BÖLÜM 5. TARTIŞMA
5.2 Kümeler
Deixar um espaço para tratarmos esse aspecto com mais profundidade foi importante devido ao significado de sua dimensão atual, em que se busca o foco do direito de todos à inclusão escolar.
A Escola Plural se fundamenta na garantia do direito à educação pública para todos os cidadãos, tendo como principio fundamental a construção de uma escola inclusiva, que acolhe, respeita e legitima, a diversidade como constitutiva do processo de formação. (SMED/PBH, 2000, p.24).
A escola JT, enquanto escola pública, tem um discurso de acolhimento das diferenças. Alguns projetos valorizam as diversas culturas que demarcam o espaço institucional. Esses projetos situam-se, principalmente, no terreno das artes em que o teatro, as danças e as percussões estão presentes. Há um grande orgulho quando a escola aparece nos jornais com destaque através de algum evento ou atuação dos alunos nos esportes.
Dois jovens da escola pesquisada ganharam medalhas fora do Brasil, sendo um trabalho realizado pelo professor de Educação Física.
Contudo, para alguns alunos que estão longe dessa possibilidade as manifestações no dia da homenagem foram de desacato aos professores e ao diretor da escola. Enquanto anunciavam ao microfone esses destaques, em que eram enfatizados o desempenho desses alunos e a atuação do professor, outros alunos gritavam três apelidos: Baleia, Peruqueiro e Bicha.
Ao conversar informalmente com a professora Cássia após esse evento ficamos sabendo que os apelidos são direcionados a três professores. Ela informa que o mais triste é
que a escola vem se silenciando diante da falta de limites dos alunos, fingindo não perceber a real dimensão do problema.
A professora Cássia fez uma observação sobre esse momento solene dizendo que o que ficou em destaque foi uma escola dividida e marcada pela falta de respeito ao outro.
Em outra observação presenciamos a professora Débora53 defender que a escola, para acolher os alunos, devia trabalhar a História da África fazendo uma aproximação e valorização da raça que predomina no país, e, portanto, nessa escola nesse momento.
Ela afirmava que a escola devia ter o papel de provocar os alunos a lutarem para que as cotas nas Universidades Públicas sejam realmente implementadas para que, de uma maneira ainda superficial, o País possa pagar um pouquinho da grande divida que tem com a população negra e pobre.
Enquanto ela falava percebemos descrédito para com esse tema pelos olhares e posturas de alguns professores.
Mais ao final do ano ficamos perplexas ao presenciarmos o desabafo da professora Débora em um Conselho de Classe. Ela pediu um tempo na reunião para colocar fatos que a vinham magoando há muito. Débora disse que tem uma consciência sensível e que sempre teve a postura de defender a valorização da raça negra e que naquela semana se viu agredida por seu colega - um professor que tem muitos anos de trabalho na escola pesquisada e que já ocupou vários cargos inclusive de diretor.
Ela relatou que estava articulando um projeto interdisciplinar que contemplasse a História da África e que esse professor começou a criticar sua participação dizendo que ela só tinha essa postura porque era casada com um negro e que talvez estivesse querendo algum beneficio próprio para o esposo, quem sabe uma vaga na universidade.
Débora disse que o marido é formado em curso superior e que não precisou de cotas para isso, mas que reconhece a importância de retribuir de alguma forma o direito que foi negado às pessoas negras no País.
O colega não interrompeu suas agressões e disse que isso que ela estava falando era porque ela era petista. E que ficava a favor daquele aleijadinho (Lula, o presidente da República)
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Débora disse que não conseguiu continuar a discussão, pois estava muito ofendida. Ela também afirmou que não é filiada a nenhum partido, mas que para alguns professores dessa escola, aqueles que defendem os direitos são xingados de PT, pois, ser petista agora é xingamento.
O que ela desejava é colocar os outros professores cientes do que está acontecendo, pois se este professor discrimina uma colega, imagine o que não deve fazer com os seus alunos. Inclusive afirmou que alguns alunos já reclamaram com ela o comportamento desse professor para com eles –chamando-os de macacos. E que ela irá incentivá-los a denunciá- lo. Quanto a referir ao presidente como o aleijadinho, ela considerou isso um absurdo.
Depois de todo esse desabafo de Débora os professores ficaram em silêncio e se entreolharam e percebemos que nossa presença era incômoda. Débora voltou a falar conclamando os colegas a criar um grupo para defender essas posições de defesa dos direitos humanos na escola. A coordenadora Júlia disse que naquele momento não seria oportuno, que deveriam discutir esse assunto numa reunião geral.
Ao sairmos da escola nesse dia uma outra professora, Margarida nos procurou e disse ter presenciado a discussão da professora Débora e de seu colega e que quando esse professor se referiu ao presidente da República como aquele aleijadinho, ela ficou sem lugar, pois carrega desde do nascimento o atrofiamento do braço e da mão. E terminou dizendo: “será que ele não percebe o quanto nos ofendeu, pois se o presidente é aleijadinho, e eu então?”
As relações postas no convívio diário da escola encobrem discriminações fortes que vão silenciando e excluindo aqueles que não são acolhidos. Ficamos pensando que o discurso da seleção ainda é fato marcante nessa escola e que é sustentado, fundamentalmente, por parte de alguns professores que tem uma concepção preconceituosa e discriminatória da educação.
Diante dessas posições levantamos vários questionamentos sobre as relações dos profissionais dessa escola e também voltamos a questionar como o currículo está sendo desenvolvido, considerando que ele é perpassado pelas relações no interior da escola. Assim, podemos afirmar que na Escola JT o silenciamento está posto para alguns alunos e professores, reforçando uma concepção da escola para poucos.
No que diz respeito ao tratamento dado às diferenças étnicas, o número de projetos é bem menor. Somente quatro projetos trabalham essa temática. O projeto Sexualidade e Drogas tinha como um de seus objetivos o conhecimento e valorização das diferentes culturas e grupos sociais. O projeto Semente (1999/2003) estabeleceu como um dos seus objetivos a reflexão sobre a diversidade cultural. O Projeto Cidadania (2003) elegeu como missão o aprimoramento da formação cidadã, o desenvolvimento da visão crítica do aluno e a valorização dos ideais democráticos e convivência pacífica. (DOCUMENTO DA ESCOLA, 2006, p.10).
Assim, a instituição pesquisada, em relação ao ciclo da juventude, não apresenta um projeto específico capaz de contemplar os excluídos de nossa sociedade que se encontram na escola.
Ao permitir o silenciamento de determinados temas no currículo faz com que a inclusão dos que tiveram acesso à escola pela democratização do ensino seja limitada, pois esses alunos sofrem discriminações diversas, são inferiorizados por não se sentirem reconhecidos e acolhidos nos conteúdos estudados e nas relações que se estabelecem no interior da escola - excluídos, portanto, da aprendizagem. Essa situação tornou-se incômoda para muitos professores.
Em uma reunião das turmas do terceiro ano do ensino médio presenciamos a professora Cássia falar que o principal problema da escola é a inclusão e que ela não se sente preparada para trabalhar diante dessa realidade.
A professora colocou a sua angústia de não poder sentir os resultados de seu trabalho. Disse que tem tentado diferentes abordagens para chegar ao aluno mas para a grande maioria deles os conteúdos não são significativos e as aulas desinteressantes. Comenta que esse desinteresse dos alunos a perturba e que se sente angustiada. A problematização da inclusão colocada por essa professora reafirmou a dificuldade da ação docente frente ao novo público após o fim da seleção.
Quanto à inclusão de portadores de necessidades especiais a escola tem em seu corpo discente. no turno da manhã. um aluno cego cursando o terceiro ano de ensino médio54.
É importante ressaltar que com a Constituição Brasileira de 1988 ficou assegurado o direito e a não discriminação desses alunos nas escolas, que não tinham um trabalho
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Apesar do Projeto Escola Plural referir-se à terceira etapa como Ciclo da Juventude, vamos utilizar a denominação usual na Escola.
específico com eles. Assim a escola JT, nesses dez anos, teve o respaldo da Escola Estadual São Rafael para atender os alunos cegos, até o primeiro semestre de 2003, já:
A partir do 2º semestre esse serviço tornou-se responsabilidade do Centro de Apoio Pedagógico à pessoa Com Deficiência Visual de Belo Horizonte, CAP-BH. A sala de recursos da Regional Centro-Sul de 1997 a 2003, através do atendimento nuclear e itinerante, ofereceu suporte pedagógico complementar e adequado a necessidades específicas apresentadas pelos alunos com deficiência, com ênfase no atendimento ao aluno cego. A partir de 2004, o atendimento aos alunos com deficiência passa a ser feito pela Equipe de Apoio à Inclusão da Regional Centro-Sul. É importante ressaltar que esses alunos sempre contaram com a solidariedade dos colegas de turma. (DOCUMENTO DA ESCOLA, 2006, p.10).
Tivemos a oportunidade de termos sidos solicitados para aplicarmos uma prova para esse aluno e constatarmos suas dificuldades já que não veio uma prova especifica para ele em Braille, mas a mesma prova feita para seus colegas que possuem a visão.
Procuramos fazer a leitura de cada questão da prova de forma mais clara pois trazia todos os conteúdos da série citada.
A organização do teste apresentava muitas questões com gráficos e tabelas, o que seria impossível para ele ter acesso devido ao problema da visão. Nas outras questões, após a leitura ele permanecia um longo tempo em silêncio e depois pedia que repetisse apenas uma letra e falava que era para marcar a letra tal.
Ao nosso ver as resoluções das questões foram arbitrárias, devido ao não entendimento das mesmas. Fato esse comprovado posteriormente quando, na sala da coordenação, observamos o atendimento aos alunos com problema de aproveitamento. Entre os vários alunos atendidos estava também o aluno cego incluído pela escola.
Ficamos questionando como seria possível esse aluno ter um desempenho diferente diante de uma organização escolar que não se altera para atender as suas especificidades? Informamos que geralmente as provas são encaminhadas com antecedência para a PBH e que são transcritas para o braile para que o aluno possa resolvê-la e novamente retornam para esse órgão municipal para que a refaça baseada na leitura convencional e a escola possa corrigir, portanto, um processo demorado.
Quanto à solidariedade dos colegas expressa na afirmação da escola certificamos sua veracidade pois um grupo de alunos era solícito com o aluno cego, em todos os
momentos, inclusive até no baixo rendimento escolar. O baixo rendimento dos alunos dessa turma era fato generalizado.
Esses fatos nos levaram a questionar se, realmente, a escola está promovendo a inclusão, conforme afirma em seus documentos. Como os professores se sentem diante desse quadro em que não conseguem um real envolvimento dos alunos com o estudo?
Em conversas informais com a professora de biologia ela relatou que fazia o possível para inserir o aluno na atividade. Assim, dava para ele uma luva para que pudesse manipular os animais e objetos do laboratório. Contudo, tinha certeza da grande limitação que se colocava entre ele e o conhecimento que era trabalhado na sala de aula.
Já a professora de matemática ressaltou mais uma vez a cooperação dos colegas garantindo a esse aluno cego uma socialização intensa.
Entretanto, dois pontos eram extremamente problemáticos. O primeiro relativo à aprendizagem desse aluno que, por dificuldade de acesso ao material escrito em braile, dependia quase que exclusivamente da fala da professora. Em alguns momentos ela disse que até se esquecia dele e de sua limitação. E afirmou ser muito difícil atendê-lo em suas especificidades.
O outro ponto é que sua maquininha de escrever em braile provoca um barulho forte e constante sendo motivo de reclamação dos colegas, causando um cansaço maior ao dar aula nessa sala.
As tentativas dos professores de atender as singularidades da inclusão causam um desgaste muito maior na ação da prática pedagógica sem, no entanto, representar um ganho de aprendizagem do aluno.
Assim, permanece a nossa pergunta: que inclusão está sendo realizada ?