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YEREL YÖNETİM MEDYA

4.7 Endüstriyel Kümelenmelerde Teknoparkların Rolü

Durante muito tempo a leitura foi compreendida como a decifração da escrita. Dessa forma, ler é visto como a operação por meio da qual o leitor capta o significante pela escrita e entende o significado do texto. Entretanto, concepções mais contemporâneas definem a leitura como algo que vai além da decifração. Nesse sentido:

Todos sabem que há diferença entre ver e olhar, ouvir e escutar...Ler não é apenas passar os olhos por algo escrito, não é fazer a versão oral de um escrito. Quem ousaria dizer que sabe ler latim só porque é capaz de pronunciar frases escritas naquela língua?

Ler significa ser questionado pelo mundo e por si mesmo, significa que certas respostas podem ser encontradas na escrita, significa poder ter acesso a essa escrita, significa construir uma resposta que integra parte das novas informações ao que já se é. (FOUCAMBERT, p. 1994, p.5)

Em consonância com Foucambert, Lajolo (1988) entende que ler não é meramente decifrar, mas atribuir sentido: “é, a partir de um texto, ser capaz de atribuir-lhe significação, conseguir relacioná-lo a todos os outros textos significativos para cada um, reconhecer nele o tipo de leitura que seu autor pretendia e, dono da própria vontade, entregar-se a essa leitura, ou rebelar-se contra ela, propondo outra não prevista (LAJOLO, 1988, p.59). Certeau (apud WALTY, 1995, p. 25) também considera a independência e poder do leitor na atribuição do significado ao texto:

Quer se trate de um jornal ou de Proust, o texto não tem significação a não ser através de seus leitores; ele muda com eles, ordenando-se graças a códigos de percepção que lhe escapam. Ele só se torna texto através de sua

61 Amossy (2005) apresenta a definição de face de Goffman e de Kerbrat-Orecchione. Goffman define face

como “o valor social positivo que dado indivíduo efetivamente reivindica por meio da linha de ação que os outros supõem que ele adotou durante um contato particular” [...] Kerbrart-Orecchioni redefine sucintamente a noção goffmaniana de face como “o conjunto das imagens valorizantes que, durante a interação, tentamos construir de nós mesmos e impor aos outros” (AMOSSY, 2005, p.13).

relação com a exterioridade do leitor, por um jogo de implicações e de ardis entre duas expectativas combinadas: aquela que organiza um espaço legível (uma literalidade) e aquela que organiza uma diligência, necessária à efetuação da obra (uma leitura). (CERTEAU apud WALTY, 1995, p. 25)

Estudando a etimologia da palavra ler, do latim legere, Walty (1995, p.24) afirma que, em sua raiz, essa palavra traduz pelo menos três níveis de leitura. Em uma primeira instância, que correspondente aos primeiros passos na leitura, ler significa contar ou

enumerar as letras. Em outro momento, significa colher, ou seja, perceber o sentido que o autor quis dar ao texto: “o leitor colheria o sentido do texto como se colhe uma laranja no pé [...] o leitor não tem poder algum, a não ser o de traduzir o sentido que estaria impresso no texto”. No terceiro nível, ler significa roubar, o que dá um sentido de clandestinidade: “o autor vai buscar no texto outros sentidos, construindo-os com sinais que aí estão, mesmo que o autor não tivesse consciência deles.”.

A leitura, então, implica não somente um processo de decifração de códigos estáveis e de construção de sentidos sempre idênticos a si mesmos, mas engloba a constituição de sentidos outros, que não são os mesmos pensados pelo autor da obra. No ato da leitura, portanto, o leitor constitui os sentidos:

Ler é dar um sentido de conjunto, uma globalização e uma articulação aos sentidos produzidos pelas seqüências. Não é encontrar o sentido desejado pelo autor, o que implicaria que o prazer do texto se originasse na coincidência entre o sentido desejado e o sentido percebido, em um tipo de acordo cultural, como algumas vezes se pretendeu, em uma ótica na qual o positivismo e o elitismo não escaparão a ninguém. Ler é, portanto, constituir, e não reconstituir um sentido. A leitura é uma revelação pontual de uma polissemia do texto literário. (GOULEMOT, 2009, p.108)

Soares destaca o processo interativo da leitura e da escrita:

Leitura não é esse ato solitário; é interação verbal entre indivíduos, e indivíduos socialmente determinados: o leitor, seu universo, seu lugar na estrutura social, suas relações com o mundo e com os outros; o autor, seu universo, seu lugar na estrutura social, suas relações com o mundo e os outros. (SOARES, 2000, p. 18)

Na mesma direção, Marscuschi (1995, p. 56) entende que a produção de sentido é sempre uma atividade de coautoria, ou seja, os sentidos são parcialmente produzidos pelo autor e parcialmente completados pelo leitor. O linguista, entretanto, pondera dizendo que compreender não é uma atividade de precisão, mas também não é uma atividade imprecisa de

pura adivinhação. A compreensão é, essencialmente, uma atividade dialógica, que se efetiva na relação com o outro. É uma via de mão-dupla.

Segundo Smith (1989, p. 21), na leitura há intercâmbio entre informação visual, aquela que é captada pelos olhos e que “desaparece quando as luzes se apagam”, e

informação não visual, que se refere aos conhecimentos prévios, ou seja, ao conhecimento que o leitor traz para o texto, dos quais já era detentor antes de lê-lo. Para ele, quanto mais informação não visual o leitor tiver, menos informação visual necessitará. O autor entende que uma situação de leitura fluente exige certos comportamentos do leitor:

Os leitores experientes (quando estão lendo fluentemente) (...) utilizam a informação não-visual, a fim de compreenderem, (...) assumem controle do texto através das 4 características da leitura significativa - sua leitura é objetiva, seletiva, antecipatória e baseada na compreensão. Os leitores inexperientes, (...) dependem mais das palavras reais no texto quando leem, porque estão exercendo menor controle sobre sua leitura, são mais dominados pelo texto, falta-lhes o objetivo, seletividade, antecipação apropriada e compreensão. (SMITH, 1989, p.210)

Na perspectiva da Análise do Discurso, Orlandi (2006) reconhece a leitura como um espaço de interação entre os interlocutores, entendendo que “o texto é o lugar, o centro comum que se faz no processo de interação entre falante e ouvinte, autor e leitor”. O sentido do texto está no espaço discursivo dos interlocutores, ou seja, não se encontra especificamente nem exclusivamente em um dos interlocutores.

A leitura é o momento crítico da constituição do texto, é o momento privilegiado da interação, aquele em que os interlocutores se identificam como interlocutores e, ao se constituírem como tais, desencadeiam o processo de significação do texto. (ORLANDI, 2006, p.186)

Assim sendo, não é só quem escreve/fala que significa, mas também quem lê/ouve. Não existe um sentido pronto e transparente na superfície do texto para ser apreendido pelo leitor, como também não existe sujeito-leitor antes da leitura; existem tão somente imagens de sujeitos inscritas no próprio texto. Os sentidos atribuídos ao texto são determinados pela posição sócio-histórica e ideológica dos sujeitos autor e leitor, pois é na relação do discurso com as formações ideológicas62 que são produzidas as diferentes leituras.

62 A formação ideológica é compreendida como um conjunto complexo de atitudes e representações que não são

nem individuais, nem universais e que estão relacionadas às posições de classes em conflito umas com as outras. (BRANDÃO, 1998, p.90)

Há um jogo entre as leituras previstas para um texto e as leituras possíveis, uma vez que há uma determinação histórica que faz com que alguns sentidos sejam lidos e outros, não.

Um ponto comum pode ser traçado entre os autores acima citados: a leitura e a escrita são formas de interação. Entretanto, há uma questão que disso emerge: qual é a função social ou o valor da leitura e da escrita?

Walty e Cury (1999) entendem que o ato de escrever tem funções sociopolíticas, psicoexistenciais, entre outras:

Escrever como meio de depuração, como forma de lidar com o sofrimento, como forma de luta, como forma de partilha e participação, como reflexão sobre o estar no mundo, como mero exercício formal ou como atividade lúdica. O ato de escrever tem funções sociopolíticas, psicoexistenciais, e outras, conhecidas ou desconhecidas. (WALTY & CURY 1999, p. 125) Já Bellenger associa a leitura ao desejo e ao prazer:

Em que se baseia a leitura? No desejo. Esta resposta é uma opção. É tanto o resultado de uma observação como de uma intuição vivida. Ler é identificar-se com o apaixonado ou com o místico. É ser um pouco clandestino, é abolir o mundo exterior, deportar-se para uma ficção, abrir o parêntese do imaginário. Ler é muitas vezes trancar-se (no sentido próprio é figurado). É manter uma ligação através do tato, do olhar, até mesmo do ouvido (as palavras ressoam). As pessoas leem com seus corpos. Ler é também sair transformado de uma experiência de vida, é esperar alguma coisa. É um sinal de vida, um apelo, uma ocasião de amar sem a certeza de que vai amar. Pouco a pouco o desejo desaparece sob o prazer. (BELLENGER63 apud KLEIMAN, 1983, p.15)

De modo singular, Paulo Freire (1983) reconhece a leitura como um elemento de transformação do homem e do mundo. Para esse estudioso, através da leitura o ser humano se constrói como sujeito de sua própria história, interagindo no seu mundo ou na sociedade em que vive:

A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto. [...] De alguma maneira, porém, podemos ir mais longe e dizer que a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo, mas por certa forma de “escrevê-lo” ou de “reescrevê-lo”, quer dizer, de transformá-lo através de nossa prática consciente. (FREIRE, 1983, p. 11-12; 22).

Na mesma direção que Freire, Silva (1988) atribui uma função social e política à leitura, ao considerá-la uma prática que possibilita a participação do homem na sociedade. A

leitura, quando crítica e reflexiva, levanta-se como um trabalho de combate à alienação e libertação do sujeito no mundo. Ao tornar-se leitor, o sujeito se instrumentaliza para tomar consciência da realidade e transformá-la:

A leitura caracteriza-se como um dos processos que possibilita a participação do homem na vida em sociedade, em termos de compreensão do presente e passado e em termos de possibilidades de transformação sócio cultural futura. E, por ser um instrumento de aquisição, transformação e produção do conhecimento, a leitura, se acionada de forma crítica e reflexiva dentro ou fora da escola, levanta-se com um trabalho de combate à alienação, capaz de facilitar às pessoas e aos grupos sociais a realização da liberdade nas diferentes dimensões da vida. (SILVA, 1988, p.20)

Osakabe (1988, 1995) entende que a leitura e a escrita são formas através das quais o sujeito estabelece relações e constrói sua identidade pela linguagem:

Eu entenderia por escrita propriamente dita, a possibilidade de o sujeito ter o seu próprio discurso. E se se entende por leitura a compreensão, se entende por leitura o acesso a um conhecimento diferenciado, aquele que lhe permite reconhecer a sua identidade, seu lugar social, as tensões que animam o contexto em que vive ou sobrevive e, sobretudo, a compreensão, assimilação e questionamento, seja da própria escrita, seja do real em que a escrita se inscreve. (OSAKABE, 1988, p.22)

Finalizaremos este tópico com um exemplo da escrita como possibilidade de constituição da identidade. Trata-se de um texto escrito por um poeta em situação de rua64 cuja escrita revela sua angústia ao questionar a legitimidade de se reconhecer como escritor:

Que poeta sou eu que vive nas ruas jogado passando frio passando fome e vivendo todo esfarrapado sem ter onde dormir não podendo me alimentar vivendo só de cachaça para poder descansar nas calçadas da vida delirando na bebida posso dormir e sonhar.

[...]

Que poeta, que poeta eu não sei

pois já procurei

no fundo de minha alma mas até agora eu não encontrei

o poeta que existe em mim.

(BAHIA, 2006, p.05)

64Jonas Ferreira Bahia, nascido no Paraná, saiu de casa com treze anos e chegou a morar por dez anos na rua. A

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