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II: BÖLÜM:

2.2. Çağdaş Sanat, Postmodernizm ve Şiddet

Um dos pontos de aproximação mais intrigantes entre Manderre e Paludes talvez esteja na reflexão sobre o trabalho com o real. Na sotie, o narrador se serve de Richard como modelo de Títiro, adaptando a vida de seu

140 “Ele não tenta dar a eles interioridade psicológica, intimidade sensorial ou presença corporal. Eles não

têm corpo nem alma: personagens que permanecem personagens e nunca se tornam pessoas. Sua existência como artefato literário é marcada pela importância do nome que, mais que uma marca de identidade, é seu constituinte essencial. Sem isso, são ectoplasmas ativos definidos apenas por suas buscas e suas obsessões (...). No xadrez, peões e outras peças são apenas posições e papéis no tabuleiro; da mesma forma, os personagens de Perec não tem nenhuma autonomia com relação à estrutura que permite sua existência.” BURGELIN, C. Georges Perec. Paris: Seuil, 1988. p. 22.

141 Embora no caso de Paludes, a designação do gênero forneça uma pista, mesmo vaga, como veremos

no próximo capítulo.

142 Manderre apresenta algumas características do Nouveau Roman, como as frases curtas e a indefinição

dos personagens. Mas como tais elementos também estão em Paludes, e esse texto é importante para os nouveaux romanciers, é difícil saber a quem aludir a “influência” direta.

65 amigo à sua economia literária e combinando-a com a referência virgiliana, obedecendo assim às exigências internas de sua obra. Em Manderre, algo parecido acontece quando o protagonista se serve de um discurso real, retirado dos livros de história. Enunciado por um personagem, deslocado de seu contexto original, o discurso passa a ser visto de outra forma. Perec brinca tanto com textos tidos como documentos fieis de fatos históricos quanto com a ficção sobre eventos reais, e mostra como o discurso é maleável e se presta a muitos sentidos, até mesmo à falta de sentido...

Se o questionamento do estatuto do discurso sobre o real está presente nos dois textos, outro aspecto que os une é a exposição do caráter ficcional, revelado através de artifícios diversos. Em Paludes, desde as primeiras frases sabemos que o narrador está escrevendo um livro cujo título é “Paludes”, vemos seu trabalho e temos acesso a alguns trechos de seu texto. No datiloscrito, o leitor precisa de certo tempo antes de descobrir que o protagonista é, de fato, um personagem cujas ações são descritas pelo narrador. Se na sotie o processo de criação literário – ou, em todo caso, de uma obra literária – é explicitado, Manderre mantém essa temática implícita, e dessa forma exige mais do leitor quanto à descoberta de seu aspecto autorreflexivo.

E como descobrir a exposição dos “bastidores” do texto implícita em Manderre? Através do protagonista, que pode ser entendido como um personagem à part entière, isto é, como uma construção mostrada como tal, ainda que alguns elementos sugiram certa pretensão a um efeito de real, tal como o define R. Barthes. Dentre esses elementos, podemos considerar a coincidência entre o título da obra e o nome do protagonista – que pode evocar textos como La princesse de Clèves, de Madame de La Fayette, Vanina Vanini e Lamiel, ambos de Stendhal, nos quais o leitor acompanha os eventos na vida do herói ou heroína epônimos.144 Embora descreva algumas ações do personagem, o narrador não fornece ao leitor elementos suficientes para que este construa o perfil psicológico de Manderre, tal como geralmente acontece em textos como os citados acima. Assim sendo, também é impossível

144 Emma Bovary ou Nadja poderiam ser citadas como exemplo de personagens epônimos. No entanto,

como nosso propósito é justamente mostrar que tal recurso foi geralmente usado em literatura a fim de criar um “efeito de real”, preferimos deixar tais obras de lado, por mostrarem a inversão de tal norma.

66 estabelecer qualquer identificação com o personagem, e ao final da leitura o leitor não consegue colocar Manderre em nenhuma categoria específica. E, quanto às situações descritas pelo narrador, todas elas se equivalem e não dizem muita coisa sobre o protagonista.

A relação do escritor com o mundo e, consequentemente, com o realismo sempre foi importante para Perec. Prova disso são as resenhas publicadas muito antes de seu primeiro livro, Les Choses.145 Nesses textos relativamente curtos, a questão do real está presente de forma significativa:

(…) que ce soit chez Stendhal ou chez Flaubert, chez les Goncourt ou chez Fromentin, il y a, entre l'homme et le monde, un certain décollement, et les sensations qui leur font connaître ce monde ne peuvent, tant par leur pauvreté que par leur trop grande richesse, que leur donner une image falsifiée et inauthentique. Il y a donc, au départ, un échec du vécu, et par conséquent, dans l'effort que ces écrivain entreprendront pour parer à cet échec ils vont s'attacher à poser entre le monde et eux un rapport plus valable, plus satisfaisant.146

Nas resenhas de Perec já é possível identificar algumas das ideias que constituiriam a base das reflexões propostas no projeto da revista Ligne générale, idealizada por Perec e alguns de seus amigos. A L.G. tinha o objetivo nada modesto de criar uma nova literatura, em oposição ao engajamento sartriano e baseada em valores como “lucidité, sens, prise de conscience, maîtrise, totalité”.147 O projeto da revista começa a ser formado em 1959, ao

mesmo tempo em que o escritor constata o declínio de seu interesse pelos textos de Gide.

Benzer Belgeler