Como já referido, todas as Auxiliares se declararam satisfeitas com o trabalho que desenvolvem na Educação Infantil. Embora a satisfação tenha se apresentado como um consenso entre as participantes, quando convidadas a pensar sobre os planos para o futuro, algumas delas revelaram o desejo de mudar de função, conforme indica o Gráfico 14, que pode ser consultado logo a seguir:
90 É possível encontrar a matéria completa em Paiva (2011).
91De acordo com Roldão (2011, p. 21), “ainda é forte a visão do professor como uma vocação, chamado ao
magistério por um sentido de missão, imagem compreensível diante do passado da atividade, então associada de fato à missionação, bem como à ideia de algo impressionista dos naturalmente talentosos para comunicar, persuadir, influenciar, como seres com vocação particular para ensinar, herdeiros putativos dos grandes mestres da oratória. Ou, em outra linha, a ideia de missão enraizou-se também na ligação forte de que a educação, olhada como um bem escasso e iniquamente restrito durante séculos, tem com a intervenção social o serviço visando à melhoria da sociedade, assim como à justiça e equidade”.
92 Vale destacar que neste ano de 2017, o presidente Michel Temer, com apoio da maioria dos deputados da
Câmara, aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que “congela” os investimentos dirigidos à área educacional do país durante 20 anos. Este tipo de opção política apenas reafirma o descompromisso dos políticos brasileiros com os avanços e conquistas ainda tão necessários e aguardados por cidadãos, profissionais e militantes da Educação.
Gráfico 14 – Planos profissionais das Auxiliares do CEI para os próximos dois anos
Fonte: elaborado pela autora.
Observando a referida imagem, verifica-se que 40% das Auxiliares pretende continuar trabalhando nesta função. Este percentual é referente a Joana e Francisca. Em conversas informais, durante as observações na pesquisa de campo, foram registradas falas desses sujeitos que podem ajudar a esclarecer sobre esta questão. Joana explicou: “Eu já trabalhei como professora. Hoje em dia eu não fico mais pensando nisso, porque quando a gente muda de trabalho tem que aprender tudo de novo” (DIÁRIO DE CAMPO, 11 out. 2016).
Considerando o excerto apresentado, Joana parece demonstrar se sentir segura frente às atividades que exerce como Auxiliar, ressaltando, inclusive, uma possível sensação de desconforto gerada pela possibilidade de ter que “aprender tudo de novo”, caso mudasse de emprego ou de função.
Francisca, assim como Joana, afirmou que pretende manter-se no cargo de Auxiliar na Educação Infantil. Algumas vezes comentou que ainda pretende “cursar a licenciatura” em Pedagogia, mas que, por enquanto, está “satisfeita” na função que ocupa.
Huberman (1992) afirma que os professores passam, ao longo de sua carreira, por inúmeras fases. Uma delas, nomeada pelo autor como “serenidade e distanciamento afectivo”, se caracteriza, como um momento em que
[…] o nível de ambição desce, o que faz baixar, igualmente, o nível de investimento, enquanto o sentimento de confiança e serenidade aumentam. As pessoas nada mais
60% 40%
PLANOS PROFISSIONAIS PARA OS PRÓXIMOS DOIS ANOS
Fazer concurso para Professor efetivo Permanecer na função de Auxiliar
têm a provar aos outros e a si próprias, reduzem a distância que separa os objectivos do início da carreira daquilo que foi possível conseguir até o momento, apresentando em termos mais modestos as metas a alcançar em anos futuros (HUBERMAN, 1992, p. 44).
Diante dos resultados apresentados pelas respostas de Joana e Francisca, essas Auxiliares parecem, em certa medida, “serenas” com as conquistas obtidas no âmbito profissional. Mesmo que ambas já tenham atuado como professoras, esta condição parece não se configurar mais como um objetivo profissional para Joana, que parece “conformada” com a função que desenvolve atualmente. Francisca, apesar de ter apontado o desejo de ser pedagoga, caso isso não ocorra, é possível que permaneça satisfeita e talvez até se acomode no lugar de Auxiliar, pois diversas vezes, em conversas informais, ressaltou que se sente “tranquila” na condição de “concursada com emprego estável”.
Por outro lado, frente as possibilidades de atuação no campo da Educação, 60% das Auxiliares planejam, nos próximos dois anos, submeter-se a um concurso para professoras, caso surja esta oportunidade. Maria e Socorro, ainda que tenham afirmado que se sentem satisfeitas com as conquistas adquiridas através da aprovação no concurso para Auxiliares efetivas, reconhecem que se tornar professora da rede municipal parece mais atrativo, afinal, segundo essas profissionais, as professoras “ganham mais”, possuem “mais direitos”, são mais “reconhecidas pelo que fazem” e fazem parte do “grupo do magistério”, condições que as Auxiliares não desfrutam. Por conhecer essas condições de trabalho e contratação, Cerisara (1999a, p. 120) assevera que Auxiliares “se sentem injustiçadas ao não terem reconhecidas suas competências”.
Raimunda, assim como Maria e Socorro, também informou que quer tornar-se professora. Porém, dentre as Auxiliares investigadas, esta era a única profissional que não possuía formação para a docência, mas, assim como as colegas, também reconhecia as “vantagens” inerentes ao cargo de professora, elementos que possivelmente lhe despertavam o desejo de mudança.
Ser professora, parece uma maneira de buscar não só por melhores condições de trabalho e salários, mas, um modo de conquistar o reconhecimento dos pais e demais atores inseridos no contexto da instituição educacional, pois, algumas vezes, as Auxiliares demonstravam parecer acreditar que apenas aquelas que são professoras são percebidas pelas tarefas que desenvolvem como profissionais da Educação Infantil, através de frases como: “tem pai e mãe aqui que nem olha pra gente” ou “eu sei que tem pessoas que valorizam mais o trabalho da professora”.
Todavia, é possível supor que Maria, Socorro e Raimunda, na condição de professoras, talvez reproduzissem93 as relações que vivenciam no CEI “Hora Marcada”. Isso porque, para romper com este modelo de docência, além de extinguir o cargo de Auxiliar, assumindo o professor como profissional responsável pelo trabalho direto e diário com crianças pequenas, é imprescindível oportunizar, através da formação inicial e continuada, a conscientização do papel da docência no cuidado e educação de crianças, objetivando experiências reflexivas que possam vir a mediar uma transformação pautada pela práxis (KRAMER, 1994; CERISARA, 1996a, 1996b; FREIRE, 2005; VOLTARELLI; MONTEIRO, 2016; BONETTI, 2006b).
As Auxiliares do CEI “Hora Marcada” possuem características similares, como indivíduos e como categoria, bem como aspectos que as particularizam como sujeitos. Daí, a importância de entender melhor alguns dos elementos que constituem cada uma dessas profissionais, como pessoa e como Auxiliar. A prática docente se revela influenciada também por essas instâncias (idade, sexo, estado civil, classe social, formação profissional etc.), ou seja, o trabalho docente não está reduzido a um conjunto de saberes e competências técnicas, conforme já se supôs um dia (NÓVOA, 1992a).
Para Tardif (2014, p. 142), o docente, com sua personalidade, qualidades, defeitos, dentre outros aspectos, é o próprio “componente tecnológico” de sua profissão. Sob essa perspectiva, com apoio em Penna (2012, p. 118), entende-se que “o professor [a Auxiliar] age de acordo com a história que nele está incorporada na forma de disposições e também de acordo com a história que está inscrita no posto que deve ocupar”.
Isso significa que o trabalho desenvolvido pelas Auxiliares no estabelecimento investigado não se desatrela das histórias por elas construídas, ou seja, o modo como realizam sua função junto a professoras e crianças pequenas sofre influências dos saberes que construíram em seus percursos como filhas, mães, esposas, estudantes, e outros apreendidos em experiências sociais e culturais diversificadas. As vivências profissionais anteriores à função que hoje ocupam também, certamente, deixaram impressas marcas que reverberam no modo como realizam o trabalho de cuidado e educação no CEI “Hora Marcada”.
Ainda com base em Penna (2012), é possível considerar que os saberes das Auxiliares investigadas também se edificaram e ainda se constituem a partir das influências históricas inerentes à gênese da docência na Educação Infantil que, como já descrito no
93 Nas páginas iniciais desta dissertação, ao relatar um pouco sobre minha experiência de aprendizagem e
exercício da docência, abordei o período em que fui Auxiliar (estagiária) na Educação Infantil. Em dado momento, quando me tornei professora, passei a reproduzir uma relação “partilhada” (GONÇALVES, 2014) entre mim e a Auxiliar com quem eu trabalhava.
Capítulo 3 desta dissertação, nasceu numa perspectiva do improviso, do parco investimento financeiro e sob a égide da desprofissionalização, já que não era exigido que se tivesse formação prévia para trabalhar com crianças pequenas. Sendo assim, não há como se pensar sobre a docência desenvolvida em Creches, sobre o trabalho cotidiano realizado pelos profissionais da Educação Infantil sem que se considerem essas personagens, as Auxiliares, ainda que parcialmente, como se fez neste capítulo.