2. TIBBİ TERMİNOLOJİ
2.4. Tıbbî Terimler
2.4.1. Kökler
Não há como falar da morte sem falar em tempo. O tempo que se tem em mente é o contado no relógio ou o das condições atmosféricas de um determinado local, porém, em termos da física, vamos encontrar o tempo como dimensão. O tempo que não se pode conter, estancar. Esse tempo é um tempo que possibilita a clara distinção entre um “antes”, um “agora” e um “depois”. Essa temporalidade já supõe, tanto para os seres humanos tomados individualmente como para a sociedade em seu conjunto, a existência de um passado, de um presente e de um futuro. Parece óbvio, porém, o presente aparece ao mesmo tempo como momento de passagem entre o passado e o futuro e como ponto de partida para novas experiências.
A vida surge, nessa dimensão, como espaço de construção - das próprias pessoas, da sociedade, do futuro - possibilitado pela experiência fornecida pelo passado, mas comporta o surgimento de elementos novos; implica a ideia de projeto, de antecipação do que está por vir, com características distintas do “já conhecido” ou do “já vivido” (HELLER, 1982, p. 141 e 162). “O universo dos eventos futuros está aberto para ser moldado pela intervenção humana” (GIDDENS, 1991, p. 109). Nesse sentido, o processo em que se admite “a ‘abertura das coisas’ por vir expressa a maleabilidade do mundo social e a capacidade dos seres humanos para moldarem os cenários físicos de nossa existência” (GIDDENS, 1991, p. 111).
Viver converteu-se, na atualidade, em utilizar o tempo disponível de forma a extrair dele o quanto seja possível em realizações. Reconhecendo esse processo, Max Weber afirmou que, no mundo moderno, os seres humanos podem sentir-se fartos, esgotados ou cansados da vida, nunca plenos dela (WEBER, 1958, p. 140). De certa forma, é a consciência do fim que alimenta o presente. Em consequência, a vivência do momento presente, para grande parte das pessoas, antes de possibilitar a percepção de si como seres completos, indivíduos na extensão do termo, faz com que se sintam seres desconectados, sem raízes e sem perspectivas. Isso ocorre, uma vez que as pessoas perderam o sentido de pertencimento, de participação em um “nós” e provoca um profundo individualismo em que cada um se volta egoisticamente para seus desejos e expectativas e não reconhece no outro o semelhante. As pessoas passam a se identificar e se integrar a grupos - por adesão à moda, grifes, enfim, - formados em torno consumo.
O resultado desse processo não é senão o crescimento contínuo do consumo e do lazer, tornados fins em si mesmos, e a vivência de extrema solidão que persegue as pessoas, ainda que vivam em sociedade. As pessoas hoje têm a percepção de que “o tempo voa”. O agora se converteu em absoluto, o que exaspera a necessidade de consumi-lo imediata e exaustivamente. “Ganhar” tempo e não “perdê-lo” tornou-se uma obsessão: as pessoas são esmagadas pelos ritmos e pelos “programas” que devem ser cumpridos, seguidos para melhorar a vida, ganhar tempo, manter o corpo, permanecer jovem, prolongar ao máximo a vida, impostos por uma malha que permeia todo o sistema em que vivem.
A sociedade está nesse processo de individualização cada vez maior e o discurso individual é de que cada um é senhor do seu tempo e sua razão e tem liberdade total para fazer as escolhas. Tornar-se mais independente ou autônomo faz parte de um discurso que atravessa a sociedade, porém, essa é uma liberdade de fato? Não seria uma liberdade controlada pelo sistema em que a sociedade está inserida e que faz com que as pessoas se acreditem livres quando, na verdade, são livres para o consumo ou para seguir os padrões impostos pelo mercado?
Renata Salecl (2005, p. 13), em seu livro Sobre a Felicidade – Ansiedade e consumo na era do hipercapitalismo ressalta que há uma frase repetida exaustivamente hoje pelas pessoas: “‘Eu quero me reinventar’. Mas nessa tentativa de se refazer e se tornar alguém único, é facilmente possível identificar um padrão uniforme”.
No Ocidente, as pessoas não apenas têm a impressão de que as possibilidades de encontrar a satisfação na vida são infinitas, como também são encorajadas a ser inventoras de si mesmas, isto é, elas são supostamente livres para escolher quem querem ser. A ideologia que promove a adesão ao “seja você mesmo”, especialmente difundida pelas propagandas, encoraja também a ideia de que as pessoas precisam estar aptas para “administrar” a si mesmas. “A ideia de que, supostamente, somos capazes de nos administrar, e que existe uma escolha sobre como lidamos com nossas emoções, está ligada à percepção do ‘eu’ que domina a sociedade no capitalismo tardio” (SALECL, 2005, p. 13 e 14).
Com isso, há uma crença de que, ao seguir uma receita de bom comportamento, cuidados com a saúde, a pessoa viverá muito mais tempo, viverá melhor, como sugerem os princípios da psicologia positiva, nascida nos Estados Unidos, mas que hoje é muito presente em grande parte das sociedades. É como se a pessoa pudesse
driblar a morte. A palavra em voga é “felicidade” como o segredo do momento para alcançar uma espécie de “nirvana”, uma garantia de que tudo dará certo, de que você sentirá um bem-estar permanente e, com isso, facilitar a realização pessoal, profissional e familiar.
O livro Ser Feliz Hoje, organizado por João Freire Filho (2010), diz que a felicidade se insinua, no imaginário popular e científico, como um projeto de engenharia individual orientado por uma legião de especialistas na reprogramação da mente, na turbinagem do cérebro ou no retoque da aparência.
Várias são as rotas mapeadas pelos missionários do bem-estar subjetivo e pelos apologistas da potencialização da performance – cabe ao consumidor escolher as estratégias que se ajustam às suas inclinações e aos seus interesses (FREIRE FILHO, 2010, p. 14).
A felicidade não é mais concebida como um estado de exceção, como momentos a serem vivenciados, mas algo que pode ser prolongado até o fim da existência. Embora as pessoas tenham em mente o fim da existência e se declarem conscientes do fato de que todos vão morrer um dia, aqui vale repetir a premissa do pai da psicanálise, Sigmund Freud (1976 p. 12), que diz que “cada vez que um ser humano reflete sobre a morte, sempre a pensa como um fato que acontece com os outros, nunca com ele mesmo”. Essa possibilidade de ser feliz indefinidamente está atrelada à livre determinação moral do indivíduo para engajar-se em sua reforma e em seu crescimento pessoal (FREIRE FILHO, 2010, p. 55).
O que leva o ser humano a correr atrás da felicidade? Normalmente, a concepção de vida no sentido de desfrutá-la, aproveitá-la, é vinculada a ideia de felicidade. Viver significa, por analogia, ser feliz e, ao tentar promover a felicidade a qualquer custo, dá a sensação de que a pessoa trabalha arduamente, com resultado promissor, para driblar a morte:
as sensações de felicidade são “funcionais” na medida em que abrem oportunidades de empreendimentos criativos e de novas abordagens para a resolução de problemas, além de gerarem recursos sociais, físicos e intelectuais que preparam os indivíduos para desafios futuros. Entre os “subprodutos” e as “recompensas adicionais” ou “benefícios tangíveis” decorrentes do bem-estar subjetivo figurariam a ampliação da capacidade de lidar com o estresse, a melhoria do desempenho cognitivo, o reforço do
sistema imunológico e o prolongamento da expectativa de vida (FREIRE FILHO, 2010, p. 60).
A chegada do computador pessoal e, em especial, a internet, contribuiu ainda mais para a individualização das pessoas ao isolá-las em frente a telas planas e criar uma ilusão de um contato real, em tempo real, via rede. A proximidade com a tecnologia permite ao individuo experimentar a sensação de escolha e de liberdade de navegar pelos mais diversos mundos apenas apertando algumas teclas do computador. Porém, essas escolhas e liberdades são ilusórias já que são limitadas pelas possibilidades combinadas, já previstas pelo sistema que opera em cada aparelho.
Grande parte da comunicação se dá, atualmente, por imagens, e os celulares trouxeram a possibilidade de deslocamento e o acesso em lugares públicos ou privados, coisa que a televisão não permite. Com essas mudanças, as pessoas estão cada vez mais expostas a informações sincréticas sem o tempo continuo do rádio e da televisão, o que gera, segundo alguns estudiosos, desinteresse pelo real, pelo aqui e agora, pela rotina, consequentemente, pela reflexão, uma vez que as imagens surgem de um mundo articulado pela técnica, e não pelo homem. Elas explodem na tela com perfeição quase que por magia, em simples “touch”.