No final dos anos de 1980, outro movimento se configurou na região do Médio Mearim, organizado por trabalhadores rurais e mulheres quebradeiras de coco babaçu, com a mediação de entidades confessionais e dos STTRs dos municípios de Lago do Junco, Lago dos Rodrigues, São Luiz Gonzaga do Maranhão e Lima Campos. O processo de ocupação dessa região se deu, inicialmente, pela transferência de famílias de outros estados do Nordeste, particularmente do Ceará e do Piauí, no final dos anos 1950, devido à seca e à falta de terras para trabalhar em seus lugares de origem, circunstâncias que colocavam essas famílias em condição de sujeição, como cobrança de renda, na relação com o “patrão”.
O Maranhão atraía esses nordestinos por suas condições climáticas, pela disponibilidade dos recursos naturais e porque a terra era “liberta” (MUSUMECI, 1988;
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Tal interpretação da realidade levou o MST, juntamente com outros movimentos sociais, a integrar o movimento, denominado Balaiada, na tentativa de construir uma analogia entre a resistência contra a oligarquia do século XXI e o Movimento Balaiada, do século XIX, considerando as homenagens pela passagem dos 170 anos de morte de Cosme Bento, líder negro assassinado em 1841.
LUNA, 1984). As famílias viviam da agricultura, da produção do arroz, feijão, milho e algodão, e da criação de animais, como o cavalo, o burro, o porco e a galinha, e do extrativismo do babaçu. A idéia construída pelos idealizadores da SUDENE de que o Maranhão seria o celeiro do Nordeste também contribuía para essa movimentação de maranhenses e nordestinos no interior do Estado, conforme relembra o entrevistado a seguir:
( ) No povoado, sempre existiu uma liderança. Todo tempo em comunidade teve isso. Nessa época, tinha um cidadão chamado Seu Pacífico, chamado Velho Pacífico, e ele é que, realmente, era o dono daquelas terras. Era tida como terra dele, mas porque ele era a pessoa mais velha no povoado, naquele ano, mas ele não tinha uma terra marcada, marcada ou cercada e documentada. Então era o limite de variante, demarcação de pé de árvore mais antigo, uma ... assim. Então as pessoas botavam roça onde queriam, não tinha esse negócio “Não tem que pedir ao dono da terra”. Não tinha renda, não tinha nada. Mas isso, era tida essa pessoa como dono, mas não impedia nada. Era o seguinte, cada qual, ninguém tinha dono de terra, chegava em qualquer um canto e fazia uma roça. E não pagava renda e não pagava nada. Aí, no decorrer do tempo, foi que foi chegando (Trabalhador rural, Esperantinópolis, 2007). (Os grifos são nossos).
Até então, a posição de “dono da terra” era atribuída àqueles moradores mais antigos na comunidade, com base nos laços de confiança entre o grupo e o considerado “dono da terra”, que também tirava seu sustento da agricultura. As famílias não eram privadas do acesso aos recursos naturais e garantiam suas existências por meio de sistemas de uso comum desses recursos.
( ) Ele não resolvia nada. No caso de Seu Manoel, porque em outro povoado essas pessoas eram um dono das terras que virou dono mesmo, de verdade. Esse Seu Pacífico não... depois perdeu todos os direitos sobre a terra, quando chegou o usucapião. Então o governo Sarney, na época de 64, 65 dividiu o Maranhão e ele perdeu todos os direitos , porque na verdade ele também não tinha as terras como dele. Então ele não definia nada, ele não era uma liderança de comunidade que não tinha igreja nessa época. Não tinha sindicato. Ele não era nenhum proprietário, assim tipo criador de gado. Ele vivia simplesmente de agricultura. A roça dele para subsistência. Ele era tido como dono da terra, porque era a pessoa mais velha da comunidade. Então a gente tinha aquele respeito. Depois essas terras, elas foram passando a ter dono de pessoas da própria comunidade, aí passaram a ter dono de verdade, pessoal cortaram, cercaram. As pessoas passaram a pedir terra para trabalhar, passaram a pagar renda, renda alta. O babaçu passou a ser preso. As pessoas passaram a dar mato para fazer roça e jogar o capim. “Eu lhe dou a roça, e você nem paga a renda, mas você me joga a semente do capim na sua roça”... Aí ele foi circulando a terra (Liderança da ASSEMA, Lago do Junco, 2008). (Os grifos são nossos).
A partir de meados da década de 1965, conforme precisou o entrevistado acima, essa forma de uso da terra e dos outros recursos naturais começou a sofrer alterações. Do mesmo modo, mudou a forma de organização social e política das famílias, na medida em que
novos sujeitos apareceram. Com a abertura das fronteiras agrícolas para a pecuária, a partir de 1965, a terra começou a ter valor de mercado, facilitando a emergência de outro tipo de “dono” de terra, encarnado no chamado “proprietário” - aquele que compra a terra, cerca e impõe limites à força de trabalho, por meio da cobrança de renda150, da formação de pastos para a pecuária e da privação do coco babaçu, levando as famílias ao endividamento. Nesse momento, o latifúndio ainda vive do chamado “gado pé duro” e da cobrança de renda e do foro. O mesmo entrevistado assim caracteriza a formação desse latifúndio.
( ) Muitos deles foram trabalhando na agricultura e comprando um pedacinho de terra,.. os pequenos trabalhadores de roça, como... como Cabaceiro, José Brasilino, o Baeta, o próprio João Cifrônio, foram trabalhando e comprando o pequeno pedaço de terra, até chegar 50, 40, 100, 80 ha. Agora, muitos deles, no caso do Adelino, eles começaram a comprar terra devoluta do Estado, sem documento. Então eles compravam uma área de terra e cercavam uma área maior e foram se apropriando dessas terras. Exemplo é que o Adelino, ele tinha em São Manoel 168 ha de terra devoluta. A terra era do Estado, ou seja, eles pegavam a terra documentada e cercavam uma área maior. E muitas das pessoas, como meu pai, e outras que achavam que terra não ia ter dono ... ficou sem tirar uma área para trabalhar, acabando ficando na beira da estrada, e simplesmente com um local de morar, que é o patrimônio do povoado, simplesmente o local da casa e um quintalzinho. E esse pessoal foi comprando um pedaço de um, um pedaço de outro, e foi fazendo. (Liderança da ASSEMA, Lago do Junco, 2008). (Os grifos são nossos).
A narrativa do entrevistado revela a formação do grande latifúndio, por meio da prática da grilagem151, em terras devolutas, para a produção da pecuária, e com a introdução de diversas formas de imobilização da força do trabalho. A resistência das famílias começou quando foi negado o acesso ao último recurso utilizado para o sustento das famílias: o coco babaçu. As mulheres passaram a se confrontar com os opositores diretos, a polícia, o fazendeiro e o jagunço. No relato abaixo, o entrevistado narra as violências praticadas contra as mulheres na resistência pela “libertação do coco”
( ) Aí foi que definiu assim, nós vamos morrer na luta, morrer lutando, mas parado nós não morre, porque a gente tava vendo a nossa dificuldade e nós começamos pelo babaçu. “Vamos libertar o babaçu”. Até naquele momento que nós estávamos na luta para libertar o babaçu, que era preso, só dava de meia, se entrar nas soltas delas, no conceito daquela época era roubando coco, se os proprietários pegassem lá dentro era humilhado, o vaqueiro humilhou várias mulheres, tem mulher dessa região que foi
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Na cobrança de renda, o dito proprietário libera uma área para as famílias fazerem seus roçados e, em pagamento, determina um percentual da produção, que varia muito de região para região, dependendo do tipo de produto negociado e do contexto histórico. No início dos anos 1990, em Esperantinópolis, segundo os entrevistados, a cobrança chegava a dois alqueires de arroz por linha, oito alqueires por hectare ou um saco de milho por linha.
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Tal prática é consolidada com o registro das terras, de posseiros ou devolutas, em cartórios, de forma fraudulenta. Ver Asselin (1982).
chicoteada, então palavra de deboche tomavam o coco, obrigavam a vender o babaçu para o sujeito que ele queria lá na solta e deixando ali tudo, a casca, pessoas que arrancava a solta do proprietário, pessoas que juntava todo o coco dava de metade para as pessoas quebrar, quebrava, deixava as cascas para ele e deixava ali mesmo...então nós decidimos que ia sair dessa opressão, mesmo que a gente não tivesse terra. (Liderança da ASSEMA, 2008). (Os grifos são nossos).
A luta pela libertação do coco estimulou a organização pela conquista da terra ( ) A gente achava que a terra era deles. Quando nós libertamos o babaçu, quem iniciou isso aí foram as mulheres, aí nós falamos: “Ah nós temos o coco para quebrar, mas não tem onde botar a roça” e foi quando.... nessa época, em Lago do Junco, tinha duas lutas pela reforma agrária já. Foi na década de 82 e 85. Então no ano de 85, aconteceu o conflito de José Machado e Pau Santo... Nós vimos, o Pau Santo conseguiu a terra deles, ... sangue derramado, então “Que se nós não se conformasse só com o coco. Que tal se nós conseguisse essa terra?”. Essa terra tem parte dela que é devoluta. Se parte dela é improdutiva, mas, se nós tiver organização nós consegue essa terra. Então nós reunimos a comunidade e partimos para a luta. A luta do babaçu foi em outubro de 85, quando foi em abril de 86 nós demos o primeiro passo pela luta da terra, dia 11 de abril de 86, primeira ação dentro da propriedade, pedimos um pedaço da terra ao secretário para botar roça. A gente sabia que ele não dava, só tinha boi lá dentro e ele mandou recado para nós, que não tinha terra para agricultura. As terras dele só dava para criar boi. Então nós chegamos e botamos uma roça, cinco linhas de roça para plantar cana e o feijão, dentro das terras e os bois dentro. Depois a gente pediu para ele tirar os bois, ele tirou, mas já na luta. E o resultado disso é que ( ) nós fomos intimados. Rolou poucos dias em casa, foi no dia 11 de abril, quando foi 29 de abril nós fomos chamados na delegacia, eu e mais seis companheiros de povoados diferentes, que nós recebemos muito apoio das comunidades de Lago do Junco e da igreja, prestar depoimento, humilhação, ... fazendeiro... a gente, delegado regional. Mas a luta continuou. Aí voltamos lá com o compromisso de parar com a luta da reforma agrária naquela terra, de parar. (Liderança da ASSEMA, 2008). (Os grifos são nossos).
A resistência das famílias de Lago do Junco iniciou no período em que o tema da reforma agrária entrou novamente na pauta oficial, com a discussão em torno do I PNRA. Um dos desdobramentos desse processo foi a organização patronal, em meados de 1980, quando os ditos “proprietários de terra” começaram a articular uma nova forma de representação, a UDR, que se constituiu em outro interlocutor nos conflitos agrários na região.
( ) Nesse mesmo período tinha se criado a UDR, União Democrática Ruralista no Brasil... e o representante da UDR esteve nessa audiência e saímos com o compromisso de em três dias nós darmos a resposta a eles dizendo que nós iria paralisar a luta ... só que nós reunimos três dias depois, os trabalhadores, e ... uma resposta para a UDR... e a luta continuou. Isso já era no dia... de maio, quando foi no dia 17 de maio ele já tinha...aí o mês de junho foi só de liminar de integração de posse. ... mulheres e crianças. Maio, junho e julho foi só de terror...e nós na luta, no INCRA, no ITERMA,
depoimento na delegacia. Quando foi 5 de agosto, nós tinha um companheiro no Aguiar, no Ludovico, ... que apoiava a gente ... seqüestraram ele ... e saíram, botaram em uma D-20, saíram para matar, mas ... atrás no carro e a mulher correndo atrás. Queria ta no carro também. Aí botaram a mulher dentro do carro. Lá na frente, para disfarçar, eles pararam o carro, para a mulher descer. Eles esperaram para botar ele e ela dentro da cabine. Na hora que ela desceu ... só que nessa hora ele pulou do carro e ... pistoleiro e eles não conseguiram ver. No dia 6 de agosto, no dia seguinte, a gente tava no nosso povoado. Aí destruíram nosso povoado, pistoleiro, polícia, fazendeiro... quebraram tudo quanto foi horta que tinha do lado da igreja. Um cabo de aço puxando o caminhão. Nesse mesmo dia deram cinco minutos para as mulheres desocupar as casas. Derrubaram todas as casas. Reduziram a nada. (Liderança da ASSEMA, 2008). (Os grifos são nossos). As formas de imobilização da força de trabalho, expressas com a presença do gado na roça e no preço da renda, resultaram no deslocamento das famílias para outros estados, como o Pará, onde o conflito por terra não se apresentara com a mesma intensidade do Maranhão. Em Esperantinópolis, tais formas de imobilização da força de trabalho deram origem a formas de solidariedade diferenciadas nas comunidades. Em Centro do Coroatá, a reação incluía desde a decisão de “matar o gado”, que invadia as roças, até a realização de mutirões ou ocupações nos fóruns de Justiça. Em Cipó/Canaã, o processo de resistência começou em 1991, quando o fazendeiro, oriundo do Estado do Piauí, passou a impedir que as famílias realizassem seus roçados, por meio do pagamento de renda e decidiu vender as terras para o INCRA, procurando, para isso, a mediação do STTR e de outras formas organizativas, como a Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Esperantinópolis – COPPAESP e a ASSEMA. A terra foi comprada pelo INCRA, entre 1993 e 1994.
Após a conquista da terra, nos anos 1980-90, as famílias de trabalhadores rurais e mulheres quebradeiras de coco babaçu, da região do Médio Mearim, iniciaram um processo organização social política e econômica, via institucionalização de formas organizativas, segundo os princípios do associativismo e do cooperativismo. Em maio de 1989, por iniciativa dos sindicatos dos trabalhadores rurais de Esperantinópolis, Lima Campos, São Luiz Gonzaga do Maranhão e Lago do Junco, foi criada a ASSEMA, entidade que nasceu com o propósito de apoiar os denominados trabalhadores rurais e quebradeiras de coco babaçu, nas áreas da produção, comercialização e fortalecimento das famílias para o acesso aos direitos de cidadania e às políticas agrárias e agrícolas, tendo como pano de fundo as relações de gênero, geração e etnia.
De caráter regional, a ASSEMA hoje tem, entre seus associados, associações de mulheres extrativistas e quilombolas, associações de assentamentos, cooperativas, sindicatos rurais, associações de jovens e grupos produtivos informais dos municípios de Lago do Junco,
Lago dos Rodrigues, Esperantinópolis, Lima Campos, São Luiz Gonzaga do Maranhão, Pedreiras e Peritoró. A entidade investe na organização das famílias, em suas múltiplas dimensões: social, política, econômica, ambiental e cultural, priorizando, em suas pautas, a produção com base na agroecologia, a comercialização qualificada como solidária e questões ambientais, de gênero, de geração e étnicas.
A ASSEMA propõe um sistema de produção, chamado agroextrativismo, baseado em princípios agroecológico, conjugando as atividades da agropecuária com o extrativismo do coco babaçu, de forma que, no mesmo local, as famílias tenham condições de investir em culturas anuais, fruticultura, plantas madeireira e plantas adubandeiras, combinadas com a criação de animais - de pequeno, médio e grande porte – e com o extrativismo do babaçu; Tal prática implica preparo de área sem utilização do fogo, agrotóxicos, máquinas pesadas e adubos químicos solúveis, adoção de técnicas participativas e insumos adequados à agricultura familiar, rotação das culturas, com plantio de espécies de famílias diferentes, cujas raízes exploram diferentes camadas dos solos (ASSEMA, 2004, p. 12; 2002, p. 17-34).
Dentro da linha temática da segurança alimentar e economia solidária, a ASSEMA estimula o associativismo e o cooperativismo, em redes, disseminando o consumo ético de produtos agroextrativistas e o uso da floresta de babaçu, apoiando as organizações locais, na comercialização de produtos específicos, como: óleo orgânico para cosméticos e torta de babaçu para alimento animal, produzido pela COPPALJ; mesocarpo do babaçu para alimento humano, pela COOPAESP; sabonete de babaçu e papel reciclado com fibra de babaçu, pela AMTR; artesanato de babaçu, pela AJR; azeite do coco babaçu, licor e compota de frutas, produzidos por grupos informais. Outra linha de trabalho é o desenvolvimento local e políticas públicas, por meio do qual, a entidade tem um programa específico para acessar direitos junto ao poder público, nas áreas de educação, microcrédito, infraestrutura e fortalecimento das organizações locais.
A ASSEMA atua em sete municípios da região Médio Mearim, somando um total de 56 organizações comunitárias, 63 comunidades distribuídas em 22 áreas de assentamento de reforma agrária – estadual, federal e ocupações tradicionais. A entidade articula uma rede de organizações locais formada por: Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais – AMTR (1989); Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco - COPPALJ (1991); Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Esperantinópolis – COOPAESP (1992); Associação de Jovens Rurais de Lago do Junco e Lago dos Rodrigues – AJR, organização de jovens de caráter intermunicipal que envolve
grupos de 12 comunidades e que produz peças artesanais dos resíduos do babaçu (ASSEMA, 2010).