De acordo com Vargas (2012), a satisfação de um determinado profissional com relação ao trabalho que exerce é um dos fatores mais importantes para que este indivíduo possa vir a realizar esta tarefa com maior comprometimento e boa qualidade. Ou seja,
A satisfação de um profissional com sua carreira, suas atividades e profissão faz com que o mesmo demonstre uma maior disposição para solucionar conflitos [inclusive os individuais], assim como para se reinventar quando confrontado com uma grande diversidade de problemas. Esta satisfação causa impacto positivo na sua prática (VARGAS, 2012, p. 7).
89 Nesta dissertação, o uso do termo “ambiente” se reporta às ideias de Horn (2007, p. 35), inspiradas em Zabalza
(1998) e Forneiro (1998), que afirma que ambiente contempla o “conjunto do espaço físico e as relações que nele se estabelecem”.
Todas as Auxiliares afirmaram se sentir satisfeitas com o trabalho que desenvolvem no CEI “Hora Marcada”. Suas justificativas foram variadas.
Joana informou que sua satisfação decorre do fato de desempenhar uma tarefa cuja responsabilidade está atrelada ao “desenvolvimento das crianças pra que eles possam virar cidadãos”. A resposta emitida por Joana revela uma concepção de criança como indivíduo dependente, incompleto, como um vir a ser (ROSEMBERG, 1985; SARMENTO, 2007; SARMENTO; CERISARA, 2004). Sob essa perspectiva, a criança dependeria do adulto para, necessariamente, tornar-se um cidadão quando, desde o momento em que nasce, já é cidadã. Sendo assim, cabe à Educação, bem como aos seus profissionais, preparar o “pleno desenvolvimento da pessoa […] para o exercício da cidadania”, conforme descrito no artigo 205 da CF (BRASIL, 1988).
Maria alegou que se sente satisfeita “porque é um trabalho em equipe, ou seja, vamos completando uma à outra no que fazemos. Somos parceiras mesmo”. Maria parece compreender uma das ideias já comentadas nesta dissertação, quando fez referência à docência como atividade essencialmente relacional (TARDIF; LESSARD, 2015a).
Ainda que na docência os profissionais vivenciem situações individuais de trabalho, na maior parte do tempo, esta função se desenvolve coletivamente, seja com as crianças, famílias e/ou funcionários. Não obstante, estudos e pesquisas apontam que, geralmente, os docentes possuem dificuldade de trabalhar em grupo (AUGUSTO; CALDEIRA, 2007; LANTHEAUME, 2012; RECCO; SOUZA NETO; IZA, 2016). Gadotti (2003, p. 33) esclarece que
[…] muita dor poderia ser evitada se o professor, a professora [os docentes] […] se tivessem aprendido a aprender de forma cooperativa: o individualismo da profissão mata de ansiedade e angústia, leva ao sofrimento e até ao martírio do professor compromissado e à desistência daquele que perdeu a esperança.
Sendo assim, a postura de Maria parece bastante adequada para uma profissional que está inserida na primeira etapa da Educação Básica, considerando que a competência relacional (PERRENOUD, 2000, 2002; TARDIF; LESSARD, 2015a) é uma das mais importantes dentre tantas necessárias ao trabalho docente. Deste modo, fica posta a importância da formação docente, inicial e continuada, dar ênfase, também, ao desenvolvimento desta competência.
Francisca, na questão que indagava sobre a satisfação no trabalho, não justificou sua resposta, por escrito, no questionário aplicado com as Auxiliares. Apesar disso, em
algumas situações observadas e em conversas informais, afirmou que se identifica com o trabalho que realiza no CEI. Era fácil perceber, através das práticas dessa Auxiliar, que ela realmente sentia prazer e se identificava com suas atividades. O trecho retirado do diário de campo confirma esta informação, como pode ser visto logo à frente:
Francisca dava banho nas crianças da turma com a qual trabalha. As crianças pulavam e brincavam durante esta atividade. Algumas jogavam água pra cima e gargalhavam. Francisca pedia para que as crianças tomassem cuidado para não cair, mas, ao mesmo tempo, ria por conta das brincadeiras que estavam acontecendo entre a turma. Quando o banho acabou, Francisca estava com a roupa bem úmida por conta da brincadeira com água. Enquanto enxugava as crianças, comentava com elas: ‘Hoje vocês me deram banho, né? Tô toda molhada!’ e mostrava a roupa para o pequeno grupo. As crianças acharam engraçado (DIÁRIO DE CAMPO, 24 out. 2016).
Há outros trechos registrados durante as observações realizadas ao longo da pesquisa de campo que se assemelham a este fragmento. Na cena descrita, a “sutileza está imbuída de uma complexidade que implica a percepção de cada uma das crianças” (TRISTÃO, 2004, p. 182). Francisca percebeu o sutil. Esta profissional possibilitou que o grupo se divertisse com o banho, vivenciando esta atividade como momento interativo, na qual foram oportunizados o diálogo e a escuta das crianças, o que parece não só adequado, mas necessário ao papel docente, pois, segundo Gadotti (2000, p. 9) “ser professor hoje é viver intensamente o seu tempo, conviver; é ter consciência e sensibilidade”. Os cursos de formação inicial e continuada de docentes podem servir como experiência para o desenvolvimento desta sensibilidade, pois se trata de algo que pode ser aprendido.
Raimunda alegou que gosta de “trabalhar ensinando, orientando e cuidando das crianças” e, por esse motivo, sente-se satisfeita. Ainda que não seja a professora, Raimunda mencionou atividades que demonstram profunda semelhança entre seu trabalho e as atribuições da professora com quem trabalha no CEI “Hora Marcada”.
Por fim, Socorro esclareceu que “todo trabalho que é realizado com amor gera satisfação”. Esta resposta trouxe à tona a temática das emoções, do afeto, pois relacionou o amor ao seu sentimento de satisfação. Outros estudos também identificaram na fala de docentes, sobretudo, na Educação Infantil, uma alusão frequente ao amor (ALVES, 2006; MONTEIRO, 2007), o que parece se apresentar como traço reminiscente da perspectiva vocacional ou missionária conferida às primeiras práticas docentes expressas através da História da Educação Infantil (LOURO, 1997, 2001; ASSIS, 2009).
Ainda que esta concepção seja bastante retrógrada, ela permanece, até hoje, nos discursos e mentes de diferentes indivíduos na sociedade. A exemplo disso, no ano de 2011,
Cid Gomes90, na época governador do Estado do Ceará, afirmou que se um indivíduo escolhe ser professor, “faz isso por gosto, e não pelo salário”, o que revela um entendimento de amor como doação. O discurso do referido político revela uma concepção de docência como atividade “missionária”91 (ROLDÃO, 2011) e uma política educacional descomprometida92 com a boa qualidade da Educação brasileira.
Aqui, torna-se indispensável recorrer a Freire (2005, p. 62), pois o autor rememora sobre a importância do amor na docência, porque “amor é comprometer-se com a causa”. A causa da docência na Educação Infantil se assenta na (re)construção do olhar para esta profissão a fim de que possa ser percebida como atividade de cunho profissional, portanto, como uma atividade que requer formação inicial e continuada de boa qualidade, conhecimentos específicos para atuar na área, que necessita de condições adequadas de trabalhos, dentre outros elementos. Assim, é importante que amor que acompanha a docência seja o amor de luta, porque o amor romântico apenas “contribui para a constituição de uma identidade profissional antagônica à profissionalização” (ALVES, 2006, p. 11).
Para concluir o “desenho” do perfil das Auxiliares do CEI “Hora Marcada”, é preciso, por fim, expor, ainda, seus planos profissionais para os próximos dois anos.