II: BÖLÜM:
2.4. Nihilizm ve Şiddet İlişkisi
3.1.7. Gunter Von Hagens
Manderre representaria, segundo Lederer, uma espécie de adeus às referências literárias de Perec no início dos anos 50, entre as quais figuravam autores como Char, Camus, Sartre e, é claro, Gide. Essa “ruptura” teria sido causada pelo encontro de Perec com Žarko Vidović, através do qual os dois amigos descobririam autores como Tolstoi, Balzac e Lowry. Para Lederer, esse encontro foi decisivo para Perec, e o projeto da Ligne générale teria sido iniciado já nessa época, motivado por uma nova visão da literatura introduzida pelo intelectual iugoslavo:
Perec avait déjà beaucoup lu et lui parla de James Joyce, André Gide et John dos Passos. Mais il n'avait encore rien lu de Tolstoï. Comment, s'indigna Žarko, pas un Tolstoï? Alors que Guerre et Paix est le chef-d'oeuvre absolu de la littérature moderne! Et l'initiateur
151 PEREC, La Vie mode d’emploi, op. cit., p. 13.
152 “ela continua sendo uma relação simuladora com a realidade, mas a perfeição de seu estabelecimento,
seu funcionamento discreto, sem ‘encenação’, revelam o que a mimese tem de factício; ela se torna figura no sentido conferido à palavra por G. Genette, a saber espaço criado entre a forma e o sentido. Ao invés de ser a base da representação literária, ela constitui o segundo plano desta, e expõe o caráter mediado da significação.” ARDELANU, op. cit., p. 104-5.
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serbe de Perec d'expliquer comment Tolstoï réunissait les qualités épiques d'un Homère et le réalisme d'un Balzac, comment le vaste panorama qu'il brossait de la vie sociale, intellectuelle et affective de la Russie du XIXe siècle était le modèle sur lequel il faudrait édifier une littérature nouvelle. Parce que l'art du monde ne sera ni socialiste ni moderniste, martelait Žarko, mais à la fois critique, réaliste, épique et spirituel. Perec écouta avec une sorte de gourmandise et deux des mots clés de Vidović devinrent bientôt ses mots d'ordre à lui, pour de nombreuses années. Jusqu'à la publication des Choses (...), Perec allait centrer sa définition de la littérature sur les notions de réel et d'épique. A Jacques Lederer, il confia qu'il savait à présent quelle serait sa véritable tâche: écrire Guerre et Paix.153
Apesar da influência intelectual, o relacionamento entre Perec e Žarko não era, no entanto, dos mais tranquilos. Aparentemente, Perec nutria pelo amigo um misto de admiração e inveja, reforçado pelo interesse do jovem por Milka Čanak. Se o modo como Žarko entendia a literatura – ele a comparava aos bisões das pinturas parietais encontradas na gruta de Lascaux, isto é, como um ataque perpétuo154 – tinha sido recebido com entusiasmo por Perec,
o intelectual o exasperava, talvez por conta dos sentimentos que nutria pela namorada de Žarko. Lederer vê em Manderre um retrato “negativo” de Žarko, ou seja, em completa oposição ao homem real. O dandismo, o comportamento por vezes inadequado (“par moments, il éclate d'un rire bref, extrèmement indiscret. Les gens le regardent. (…) Je ne sais plus où me mettre”155) e o uso
da erudição como meio de se valorizar do protagonista comporiam um retrato de Žarko “ao contrário” e nada favorável. Diante de tal contexto, talvez o nome do protagonista tenha de fato uma ligação com o título do romance de Musil já que, ao invertermos o adjetivo e o substantivo em “Der Mann”, temos uma expressão parecida com Manderre, “Mann Der”, e poderia ser interpretado como o homem ao contrário. Além disso, a ideia de um homem sem qualidades
153 “Perec já havia lido muito e falou de James Joyce, André Gide e John dos Passos. Mas não tinha lido
nada de Tolstoi. Como, indignou-se Žarko, não lera Tolstoi? Guerra e Paz é a obra-prima absoluta da literatura moderna! E o iniciador sérvio de Perec explicou a este como Tolstoi reunia as qualidades épicas de um Homero e o realismo de um Balzac, como o vasto panorama da vida social, intelectual e afetivo da Rússia do século XIX era o modelo sob o qual uma nova literatura deveria ser construída. Porque a arte do mundo não será nem socialista nem modernista, insistia Žarko, e sim crítica, realista, épica e espiritual ao mesmo tempo. Perec ouvia as palavras do amigo com uma espécie de gula, e duas palavras-chaves para Vidović se tornaram capitais para o escritor, e por muitos anos. Até a publicação das Coisas (...), Perec centraria sua definição de literatura nas noções de real e épico. A Jacques Lederer, ele afirmaria saber qual era sua verdadeira tarefa: escrever Guerra e Paz.” BELLOS, op. cit.,
p. 180.
154 Classificadas como patrimônio mundial pela Unesco, as grutas de Lascaux, na França, são conhecidas
por abrigar importantes exemplos de pinturas rupestres.
155“em alguns momentos, ele dá uma risada breve, extremamente indiscreta. As pessoas olham para ele
71 descreve bem o protagonista da obra.
As opiniões de Perec sobre seus textos e as dúvidas quanto ao desenvolvimento dos mesmos também fazem parte dos assuntos de suas cartas. Quanto à Manderre, o julgamento de Perec é sempre negativo:
Je recommence pour de bon Les amis parfaits, pièce satirique cette fois-ci – j'abandonne La suie définitivement, La paix aussi – Et
Manderre est mort de sa belle mort quelque part entre Belgrade et
Sarajevo.156
Je ne ressens pas cette implacable passée, ce 'fini sans espoir' des nouvelles, de l'Attentat, des Errants de jadis – Chaque page écrite est un matériau accumulé, une ébauche pleine de promesses, une pierre à dégrossir. Non pas ces édifices branlants qui tenaient par miracle, qui naissaient par ma seule volonté d'écrire, mais une oeuvre qui se fait petit à petit, sans que jamais elle ne devienne une 'création- panique' (j'appelle ainsi des textes tels que Manderre, Les deux
grenadiers, l'Abominable homme des neiges).157
A leitura dos trechos acima sugere que, para Perec, Manderre fora escrito somente como uma afirmação de sua capacidade de escrever e, portanto, não fosse considerado pelo escritor como um verdadeiro texto. De fato, o datiloscrito é um exercício de estilo mas, como vimos, é possível entrever nele alguns elementos que seriam desenvolvidos na escritura perecquiana. Outro fator pode, ainda, ter influído em tal julgamento negativo do texto. Segundo Lederer158, Manderre seria principalmente uma “válvula de escape”, escrita com o objetivo de ridicularizar o intelectual iugoslavo. O Attentat de Sarajevo teria sido escrito no mesmo espírito, como mostram certos trechos:
Branko était laid. (…) Il n'était pas sortable: il parlait dans la rue em faisant de grands grands gestes, s'asseyait dans les cafés em appelant le garçon 'monsieur', faisait de grands sourires à ses voisines. Son français était fort passable, mais cependant émaillé de fautes minuscules, absolument insupportables au bout d'un quart d'heure. Il était très intelligent certes.
156“Recomeço de fato Les amis parfaits, peça satírica dessa vez – abandono La suie definitivamente, La paix também – E Manderre está morto e enterrado em algum lugar entre Belgrado e Sarajevo.” Idem. “Cher, très cher...”. op. cit., carta n° 8, p. 41.
157“Não sinto mais esse impulso implacável, esse “terminado sem esperança” das novelas, do Attentat,
dos Errants de outrora – Cada página escrita é um material acumulado, um esboço cheio de promessas, uma pedra a ser lapidada. Obras feitas aos poucos, e não esses edifícios oscilantes que ficavam em pé por milagre, nascidos apenas da minha vontade de escrever, e que nunca se tornam “criações do pânico” (chamo assim textos como Manderre, Les deux grenadiers, l'Abominable homme
des neiges).” Ibid., carta n° 126, p. 349.
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L'inconvénient est qu'il se croyait génial.159
Posteriormente, Perec concluiria que a literatura não tem por função o acerto de contas, e dai viria o julgamento severo posterior sobre Manderre. Se o Attentat não é visto de forma negativa pelo escritor, isso se dá provavelmente por representar para Perec um verdadeiro texto, e não uma criação feita para, de um lado, provar sua capacidade de escrever e, de outro, atingir um rival.
Servindo-se de elementos contrários aos do livro de Gide, Perec chega às mesmas conclusões. O datiloscrito mostra como é possível dizer as mesmas coisas de modo completamente diferente, e suscitar as mesmas questões: a inexistência de um vínculo imanente entre a linguagem e a significação (tudo é discurso, mas nem todo discurso tem sentido), a ausência de um sentido fechado no texto literário e o problema do estatuto do real na literatura. O sorriso de Manderre diante da sotie representaria, também, a alegria diante das possibilidades apresentadas por Paludes. Texto escriptível e potencial, Paludes permite uma releitura completa, que o transforma totalmente, e não se limita à superfície de um estilo. Único na obra de Gide, o texto é um modelo perfeito para um escritor como Perec, cujo interesse pelo reaproveitamento e pelo lúdico constituiria marca registrada. E, no caso de Paludes, tal como ocorre em Manderre, o caráter multifacetado da obra foi desenvolvido através do contato íntimo e da releitura de um hipotexto em especial, as Bucólicas de Virgílio, texto cuja potencialidade tem sido evidenciada ao longo do tempo. No próximo capítulo, veremos como um poema da era de Augusto pôde, por mais insólito que isso pareça, dar origem a uma sátira do fazer literário francês no final do século XIX.
159 “Branko era feio (...). Impossível sair com ele: gesticulava muito enquanto falava na rua, sentava-se
nos cafés e chamava o garçom de “senhor”, sorria muito para as mulheres nas mesas próximas à sua. Seu francês era muito bom, mas cheio de erros minúsculos, absolutamente insuportáveis após quinze minutos. Era certamente muito inteligente: o problema é que se achava genial.” Idem, L’Attentat de
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II
Paludes ou a literatura no divã