YEREL YÖNETİM MEDYA
5. KÜMELENME YAPILANMALARI ĠLE ORGANĠZE SANAYĠ BÖLGELERĠ (OSB), KÜÇÜK SANAYĠ SĠTELERĠ (KSS), TARIMA
5.1 Kümelenme OluĢumları ve Organize Sanayi Bölgeleri (OSB)
A existência de pessoas em situação de rua não é um fenômeno recente e nem restrito ao Brasil ou às sociedades capitalistas modernas. Stoffels (1977) descreve a presença de mendigos e indigentes já na Grécia antiga, fruto de expropriações de terras comunitárias e movimentação de indivíduos para cidades em formação. A autora destaca, também, a “profissionalização” da mendicância estabelecida nos “pátios dos milagres” na Idade Média e a repressão à difusão de atividades ligadas à vagabundagem na Era Industrial.
Estudos do canadense Jim Ward (apud VIEIRA et al., 2004) calculam a presença de cem milhões de homeless no mundo, sendo que vinte milhões vivem na América Latina. No Brasil, não existem dados precisos sobre o número de pessoas que vivem nas ruas, tendo em vista a ausência de pesquisas mais abrangentes em nível nacional. Além da omissão política, a dificuldade da pesquisa se justifica, em parte, pela complexidade em abordar uma população caracterizada como “flutuante, temporária e nômade” (ARAÚJO, 2003, p 89)65.
Apesar das limitações, verifica-se o desenvolvimento de estudos realizados por estados ou municípios isolados, universidades, organizações da sociedade civil. Os trabalhos realizados por órgãos públicos e organizações não governamentais constituem-se por levantamentos e estimativas populacionais e por descrições de profissionais que trabalham com a população de rua e têm, como objetivo, traçar um perfil e definir ações políticas para essa população.
Destacam-se o I Seminário de População de Rua, realizado em 1992, que reuniu profissionais que trabalhavam com a população moradora de rua em diferentes municípios; os trabalhos realizados em centros urbanos como São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre; e a Pesquisa Nacional sobre a População de Rua66, realizada em 2007 e 2008 em 71 municípios.
65 O próprio conceito do que seja população em situação de rua é ainda vago, o que pode ser apontado como
outra dificuldade nas pesquisas. Segundo Ferreira (2006), os dados obtidos nos trabalhos feitos em diferentes cidades não são comparáveis entre si, dada a diversidade de contextos, objetivos e definições utilizadas. Escorel (2003, p. 153) também aponta essa dificuldade ao dizer que “responder quem são e quantas são as pessoas que habitam os logradouros públicos da cidade depende de qual é a definição de população de rua”.
2.2.2 Definição
A adoção de diferentes conceitos para a população moradora de rua aparece além das fronteiras nacionais. A Organização das Nações Unidas (ONU) entende que os homeless são todos os que vivem nas ruas ou em habitações que não atendem às necessidades e aos padrões mínimos de habitabilidade. Nessa classificação, portanto, estariam incluídos os moradores de favelas, cortiços e demais habitações sem condições mínimas de salubridade.
Dias (1999) apresenta diferentes definições para o reconhecimento dessa população em cidades americanas e inglesas. A autora cita o trabalho de Rossi (apud DIAS, p. 1999), que faz uma distinção entre dois grupos, para abordar a definição dessa população: um grupo, conhecido literal homeless, composto por pessoas que não têm acesso regular à moradia convencional, dormem nas ruas e em albergues públicos. O outro grupo compõe-se dos que estão precariamente acomodados, necessitando mudar de moradia constantemente ou estão internados em instituições hospitalares, sem residência após a alta. Fisher (apud DIAS, 1994) baseia-se em uma definição de sem-teto derivada da lei inglesa denominada "Housing Act"67, de 1985. A definição de sem-teto inclui tanto as pessoas que não têm onde morar,
quanto as que moram em um local impróprio para ser habitado, ou ainda aquelas que estão em albergues noturnos ou em acomodações de emergência, por não poderem viver em suas casas devido à falta de segurança ou violência. No estudo de Link (apud DIAS, 1994), a definição de sem-teto inclui aqueles que dormem em parques, prédios abandonados, estações de ônibus e trens, em albergues ou em outras residências temporárias, ou, ainda, em casas de amigos e parentes.
Snow e Anderson (1998, p. 102) distinguem três categorias de moradores de rua no contexto americano da década de 1920. A distinção toma como referência a mobilidade e trabalho: “o andarilho era um trabalhador migrante, o vagabundo um não trabalhador migrante e o mendigo um não trabalhador não migrante”. 68
67
A Homeless Act visa garantir acomodações e renda mínima para aqueles que estão em situação de
homelessness: desempregados, oriundos da violência doméstica, refugiados políticos, entre outros.
68 Os autores ainda subdividem os andarilhos em andarilhos tradicionais, “herdeiros do estilo de vida dos
antigos andarilhos,que se baseia num ciclo de trabalho, bebida e migração” e andarilhos hippies ,“herdeiros da contracultura da década de 60”; em mendigos tradicionais, “que mais se aproximam da imagem tradicional do alcoólatra da zona marginal e que raramente se envolvem em trabalho remunerado [...] não tanto porque são preguiçosos, mas porque se tornaram indiferentes ou porque estão fisicamente debilitados devido a anos de vida dura e muita bebida” e em mendigos redneck, que se assemelham aos mendigos tradicionais em sua relativa imobilidade e no uso pesado de álcool, mas deles se diferenciam em aspectos como a forma de subsistência baseada em comércio e esmolas, tendência em andarem em grupos, serem briguentos e pouco sociáveis em relação a outros grupos. A última categoria inclui os doentes mentais, “que dão alguma indicação de estarem severamente prejudicados do ponto de vista psiquiátrico” (SNOW e ANDERSON, 1998, p.104-120).
Nas produções nacionais, encontram-se classificações diversas como mendigo, andarilho, vagabundo, trecheiro, indigente, morador de rua, pedinte, sofredor de rua, sem-teto e outras. Tais classificações se devem, em parte, à diversidade de tipos e situações de viver na rua69.
Nos anos 1970 e 1980, a população que vivia nas ruas era reconhecida como “mendigo” ou “pedinte”. Justo (2005) faz uma distinção entre esses dois termos. Enquanto o primeiro se refere àquele que não trabalha, apresenta-se sujo e maltrapilho e sobrevive nas ruas sem certos atributos sociais, tais como família e casa, o segundo possui família e casa, mas depende da ajuda de terceiros para sobreviver.
Estudos produzidos no início da década de 1990 empregam outros termos para se referir a essa população. Simões Júnior (1992, p. 15) utiliza o termo moradores de rua para se referir “àquele segmento da população de baixíssima renda e em idade adulta que, por uma contingência temporária ou de forma permanente, estão habitando nos logradouros públicos da cidade (praças, calçadas, marquises, jardins, baixios de viadutos), em áreas degradadas (galpões e residências abandonadas, edificações em ruínas, terrenos baldios, mocós70, tumbas de cemitérios, carcaças de veículos, etc.) ou, ainda, eventualmente, pernoitando em albergues públicos ou em “camas quentes”71 alugadas. Segundo o autor (1992, p.18), essa população é composta pelo “mendigo profissional”, por andarilhos, alcoólatras, deficientes físicos e mentais e também por aqueles que são vítimas do desemprego.
Em 2004, a partir de um debate promovido pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS) sobre a formulação de políticas públicas voltadas para a população em situação de rua, representantes da Igreja, de entidades não governamentais e de vários municípios72 chegaram a uma definição para a população em situação de rua que será adotada nesta pesquisa:
Grupo populacional heterogêneo constituído por pessoas que possuem em comum a garantia da sobrevivência por meio de atividades produtivas desenvolvidas nas ruas, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a não referência de moradia regular (FERREIRA, 2006).73
69 O termo “trecheiro”, por exemplo, é usado para se referir àquele que anda nas ruas ou estradas, de uma cidade
para outra, ou mesmo de um país para outro, sem se fixar em nenhum lugar.
70
Entende-se mocó como “barraco, abrigo simples, casa, esconderijo, barraco debaixo do viaduto”, (ROSA, 1995, p. 240)
71 “Camas-quentes são aquelas em que há grande rotatividade de usuários, ou seja, na mesma cama dormem
pessoas diferentes, em períodos consecutivos”. (BOARETTO, 2005, p. 18)
72 Entre eles, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Recife.
73 Definição elaborada, em 2004, durante um debate promovido pelo Ministério do Desenvolvimento Social e