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Este capítulo aborda o processo de urbanização de São Paulo sob o prisma da metropolização. Isto porque as mudanças, de forma e de conteúdo das escolas que tiveram que se adequar à nova realidade, singularmente vistas no caso da EE Antônio Alves Cruz, estiveram profundamente relacionadas à lógica de urbanização de São Paulo.

A pesquisa encontrou três momentos da urbanização que estiveram relacionados às transformações das escolas centrais. O primeiro momento se caracterizou pela existência de um conjunto de bairros que circundavam a cidade. Em São Paulo, esta forma orgânica predominou até meados do século XX. A partir desse momento, teve início o processo de metropolização, que chega a seu auge na década de 1980, com a divisão centro-periferia. Percebe-se então um processo de reestruturação metropolitana, com mudanças importantes na morfologia social e urbana marcadas pela diminuição dos moradores das áreas centrais, sendo este o aspecto mais perceptível da reestruturação.

Pretende-se mostrar, particularmente, como os lugares internos da cidade foram de modo geral se fragmentando, na passagem da forma urbana da cidade com seus bairros para a forma metropolitana, rompendo vínculos orgânicos anteriores. Com a metropolização, produziram-se novas separações dos moradores da cidade, que passaram a experimentar a pobreza da periferia, distinta da pobreza que existia nos bairros da cidade, reforçando as tendências de esvaziamento e de exclusão nas áreas internas da cidade.

A análise considerará principalmente as transformações urbanas na forma, na função e na estrutura urbana. O ponto de partida dessas transformações está na maneira como foi produzida em São Paulo a atual forma urbana, cuja interpretação teórica de definição, adotada neste trabalho, é a de Lefebvre:

Na sua relação com seu conteúdo, a forma urbana suscita uma contradição (dialética) já indicada, que agora é preciso aprofundar. Como dissemos, no espaço urbano sempre ocorre algo. O Vazio, a ausência de ação, só podem ser aparentes; a neutralidade não passa de um caso limite; o vazio (uma praça) atrai; ele tem esse fim. Virtualmente, qualquer coisa pode ocorrer não importa onde. Aqui ou ali, uma multidão pode se reunir, objetos amontoarem-se, uma festa ocorrer, um acontecimento, aterrorizante ou agradável, sobrevir. Daí o caráter fascinante do espaço urbano: a centralidade sempre possível. Ao mesmo tempo, se se ousa assim falar, esse espaço pode se esvaziar, excluir o conteúdo, tornar-se um lugar de raridades ou de poder em estado puro. Ele está aprisionado em estruturas fixas, superpostas, hierarquizadas, do imóvel ao conjunto urbano cercado por limites visíveis ou pelos limites invisíveis dos decretos e decisões administrativas.31

Os conteúdos que se reúnem e se concentram na forma vazia da realidade urbana deixam sobrepor características funcionais (administrativa, religiosa, comercial, industrial, financeira). A maneira como os conteúdos se arranjam em torno do centro ou dos centros define a própria estrutura urbana (morfologia social e geográfica): cidade, bairros, subúrbio, centro, periferia, fragmentos.

A centralidade define o movimento de formação do urbano, já que o urbano, em oposição à dispersão do rural, trata-se da concentração de objetos, pessoas, riqueza. A concentração e as centralidades dão sentido à forma, à estrutura e ao modo de vida das pessoas nas grandes aglomerações. Todavia, diz Lefebvre, “no curso da sua realização o urbano, a concentração sempre enfraquece e se rompe. É preciso, então, outro centro, uma periferia, um alhures”32.

A metropolização é a expressão destes múltiplos centros que se rompem. Ela é a conjugação do processo de “implosão-explosão” da cidade. Este entendimento teórico da urbanização das grandes cidades industriais foi formulado por Lefebvre33.

Segundo o autor, nada parece descrever completamente tal processo histórico da realidade urbana, tamanha complexidade envolvida na sua problemática.

Tem-se a “implosão-explosão” (metáfora emprestada da física nuclear), ou seja, enorme “concentração” (de pessoas, de atividades, de riquezas, de coisas e de objetos, instrumentos, de meios e de pensamento) na cidade, e a imensa explosão, a projeção de fragmentos múltiplos e disjuntos (periferias, subúrbios, residências secundárias, satélites etc.).34

31 LEFEBVRE, 1999, p.121. 32 Ibidem, p. 112.

33 Ibidem, p. 26. 34 Ibidem, p. 26.

As enormes concentrações e, ao mesmo tempo, a imensa explosão em fragmentos internos e externos da cidade, se refletem em três níveis de abrangência do espaço urbano: de alcance territorial nacional, de redefinição das áreas internas da cidade e de expansão urbana das áreas periféricas. Enquanto a centralidade constitui a forma abstrata de transformação destes três níveis da realidade urbana, a industrialização foi o processo que renovou os conteúdos e o modo de vida das pessoas.

Segundo Fernandes35, a hegemonia urbana no Brasil, que se ergue pelo

complexo industrial e financeiro, altera a realidade das cidades; intensifica a concentração de recursos materiais, humanos e técnicos, derivando, através de tal processo, a metropolização das duas cidades mais importantes do país: Rio de Janeiro e São Paulo. De acordo com o autor, as alterações urbanas nacionais ocorrem sem dissolver o caráter duplamente articulado da economia dependente, de aceitação do poder agrário aristocrático e da burguesia internacional.

Aceita-se, como “natural”, que o setor agrário em modernização continuasse vastamente arcaico, onde e como isso se mostrasse funcional à acumulação originária do capital. De outro lado, também se aceita como “natural” que a articulação às economias centrais, além de persistir, se aprofundasse, sob a presunção de que aí estaria ou a “melhor” ou a “única” saída para a industrialização e a concomitante aceleração do desenvolvimento econômico interno36.

Na primeira metade do século XX, São Paulo ficou no centro da transformação capitalista e da dominação burguesa37. Momento em que se irradia e se consolida o capitalismo competitivo, assim como se prepara a transição para o capitalismo monopolista. Isto porque, ao concentrar a industrialização, “o elemento central da alteração”, como disse Fernandes, a cidade de São Paulo se transformava, num período em que a própria posição da economia urbana se alterava dentro do sistema econômico e urbano brasileiro. Ao analisar o fenômeno urbano nacional e o papel da metrópole paulista, o autor escreveu:

35 FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. 5. ed. São Paulo: Editora Globo, 2006, p.

337-348.

36 Ibidem, p. 284. 37 Ibidem, p. 347.

Torna-se mais evidente pela superfície, em termos morfológicos, graças à concentração de massas humanas, de riquezas e de tecnologias modernas, um número reduzido de metrópoles-chave. De fato somente São Paulo capitalizou as transformações essenciais, de longa duração; e a mudança fundamental do cenário reflete-se, de modo geral, mais no tope do sistema de classes, pois só os grupos com posições estratégicas (centrais ou mediadoras e intermediárias) no ciclo econômico da industrialização intensiva tiveram um aumento real (na verdade desproporcional) do poder socioeconômico e político38.