II: BÖLÜM:
2.3. Küreselleşme, Soğuk Savaş ve şiddet
São várias as estratégias empregadas a fim de chamar a atenção do
145 Entre 1955 e 1956, Perec publicaria algumas resenhas na Nouvelle Nouvelle Revue Française e,
durante o ano de 1957, escreveria para a revista Lettres Modernes.
146“(...) seja em Stendhal ou em Flaubert, nos Goncourt ou em Fromentin, existe entre o homem e o
mundo certo descolamento, e as sensações que o permitem conhecer esse mundo – tanto por sua pobreza como por sua demasiada riqueza – só podem refletir uma imagem falsificada e inautêntica. Existe então um fracasso do vivido e, em consequência disso, esses escritores farão um esforço para evitar esse fracasso; para isso, tentarão estabelecer entre eles e mundo uma relação mais válida, mais satisfatória.” PEREC, G. “Jean-Pierre Richard. Littérature et sensation (Éditions de Minuit).” In La
Nouvelle Nrf, 1er avril 1955, 3e année, n° 28, p. 715.
147“lucidez, senso, tomada de consciência, controle, totalidade.” BURGELIN, C. “Préface”. In L.G. Une aventure des années soixante. Paris: Seuil, 1992. p. 7
67 leitor para o caráter ficcional do texto, como um narrador que se dirige aos leitores ou o uso de um estilo. Segundo L Lepaludier:
recherché ou inattendu, le baroque ou le kitsch par exemple, le recours à des figures de style qui défient la compréhension ou étonnement (notamment le paradoxe, l’oxymore ou le jeu de mots) peuvent être considérés comme des procédés métatextuels.148
Tanto em Manderre quanto em Paludes, certos estilos e expressões surgem sem que o leitor as preveja, e isso pode causar uma sensação de estranhamento, de dúvida quanto ao estatuto do texto e, consequentemente, do que nele é dito.
Quanto à linguagem infantil que aparece por vezes nos diálogos entre o narrador e Manderre, uma pista para compreender seu sentido pode estar em outro texto de Perec, Espèces d’espaces. Neste livro, o escritor faz um inventário do espaço que o cerca, e trata na seguinte ordem da página em branco, da mesa de trabalho, do quarto, do apartamento, do prédio, da rua, do bairro, da cidade, do país, do planeta e do universo. Perec convida o leitor a observar o “infra-ordinário”, isto é, todas as pequenas ações e objetos do cotidiano aos quais não prestamos atenção. Para isso, é necessário encontrar uma nova maneira de observar o mundo, e essa maneira pode passar pela escritura. Perec sugere ao leitor interessado a criação de listas, escritas do modo menos elaborado possível, em uma linguagem próxima da utilizada pelas crianças – afinal, tudo para elas é novidade, e seu olhar é cheio de curiosidade diante de um mundo desconhecido. A linguagem infantil também aparece em Manderre ligada a ações comuns e simples, e já sugere o interesse de Perec pelo cotidiano. Já as ações que poderiam ter interesse romanesco de acordo com a concepção realista tradicional – como as viagens – são mostradas de modo apequenado e irônico, e nada acrescentam ao “perfil” do personagem. Surge aqui uma espécie de inversão, e o cotidiano passa a ser mais rico que o extra-ordinário, a matéria literária por excelência.
De certa maneira, a observação do “infra-ordinário” também está presente em Paludes. Tudo o que acontece com o narrador é integrado a seu
148 “rebuscado ou inesperado, barroco ou kitsch, por exemplo, o recurso a figuras de estilo que desafiam a
compreensão ou surpreendem (como o paradoxo, o oximoro ou o jogo de palavras) podem ser considerado como procedimentos metatextuais.” LEPALUDIER, L. “Fonctionnement de la métatextualité : procédés métatextuels et processus cognitifs”. In COLLECTIF, op. cit., p. 34.
68 texto, não importando o quão banal seja o fato. O cotidiano também toma no texto a forma de uma lista, um inventário perecquiano por antecipação:
Or, de cet instant que dirais-je ? – Pour quoi n’en parler pas autant que de l’instant qui suivit : savons-nous quelles sont les choses importantes ? Quelle arrogance dans le choix ! – Regardons tout avec une égale insistance, et, qu’avant le départ excité, j’aie encore une calme méditation. Regardons ! Regardons ! – que vois-je ?
– Trois marchands de légumes passent. – Un omnibus déjà.
– Un portier balaie devant sa porte.
– Les boutiquiers rafraîchissent leur devanture. – La cuisinière part pour le marché.
– Des collégiens vont à l’école.
– Les kiosques reçoivent les journaux ; des messieurs pressés les achètent.
– On pose les tables d’un café…149
É difícil não pensar em um texto como Tentative d’épuisement d’un lieu parisien diante de uma lista como a descrita acima:
Esquisse d'un inventaire de quelques-unes des choses strictement visibles:
(…)
Une nuée de pigeons qui s'abat soudain sur le terre-plein central, entre l'église et la fontaine
Des véhicules (leur inventaire reste à faire) Des êtres humains
Une espèce de basset Un pain (baguette)
Une salade (frisée?) débordant partiellement d'un cabas150
149 GIDE, op. cit., p. 119-20. “Ora, o que direi desse instante? Por que não falar dele tanto quanto do
instante que se seguiu; acaso sabemos quais são as coisas importantes? Que arrogância na escolha! Olhemos para tudo
com igual insistência e que, antes da partida excitada, eu ainda tenha uma calma meditação. Olhemos! Olhemos! O que é que estou vendo?
Três quitandeiros passam. Um ônibus já.
Um porteiro varre diante de sua porta. Os comerciantes renovam suas vitrines. A cozinheira sai para ir à feira.
Colegiais vão para a escola.
Os jornaleiros recebem os jornais; homens apressados os compram. Alguém arruma as mesas de um café...” (Trad., p. 95)
150 “Esboço de inventário de algumas das coisas visíveis:
(...)
– Uma revoada de pombos que pousam repentinamente no átrio central, entre a igreja e a fonte – Veículos (é preciso fazer o inventário dos mesmos)
– Seres humanos – Uma espécie de bassê – Um pão (baguete)
– Um pé de alface (crespa?) saindo parcialmente de uma sacola.” PEREC, G. Tentative d'épuisement
69 ou, ainda, na exortação contida em uma das epígrafes de La Vie mode d’emploi: “Regarde de tous tes yeux, regarde!”151, frase extraída de Michel
Strogoff, mas que poderia muito bem ter sido dita pelo narrador de Paludes. A partir do momento em que o trivial se torna ficção, ele é alçado à categoria de extraordinário, de fato digno de nota. E a transformação ficcional de elementos opostos ao romanesco nos obriga a questionar o estatuto do realismo em literatura, posto que a rotina trivial é, de fato, mais real que os grandes eventos do romance realista tradicional. Em Manderre, nos textos posteriores de Perec e em Paludes, a mimese apresenta um caráter subversivo. Como nos diz Ardelanu:
elle continue d'être rapport simulateur à la réalité, mais la perfection de sa mise en place, son fonctionnement sans 'bruit', sans 'jeu', laissent voir ce qu'elle a de factice, elle en devient 'figure' au sens genettien du mot, espace qui se creuse entre la forme et le sens. Au lieu d'être l'assise de la représentation littéraire, elle en constitue l'arrière-plan qui rend perceptible le caractère médiatisé de la signification.152