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COĞRAFİ KONUMU:

Outro aspecto abordado através do questionário foi a percepção das Auxiliares quanto à relação que possuem com os diferentes segmentos do CEI “Hora Marcada”.

A análise desta questão pode ser tomada como de grande importância quando, com base em Tardif (2014, p. 49), compreende-se que a docência também é construída a partir de “uma rede de interações com outras pessoas”, ou seja, as relações que acontecem no ambiente de trabalho entre Auxiliares, professoras e gestão e famílias das crianças, imprimem reflexos no modo como os sujeitos investigados realizam suas atividades cotidianas. Portanto, pensar nessas relações significa tentar compreender, de maneira ainda mais profunda, os elementos que delineiam o perfil das Auxiliares.

Deste modo, para explicitar as percepções dos sujeitos investigados quanto às relações vivenciadas no contexto do CEI, encontra-se, a seguir, o Gráfico 13.

Gráfico 13 – Avaliação das Auxiliares sobre as relações com os diferentes segmentos do CEI

Fonte: elaborado pela autora.

Através do Gráfico 13, vê-se que, de modo geral, as relações com os diferentes segmentos do CEI foram consideradas “boas” ou “ótimas”, pelas Auxiliares.

Quando indagadas sobre a relação que possuem com a coordenadora, todas as Auxiliares classificaram-na como “ótima”. Este resultado mostra-se contrário aos achados de outros estudos já realizados (SOUZA, 2007; POLON, 2009), que revelam relatos de relações conflituosas entre docentes e coordenadores.

Durante o período de inserção no estabelecimento pesquisado, foram identificadas diferentes situações cotidianas em que era possível notar uma relação aparentemente amigável entre os referidos segmentos. Um recorte retirado do diário de campo pode servir de exemplo para o leitor:

Enquanto as Auxiliares lanchavam, a coordenadora estava sentada em uma das mesas da sala da Coordenação recortando papéis de diferentes cores. Apesar de estar ocupada, mostrava-se interessada pela conversa das profissionais. O tema em questão era casamento e todas riam bastante, contando sobre as situações particulares que vivenciam no dia a dia (DIÁRIO DE CAMPO, 24 out. 2016).

Com base no extrato apresentado, vê-se que a gestora assumia uma postura próxima e acessível às Auxiliares, o que, segundo Almeida (2006, p. 70), é papel do coordenador pedagógico, pois um dos papéis deste profissional é de “conhecer e valorizar a trama das relações interpessoais”. Deste modo, interagir não só faz parte de sua função, como lhe serve de subsídio para o trabalho que desenvolve como gestor.

5 2 5 3 3 3 0 3 0 2 2 2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Com a coordenadora Com as professoras Com outras Auxiliares Com outros funcionários Com as crianças Com as famílias

A RELAÇÃO DAS AUXILIARES COM OS DIFERENTES SEGMENTOS DO CEI

Quantidade de Auxiliares que acredita que a relação é ótima

Quantidade de Auxiliares que acredita que a relação é boa

Quantidade de Auxiliares que acredita que a relação é satisafória

Quantidade de Auxiliares que acredita que a relação é ruim

O consenso entre as Auxiliares de que a relação com a coordenadora é “ótima” pode suscitar, à primeira vista, a impressão de que se trata de um envolvimento harmônico, o que não condiz com a realidade. Durante o período de observação participante, também foi possível registrar em diário de campo algumas falas das Auxiliares que demonstravam outras facetas dessa relação:

No parque, uma das Auxiliares perguntou em voz alta: “Gente! Cadê essas professoras que não voltam desse intervalo? Já tá passando da hora e elas não chegam [no parque] pra gente ir lanchar”. Uma das colegas respondeu: “Tão tudinho dentro da sala da coordenação olhando as roupas que a professora trouxe pra vender e tu sabe que ela [a coordenadora] não diz nada, né?!” (DIÁRIO DE CAMPO, 14 out. 2016).

Todo mundo aqui da Creche gosta muito dela [da coordenadora]. Ela é muito acolhedora, nem parece a outra coordenadora que tinha aqui antes dela. Outra coisa boa é porque ela dá muita liberdade pra gente trabalhar aqui. Ela confia muito no nosso trabalho e isso é muito bom pra gente [Auxiliares e professoras] (DIÁRIO DE CAMPO, 14 out. 2016).

Na hora do “parque”, as Auxiliares perguntaram para Socorro sobre os atrasos da professora com quem ela trabalha. Nas últimas duas semanas, Socorro ficou sozinha um dia inteiro e, durante outros dois dias, “assumiu” a turma no início da manhã. As colegas aconselharam que Socorro falasse com a coordenadora para que ela conversasse com a professora sobre esse assunto. A Auxiliar respondeu: “E adianta a coordenadora falar?” (DIÁRIO DE CAMPO, 24 out. 2016).

De modo geral, não só as Auxiliares, mas também as professoras se referiam à coordenadora como uma pessoa “acolhedora”, fácil de lidar. Porém os trechos outrora apresentados, quando consideradas sob a ótica do papel que cabe à coordenadora (CLEMENTI, 2002; PLACCO; ALMEIDA, 2012), parecem denotar uma possível passividade desta profissional frente a alguns acontecimentos no CEI.

Os recortes apresentados ilustram bem isso, pois indicam uma aparente discordância das Auxiliares mediante algumas posturas assumidas pela coordenadora, contudo, como se expressam em diálogos corriqueiros, não parecem ser percebidos como situações que revelam tensionamento relacional entre esses segmentos. Entretanto, esses conflitos se mostram de forma velada no cotidiano observado.

Considerando o que foi exposto até aqui, vale à pena recorrer a Freire (2000, p. 35) e rememorar que “quanto mais autenticamente tenhamos vivido a tensão dialética nas relações entre autoridade e liberdade tanto melhor nos teremos capacitado para superar razoavelmente crises de difícil solução”. A reflexão do autor alerta para o fato de que a tensão entre indivíduos que se relacionam é algo esperado, comum. Todavia, sobretudo, no contexto de instituições de Educação, o diálogo, entre as diferentes instâncias, poderá se constituir em

recurso de aprendizagem e contribuir para o enfrentamento de tensões e conflitos. Porém, durante a pesquisa de campo, não foram presenciadas situações em que Auxiliares e coordenadora tenham explicitado umas as outras possíveis insatisfações com relação às posturas assumidas na instituição de trabalho.

Assim como a relação que informaram possuir com a coordenadora, os sujeitos investigados acreditam que o vínculo que mantêm entre si é “ótimo”. O registro a seguir pode ajudar a ilustrar um pouco mais sobre esta percepção:

A Auxiliar me explicou que na prática não tem diferença entre o trabalho de uma Auxiliar efetiva e o trabalho das Auxiliares que são terceirizadas. “Acho que é por isso que a gente se dá bem, porque estamos no mesmo barco [risos]! O grupo das Auxiliares é uma ajudando a outra, dando uma dica, dando uma opinião” (DIÁRIO DE CAMPO, 18 out. 2016).

Freire (1967) esclarece que horizontalidade se configura como uma experiência calcada no diálogo, na troca de informações, reverberando para um lugar de encontro, de proximidade entre os indivíduos. Levando em conta o fragmento anterior, é possível identificar traços que sugerem a existência de uma relação horizontal entre as Auxiliares.

Apesar de o trabalho das Auxiliares terceirizadas e concursadas ser o mesmo, é preciso evidenciar que isso não anula as diferenças entre essas profissionais no que concerne ao salário, carga horária, formação, dentre outras. Porém, ainda que as Auxiliares estivessem cientes dessas diferenças, elas não pareciam provocar reflexos negativos na relação cotidiana estabelecida entre este segmento, pois o que se viu durante o período de inserção no CEI “Hora Marcada” foram situações diárias de amizade e companheirismo, de maneira que parecia que “as individualidades estivessem neutralizadas e a relação fosse mantida idealmente entre iguais, mesmo que tal igualdade fosse artificialmente construída” (FORTUNA; LEITE, 2012, p. 152).

Com base em Fortuna e Leite (2012), vê-se que é possível que as diferenças entre ser Auxiliar terceirizada e ser Auxiliar concursada fossem, se não neutralizadas, atenuadas pelo fato de ambas exercerem a mesma função e as mesmas tarefas, o que parecia evocar um sentimento de igualdade entre Joana, Maria, Raimunda, Francisca e Socorro, pois, como bem afirma Freire (2005, p. 11), “o autorreconhecimento plenifica-se no reconhecimento do outro”. Este encontro de si no outro é justamente o que parecia aproximá-las, facilitando o diálogo em grupo e a construção de uma relação aparentemente “saudável”.

Ainda focalizando a avaliação que as Auxiliares fazem da relação com os segmentos do CEI, o Gráfico em discussão demonstra que elas mantêm, com as crianças com

as quais trabalham, uma relação “ótima” e “boa”. Há dois recortes do diário de campo que ilustram essas opiniões:

Depois que todas as crianças adormeceram, Francisca seguiu para a cozinha para esquentar seu almoço, como de costume. Uma das crianças da turma acordou e, ao se dar conta da ausência da Auxiliar, chorou bem alto. Francisca saiu correndo da cozinha e foi até a mureta da sala. Apenas avisou à criança: ‘Que foi? Estou aqui! Tá tudo bem’. O menino olhou pra ela, deitou e voltou a dormir. Francisca disse: ‘Ele é desse jeito. Basta me ver, aí se acalma’ (DIÁRIO DE CAMPO, 18 nov. 2016).

Em outra situação foi registrada uma cena de Joana referente a um momento em que interagia com as crianças de sua turma:

As crianças do Infantil I fizeram um bolo de areia e chamaram Joana. A Auxiliar levantou-se e foi até o grupo. As crianças pediram que ela cantasse. Joana cantou: ‘Parabéns pra você, nesta data querida!’. Ao término da música, as crianças pediram: ‘De novo, de novo!’. Ela cantou cerca de quatro vezes e falou: ‘Pronto. Tá bom!’ Esta ideia de interromper a brincadeira, aparentemente, não agradou o pequeno grupo, de forma que Joana permaneceu brincando com as crianças até que elas se interessaram por um gato que apareceu no local (DIÁRIO DE CAMPO, 18 out. 2016).

Os recortes retirados do diário de campo sinalizam que as crianças pareciam confiar nas Auxiliares e que se sentem mais seguras com a presença desses adultos com os quais convivem. Esses excertos revelam sensibilidade e disponibilidade por parte das profissionais diante das necessidades das crianças de seus agrupamentos, o que ajuda a elucidar porque as Auxiliares fizeram a escolha pelas opções “ótima” e “boa” para fazer referência à relação que possuem com suas turmas.

Este resultado parece bastante relevante, afinal, uma relação saudável entre esses segmentos é o que torna a docência e a aprendizagem possíveis, pois como bem assevera Freire (2003, p. 23), “não há docência sem discência”. É sabido que a relação entre adultos e crianças, quando marcada por afeto, segurança, confiança e diálogo, proporciona a consolidação de vínculos significativos, aspecto que facilita a aprendizagem da criança na Educação Infantil. É possível afirmar, com base na pesquisa de campo que as relações entre Auxiliares e as crianças, de maneira geral, eram marcadas por essas características.

Sabendo que “as trocas afetivas dependem inteiramente da presença concreta dos parceiros” (DANTAS, 1992, p. 90), a participação do docente e da criança neste movimento interativo desponta como condição primordial para o cuidado e educação neste contexto. É oportuno, então, mencionar Arroyo (2013, p. 53) que faz uso da expressão “uma humana docência” afinal, não há nada mais humano que se relacionar.

Ainda buscando compreender os dados expressos através do Gráfico 13, observa- se que duas Auxiliares definiram a relação com as famílias das crianças como “boa” e outras três acreditam que este relacionamento é de uma experiência “ótima”.

Cabe rememorar que as Auxiliares terceirizadas encontravam as famílias das crianças tanto no momento de chegada como no horário da saída, em decorrência de sua carga horária de trabalho. As Auxiliares efetivas adentravam ao CEI por volta de 7 horas e 20 minutos e concluíam o expediente de trabalho às 4 e 30 da tarde, portanto, período que coincide com o horário em que a maioria dos familiares não se faz presente no CEI “Hora Marcada”. Isso significa que o contato das Auxiliares efetivas com as famílias era mínimo. Uma relação marcada pelo pouco contato e diálogo parece causar nas Auxiliares a impressão de que a convivência com as famílias é harmônica. Porém, esta “harmonia” pode ser apenas consequência do número reduzido de oportunidades de encontros e conversas.

É importante rememorar que a relação entre famílias e instituição educacional é um dos fatores que sinaliza sobre a qualidade na Educação Infantil (BRASIL, 2006a). A LDB (BRASIL, 1996a) afirma que o trabalho na primeira etapa da Educação Básica deve ser complementar à ação da família. Guimarães (2012, p. 92) clarifica que “complementaridade pressupõe parceria, encontro e diálogo”. Desta forma, o relacionamento entre família e docentes é um elemento imprescindível, pois é por meio desse vínculo que a família pode contribuir com a instituição e que o estabelecimento colabora com as famílias através das “trocas” de informações sobre o desenvolvimento das crianças, uma dentre tantas ações possíveis para se alcançar os objetivos pretendidos pela instituição de educação e cuidado.

Quanto à relação das Auxiliares com as professoras, dois dos sujeitos investigados conceituaram-na como “ótima”, enquanto os outros três opinaram que esta é uma relação “boa”. Esta percepção mostra-se contrária àquela constatada por Cerisara (1999a), em pesquisa sobre tema semelhante, que identificou que entre essas profissionais há uma relação fortemente marcada pela “subordinação/dominação”, na qual perpassam elementos como competição, passividade, insegurança, dentre outros, o que permite inferir que talvez essas relações não sejam tão “ótimas”, tão “boas”. Inclusive, este tensionamento relacional não foi identificado somente por esta autora, mas por outras produções acadêmicas (KOPCAK, 2009; OLIVEIRA, 2011b; SILVA, 2012; SANTOS, 2013; EDIR, 2014; PAULINO, 2014), já comentadas no capítulo referente ao Estado da Arte desta dissertação.

As pesquisas sinalizam que esta tensão muitas vezes se apresenta por meio de pequenos conflitos, de ordens, de divisão desigual do trabalho, dentre outros aspectos, muitas vezes confundidos como algo inerente a esta relação e ao modo como o trabalho deve ser

realizado, mas que revelam a existência de um poder atrelado a uma diferença hierárquica, supostamente vinculada à superioridade da função de professora quando comparada à Auxiliar. Essa reflexão ancora-se,também, nos estudos de Cerisara (1999a, p. 111), pois a autora reforça que

As auxiliares de sala e as professoras vivem no interior das creches relações entre si baseadas na suposta partilha das responsabilidades pela educação das crianças do grupo com o qual trabalham. Essas relações têm sido historicamente conflitivas, sem que haja um desvelamento explícito deste conflito.

Cabe comentar que, apesar de as Auxiliares afirmarem que a relação que mantêm com as professoras é “boa” ou “ótima”, a observação do cotidiano revelou indícios de outras facetas dessa relação que em muito se aproximam dos resultados das pesquisas que apontam tensões e conflitos na docência exercida por Auxiliares e professoras no contexto da Educação Infantil. Foi possível identificar, por exemplo, episódios em que algumas professoras não ajudavam as Auxiliares durante as refeições, em especial, no momento de distribuir e recolher pratos e talheres. No entanto, também se pode identificar Auxiliares que se recusavam a participar da elaboração da “Acolhida” coletiva88 por acreditar que esta atividade não é de responsabilidade de sua função. Esta situação, inclusive, revela que há especificidades do trabalho de Auxiliares e professoras.

Nessa rede de relacionamentos que se estabelecem no ambiente de trabalho, têm- se também as relações que as Auxiliares mantêm com os outros funcionários do CEI, os profissionais responsáveis pelos serviços gerais, cozinha e porteiros. Três Auxiliares afirmaram que esta relação é “ótima” e outras duas a avaliaram como “boa”.

Durante o período de realização da observação participante, pode-se acompanhar uma relação saudável de trabalho entre as Auxiliares e esses funcionários. Isso porque se cumprimentavam, conversavam e se ajudavam em diferentes tarefas diárias, principalmente naquelas dirigidas às crianças e ao bom desenvolvimento do trabalho do grupo. Entretanto, quando comparadas com a relação entre Auxiliares e professoras, se configuravam como vínculos mais superficiais, pois ainda que todos trabalhassem no mesmo estabelecimento, não estavam diretamente uns com os outros, portanto, eram poucos os momentos de maior aproximação entre esses segmentos que, em geral, eram mais comuns nos horários de “parque” e das refeições das crianças.

88 A “Acolhida” coletiva consistia na realização de atividades diárias, planejadas e desenvolvidas pelas

professoras, que aconteciam no início da manhã, com todas as turmas do CEI “Hora Marcada” reunidas no corredor principal do estabelecimento. As vivências eram diversas, como: contação de histórias, música, dança, brincadeiras populares, dentre outras.

Esse tipo de relação entre os profissionais de uma instituição se apresenta como aspecto relevante para a construção de um ambiente89 em que os profissionais se sintam à vontade, seguros e acolhidos, porque o modo como os funcionários se sentem no local de trabalho provoca reflexos na forma como desenvolvem esta atividade. Marqueze e Moreno (2005, p. 70) reforçam esta reflexão ao afirmar que

[…] alguns fatores podem atuar tanto como determinante quanto como consequência [sic] da satisfação, a exemplo do relacionamento com os colegas de trabalho. Em determinada situação, se este aspecto estiver negativo, ele pode gerar insatisfação no trabalho. Por outro lado, a insatisfação no trabalho pode gerar problemas de relacionamento no ambiente de trabalho.

As opiniões das Auxiliares, relativas às relações estabelecidas com os diferentes segmentos do CEI variaram entre “boa” e “ótima”, o que sugere um ambiente harmônico de trabalho, ou seja, sem conflitos. Apesar disso, as observações realizadas durante a pesquisa indicaram um cotidiano marcado por relações amigáveis e respeitosas, mas isso não anulava situações caracterizadas por disputas, insatisfações e discordâncias, manifestadas através de gestos e expressões faciais.

Tendo conhecido as percepções das Auxiliares acerca das relações com os diferentes segmentos do CEI e compreendendo que a natureza dessas relações interfere diretamente no nível de satisfação com o trabalho que executam, é importante saber se Auxiliares se sentem satisfeitas ou não com a atividade que desenvolvem, uma vez que esse sentimento também interfere diretamente no modo como o trabalho é realizado.

Benzer Belgeler