• Sonuç bulunamadı

Derinlemesine Görüşme Mülakat Formunun Hazırlanma Süreci

Nesta seção é apresentado o ajuste produtivo e espacial da educação no município de São Paulo, para lidar com as transformações urbanas e demográficas da metrópole. O ajuste realizado principalmente a partir da reorganização das escolas da rede oficial adequou, segundo os padrões produtivos da Secretaria de Estado da Educação (SEE), a distribuição dos alunos e funcionalidade das escolas, com um número significativo de escolas extintas.

96 HARVEY, 1999, p. 406.

2.2.1 Ajuste neoliberal chegou à escola

Na década de 1990, como já bem abordado por vários estudos, as estratégias neoliberais foram se manifestando em práticas adotadas na rede oficial, como modelo hegemônico de regulação societal97. No âmbito da Secretaria de

Estado da Educação do governo estadual, este modelo foi adotado globalmente na gestão da ex-secretária de educação Rosely Neubauer e do governador Mario Covas98.

Foi a partir da experiência anterior na pasta da educação no governo Municipal de São Paulo de Neubauer e Covas; e da conjugação com a gestão de Paulo Renato e Fernando Henrique Cardoso no governo Federal, que São Paulo ingressou a adequação estrutural do sistema de ensino tanto à reforma do Estado, como às metas estabelecidas nacional e internacionalmente, conforme a “Declaração de Jontien99”.

Em meados de 1990 começa realmente o ajuste da infraestrutura educacional para sair da crise fiscal. As políticas adotadas principalmente na rede estadual paulista buscavam simultaneamente adaptar-se ao novo regime de acumulação capitalista no Brasil e aos sistemas de metas sob orientação do Banco Mundial100. Havia o entendimento de que a infraestrutura social de educação

97 Segundo Icasuriaga (2002, p. 227), “Entende-se que os mecanismos de regulação das condições

de reprodução social remetem fundamentalmente ao tratamento da intervenção estatal no espaço da produção social. As formações sociais capitalistas exigem condições sociais para manter e desenvolver a produção social, ou seja, condições de reprodução social, reprodução dos indivíduos, das classes, da ideologia e do conhecimento”.

98 Uma importante pesquisa sobre a reestruturação produtiva e administrativa da rede estadual de

ensino foi realizada por ADRIÃO, Thereza. Educação e produtividade: a reforma do ensino paulista e a desobrigação do estado. São Paulo: Xamã, 2006.

99 Em Jontien na Tailândia foi realizada a Conferência Mundial de Educação Para Todos. Nesta

conferência realizada em 1990, um ano após a reunião do chamado Consenso de Washington, foram definidas metas decenais para todos os países que assinaram a declaração, entre eles o Brasil: erradicar o analfabetismo; universalizar a educação fundamental; eliminar a evasão e a repetência escolar; descentralização administrativa e financeira; dividir responsabilidade entre o Estado e a sociedade, através de parcerias com empresas, comunidade e a municipalização do ensino fundamental; avaliação do desempenho do (a) professor (a) e institucional; desenvolver o ensino à distância e reestruturar a carreira docente.

100 Segundo Cortina, “os acordos com o Banco Mundial para racionalizar a rede segundo padrões

produtivos liberais no interior da SEE têm indícios no governo Montoro, passando por Quércia, e como vimos ganhou força no governo Fleury. Ou seja, houve uma linha de continuidade ou pelo menos de co-responsabilidade entre estes governos na área da educação, basta lembrar que a professora Rose Neubauer fez parte da gestão Fleury na SEE”. CORTINA, R. L. Política educacional paulista no governo Covas (1995-1998): uma avaliação política sob a perspectiva da modernização.

montada anteriormente era suficiente, e até mesmo excessiva, para satisfazer a demanda, sobretudo no que se refere ao ensino fundamental e médio. Como se pode ler no programa do governo101:

O sistema possui, portanto, capacidade instalada para atender, praticamente, toda a demanda. Caberá a administração do PSDB imprimir novos padrões organizacionais capazes de regularizar o fluxo dos alunos pelo sistema bem como racionalizar e potencializar os recursos físicos e humanos.

O ajuste neoliberal da educação, no âmbito da rede de ensino estadual, se deu através da reforma e racionalização da rede administrativa e das mudanças no padrão de gestão escolar102. Foi chamada, inicialmente, pela secretária de estado da

educação Rosely Neubauer com sendo uma “revolução produtiva” na rede estadual de ensino.

Desde então medidas vêm sendo adotadas para elevar o acesso e o fluxo dos alunos pelas escolas sem realizar alterações qualitativas nos investimentos educacionais, sobretudo no que se refere aos investimentos na parte humana. Junto a isto vem sendo realizada uma série de mudanças na administração do sistema público, que Costa descreve como de:

Descentralização da gestão e o imbricamento maior com instâncias fora do Estado, ONGs, associações em geral, empresas, etc. Descentralização que não significa o simples desmanche dos aparatos centrais, mas seu confinamento a atividades de planejamento, redistribuição e uma proposta inovadora, avaliação centralizada. A questão básica é o estabelecimento de mecanismos de controle que atuem diretamente sobre as escolas, como forma de pressão, através da competição103.

A reestruturação produtiva está associada às transformações na administração das escolas, que passaram por um processo de desmembramento da rede pública com a municipalização do ensino, e que vem sendo chamada de

descentralização. Além da municipalização, marca este momento de

Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000 apud ADRIÃO, Thereza. Educação e produtividade: a reforma do ensino paulista e a desobrigação do estado. São Paulo: Xamã, 2006, p. 90.

101 SILVA, T. R. N. da (Coord.). Programa de educação para o estado de São Paulo. Documento

preliminar. Candidato Senador Mario Covas. São Paulo, set. 1994. [Folheto de Campanha].

102 ADRIÃO, 2006, p.94. 103 Ibidem, p.82.

descentralização a entrada das ONGs e das empresas no interior das escolas, a partir de mudanças na legislação que regem o sistema educacional.

Como parte da adaptação ao novo modelo gestão, em acordo com as orientações internacionais, a reforma e racionalização da rede oficial de ensino ampliou o sistema de avaliações externas do desempenho, através dos princípios norteadores do mercado, da pressão, da competição e da espetacularização das relações sociais.

2.2.2 Reorganização das escolas: separação das crianças

Uma das primeiras medidas da nova gestão da educação, a partir de 1995, foi o Programa de Reorganização da rede de ensino. A reorganização da rede começou basicamente pela divisão dos alunos por faixa etária e ciclo escolar104, entre 1995 e 1998. Havia o entendimento, por parte da Secretaria da Educação, que esta separação das crianças por faixa etária melhoraria a eficiência no uso da infraestrutura escolar e a eficácia no desempenho educacional.

Os alunos foram redistribuídos e divididos em três ciclos: 1ª a 4ª série, da 5ª a 8ª séries, e ensino médio. O argumento da SEE era o seguinte: como uma mesma escola muitas vezes atendia alunos de todos os ciclos, do Fundamental I ao Ensino Médio, professores que lidavam com apenas um ciclo tinham que dar aulas em muitas escolas para completar sua jornada; a mistura de alunos de faixa etária diferente num mesmo turno e numa mesma escola criava “ociosidade”, já que nas séries mais avançadas os efeitos da evasão e da repetência eram maiores.

Não foi encontrada qualquer pesquisa antes ou depois da separação dos alunos que se justificasse pedagogicamente a medida adotada. O único precedente foi a reforma de 1976, na própria rede oficial, que tinha realizado procedimento similar, porém com abrangência muito reduzida. Portanto sempre nos pareceu uma medida de racionalização dos custos, mas como estratégia para se adotar outras medidas de grande impacto, como a municipalização do ensino; e a própria

104 SÃO PAULO (Estado). SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO. Educação paulista:

corrigindo rumos: mudar para melhorar: uma escola para a criança, outra para o adolescente. São

redistribuição espacial dos alunos da rede estadual que, assim como a municipalização, prescindia da separação.

Outras mudanças importantes também foram adotadas: extensão da carga horária do professores, fixação do número de alunos por classe105, instituição da

função de coordenador pedagógico e da Hora de Trabalho Pedagógico (HTP). Conforme documento da SEE:

No seu conjunto são medidas que visam a valorização do magistério e demais funcionários da escola, a correção da distorção série-idade, a diminuição da repetência e evasão escolar, a capacitação do professor e a instrumentalização da escola para melhor trabalhar com diferentes grupos de alunos, buscando a todos uma escolaridade básica de qualidade106.

Com esta primeira etapa da reforma atingia-se assim o principal objetivo: o enxugamento da rede oficial. Em todo o estado de São Paulo a reorganização fechou 864 escolas; 2.031 escolas deixaram de oferecer curso noturno, isto tudo apenas entre 1995 e 1999, momento do ajuste organizacional107. O número de

docentes da rede estadual teve pequena redução108. Arelaro, outra autora que

estudou as transformações na rede estadual, descreve da seguinte maneira:

Houve surpreendentemente redução do número de escolas estaduais, que por sua vez traduziram a denúncia que sistematicamente tem sido feita de que, ao lado da argumentação positiva da redução dos períodos de funcionamento, deu-se de forma concomitante expressivo aumento do número de alunos em cada sala de aula, em todos os períodos de funcionamento escolar, com significativa redução no número de professores.109

Os estudos de Adrião e Arelaro apontam o processo de municipalização do ensino, que se deu com a reorganização dos alunos por ciclo, facilitando a transferência dos alunos do ensino fundamental para os órgãos municipais.

105 30 a 35 alunos até 4ª série, 35 a 40 alunos de 5ª a 8ª série, 40 a 45 alunos no ensino médio.

106 SÃO PAULO (Estado). SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO, [1995], p.8. 107 ADRIÃO, 2006, p. 141.

108 Ibidem, p. 176.

109 ARELARO, L. R. A municipalização do ensino no estado de São Paulo: antecedentes, históricos e

tendências. In: OLIVEIRA, C. (Org.). Municipalização do ensino no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 1999, p. 87.

A reorganização produtiva das escolas foi a base da maior alteração das relações sociais que se viu nos espaços escolares no estado de São Paulo110. Na

época foi bastante questionado pelos pais em reação à mudança da escola dos filhos. Como denunciou o presidente da UDEMO111, Roberto Torres Leme:

Há a questão do entrosamento do aluno e do professor com a nova escola. Não se pensou que existe, por parte dos professores, dos familiares e dos alunos um apego ao prédio da escola, de alguma forma eles gostam da escola. Os alunos que receberam colegas de outra escola não os receberam bem, os novos companheiros de espaço lhes foram impostos, aqueles que foram deslocados para escolas sentiram-se traídos por terem que abandonar um local ao qual estavam ligados112.

O que se passou com professores, alunos, famílias, neste momento de reorganização das escolas, ainda precisa ser contado. A separação dos filhos, a impessoalidade na relação com os pais, realizada sob a racionalidade do Estado, precisa ser registrada, pois a expansão quantitativa do ensino público, mesmo em nome da expansão periférica, não pode ser a palavra final como única maneira de incluir os pobres ao sistema de ensino.