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O caminho analítico assumido nesta Tese delineou-se sob a inspiração de uma tríplice vertente: sociologia reflexiva, antropologia interpretativa e, mais recente, sociologia

      

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Na graduação do curso de Ciências Sociais, pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA, em 1996, apresentei a monografia Entre a cerca e o asfalto: a luta pela posse da terra em Buriticupu, em que abordei o processo de inserção do capital no campo e as lutas pela posse da terra na Pré-Amazônia maranhense. Em 2000, na conclusão do curso de Mestrado em Políticas Públicas, também na UFMA, apresentei a dissertação Memória, mediação e campesinato: estudo das representações de uma liderança sobre as formas de solidariedade, assumidas por camponeses na chamada Pré-Amazônia Maranhense, em que faço uso da técnica história de vida para dar continuidade à análise iniciada na graduação, orientando meu olhar para as formas de resistência dos camponeses. Este trabalho foi publicado pela UEA Edições, em 2010. Ver ARAÚJO (2010)

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Em 1999, participei de um levantamento preliminar de dados sobre a economia do babaçu na microrregião de Imperatriz-MA. Ver Almeida et al (2000). Em julho de 2000, integrei a equipe de consultores na elaboração de uma proposta do projeto Alternativas Econômicas Sustentáveis para a Erradicação da Pobreza na Região do Babaçu - ALTECON, financiado pelo Departamento Internacional para o Desenvolvimento da Grã Bretanha - DFID. Ver MIQCB (2001). Após a experiência como pesquisadora, fui contratada pela ASSEMA como técnica do Programa de Comunicação e Mobilização de Recursos, no período de 2000 a 2005. Participei ainda como pesquisadora, no período de 2002 e 2003, da pesquisa que resultou no Diagnóstico da Situação Socioeconômica das Reservas Extrativistas de Mata Grande, Ciriaco (MA) e Extremo Norte (TO). Ver Mesquita et al (2003)

das ausências e sociologia das emergências. Trata-se de um esforço de, numa leitura interdisciplinar, conjugar pensamentos que questionam posturas metodológicas da Ciência Moderna no âmbito do empirismo, do formalismo e do positivismo - ainda presentes no pensamento científico ocidental –, dificultando o exercício do diálogo com outros modos de pensar, de agir e de conceber a vida e a construção científica.

Por isso, assumi o desafio de articular – compreendendo, é claro, os limites de tal pretensão - o pensamento de Pierre Bourdieu, de Clifford Geertz e de Boaventura dos Santos, por entender serem estas referências epistemológico-metodológicas centrais do meu estudo, já que seus fundamentos alicerçaram a construção dos caminhos teórico-metodológicos seguidos. A rigor, são as bases que norteiam o meu pensar e o meu agir, no exercício do ofício da pesquisa, constituindo as raízes onde está fincada a produção científica delineada nesta Tese.

Ao observar o fenômeno a partir da experiência social, preocupei-me em interpretar os discursos dos agentes envolvidos no Programa ATES, mas aproximando-me o máximo de suas práticas - embora isso não seja tão simples -, pois, como afirmara Geertz (1989), a cultura é pública porque o significado o é e, assim sendo, ela é partilhada, construída socialmente, não sendo, portanto, poder, mas contexto.

Desde o início fui alertada de que o caminho escolhido é um terreno arenoso e movediço, onde se entrecruzam diferentes discursos, linguagens e formas narrativas, bem como distintas formas de expressão simbólicas, presentes no cotidiano dos agentes sociais envolvidos nesta iniciativa de construção de uma política pública peculiar. Trata-se de um serviço de assessoria técnica que almeja considerar as denominadas áreas de assentamento em suas múltiplas dimensões - social, econômica, cultural e ambiental - assim como, também, em suas distintas problemáticas sociais: acesso à terra, produção, uso sustentável dos recursos naturais, inserção no mercado e capacitação dos recursos humanos.

Também me pareceu interessante e fecundo explorar uma metodologia que permitisse alcançar a leitura que os agentes envolvidos na proposta de ATES fazem do processo. O que significa para eles esse espaço que estou denominando de “ponto de encontro ou de desencontro” entre o poder público e os movimentos sociais que atuam no campo? Do mesmo modo, considerei pertinente pensar como os serviços de ATES provocam um diálogo entre diferentes formas de apropriação do saber: o saber técnico acadêmico (técnicos agrícola e agropecuário, engenheiro agrônomo, engenheiro veterinário, sociólogo, assistente social, pedagogo); o saber técnico da estrutura burocrática estatal, consubstanciado nos planejadores da política; e o saber da experiência acumulada pelos agentes que vivenciam a realidade dos

assentamentos e a militância em movimentos sociais. A proposta de construção conjunta da política pressupõe que estes diferentes saberes dialoguem em meio a consensos e tensões, em um contexto de respeito aos saberes distintos que se fazem necessários à produção coletiva de uma política pública.

Chamando ao diálogo a vertente da Teoria da Interpretação de Geertz, caminhos se abrem e, no esforço de articulá-los, destaco expressões de distintos saberes, particularmente do saber da experiência de vida cotidiana, apostando na possibilidade de análise da realidade, a partir de outras formas narrativas - como a metáfora, as piadas, os “causos” e as místicas - muito presentes em reuniões e eventos dos movimentos sociais que atuam no campo, e que, especificamente, na minha pesquisa, apresentaram-se como outras vias de leitura dos discursos, nem sempre explícitas em documentos formais ou nas entrevistas. Daí porque, na dinâmica da investigação, privilegiei eventos organizados tanto pelo INCRA, como pelas entidades/movimentos conveniados para fins de prestação dos serviços de ATES, bem como outros não ligados diretamente ao programa, mas que se apresentaram como correlatos.

Como destacou Freitas (2003), existem situações em que a revelação da palavra na esfera pública é limitada, e eu acrescentaria, orientada pela interlocução, fazendo com que outros modos de expressão, individual ou coletivamente, sejam construídos e exercitados socialmente. Portanto, é importante estar atento para as diferentes formas narrativas e formas de expressão simbólicas, presentes no cotidiano das pessoas. Ao propor uma antropologia interpretativa para alcançar o sistema de significado dos nativos, Geertz (1997, p.105) aponta o “método do círculo hermenêutico” como “essencial para interpretações literárias, filológicas, psicanalíticas, bíblicas ou até mesmo para anotações informais sobre aquelas experiências cotidianas que chamamos de bom senso”.

Sublinho a linguagem peculiar a eventos de determinados movimentos sociais, a exemplo das místicas e manifestações do MST e os rituais dos encontros das quebradeiras de coco babaçu. Destaco ainda que muitas das observações foram possíveis por meio de conversas informais, de caráter confidencial, viabilizadas somente quando os laços de confiança se confirmaram.

O delineamento dos caminhos metodológicos levou em conta também o debate proposto por Bourdieu (1998) e seguidores da sociologia reflexiva, no que concerne ao processo de construção da pesquisa. Sendo a pesquisa uma relação social, é na vivência do pesquisador com seu objeto que se revelam as demandas teóricas, as exigências metodológicas e os instrumentais técnicos mais adequados para o desenvolvimento de um

dado estudo. E, ainda, nas pistas e indicações da Sociologia de Bourdieu (1999), apresenta-se a exigência da reflexividade ao longo de todo o processo de investigação.

Com caráter distinto das trocas nos percursos da existência comum, a pesquisa é uma relação social que reflete sobre os resultados obtidos, devendo ser conhecidas e dominadas todas as possíveis distorções, equívocos inscritos na estrutura da relação de pesquisa, o que somente é conseguido através de uma “reflexividade reflexa”, baseada num “olho sociológico” que põe em análise os próprios pressupostos da ciência (BOURDIEU, 1999, p. 694). Portanto, todos os procedimentos metodológicos aqui adotados estiveram sob constante revisão e redefinição, na medida em que a minha relação, enquanto pesquisadora, com os grupos pesquisados foi se estabelecendo. É o exercício permanente da “vigilância epistemiológica” (BACHELARD, 1996).

Outro eixo importante, considerado nas delimitações metodológicas, diz respeito às especificidades dos agentes pesquisados, ou seja, peculiaridades do campo. O presente estudo abrange grupos sociais que – mesmo sofrendo interferências do mundo regido pela economia regulada pelo mercado – desenvolvem sistemas econômicos diferenciados, por vezes orientados por motivações não econômicas e articulados com outras dimensões da sociedade – tal como as situações analisadas por Polanyi (2000) e Bourdieu (1996). Tais modos de vida não chegaram a ser reconhecidos no processo de formação do Estado brasileiro e, secularmente, lutam para saírem da invisibilidade imposta pelo pensamento colonialista que produz a não existência e a subordinação.

É possível inferir que essas situações estão entre as experiências que foram desperdiçadas pela razão indolente, mencionada por Santos (2004). A razão cosmopolita, proposta pelo autor, consubstancia outra forma de racionalidade que se alicerça nos procedimentos da sociologia das ausências, na sociologia das emergências e no trabalho de

tradução. A sociologia das ausências se move no campo das experiências disponíveis e visa

substituir a monocultura do saber científico por uma ecologia dos saberes, libertando as práticas sociais do “estatuto de resíduo, restituindo-lhes a temporalidade própria e a possibilidade de desenvolvimento autônomo” (idem, p. 790-791), enquanto que a sociologia

das emergências opera no campo das expectativas possíveis (idem, p. 797). A investigação,

portanto, deve ser prospectiva, tornando parcial o conhecimento das condições do possível e, ao mesmo tempo, parciais as condições disponíveis a fim de fortalecer as pistas e sinais oferecidos. O terceiro procedimento que alicerça a racionalidade da razão cosmopolita proposta por Santos é da tradução capaz de possibilitar a inteligibilidade entre as experiências do mundo, as disponíveis e as possíveis.

Enraizada em outra forma de pensar e de olhar o mundo, a razão cosmopolita permite compreender as formas organizativas, que circunscrevem o objeto do meu estudo, e que sofrem um processo de invisibilização, via desqualificação e criminalização, pela razão indolente do pensamento dominante. O trabalho de tradução entre práticas sociais e seus agentes, proposto por Santos (2004), pode inspirar a investigação do potencial emancipatório dos grupos estudados. Os movimentos e organizações conveniadas com o INCRA participam de redes de movimentos sociais locais e transnacionais que propõem uma globalização alternativa à globalização neoliberal. É interessante verificar o que os unem e o que os separam no processo de interlocução com o Estado e em que medida essa experiência interfere na lógica da economia de mercado, ainda hegemônica no mundo ocidental.

Essas são as fontes de inspiração fundantes, de cunho epistemológico e metodológico que orientaram na construção do meu pensamento e na estruturação do trabalho. Cabe, no entanto, ressaltar outras bases teóricas, referentes às diferentes temáticas que se apresentaram nesta reflexão sobre Estado/Movimentos Sociais atuantes no campo. Tais referências situam-se nos campos da sociologia e da antropologia, garantindo a dimensão interdisciplinar exigida pelo objeto.

Não posso deixar de mencionar, também, leituras que, de certa forma, deram o tom ao texto que constrói esta Tese. Destaco Aluísio Azevedo (2005), Guimarães Rosa (2001), Darci Ribeiro (2006) e Lima Barreto (2002), Victor Nunes Leal (1997), Sérgio Buarque de Holanda (1995). As leituras iniciais do curso de Doutorado que me ensinaram a ver o lado cômico de toda tragédia. Não sei se aprendi bem as aulas do professor Diathay, mas com ele entendi que o olhar sociológico pode ser muito mais apurado se estiver focado, também, nas diferentes formas narrativas e diferentes formas de expressão que se apresentam no cotidiano da vida.

1.2 Adentrando no objeto por diferentes vias investigativas: a perplexidade diante do