas em proporção maior para os setores que concorrem com a contribuição menor.

A política do SFH, contrariando os objetivos do seu discurso inicial, passou a atender ao mercado subsidiando habitações que priorizavam financiamentos para prédios novos dirigidos aos trabalhadores formais que dispunham de renda média, enquanto que, à camada mais pobre, empregada na economia informal, não capaz de satisfazer às exigências do SFH, restava, cada vez menos, opções de moradia. Dados apresentados por Brant at al. (apud CALDEIRA, 2000, p. 226) mostram que só 6,4% dos recursos utilizados pelo SFH, entre 1965 e 1985, atenderam a pessoas com poder aquisitivo menor que 3,5 SM.

Na década de oitenta, o quadro de crise caracterizado pelos altos índices de inadimplência do Sistema contribuía para a baixa liquidez e para a incapacidade de bom desempenho na área social, o que desencadeou uma forte reação nacional dos mutuários em contesto aos reajustes das prestações de suas moradias muito acima dos ajustes salariais. O fortalecimento destes movimentos sociais resultou em um

considerável melhoramento da infra-estrutura urbana e na chegada de novos equipamentos e serviços às áreas mais carentes. Isso provocou uma melhoria da qualidade de vida na periferia, mesmo quando não houve melhoria de renda, pela ação dos governos locais e estaduais, forçados a responder às reivindicações populares.

A partir de 1985, o governo de Sarney instaurou um grupo de trabalho para avaliar e propor ajustes necessários ao Sistema visando melhorar o quadro caótico em que se encontrava a questão habitacional do país. Entretanto, surpreendeu a população com o inesperado decreto de extinção do BHN e a incorporação do mesmo à Caixa Econômica Federal (CEF, hoje CAIXA), o que deu piores contornos ao quadro configurado. Além dos problemas existentes, somou-se a falta de experiência do órgão, provocando lentidão nos processos e falta de coordenação das ações, o que contribuiu para o período de estagnação que se seguiu no setor (VALENÇA, 1992).

Se, no início da década de 80, as alterações na política habitacional nacional privilegiaram as famílias com rendas média e alta, em meados da mesma década, o fechamento do BHN e todos os transtornos trazidos com a transferência de competências para a Caixa Econômica Federal resultaram na redução drástica dos financiamentos estatais. Esse quadro provocou a busca por novos tipos e modos de produção. É então que surgem: os financiamentos diretos aos empreendedores (normalmente a prazos médios de 5 a 6 anos) e passam a figurar entre os novos tipos de produção as

cooperativas habitacionais autofinanciadas58 e os condomínios fechados59. Enquanto

isso, a habitação popular fica cada vez mais a cargo do poder público, o qual, numa mudança de estratégia, passa a reconhecer as favelas e a priorizar a urbanização ante a remoção.

Outra transformação que irá se configurar nesse período diz respeito ao aspecto formal da habitação. Durante o chamado “Milagre Brasileiro”, no final da década de 1970, o SFH foi responsável pelo azeitamento do mercado imobiliário, relacionado tanto ao número de novas empresas criadas, ligadas ao ramo da construção civil, quanto ao total de unidades disponibilizadas, priorizando aqui empreendimentos verticalizados que começam a alterar o padrão de moradia principalmente das faixas de renda média da

58O autofinanciamento configura-se quando o construtor executa a obra com recursos próprios ou

financiados (seja financiamento ao empreendedor ou ao mutuário). São baseados em contratos de curta ou media duração, normalmente variando em torno de 5 anos (COSTA, 2000, p.179).

59Sistema condominial muito praticado na construção de prédios residenciais em Natal; trata-se da

venda do empreendimento pelo promotor imobiliário, através de contrato específico, a um grupo de pessoas que divide os custos da construção, pagos em parcelas, mediante a execução do prédio (COSTA, 2000, p.179).

população brasileira, visivelmente privilegiadas nesse momento histórico pela política

econômica do país.60

Caldeira (2000) comenta essa transformação e a relaciona à política praticada pelo SFH:

A classe média conseguia empréstimos mais baratos subsidiados pelo governo, e as camadas trabalhadoras, que não tinham recursos para comprar no mercado formal e que só raramente atingiam as exigências do BNH para um pedido de empréstimo, construíam casas por conta própria na periferia sem nenhuma ajuda financeira. Além disso, o financiamento maciço de prédios de apartamentos pelo SFH é provavelmente uma das principais razões pelas quais a classe média em São Paulo abandonou o sonho de morar em casas (CALDEIRA,

Benzer Belgeler