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1.2. TÜRKİYE’DE SOSYALİZMİN KISA TARİHİ

1.2.2. Cumhuriyet Dönem

Concorda-se com Tramontano & Santos (1999) quando afirmam que as concepções tipológicas das moradias nos condomínios horizontais fechados não diferem muito do tradicional:

Os conceitos de privacidade, de intimidade, concretizados e institucionalizados primeiramente nos espaços das moradias européias no século XIX, e depois importados aos países dos outros continentes, inclusive ao Brasil, sob a forma de divisões espaciais em cômodos, organizados em áreas social, íntima e de serviços ainda constituem o eixo central de seu raciocínio projetual (TRAMONTANO & SANTOS, 1999, p. 2).

O autor acrescenta sobre as alterações que agora começam a se impor na definição das plantas residenciais, decorrentes das mudanças operadas nos modos de vida contemporâneos – como: “trabalho em casa, o acúmulo de equipamentos eletro- eletrônicos, o desaparecimento da empregada doméstica, e as possíveis alterações relativas às novas composições familiares, que se contrapõem à tradicional família nuclear”, não serem especificidades dos condomínios fechados.

Por outro lado, é fácil perceber que alterações nos projetos residenciais, decorrentes da necessidade crescente da proteção contra a violência urbana, têm provocado uma verdadeira revolução na arquitetura, visível aos olhares menos atentos.

Assim, fica claro que o medo é o pão cotidiano dos cidadãos. As casas não mais expõem suas fachadas românticas, pois cercam-se de muros muito altos para dentro das quais ainda triangulam cães de guarda. As pessoas trafegam em seus automóveis com os vidros bem fechados para evitar abordagens perigosas em cruzamentos e semáforos e, dependente de por onde andem a pé, sentem-se como se estivessem em plena prática da “roleta russa”. [...] Teme-se igualmente tanto as ações criminosas dos assaltantes quanto as ações policiais, marcadas por igual ferocidade. E em parte alguma há segurança, no sentido bonançoso deste termo, porque o “jogo” de viver na metrópole é cheio de riscos a cada passo – e não se sabe como evitar isso (MORAIS, 1985, p. 12).

Quanto a esse aspecto, objeto de evolução e destaque na arquitetura atual, os condomínios têm sido exemplo, o que justifica aqui o destaque dessa abordagem.

O crescimento da “cultura do medo” a partir dos anos 1980 levou as pessoas a buscar meios de se protegerem (ARRUDA, 2003; SOUZA, J., 2003). As moradias passaram a ser fechadas com cercas, portões elétricos, alarmes, etc. Agregados de forma artificial ao projeto original, esses equipamentos entravam normalmente como acessórios extras. Caracterizam-se como verdadeiros remendos projetuais, necessários, impostos pela falta de segurança, real ou imaginária, que tornavam seus moradores reféns desse tipo de gasto.

O uso de câmeras e outros mecanismos de vigilância e controle é parte integrante das tecnologias urbanísticas e da gestão urbana da contemporaneidade. Câmeras fazem parte do nosso cotidiano, ainda que muitas vezes não nos demos conta delas. Dispositivos que antes se restringiam à proteção de setores de risco, como casas bancárias, joalherias, lojas de câmbio etc., disseminam-se, agora, acoplados às arquiteturas de prédios e mobiliários urbanos, tornando-se parte integrante desses e da cidade. Nos prédios residenciais das áreas centrais, é cada vez mais comum garagens e áreas comuns focalizadas por câmeras controladas por vigias privados. Em edificações comerciais e, sobretudo edifícios de gabinetes, também os corredores possuem câmeras, às vezes múltiplas, enfocando diferentes ângulos. Nas portas de gabinetes e salas comerciais há mais câmeras anunciando aos ‘de dentro’ a possibilidade de acesso dos “de fora”. A distância física é substituída pelo protocolo de acesso, franqueado mediante autorização. E onde a distância midiática não é possível, como no caso das lojas comerciais, a solução é aderir ao famoso “sorria, você está sendo filmado”, despertando no usuário a desconfortável sensação de observação e suspeita por uma vigilância direta ou permanente filmagem, conforme o caso (SOUZA, J., 2003, p. 7).

Assim, a década de 90 marca a incorporação destes elementos aos projetos de arquitetura, que passam a ser indicadores de bom gosto e status. Quanto mais segura, mais aparatos; quanto mais sofisticados os aparatos, mais riqueza. O termo “arquitetura defensiva”, derivado do “urbanismo defensivo” (DAVIS apud SOUZA, J. 2003), está na ordem das discussões sobre o tema. Artifícios de segurança são incorporados, cuidadosamente, introduzindo padrões de estética, status e sofisticação ao projeto.

As transformações nas casas ligadas à segurança representam um investimento significativo numa época de dificuldades econômicas. Mas, apesar do investimento ser alto e normalmente representar um fardo para uma família de renda baixa, ele é considerado absolutamente necessário [...]. No nível mais elementar da casa, isolada com todos os sinais de distinção, definitivamente marca a distância entre uma casa e um cortiço ou uma favela. No entanto, são possíveis comparações mais extensas porque os moradores de São Paulo de todas as classes sociais são fluentes no novo código de distinção. Naturalmente as variações são enormes entre bairros ricos e pobres, mas em todos eles quanto mais ostensivamente segura e cercada é a propriedade, maior seu status.

Parece que os moradores de São Paulo estão aprendendo a transformar restrições, limitações, incertezas e medos em seu proveito ao manipularem a estética da segurança: eles estão transformando suas casas em prisões, mas suas prisões dizem muito sobre sua posição social (CALDEIRA, 2000, p. 297).

Mesmo entre aqueles, cuja situação financeira não é tão boa, e onde investimentos desse tipo pesam bastante no orçamento familiar, passa a ser considerado investimento “absolutamente necessário”. O novo código estético passa a dar conta de todas as classes, indistintamente, dentro, é obvio, de “variações enormes”, mas sempre onde a máxima é, “quanto mais ostensivamente segura e cercada é a propriedade, maior seu status” (CALDEIRA, 2000, p. 297).

Aqui está implícita a mudança conceitual de liberdade. A nova liberdade vigiada. Julieta Souza (2003) discute como os mecanismos de vigilância se potencializaram. O panóptico de Bentham constituiu-se no mais importante dispositivo espacial aplicado à vigilância da ordem na cidade. “Como revelado por Foucault (1986), o panóptico constituía-se num mecanismo instaurado por meio de um dispositivo espacial – uma torre – onde supostamente postava-se no seu interior um ‘vigilante’”. A suspeita da vigilância permanente gerava nos vigiados (muitos) a “inibição do ato proibido”. Essa tecnologia, baseada numa forma arquitetônica, segundo a autora, “tornou-se importante conquista do Estado moderno, pois com ele pode-se superar as dificuldades do controle de muitos (a massa) por poucos (funcionários públicos, policiais)” (SOUZA, J., 2003, p. 4). Hoje este mecanismo está “superpotencializado pelo uso de câmeras e hipercentralização da vigilância pública, efetuada por um (ou poucos) funcionários (policial) que vigia(m) muitos”. E ainda, associado ao “sinóptico de Bauman, definido pela observação privada de muitos (vigiados) por muitos (vigilantes)” (SOUZA, J., 2003, p. 15).

O sinóptico é virtual, isto é, quem vigia está no ciberespaço, virtualmente em qualquer lugar do planeta. O voyeurismo e desejo de exposição garantem o sucesso dessa forma de vigilância que “não precisa de coerção (...) seduz as pessoas à vigilância” (BAUMAN,1999, p.60). Ao contrário do panóptico de Bentham, em que o vigilante era um funcionário público e efetuava a vigilância por obrigação, pelo sinóptico, a vigilância é realizada pelo homem comum, quase sempre no interior de seu domicílio (SOUZA, J., 2003, p. 13).

A autora mostra como os mecanismos de controle e vigilância se estendem desde de programas televisivos que exploram crimes e busca de criminosos expostos na TV, às web-cam, e às novas estratégias de controle público da segurança através de câmeras, pardais, helicópteros e até zepelins (Rio de Janeiro) monitorados e monitorando a cidade em tempo real. Conclui que “o panóptico não está em vias de desativação, mas sendo acrescentado ao sinóptico, e que a vigilância está fazendo uso de múltiplos mecanismos

simultâneos, modificados no sentido do acréscimo de sua potência com o apoio das novas tecnologias de comunicação” (SOUZA, J., 2003, p. 15).

Se uns defendem o isolamento e a fortificação como necessidade real, outros entendem que hoje o estancamento da comunicação entre pessoas de diferentes níveis econômicos, sociais e valores dá margens para que a fantasia, alimentada por fatos reais realmente bastante violentos, tenda a criar medos de monstros maiores do que são. Como destaca Scodelario (ARRUDA, 2003): "A pessoa passa a ver o próximo com receio. De repente parece que todo mundo virou inimigo. Daí, forma-se uma bola de neve, o espaço de convivência social vai se restringindo, e o medo aumenta cada vez

mais”27 (ARRUDA, 2003, p.6).

Muros, cercas e barras falam sobre gosto, estilo e distinção, mas suas intenções estéticas não podem desviar nossa atenção de sua mensagem principal de medo, suspeita e segregação. Esses elementos, juntos com a valorização do isolamento e enclausuramento e com as novas práticas de classificação e exclusão, estão criando uma cidade na qual a separação vem para o primeiro plano e a qualidade do espaço público e dos encontros sociais que nele são possíveis já mudou consideravelmente (CALDEIRA, 2000, p. 297).

Assim, os cenários se fortificam, muros enormes, desproporcionais à escala humana, impõem agressivamente sua monumentalidade e status. E, entretanto, esse tipo de arquitetura é enaltecido e atrai grande demanda que almeja estar dentro desses espaços protegidos, com a garantia da segurança privada, não dependendo da segurança pública ineficiente e desacreditada.

Isso fica claro na observação dos slogans e anúncios que comercializam os empreendimentos habitacionais. Se em 1990 os anúncios destacavam imóveis com lazer à disposição da família, em 1995, a segurança passa a ser requisito fundamental na venda dos imóveis:

A segurança é requisito básico e essencial na comercialização dos imóveis. [...] os anúncios do RJ, [...] “primeiro, itens como portões automáticos, guarita de segurança, monitoramento por circuito fechado de TV e vigias eram listados nas propagandas. Depois, os ícones de segurança passaram a integrar a planta do imóvel, como o desenho das câmeras e dos portões automáticos. Hoje é comum o anúncio trazer a marca do fornecedor de elevador, de louças sanitárias, de fechaduras e de cerâmicas junto com o logotipo da empresa de segurança”. Já virou grife. Nem é preciso listar ou desenhar os elementos na planta. Basta colocar o selo da empresa de segurança, diz Ferraz (ARRUDA, 2003, p. 08).

27 Entrevista à psicanalista Arlete Salgueiro Scodelario, no texto “Arquitetura do medo”, publicado

A violência urbana, real ou imaginária, dita moda para arquitetura e urbanismo contemporâneos. Impõe novas regras em que “todos têm necessidade de proteger-se de todos” (ARRUDA, 2003), implica diretamente nas relações sociais e, até mesmo, nas características culturais, ao inibir a prática da cordialidade e hospitalidade tão propagada dos brasileiros.

Benzer Belgeler