BÖLÜM 4: DANS VE İLETİŞİM
4.8. Küreselleşmenin Türk Halk Danslarına Etkisi
Na escuta mediada pela fonografia, entretanto, este quadro muda completamente: na escuta fonográfica o aspecto visual não é apresentado. Isto não quer dizer, porém, que tenha sido suprimido. A escuta acusmática é aquela em que a causa dos sons, aquilo que os pôs em movimento, não é exibida. O conceito, formulado por Pierre Schaeffer no Traité des Objets Musicaux (no capítulo VI), retoma uma antiga ideia pitagórica e foi aplicado metaforicamente às situações de escuta mediadas pelos aparatos que isolam o som de seu contexto causal, transmitindo-o ou registrando-o: o telefone, o rádio, o fonógrafo. Ele é usado metaforicamente por sabermos que o som escutado ali provém de um alto- falante, mas entendemos também que houve a transdução do som de uma fonte externa a qual não temos mais acesso.
criados. Na nossa vivência cotidiana, todavia, isso não quer dizer que não tentemos reconstruir na imaginação o contexto que foi excluído: de um som escutado acusmaticamente temos uma imagem bastante aproximada de qual seria a ação que o gerou, em quais materiais. Isto fica impresso de modo mais ou menos implícito num som gravado. Não é preciso, assim, ter tido a vivência da criação musical para entender que um certo som, tônico, com um discreto allure regular e com um forte ataque seguido de um decrescendo suave provém de uma corda pinçada com força. Este som induz à imagem de um certo tipo de ação manual e alguns de seus detalhes (a duração ou o timbre do ataque, por exemplo) nos dizem sobre como foi o gesto: se realizado com mais ou menos velocidade, mais próximo à unha ou à polpa do dedo ou com mais ou menos impulso pelo peso da mão. Nota-se, ainda, que os detalhes que estamos descrevendo aqui provêm da nossa imaginação tanto do gesto quanto do som, ou seja, que esta descrição é apenas um modo analítico de esmiuçar as imagens sonoro-visuais que nos vêm deste som e deste gesto. Suponha-se, porém, que tal som tenha sido gerado eletronicamente. Se realizado de modo a imitar com precisão o som acústico, ainda assim imaginaremos que o gesto que o gerou é o de um beliscão numa corda, pois mesmo que não o seja na realidade, o modelo persiste: tem um certo tipo de vibração, um certo tipo de timbre e mesmo um certo envelope. O som escutado permanece ligado a uma gestualidade já que a ela se refere, e tendemos a escutá-lo com o corpo de quem supostamente o tocou.
Na escuta acusmática imaginamos sua causa pela nossa história pessoal com os sons, pois eles são, nas nossas vivências cotidianas, decorrência de uma cadeia causal. E caso contenham efetivamente caracteres ligados à corporeidade, na situação acusmática eles carregam a imagem do gesto que os gerou. Leves flutuações rítmicas em uma pulsação, por exemplo, nos fazem entendê-las como tendo sido produzidas pelo corpo, pois um sequenciador não reproduz tais irregularidades do mesmo modo que um baterista. Do mesmo modo, um músico dificilmente tocará de modo absolutamente regular, tal como é comum em um sequenciador. Na escuta de um som gravado o gesto vem assim expresso pela continuidade de seus traços sonoros deixados no suporte. E, por conta de nosso aprendizado audiovisual da criação de sons gerados pelo homem, ao escutarmos um som com algum caractere ligado a um traço humano, por mais isolado que seja (uma rítmica regular com sutis flutuações em um som eletrônico, por exemplo), o associamos a um gesto.
Em um som gravado com caracteres gestuais, qualquer variação, por pequena que seja, será percebida e traduzida enquanto expressão do corpo. Qualquer lapso na sua transdução é sentido enquanto uma interferência na imagem do gesto, pois antes de ser expressão de algo, é uma imagem do movimento, já que é pelo movimento corporal que os sons fixados no suporte foram realizados pelo corpo. Por menor que seja o gesto (um leve sopro numa flauta que produz um som tônico, pianíssimo e stacatto, por exemplo), ele se efetua pelo movimento (no caso, um leve golpe de ar), e a apreensão de suas qualidades consiste na retomada da imagem do movimento, ou seja, a retomada do seu delineamento temporal, fixado na memória.
2.1.2.2 O gesto é um contínuo
O gesto é assim um movimento corporal que, por carregar-se de uma certa intencionalidade, traz consigo sentidos imanentes traduzidos pelas “inflexões da sinceridade” a que se referia Schaeffer, e esta expressividade é decorrência do caráter do movimento, expresso sonoramente. Entretanto, como o apreendemos? No caso de uma escuta musical, em que há por parte da recepção uma certa intencionalidade, o ouvido se coloca imerso na continuidade do movimento que lhe é apresentado pelo som, decorrente da ação do intérprete sobre algum instrumento ou corpo sonoro, ou sobre si mesmo (no caso da voz). Neste colocar-se atento às decorrências do som, o ouvido capta os pontos de partida e de chegada, os silêncios, as densidades, as recorrências e as respirações. Em uma palavra, ele capta o movimento nas suas oscilações. Coloca-se continuamente pois assim é demandado: uma vez imerso no tempo musical, o sentido passa a ser gerado pela decorrência de um evento a outro. Os acontecimentos ganham peso, densidade ou fluidez na medida em que os movimentos que os engendram são identificados na nossa memória. A escuta musical é, assim, um estar-se a um tempo no instante e na memória, pois, imersa no devir dos acontecimentos, relaciona-os ao traço contínuo que vem dos extratos acumulados na memória, em que cada novo evento é assim ressignificado em função deste traço.
Um gesto musical possui, então, intrinsecamente a imagem do movimento corporal que o engendrou, ou seja, é o resultado, não só de uma ação intencional, mas também de