A área de ocorrência dos babaçuais, no Brasil, envolve os estados do Maranhão, Pará, Piauí, Goiás e Minas Gerais, abrangendo uma área de 18, 5 milhões de hectares dessa floresta secundária. Nesse território, estima-se, pelos dados oficiais (IBGE, 1995; 1996) que 400 mil pessoas vivem dessa economia e que cerca de 70 subprodutos são extraídos da palmeira de babaçu. A palmeira Orbinaya Phalerata Martius, conhecida por palmeira de babaçu, ocorre em outras partes da América Latina: Bolívia, Colômbia e México.
Entre meados das décadas de 1970 e 1980, quando as indústrias do babaçu - com o fim dos incentivos fiscais da SUDAM e SUDENE - entraram em falência, estudiosos, planejadores públicos e empresários chegaram a declarar o fim do ciclo do babaçu. Entretanto, com a prática do extrativismo do babaçu, essas famílias resistiram aos impactos econômico sociais, causados pela abertura das fronteiras agrícolas no Maranhão - proporcionada pela Lei Sarney de Terras - para o grande capital, materializado, na época, pela pecuária.
Por falta de uma política de regularização fundiária, as quebradeiras de coco babaçu enfrentam, cotidianamente, os resultados da concentração de terras. Constantemente sofrem humilhações e violências físicas nos confrontos com capatazes de fazendas, enfrentando incêndios em suas casas e cercas elétricas, que as impedem do acesso ao coco babaçu, principal produto da palmeira, de onde elas tiram o sustento de suas famílias. Para garantir a sua existência, muitas se submeterem a relações de exploração do trabalho que variam desde a cobrança de renda, sistema de barracão152, sendo transportadas em carros de boi, quando não são sujeitas a coletar e a vender, a preços irrisórios, a casca ou o coco inteiro para as siderúrgicas que produzem carvão.
Desde a década de 1970, o babaçu vinha sendo cercado e apropriado por pecuaristas e empresas, beneficiados por políticas públicas federais e estaduais. A partir da segunda metade da década de 1980, quando tudo parecia desfavorável a sua existência, esse grupo deu início a um processo de organização política e econômica, a partir do enfrentamento de mulheres, pelo acesso aos babaçuais. A resistência se materializa, de forma
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diferenciada, grupos de mulheres, associações, cooperativas, sindicatos e comissões. (FIGUEIREDO, 2005)
Paralelo à fundação da ASSEMA, em 1989, as mulheres trabalhadoras rurais, do Vale do Mearim (MA) e do Bico do Papagaio (TO) mobilizavam-se, para garantir o livre acesso aos babaçuais, principal tema do I Encontro Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu, realizado em 1991 (ALMEIDA, 1991). De 1991 a 1995, o grupo se manteve organizado, em forma de articulação. Somente a partir do III Encontro Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu, em 1995, essa articulação foi ampliada para movimento.
Na região do Médio Mearim, nos anos 1990, as mulheres reagiram à expropriação dos denominados fazendeiros, por meio de ações coletivas de resistência, como empATES153, e iniciaram um processo de organização coletiva, acionando a identidade política de quebradeira de coco. Uma de suas estratégias era pressionar governos federal, estaduais e municipais e promover o debate sobre a economia de base familiar e o extrativismo, buscando meios de aproveitar integralmente o coco babaçu, como forma de se fortalecerem economicamente e politicamente. O movimento emerge, conjugando diferentes dimensões no seu processo organizativo.
Uma das formas de mobilização e de expressão desse grupo são os encontros interestaduais, espaços de revitalização da memória de suas lutas e de socialização das diferentes experiências. São momentos de troca de saberes, em que o conhecimento tradicional dialoga com o conhecimento científico, já que o movimento tem como forte característica a aglutinação de pesquisadores em seu entorno. Os encontros são também momentos em que o grupo revitaliza suas crenças - por meio de místicas - e promove debates políticos e negociações com o poder público, realiza o comércio solidário e manifesta publicamente suas demandas, sintetizadas nas Cartas das Quebradeiras.
Atualmente o MIQCB encontra-se estruturado em seis regionais: Medio Mearim, Baixada Maranhense e Imperatriz, no estado do Maranhão; Pará; Tocantins e Piauí. Ao longo dos seus 20 anos de existência, o movimento tem se apresentado como importante sujeito nas lutas pela preservação dos babaçuais, denunciando os “processos de devastação” (Almeida, 2005) e apoiando iniciativas de outras organizações, consideradas parceiras, a exemplo da ASSEMA, que vêm investindo em iniciativas econômicas sustentáveis.
Há cerca de 20 anos, as quebradeiras de coco babaçu discutem sobre instrumentos jurídicos que, efetivamente, impeçam a devastação dos babaçuais e de outros recursos
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vegetais estratégicos à reprodução das famílias que vivem do extrativismo. Sua principal reivindicação tem sido a aprovação de leis municipais chamadas “Leis Babaçu Livre”, que proíbem as derrubadas, queimadas, envenenamento das pindovas, o uso de agrotóxicos e torna livre o acesso aos babaçuais para uso em regime de economia familiar. Essas leis já foram aprovadas em 17 municípios dos estados do Maranhão, Pará e Tocantins. Neste último estado foi aprovada a lei estadual “Babaçu Livre” e a lei estadual contra a queima do coco inteiro154.
As quebradeiras de coco utilizam como estratégia de lutas a realização de audiências públicas em assembléias legislativas e no Congresso Nacional, além de audiências com os setores específicos dos governos estaduais e federal. Ao defenderem o livre acesso ao recurso natural, as quebradeiras, não só priorizam o direito à vida das famílias que dependem desse recurso para viver, como também abrem um longo debate sobre a privatização de recursos naturais, ampliando o entendimento acerca da questão ambiental, tema que passa a ser associado a outras dimensões como o social, o econômico e o cultural, sendo as relações de gênero e de geração centrais nessa discussão.
Nessa direção, o MIQCB acompanha o Projeto de Lei Federal Nº 231, na Câmara dos Deputados, dispondo sobre a proibição de derrubada de palmeiras de babaçu existentes nos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins, Goiás e Mato Grosso. Em 2007, 300 mulheres, em audiência com deputados federais, conseguiram aprovação, nas Comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e de Direitos Humanos e Minorias, do Projeto de Lei Federal do Babaçu Livre. Como resultados dessa ação, 12 mil hectares de floresta de babaçu, do município de Penalva (MA), foram incluídos na lista de Reservas Extrativistas a serem criadas pelo IBAMA155.
As quebradeiras saíram da invisibilidade. Integram o conjunto de sujeitos coletivos que hoje se apresentam como interlocutores reconhecidos no cenário político nacional. Reivindicam direitos, mudanças comportamentais, valores, lutam pelo reconhecimento de territorialidades e pela viabilização de políticas públicas direcionadas para suas situações específicas. O grupo está presente em diferentes espaços públicos de definição de políticas públicas, tais como: Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais do Ministério do Meio Ambiente - MMA; Comitê Gestor de Projetos da Coordenadoria do Agroextrativismo/MMA; Comitê Gestor do Programa Nacional de Apoio à Produção da
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Ver Shiraishi Neto (2006)
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Sobre isso ver relatórios do MIQCB (2009) e Mesquita, B; Martins, C; Shiraishi Neto, J; ARAÚJO, H. (2007).
Trabalhadora Rural/MDA; Rede Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural ATER- Mulher; Direção do Grupo de Trabalho Amazônico; Conferência Nacional do Meio Ambiente; e Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário, promovida peloMDA.
Cabe ressaltar que a ASSEMA e o MIQCB são organizações de base que colocam os sujeitos em diálogo direto com as instâncias de poder público (GAIOSO, 2000, p. 119). Tais formas de mobilização, ao longo das últimas duas décadas, vêm ampliando seus interesses, promovendo um diálogo entre as dimensões ambiental, econômica, social e política, promovendo uma articulação entre saberes e se fazendo plurais em suas relações.
Esses grupos são vinculados organizações locais, como associações, cooperativas, grupos informais e ONGs, entretanto, estão ligados também a movimentos sociais e a redes de articulação política e econômica, de caráter regional, nacional e internacional156. Por outro lado, atuam politicamente dentro e fora dos espaços de definição de políticas públicas, de forma que tais vínculos nos permitem pensar sobre o local articulado com o global, esforço característico dos movimentos sociais configurados a partir da década de 1990.
Se um dia a terra foi “liberta” para segmentos camponeses nordestinos que adentraram nas terras maranhenses, fugindo da seca e em busca de melhores condições de vida, hoje ela é muito disputada e nessa disputa participam grandes grupos econômicos internacionais, interessados na produção de commodities. No ramo do babaçu, por exemplo, novos investidores, oriundos de São Paulo, da Alemanha e da Holanda, estão comprando terras e arrendando para que as mulheres coletem cascas ou cocos inteiros para eles.
As três situações descritas neste capítulo demonstram formas diferenciadas de resistência ao padrão de dominação e de tentativas de construção de uma cultura política emancipatória no Maranhão. Tais experiências nos remetem às reflexões propostas por Spivak (1985) sobre mudanças e crises e sua crítica às teorias, em particular a historiografia, que tendem a observar os grupos, considerados “subalternos” – entre eles, especificamente, os camponeses – sob uma perspectiva generalizante que impede a percepção da consciência específica de cada rebelião e o significado dado por cada grupo as suas ações. A intenção neste estudo é perceber de que forma os três grupos, em seus contextos históricos, se
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Central de Cooperativas Agroextrativistas do Maranhão – CCAMA; Rede Brasileira da Socioeconomia Solidária – RBSES; Rede Cerrado de ONG’s; Rede GTA – Grupo de Trabalho Amazônico; Fórum da Amazônia Oriental - FAOR; RIPP; Via Campesina; Fórum Carajás; Rede de Agroecologia do Maranhão – RAMA; Fórum Estadual de Economia Solidária do Maranhão; Encontros Regionais de Agroecologia; Fórum Nacional para o Enfrentamento da Violência contra as Mulheres do Campo e da Floresta; Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Articulação Nacional de Agroecologia – ANA.
organizam e tentam buscar caminhos próprios, mas não isolados, tendo em vista a construção de seus projetos de transformação social.
CAPÍTULO 4
A CONSTITUIÇÃO DA ASSISTÊNCIA TÉCNICA: uma dimensão da questão social no campo
Para o funcionário “patrimonial”, a própria gestão política apresenta-se como assunto de seu interesse particular Sérgio Buarque de Holanda
Neste capítulo reflito sobre a tentativa de construção conjunta de uma política pública, que se autodenomina de “assessoria” em diferentes dimensões, tais como técnica, social e ambiental, em um estado com as peculiaridades do Maranhão. Para isso, retomo algumas interpretações, já elaboradas, da história da assistência técnica e extensão rural no Brasil e no Maranhão, e sobre as políticas de assentamento do INCRA, demarcadas por perspectivas homogeneizadora e generalizante. Nesse percurso, observo as políticas de desenvolvimento e as formas de intervenção estatal na área de assistência técnica e de extensão rural, as diferentes concepções de desenvolvimento em disputa, e a forma como o planejamento público interpreta a vida no campo.
Nos capítulos anteriores, tentei contextualizar o momento em que se dá a iniciativa de construção conjunta de uma política pública voltada para as áreas de assentamento da reforma agrária no Brasil e, por extensão, no Maranhão, verificando a emergência e/ou revisão de conceitos que orientam mudanças de práticas, de costumes e de visões de mundo. Mostrei que os movimentos sociais contemporâneos propõem projetos de sociedades com novas matrizes alimentar, energética e ambiental, numa espécie de retomada da articulação entre as diferentes dimensões da vida, proposta em fóruns mundiais. Apontei ainda a conexão entre as entidades que entraram na disputa pela ATES no Maranhão com esse debate mundial.
Na perspectiva de alcançar as interpretações dos agentes envolvidos nas ações da EMATER, conversei com profissionais que atuaram na empresa, na área de assistência técnica e extensão rural, especificamente nos anos 1970 e 1980, e com trabalhadores rurais que compunham o público alvo da empresa. Os serviços de assistência técnica e extensão rural no Maranhão são resultados de processos de lutas e tensões, podendo ser demarcados diferentes momentos, determinados conforme o perfil do quadro de funcionários e o jogo de
forças que envolve as políticas de desenvolvimento do País, com reflexos diretos no Estado. Tais interpretações foram cotejadas com dissertações de mestrado que tratam da história da ATER no MARANHÃO.
Procuro retratar o deslocamento dos serviços públicos de assistência técnica, de uma perspectiva mercadológica, para uma assessoria técnica e política, mostrando momentos de intervenção pública nessa área, como meio de contribuir para os interesses do capital em expansão no país. Tento alcançar a contraditoriedade dessa intervenção, permeável de pressões dos movimentos sociais. E, por fim, contextualizo o momento de construção do Programa ATES, como uma proposta de assessoria “in loco”, que se constrói na convivência cotidiana com as famílias consideradas beneficiárias do Programa.