Muitos fatos marcaram a Conferência de Estocolmo, em 1972. Uma afirmação que se tornou emblemática foi a da primeira ministra da Índia, Indira Gandhi: “A pobreza é a maior das poluições”. Nesse contexto, surgiu a preocupação de não parar o desenvolvimento, e sim, orientá-lo para preservar o meio ambiente e os recursos não renováveis.
Como vimos anteriormente, a ONU foi pioneira no processo mundial de organização internacional de discussão e de geração de um plano de ações para o futuro (Agenda 21), que afetou principalmente os governos. Entretanto, já também abordava recomendações para as empresas. Na Agenda, fica claro que as empresas têm papel fundamental na redução do impacto no meio ambiente e no uso dos recursos naturais. E em países não desenvolvidos, essa responsabilidade é ainda maior porque os recursos naturais são imprescindíveis para nossa existência.
A gestão de recursos naturais é hoje uma responsabilidade tanto das distribuidoras dos recursos que planejam sua utilização sustentável, como dos
governos que estabelecem as normas quanto ao seu uso, como da sociedade que precisa desenvolver a consciência do consumo sustentável.
No âmbito empresarial, a Câmera de Comércio Internacional desenvolveu a Carta Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável em 1991 com o objetivo de auxiliar as empresas a melhorar suas ações sobre o meio ambiente, representando grande avanço na gestão ambiental. A mensagem principal da carta era a de desenvolver uma consciência de que deve existir um objetivo comum, e não um conflito entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental, tanto para o momento presente como para as gerações futuras.
Segundo Rui Otávio Bernardes de Andrade (2004) 3, podemos citar como principais benefícios dessa gestão ambiental nas empresas:
o Sobrevivência humana; o Consenso público; o Oportunidade de mercado; o Redução de risco; o Redução de custos; o Integridade pessoal.
Além disso, o autor ressalta três elementos-chave que caracterizam as estratégias de administração ecológica:
o Inovação; o Comunicação; o Cooperação.
A gestão ambiental é uma ferramenta que começa a ser pensada para conseguir unir todos esses benefícios e atender as demandas das organizações internacionais. Em termos técnicos, a partir da década de 80, as empresas começaram a introduzir a gestão ambiental com o principal objetivo de exercer controle ambiental, e através de auditorias, poderem:
3 In: “Gestão Ambiental”
o Permitir uma investigação sistemática dos programas de controle ambiental;
o Auxiliar na identificação de situações potenciais de problemas ambientais;
o Verificar se a operação industrial está em conformidade com leis e normas.
Em resumo, a gestão ambiental tem um caráter holístico e uma visão sistêmica porque envolve todas as áreas de uma empresa ou órgão público e a própria estratégia de mercado. O crescimento econômico deve ser sustentado por um planejamento ambiental de longo prazo, caso contrário, a própria ausência de recursos já poderia comprometer a existência da empresa, além de todas as conseqüências sócio-ambientais já comentadas anteriormente.
Na década de 90, houve um crescimento significativo de produtos verdes pela exigência de consumidores cada vez mais conscientes e as leis ficaram mais rígidas com a chegada de novos órgãos reguladores. Nesse contexto de busca por uma excelência ambiental, surge a normatização da ISO 14000, conforme aponta Giacomini (1995).
Nos dois casos que analisaremos nesse trabalho, temos uma situação especial: as empresas, além de prestadoras de serviço, são naturalmente gestoras do meio ambiente. É o que ocorre com distribuidoras de água e luz porque ao mesmo tempo em que elas estabelecem com o cidadão uma relação de consumo, têm a obrigação social e auto-sustentável de gerir o recurso natural (nesses casos representados pela água). Como a maioria da energia elétrica do Brasil é proveniente de hidroelétricas, a gestão de energia elétrica também é uma gestão hídrica indiretamente. O abastecimento de água e energia elétrica, por sua vez, é atualmente indispensável para as pessoas e para o desenvolvimento econômico (no âmbito empresarial e da agricultura).
A Agenda 21 trata a água como bem primordial, já que está nas condições mínimas humanas de sobrevivência e de saúde pública, principalmente no que diz respeito ao manejo da água, proteção dos recursos hídricos, qualidade da água, desenvolvimento sustentável, abastecimento de água potável e saneamento básico. A água doce começa a ser encarada como
um recurso finito e a responsabilidade pelo seu uso e conservação está fragmentada em todos os setores da sociedade , como ressalta Tundisi (2003). Para mantermos a distribuição a longo prazo é necessário iniciar um plano de redução de consumo para conservação do bem comum.
Sendo assim, o mundo tem sofrido grandes transformações no que diz respeito à gestão da extração de recursos naturais: a água passa de “bem comum” para “bem da comunidade”, que, através de comitês hidrográficos passa gerir o recursos da região. Jacobi (2002) ressalta que o Brasil iniciou recentemente esse tipo de ferramenta democrática e São Paulo, especificamente, passa ainda hoje por grandes dificuldades para a instalação do comitê do Alto Tietê.
Historicamente, os brasileiros não vêm se preocupam muito com a questão exatamente pela percepção de abundância do recurso (veremos a problemática de percepções de maneira mais aprofundada no capítulo de “comunicação de riscos”). O Brasil possui uma imensa riqueza natural, uma vez que as suas reservas de água doce correspondem a cerca de 15% das reservas de todo mundo - localizada principalmente no aqüífero Guarani. Entretanto, desperdiçamos por volta de 45% da água consumida só nos vazamentos do sistema de distribuição (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento e Ministério das Cidades, 2004). Nos domicílios, o desperdício também é alto: moradores da Grande São Paulo, por exemplo, desperdiçam diariamente 1,8 bilhão de litros de água potável, ou seja, 1/3 do que é distribuído nessa região (Sabesp, 2004). )
A partir do contexto descrito nesse capítulo podemos compreender como as empresas estudadas no presente trabalho (Eletropaulo e Sabesp) adquirem um papel muito importante na dinâmica social das comunidades onde se inserem: têm uma responsabilidade muito grande não só como prestadoras de seriço, mas também como difusoras de desenvolvimento econômico e social.
Neste trabalho, analisaremos o papel das duas empresas como gestoras de recursos (água e energia elétrica), ou do bem comum. Trabalharemos essa análise sobretudo pela ótica do dilema social, razão pela qual nos deteremos
em investigar como a questão de escassez foi divulgada para o público e, conseqüentemente, qual foi a estratégia de gestão do recurso adotada, como foi sua utilização e como as duas empresas conseguiram a colaboração da população por meio de ações estruturais e de comunicação. Veremos de forma mais aprofundada as soluções aplicadas, a repercussão e os resultados destas decisões no capítulo de análise de casos.