DÜNYADA TOPRAK REFORMU(1)
1.3 Japonya Uygulamas›
Coseriu (1979) discute a possibilidade de uma tripartição da realidade unitária da linguagem, a partir de um posicionamento crítico da dicotomia estabelecida por Saussure entre langue e parole que permanece nos estudos estruturalistas pós-saussurianos. Para tal finalidade, esse estudioso da linguagem aponta algumas insuficiências da teoria saussuriana:
1ª – A falta de uma identificação nítida entre as distinções individual e concreto, social e formal (funcional);
2ª – A rigidez da dicotomia saussuriana ao ignorar o ponto onde se encontram e se combinam a língua e a fala, ou seja, o ato verbal;
3ª – A concepção de um indivíduo separado da sociedade, não sendo ele mesmo coletividade. Baseado no pressuposto de Humboldt de linguagem como atividade (energéia) e não produto (érgon) e na ideia de língua como determinação histórica da linguagem, desenvolvida por Pagliaro, Coseriu propõe uma tripartição da realidade unitária da linguagem nos aspectos sistema, norma e fala como uma forma de explicar as insuficiências mencionadas anteriormente.
Ao sistema corresponde um conjunto de elementos essenciais e indispensáveis de oposições funcionais que se manifesta no falar concreto. Apresenta-se “como um conjunto de imposições, mas também e talvez melhor, como um conjunto de liberdades, pois admite infinitas realizações.” (COSERIU, 1979, p. 74).
A norma consiste nas estruturas tradicionais de um grupo, sendo a realização coletiva do sistema onde se encontram os elementos funcionalmente não-pertinentes, porém esses elementos são normais de uma comunidade. Dos elementos não-pertinentes no sistema podemos citar o exemplo da troca entre os verbos ter e haver, uma característica do português brasileiro: Hoje tem aula (CASTILHO, 1992). Sabemos que na norma culta da língua portuguesa o verbo haver é usado no sentido existencial e o verbo ter no sentido de posse, mas no falar coloquial dos brasileiros, a permuta entre esses verbos é algo corriqueiro. Sendo assim, a norma não compromete o sistema, nem é uma forma imposta como o que deve ser dito, mas como é que se diz, nem é a forma correta de se falar numa comunidade, é um falar precedente a sua própria codificação.
Esclarecemos, ademais, que não se trata da norma no sentido corrente, estabelecida ou imposta segundo critérios de correção e de valoração subjetiva do expressado, mas sim da norma objetivamente comprovável numa língua, a norma que seguimos necessariamente por sermos membros de uma comunidade linguística, e não daquela segundo a qual se reconhece que “falamos bem” ou de maneira exemplar, na mesma comunidade (COSERIU, 1979, p. 69). (Grifo do autor)
Segundo esse autor, a norma contém a repetição dos modelos convencionais de uma comunidade5, possui tudo o que é momentâneo e individual, como também se impõe ao indivíduo limitando sua liberdade expressiva por ser um sistema obrigatório estabelecido por imposições culturais e sociais de uma comunidade. Acerca da fala, acrescenta que esta é uma atividade criadora concreta, individual e convencional, na qual está contida a norma que serve de base para a criação das estruturas linguísticas modelo utilizadas por determinada comunidade social.
Essa tripartição da realidade linguística de Coseriu apresenta uma concepção de língua dinâmica que permanece em contínua criação, sendo essa contrária à visão de língua estática e imutável de Saussure. Para o linguista genebrino, a língua é um todo por si, não pode ser criada ou modificada, o significado das palavras ou signos ocorre apenas nas relações do sistema e não importa a realidade exterior da língua. Na visão coseriana, a língua viva não é estática, pois permanece em contínua transformação, seu resultado nunca é definitivo na medida em que o processo de mudança linguística é contínuo. A língua muda porque “não está feita e sim faz-se continuamente pela atividade linguística concreta.” (COSERIU, 1979, p. 63).
Nesse sentido, o linguista romeno explica que a compreensão da mudança linguística se dá no plano do falar como norma de todas as outras manifestações da linguagem. E acrescenta que tudo o que é sincrônico é também diacrônico e só o é pela língua falada, haja vista que o falar existe somente na língua. Dessa forma, a língua aparece como uma determinação histórica que não é apenas sincrônica como postula a concepção de língua saussuriana.
Dentro dessa concepção dinâmica de língua, Coseriu distingue ainda dois fatores que condicionam a linguagem como atividade criadora: a linguagem virtual como aspecto psíquico e outro, propriamente linguístico, a linguagem realizada, ou seja, o falar concreto. No aspecto psíquico, o autor faz uma distinção entre o saber como condição do falar anterior ao ato línguístico, ou seja, o acervo linguístico e o impulso expressivo, que é uma intuição particular que requer uma expressão concreta, o falar.
É esse saber expressivo do falante a condição para a elaboração de novas estruturas através dos moldes estabelecidos pela norma. Assim, o falante aparece como um agente
5 Bakhtin (1992) também defende o pressuposto de que falamos a partir dos enunciados dos outros no convívio
social, porém do ponto de vista dialógico. Coseriu leva em consideração a alteridade nesse aspecto da linguagem, mas discute a criação das estruturas da língua na perspectiva da norma.
criador da língua, porém permanece nessa atividade criadora dentro das possibilidades do sistema:
O falante utiliza, para expressão de suas intuições inéditas, modelos, formas ideais que encontra no que chamamos “lingua anterior” (sistema precedente de atos linguísticos). Ou seja, o indivíduo cria sua expressão numa língua, fala uma língua, realiza em seu falar moldes, estruturas da língua de sua comunidade. (COSERIU, 1979, p. 72).
O indivíduo, a partir das possibilidades do sistema, cria e recria a norma adaptando-a as suas necessidades comunicativas, o que pode causar um desequilíbrio entre sistema e norma, pois “o indivíduo altera a norma, a norma reflete o equilíbrio do sistema até um determinado momento, alterando a norma, altera-se o equilíbrio, até pender para um lado ou para o outro.” (COSERIU, 1979. p. 80). Esse desequilíbrio caracteriza o processo de mudança linguística, posto que o equilíbrio se estabelece após a mudança. Todavia, é um processo lento e gradual que precisa ser aceito pelos membros da comunidade social (FARACO, 2005).