Resolvi tratar em separado o caso da EE Martim Francisco porque revela aspectos estruturais da metrópole de São Paulo e das políticas de refuncionalização das escolas e das suas áreas centrais. Mesmo envolvendo motivos distintos dos demais casos de fechamento da DECO, a ponta que apareceu neste caso permitiu compreender elementos importantes do todo, ou seja, dos nexos entre as políticas urbanas e as políticas educacionais.
Ele permite, aliás, discutir como determinados interesses se justificaram no esvaziamento das escolas de determinados lugares para incorporar o terreno valorizado desta escola da Vila Nova Conceição no circuito de valorização imobiliária e financeiro153. E, de outro lado, permite entender como os órgãos públicos, de
153 Colégios particulares também entraram na mira do mercado imobiliário, como foi divulgado no
Portal Meira Fernandes – Assessoria Contábil Ltda. Na Chácara Santo Antônio, área valorizada do distrito de Santo Amaro, está sendo construído um empreendimento de 26 andares, no local do tradicional Colégio Paralelo, com preço médio de R$ 600 mil por apartamento. “O que mostra [segundo a matéria] que a tendência de as escolas paulistas venderem terrenos ao mercado imobiliário está longe de arrefecer”. Foi também 9º caso do Colégio Batista Brasileiro, em Perdizes. O colégio criado em 1923 foi também vendido em 2006 a uma incorporadora. Segundo o vice presidente da Secovi (Sindicato da Habitação), Cláudio Bernardes, há uma escassez de terrenos enormes em São Paulo. E, em muitos casos, as escolas podem otimizar sua operação num espaço
diferentes maneiras, se apoiaram nesses interesses econômicos, aproveitando ensejo para adequá-lo à política de ajuste espacial dos serviços educacionais.
A polêmica em torno do fechamento começou no segundo semestre de 2004, quando a Prefeitura do Município de São Paulo, proprietária do terreno da escola, solicitou o imóvel (terrenos mais construções) à Secretaria de Estado da Educação do Governo do Estado de São Paulo. A devolução do terreno foi atendida pela Secretaria Estadual da Educação, que confirmou a suposta falta de demanda da unidade escolar.
A Prefeitura com a anuência da SEE encaminhou o Projeto de Lei à Câmara Municipal, aprovado entre novembro a dezembro de 2004. A Lei permitiu a permuta desse imóvel por outro localizado no Jaguaré, Zona Oeste do Município de São Paulo, imóvel este de propriedade da empresa Pan American Estádios Ltda., um fundo de investimento norte-americano, com sede nas Ilhas Cayman. A derrota na Câmara dos Vereadores não tirou a esperança, como relata a professora João Paulo Gianini Andrade Carneiro:
Nós íamos continuar a luta, ainda nesse mês de dezembro. Fizemos muitas atividades dentro da escola. A imprensa sempre nos apoiou, porque viram que era injusto o que estavam fazendo. Sempre noticiando, diariamente. Fomos notícia durante dois meses, todo dia saía a história do Martim Francisco154..
A aprovação da devolução do terreno, da extinção da escola e a redistribuição de seus alunos e funcionários provocaram forte reação e meses de mobilização da comunidade escolar e de disputas judiciais. Crianças e jovens moradores, em sua maioria das periferias da zona Sul e Oeste, protagonizaram um movimento contra o fechamento desta escola, liderado principalmente por alguns professores.
menor, utilizando o dinheiro da venda dos terrenos”. Disponível em: <http://www.meirafernandes.com.br/Meira/Noticia.do?method=preparaExibirNoticia¬iciaId=6385&r nd=662046256>. Acesso em 2009. (Anexo 2).
154 Entrevista de João Paulo Gianini Andrade Carneiro, um dos professores que esteve à frente das
3.3.1 A localização da EE Martim Francisco
A escola foi criada em 1938, sob a denominação Grupo Escolar de Vila Olímpia, localizada na Estrada de Santo Amaro, número 830, no Bairro da Vila Olímpia. Em 1947 muda-se a denominação da escola para Grupo Escola Martim Francisco, um pouco antes de se mudar para o endereço atual, na Vila Nova Conceição, numa quadra formada pelas ruas Domingos Fernandes, Domingos Leme, Brás Cardoso e Jacques Félix, distantes duas quadras da Avenida Santo Amaro. Portanto a escola tem uma trajetória de 72 anos, quase 63 anos no mesmo endereço e bairro atual.
De uma área de chácaras, quando o Grupo Escolar foi instalado, no final da década de 1940, a Vila Nova Conceição se transformou em um dos bairros mais luxuosos e em uma das frações mais caras do solo urbano de São Paulo. A EE Martim Francisco ocupa a maior parte de uma área de quase 10 mil m², um quarteirão inteiro. Atualmente atende um pouco mais de mil alunos. A outra parte do terreno é ocupada por um posto de saúde municipal, o Max Pearlman que, em 2004, quando todo o terreno foi requisitado, prestava cerca de 4 mil atendimentos por mês. Em 2004, ano em que a escola foi solicitada, tinha quase 1500 alunos. Segundo informação da própria Diretoria de Ensino Centro Oeste, os alunos neste ano vinham em grande parte de Mirandópolis, Indianópolis, Embu, além de bairros locais e de mais próximos, como Itaim Bibi, Vila Clementino e Jardim Paulista. Estudantes, filhos de moradores de baixa renda dos bairros próximos, de empregados dos prédios vizinhos e de funcionários do comércio local, que residem, na grande maioria, nas periferias da zona Sul e Oeste.
Ilustração 3 - Martim Francisco. Prédio no canto inferior direito
Fonte: Jornal da Tarde, São Paulo, Caderno A3, 01/12/2005
3.3.2 A devolução do terreno para a prefeitura
Em 27 de julho de 2004 a Prefeita Marta Suplicy, através do secretário do Gabinete Municipal, Ubiratan de Paula Santos, requisita a devolução do terreno ao Secretário de Estado da Educação de São Paulo, Gabriel Chalita. Na correspondência entre os dois órgãos públicos, de julho a agosto, a escola é tratada como se houvesse demanda reduzida:
Tendo em vista que parte da área foi cedida ao Governo do Estado e está ocupada pela EEPG Martim Francisco; e tendo em vista ainda que, conforme informações que possuímos, a demanda por matrículas na escola é reduzida, podendo ser adequada em outras unidades da região, venho consultar Vossa Excelência sobre a possibilidade da área utilizada pela escola ser devolvida à municipalidade com a maior brevidade155.
[...] considerando a pouca demanda atendida pela referida unidade escolar,
após consultarmos a Fundação para o Desenvolvimento da Educação, órgão responsável pelo cadastro dos Prédios da SEE, e a COGESP – Coordenadoria da Grande São Paulo, concluímos que os alunos poderão, a
155 PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO. Secretaria do Governo Municipal. Ofício N.
partir do ano letivo de 2005, serem atendidos por outras unidades escolares próximas156
Quando a notícia chegou à escola, de maneira informal, professores e a diretora da escola pediram informação junto à Diretoria de Ensino Centro Oeste, sobre “os boatos, pois está gerando pânico, insegurança entre os alunos, pais e professores”157. Segundo o Professor João Paulo Gianini Andrade Carneiro:
Aí a gente começa o movimento com esse grupo de professores revoltados pra saber o que estava acontecendo, eu fui ao cartório daquela região pra saber primeiro a quem pertencia aquela escola, começamos a fazer um estudo legal sobre o terreno.
No final do mesmo mês de setembro, supervisoras de ensino compareceram à escola para tranquilizar os integrantes do Martim Francisco. Afirmaram que a Diretoria de Ensino não tinha o terreno. Como se verá adiante parece improvável que os supervisores não soubessem nada sobre o pedido de devolução do terreno.
Mas as instâncias superiores estavam cientes que a COGESP, na direção de Artele Scotto, Coordenadora de Ensino, em 4 de agosto, informara ao Diretor Executivo da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), Tirone Francisco Chahad Lanix, como deveria ser feito o fechamento da escola e a remoção dos alunos da região.
Lembramos ainda que a cautela desta Coordenadoria deve-se, principalmente, aos seguintes fatores:
a) Trata-se de escola situada em região de nível sócio/econômico médio/alto;
b) A medida atingirá uma demanda escolar de médio/alto nível cultural, que poderá reagir duramente à situação, se imposta e de ímpeto; c) Características peculiares das escolas: preferenciais e tradicionais; d) O ano político, quando a imprensa busca matéria que instigue os
leitores/eleitores;
e) As adversidades político/partidárias poderão repercutir de forma negativa à administração.
Por oportuno, cabe-nos salientar que:
I. Os estudos com vistas ao remanejamento dos alunos da EE Martim Francisco para as escolas do entorno foram desenvolvidos em conjunto com a Diretoria de Ensino – Região Centro Oeste, à qual o setor está circunscrito;
156 GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Secretaria de Estado da Educação. Gabinete do
Secretário. Ofício G.S. 521/2004. São Paulo, 09 de agosto de 2004 (Anexo 4). Grifos nossos.
II. A acomodação final sobre a acomodação da demanda ficou a cargo da Diretoria de Ensino Regional.
Nos termos propostos, durante este semestre esta Coordenadoria envidará todos os esforços para que a liberação/disponibilização do imóvel ocorra de forma tranqüila e harmoniosa, sem trauma à comunidade local, que para 2005 terá assegurada vaga em escola pública diversa desta, porém na região158.
O teor do documento é revelador dos meandros do poder, das estratégias para desmontar possíveis reações. É também cuidadoso com os interesses partidários da administração, no momento eleitoral. Matéria do Jornal da Tarde chegou a expor os interesses eleitorais em jogo:
A secretaria de Estado da Educação esperou as eleições acabarem para dar uma triste notícia a 1492 alunos da Escola Estadual Martim Francisco: ela será desativada. A notícia foi mantida em segredo, pela secretaria e pela prefeitura, que pediu a área de volta no fim de julho. Professores, alunos e pais só foram oficialmente comunicados ontem sobre o fechamento do colégio, exatamente na última semana de aulas. Surpresos, eles prometem não ficar quietos159.
Com a confirmação dos acertos oficiais, a dirigente regional de ensino, Walquíria Cattani, foi ao Martim Francisco informar as decisões160. Cattani reuniu-se com a diretora da escola, Profª Lúcia Helena Anderson, com membros do Conselho de Escola, da Associação de Pais e Mestres e do Grêmio Estudantil. Na Ata da reunião ficou registrado que:
A Srª Dirigente, Profª Walquíria Cattani, explicou aos membros presentes que só recebeu oficialmente a solicitação de restituição do prédio, pelo município em novembro de 2004. Explicou ainda sobre ociosidade de determinadas unidades escolares da Diretoria de Ensino e sobre estudos que estão sendo desenvolvidos para melhor utilização dos próprios públicos. [porém] Em tempo, a escola possui demanda e não está ociosa161.
158 GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO.
Coordenadoria de Ensino da Região Metropolitana da Grande São Paulo. Ofício 34/04. São Paulo, 04 de agosto de 2004. (anexo 5).
159 GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO.
Coordenadoria de Ensino da Região Metropolitana da Grande São Paulo. Ofício 34/04. São Paulo, 04 de agosto de 2004.
160 SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO. Coordenadoria de Ensino da Região Metropolitana
da Grande São Paulo. Diretoria de Ensino Centro-Oeste. Processo n.3074/0001/2004. Assunto:
Terreno de propriedade do Município de São Paulo; interessado: EE Martim Francisco. Informação.
São Paulo, 29 de novembro de 2004.
161 Grifo nosso. SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO. Coordenadoria de Ensino da Região
Metropolitana da Grande São Paulo. Diretoria de Ensino Centro-Oeste. EE Martim Francisco. Ata de
A dirigente afirma que só em novembro tomou conhecimento do caso, apesar de sua superior, Artele Scotto, em documento datado de 04 de agosto de 2004, ter dito que os estudos e o remanejamento foram feitos em conjunto com a Diretoria de Ensino Centro Oeste. Porém, a dirigente regional fornece duas informações importantes: o reconhecimento de que a escola possuía demanda e não estava ociosa, contrário do que havia informado o secretário da educação Gabriel Chalita.
Os fatos permitem supor que o esvaziamento estava previsto sem o pleno conhecimento daqueles que seriam mais afetados pelos acertos entre os órgãos públicos municipais e estaduais. É o que deixa transparecer o texto da COGESP que subsidia a resposta do secretário da educação à prefeitura, a qual, ao que tudo indica, projetava a remoção dos alunos da EE Martim Francisco para outras escolas da Região:
Concluindo o trabalho, esta Coordenadoria entende prudente a manutenção do funcionamento normal das escolas durante mais este ano letivo, podendo a reorganização do setor ser concretizada no próximo exercício, qual seja, 2005.
Nesse ínterim, se conveniente, poderão ser adiantadas/antecipadas as tratativas de ordem burocrático/administrativa, com vistas a viabilização/regulamentação do pretendido.162
Esta hipótese também pode ser confirmada na resposta ao requerimento de informação pedido pelo Deputado Estadual Roberto Felício sobre o fechamento de várias escolas, previsto para 2005. No documento aparece uma queda prevista de 400 alunos, nos dados fornecidos pela Diretoria Ensino Centro Oeste, algo que não condiz com a situação da escola, com matrículas e demanda bem altas para sua capacidade. Diz o documento:
Walquíria pega o documento do Chalita, o qual pedimos pra ela ler, e lá no finalzinho desse documento vem a informação de que ‘como não há demanda na referida unidade escolar pode transferir o pessoal dali’. E na hora que ela leu isso, o pessoal da reunião gritava, como não havia demanda... e tal, e ela despreparada pra situação, nessa fragilidade deixou passa essa informação e esse documento. E ficou claro observando os documentos que a intenção de fechar a escola era muito anterior a setembro, então ela certamente saberia, como Dirigente”.
162 GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO.
Coordenadoria de Ensino da Região Metropolitana da Grande São Paulo. Ofício 34/04. São Paulo, 04 de agosto de 2004.
EE Martim Francisco embora apresente demanda trata-se de próprio Municipal, do qual foi feita solicitação para restituição a Prefeitura do Município de São Paulo. Do mesmo modo os alunos encaminhados para as escolas do entorno ou de sua opção.
EE Martim Francisco
Ano 2000 2001 2002 2003 2004 Previsão 2005
Total de alunos
1419 1173 1506 1467 1492 1089
Os alunos em sua maioria são oriundos do Jardim Paulista, Vila Clementino, Mirandópolis, Indianópolis, Embu e Itaim - Bibi163.
Diante de informações contraditórias, a dirigente regional procurou tranquilizar professores e funcionários, oferecendo alternativas de remoção para outros estabelecimentos de ensino. Na mesma reunião, a Ata registra a indignação dos sujeitos da escola.
A Comunidade ‘Martim Francisco’ está indignada pelo que estão fazendo com escola, pela falta de respeito e desconsideração com todos; questionam o fato de o Estado esconder o fato e só se pronunciar após as eleições. Cobram dos políticos a priorização da educação; há também um questionamento de estarem boicotando as matrículas164.
Inicia-se a partir daí o movimento para defender a escola. Surgiu uma forte comoção pela manutenção da escola, que atraiu o apoio de ex-alunos e moradores do bairro. A pressão conseguiu a presença de Gabriel Chalita, um dia depois de a dirigente oficialmente comunicar o fechamento da escola.
O secretário foi recebido por uma quantidade expressiva de alunos, professores, funcionários; prometeu avaliar a possibilidade de a escola permanecer no local. Mas reafirmou que, diante do pedido da Prefeitura, proprietária do terreno, seria difícil impedir a solicitação, novamente insistiu para que a comunidade aceitasse a redistribuição em outras unidades da região.
163 SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO. Coordenadoria de Ensino da Região Metropolitana
da Grande São Paulo. Diretoria de Ensino Centro-Oeste. Requerimento de Informação n. 416/204. 4. São Paulo, 13 de dezembro de 2004.
164 SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO. Coordenadoria de Ensino da Região Metropolitana
da Grande São Paulo. Diretoria de Ensino Centro-Oeste. EE Martim Francisco. Ata de Reunião da EE
No dia seguinte, pais de alunos da escola foram ao Ministério Público solicitar apoio e investigação do caso. Fizeram manifestação no bairro e pararam por algum tempo a Avenida Santo Amaro, na altura da escola165. Neste mesmo dia outras escolas protestavam contra o anúncio de fechamento delas. Imagem da manifestação.
Ilustração 4 - Manifestação contra o Fechamento da EE Martim Francisco
Fonte: “Pais tentam salvar escolas que o governo estadual decidiu fechar."
Diário de São Paulo. São Paulo, p. A3, 4 de dezembro de 2004.
A promessa do secretário trouxe esperança para escola. Porém, dias depois do mesmo mês, a dirigente regional, Walquíria Cattani, vai à escola confirmar a necessidade da devolução à prefeitura. Cattani, neste dia, revela à comunidade que havia outros interesses em torno da escola, envolvendo uma permuta entre a prefeitura e uma empresa.
165 “Pais tentam salvar escolas que o governo estadual decidiu fechar.” Diário de São Paulo. São
3.3.3 O projeto de permuta do terreno
Diante dessa nova informação, os professores foram à procura das instâncias municipais. Eles procuraram, inicialmente, a comissão de ensino da Câmara dos Vereadores. Foi nesta reunião que, pela primeira vez, tomaram conhecimento do Projeto de Lei (PL) n.° 515/2004, que permutava o terreno da escola por outro. No Ofício da Prefeita Marta Suplicy, direcionado ao Presidente da Câmara Municipal Arselino Tatto, dizia-se que o terreno da escola foi:
[...] parcialmente cedida ao Governo do Estado de São Paulo, que nele implantou equipamento escolar. Todavia, considerando a pequena demanda atendida pela unidade escolar, seus alunos serão encaminhados para outras unidades próximas e o imóvel devolvido à Prefeitura no início de 2005, conforme informação prestada pela secretaria de Estado de Educação166.
O movimento contra a devolução da escola conseguiu apoio de alguns vereadores, especialmente de Carlos Gianazzi, Eliseu Gabriel, Tita Dias, Carlos Neder, Cláudio Fonseca, conseguindo com isto adiar a votação.
3.3.4 O terreno da Pan American Estádios Ltda.
A Prefeitura justifica a permuta como parte do projeto de moradia e de serviços sociais para a população de baixa renda em torno da área. A aprovação da medida possibilitaria a construção da sede da Subprefeitura do Butantã e respectivas Coordenadorias167. À primeira vista, os projetos sociais e administrativos (já que parte seria utilizada para a subprefeitura do Butantã) pareciam relevantes. Na região, existem muitas favelas e moradias populares que poderiam se beneficiar do programa habitacional e da área de parque.
Além do que se trocava uma propriedade municipal de 9.000,00 m² por uma propriedade de extensão significativamente maior, que totalizava 450.505,00 m².
166 PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. GABINETE DA PREFEITURA. Ofício n° 648/04,
Processo n° 2004-0.271.913-8. São Paulo, 19 de novembro de 2004.
Sendo que, com base nos cálculos dos valores dos terrenos em negociação, realizados pelo Patrimônio Municipal, dava uma vantagem de 4.577.914,00 milhões de reais para a prefeitura. Elementos que se somavam para apressar a votação na Câmara e o negócio com a empresa. Conforme o art. 2 do PL:
Fica o Executivo autorizado a permutar a área municipal referida no artigo 1 desta lei, avaliada em novembro de 2004 em R$ 32.156.891,00 (trinta e dois milhões, cento e cinqüenta e seis mil e noventa e um reais), por imóveis de propriedade particular pertencentes a Pan American Estádios Ltda., correspondente às áreas descritas nas matrículas n° 57.147, com 40.428,00 m² (quarenta mil e quatrocentos e vinte e oito metros quadrados), e n° 156.984.984, com 410.077,00 m² (quatrocentos e dez mil e setenta e sete metros quadrados), ambas do 18° C.R.I., avaliadas em novembro de 2004, respectivamente, em R$ 3.803.062,00 (três milhões, oitocentos e três mil e sessenta e dois reais) 32.931.743,00 (trinta e dois milhões, novecentos e trinta e um mil e setecentos e quarenta e três reais)168.
Parte do terreno, área de 60.000,00 m², permaneceria sob uso da PIA Sociedade de São Paulo, em contrato de comodato, por 99 anos, não podendo a prefeitura requerer a área antes deste prazo, ficando, portanto, excluído o valor desta área na permuta. Nesta área estavam instalados convento, capela, gráfica e casa de formação religiosa169.
O terreno no momento da permuta pertencia à empresa Pan American Estádios Ltda., criada para realizar as negociações em torno da compra e da construção do Estádio do Corinthians no mesmo local, em 2000. O plano de construção do estádio não foi adiante pelo desentendimento entre as empresas parceiras no negócio.
Até o ano de 2002 o terreno pertenceu à Congregação Religiosas Pias Discípulas do Divino Mestre. Neste ano foi vendido à Pan American Estádios Ltda. por R$ 25.914.783,00170. Momento em que se firmou também a doação da área de 60 mil m² em regime de comodato até o ano de 2101 à instituição religiosa. Em 2004 entrou na troca pelo terreno da prefeitura na Vila Nova Conceição pelo valor de R$ 36.734.805,00, valorizando mais de 10 milhões em apenas 2 anos.
168 PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. GABINETE DA PREFEITURA. Ofício n° 648/04,
Processo n° 2004-0.271.913-8. São Paulo, 19 de novembro de 2004. Para saber mais consultar