ESCALA: 1:5.100.000
Fonte: Arruda, 1986 (modificado) Desenho: Lomba, 2000 Organização: Abreu, 2000 Rio Iv in hem a Rio Doura dos Rio Brilhante
Rio A mam bai Rio Igua temi Ri o P ar a ná
Segundo Lenharo (1986, p.63-6), a Companhia Matte Laranjeira exercia o papel de barreira, até mesmo com milícia própria, defendendo a área de possíveis invasões, bem como da ocupação por migrantes sem-terra, principalmente do Sul do País, que também sabiam explorar os ervais. Além disso, a Companhia não somente contribuía com larga parte das rendas auferidas pela administração estadual, como também adiantava empréstimos. Vejamos esse trecho (p.63):
A organização do transporte fluvial, a abertura de trechos auxiliares de estrada de ferro e de novas cidades são assinalados como contribuições decisivas da Companhia para a obra de colonização. Campanário, cidade sede, abrigava seus escritórios e dispunha de instalações completas de serraria, carpintaria, ferrarias e oficinas mecânicas, assim como usina de força e luz, hotel, campo de aviação militar. A cidade era servida de luz, água e esgoto, hospital, cinema, escola, quadras de esporte (...) Além de impedir a entrada de posseiros em seus domínios, a Companhia atuava como tampão para a subida de migrantes oriundos do Sul do País. 40
Nas primeiras décadas do século XX, já dentro dos princípios de uma “integração” do mercado nacional, para uma ligação comercial com o Sudeste, principalmente com São Paulo, foram inaugurados os eixos ferroviários para os então estados de Mato Grosso e Goiás, através do prolongamento ferroviário construído de São Paulo para Goiás, Estrada de Ferro de Goiás, e da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, de São Paulo até Corumbá, passando por Campo Grande, o que, no decorrer das décadas seguintes, consolidou a última como pólo de convergência da maior parte do gado bovino destinado aos frigoríficos paulistas (nos municípios de Araçatuba, Andradina e Barretos), retirando de Corumbá a posição de principal entreposto comercial da região.
A lógica das mudanças provocadas pelo transporte ferroviário deve ser entendida não apenas do ponto de vista econômico, mas também como estratégia de segurança nacional, já que o rio Paraguai era uma importante via de acesso a Mato Grosso, um rio internacional que poderia facilitar invasões e assaltos. Lenharo (1986), por exemplo, sinaliza a preocupação do Governo Federal no sentido da manutenção das fronteiras políticas; isso porque, nas áreas limítrofes brasileiras, imensas porções de terra eram de propriedade de estrangeiros, principalmente no Oeste brasileiro. Essa preocupação levou o Governo a negar a concessão de terras devolutas a requerentes que já
fossem proprietários e inclusive passou a favorecer a instalação de pequenas propriedades na faixa fronteiriça de 150 km de extensão.
Um outro aspecto dessa visão geopolítica é levantado por Queiróz (1999), quando versa sobre o sentido político da Noroeste. O autor aponta para a fragilidade da ligação com o centro do País pela via fluvial - rio Paraguai/rio Cuiabá - já que Corumbá, colocado como entreposto, atuava quase como uma base cosmopolita, que negociava diretamente com o exterior, principalmente a Argentina, o que punha em risco a soberania nacional. Nesse processo, segundo Queiróz, a preocupação da classe política nacional e do Governo Federal pode ser evidenciada através da mudança do traçado da NOB (Noroeste do Brasil), que inicialmente teria o traçado Bauru-Cuiabá e que, através do Decreto do Governo Federal nº 6.463 de 1907, passou a ter como ponto final Corumbá, ao sul de Mato Grosso, à margem direita do rio Paraguai, na fronteira com o País do mesmo nome; análises que ratificam a preocupação geopolítica – de segurança nacional – apontada.
Em decorrência da maior disponibilidade de circulação propiciada,
principalmente pela ferrovia e do conseqüente reflexo no acesso aos mercados consumidores, o sistema tradicional da pecuária extensiva presente em todo o Oeste brasileiro foi afetado, com repercussões nas etapas do processo de criação e também na malha fundiária. Isso é muito evidente no Sul mato-grossense, nos “campos de vacaria”, área em que predominavam as vegetações de cerrado e de campo limpo (Mapa 04), aproveitadas tradicionalmente pelos criadores de gado bovino como pastagens naturais, onde foram incorporadas técnicas como a subdivisão de pastos, a seleção das pastagens naturais, o apuro do plantel mediante cruzamento com o zebu e a instalação de currais de aparte para a separação do gado destinado a cria, recria e engorda, cujas áreas “aproximaram-se” na medida em que se organizavam as áreas de engorda sempre perto das vias de transporte.
O gado magro mato-grossense, pelo menos até os anos 5041, destinava-se aos locais de engorda e frigoríficos paulistas, localizados no Oeste Paulista, principalmente nas imediações de Andradina e Araçatuba (atingidas por meio da ferrovia). Além disso, também contribuía com a balança comercial de exportação, atendendo, segundo Corrêa (1995, p.115), preferencialmente os mercados do sul do País e da região do Prata, com a produção de carne através das charqueadas, que representavam, no dizer do autor, uma
dependência, nas primeiras décadas desse século, dos produtores mato-grossenses com relação aos saladeiros que beneficiavam a carne e os couros salgados e que, em grande parte, pertenciam a grupos estrangeiros.42
Essa atividade - a dos saladeiros -, segundo Queiróz (1999), com a ferrovia e a possibilidade de exportação para São Paulo pela via férrea, atraiu para o entorno da NOB muitos estabelecimentos, principalmente de capital local, estabelecendo concorrência com o transporte fluvial (rio Paraguai) e com as empresas platinas.
A expansão de ferrovias para o Oeste contribuiu ainda, para o
reordenamento urbano regional. Por exemplo, no eixo da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, na parte meridional do então Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul, consolidaram-se, nas primeiras décadas do século XX, os municípios de Campo Grande, Terenos, Maracaju, Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo. Além disso, o advento da ferrovia, que ligava o Sul de Mato Grosso a São Paulo, estimulou a indústria pastoril e atraiu imigrantes (Mapa 05).
Assim, o Sul mato-grossense, em 1920, já comportava mais da metade da população do antigo Estado, fato que contribuía para a formação de mais povoados e o fortalecimento de outros, que se tornaram municípios até 1930. É o caso de Aquidauana, Campo Grande, Nioaque, Bela Vista, Três Lagoas, Entre Rios (Rio Brilhante), Maracaju, Ponta Porã e Porto Murtinho.
42 Esses saladeiros situavam-se em partes altas, nas proximidades dos rios Paraguai, São Lourenço e Cuiabá
LEGENDA Floresta amazônica Cerrado Campo limpo Floresta tropical Complexo pantanal ESCALA: 1: 9.000.000
Fonte: MINTER/SUDECO, 1983 (modificado)
N
Desenho: Lomba, 2000 Organização: Abreu, 2000
Espaço Mato-Grossense - vegetação
Mapa - 04