DÜNYADA TOPRAK REFORMU(1)
BOL‹VYA
No que diz respeito à teoria das TDs, Koch (1997) apud Simões e Kewitz (2009b) aponta ainda duas estratégias distintas para a retomada de enunciados já conhecidos e que são fundamentais para compreensão do modelo das TDs. Trata-se da intertextualidade e da interdiscursividade. A intertextualidade, muito comum nos textos literários, é a retomada dos conteúdos temáticos narrativos presentes nos textos. Um exemplo disso são os versos da canção Índia, retomados da obra Iracema, de José de Alencar: Índia seus cabelos nos ombros caídos,/ Negros como noite que não tem luar;/ Seus lábios de rosa para mim sorrindo / E a doce meiguice desse seu olhar. Observemos, agora, o texto de Alencar: Iracema a virgem dos
6 O modelo das TDs possui algumas lacunas, pois conforme Simões e Kewitz (2009a) ainda não há nesse modelo
uma metodologia clara, dotada de instrumentos e conceitos claramente definidos. Ainda segundo os autores, essa indefinição ocorre porque o modelo de TD tomou de empréstimo terminologias de correntes de análise como a Gramaticalização, Análise do discurso e da Análise da Conversação. Por esse motivo, não iremos discutir com maior amplitude essa distinção entre gêneros e TDs, bem como não é objetivo deste trabalho abordar esses questionamentos.
lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da Jati não era doce como seu sorriso.
Já a interdiscursividade se caracteriza pela retomada dos elementos que compõem a estrutura dos textos. Podemos tomar por exemplo a estrutura do gênero ofício. Independente do assunto da comunicação oficial, num ofício se repetem estruturas como local e data, vocativo e fecho que identificam esse gênero textual ao passar do tempo.
Outro traço importante que caracteriza as TDs no nível histórico da linguagem é oscilação entre conservadorismo e dinamismo, convenção e inovação. Os textos, conforme as necessidades comunicativas, sofrem algumas alterações, nas quais umas permanecem, outras desaparecem, ou mesmo, transformam-se com o tempo, como é o caso do texto jornalístico escrito que, com o advento da Internet, adquiriu outros formatos proporcionados pela inserção de diversos recursos virtuais; porém, essas inovações não descaracterizam sua forma tradicional tanto na linguagem como na estrutura textual. Simões e Kewitz (2009b) afirmam que todas as tradições culturais oscilam entre esses dois pólos e acrescentam que as TDs são apenas uma das inúmeras tradições culturais da humanidade.
Apesar de a relação entre conservadorismo e inovação ser uma característica importante das tradições culturais, ela não é suficiente para definir as TDs. Para se aproximar de uma definição sistematizada das TDs, Kabatek (2006) apresenta alguns traços que as definem, embora não os considere suficientes:
1- uma TD deve ser discursiva, ou seja, as repetições não-linguísticas estão excluídas de tal categoria. Um exemplo dessa condição é o cantar dos pássaros numa determinada hora da manhã todos os dias, embora haja uma repetição de tal fenômeno, ele não pode ser considerado uma TD;
2- nem todas as repetições de elementos linguísticos formam uma TD, embora seja a repetição uma condição para a definição das TDs. Muitas palavras se repetem inúmeras vezes no cotidiano como no caso de rosa, casa, todo, bola nos mais variados contextos, porém não podem ser consideradas uma TD. Para um texto se inserir numa TD é necessária uma combinação de elementos linguísticos como, por exemplo, a combinação dos elementos formais que caracterizam uma carta pessoal: vocativo, formas de tratamento, fecho e assinatura;
3- a evocação, isto é, a repetição do conteúdo temático dos textos. Assim, a repetição da abertura e o fechamento da ata de reunião não são propriamente uma TD, mas estão ligadas a ela, evocando-a, como no exemplo do requerimento: vocativo (Excelentíssimo Senhor Governador do Estado), corpo do texto com apresentação do requerente seguido de endereço e da solicitação, fecho (Nestes termos, pede deferimento), local e data.
Segundo Kabatek (2006, p. 511), “a relação de tradição de uma TD tem então duas faces, a TD propriamente dita e a constelação discursiva que a evoca.” Assim, Simões e Kewitz (2009a) afirmam que, “uma situação B evoca uma situação A que permite a realização de um texto 2 como repetição de um texto 1” ocorrendo, portanto, uma simultaneidade entre os dois fatores definidores das TDs: repetição e evocação.
Esquema 2 – Evocação
Texto 1 situação 1
Texto 2 situação 2
Fonte: (KABATEK, 2006, p. 511)
Satisfeitas essas condições, Kabatek (2006) apresenta o seguinte conceito para as TDs:
Entendemos por Tradição Discursiva (TD) a repetição de um texto ou de uma forma textual ou de uma maneira particular de escrever e falar que adquire valor de signo próprio (portanto é significável). Pode-se formar em relação a qualquer finalidade de expressão ou qualquer elemento de conteúdo, cuja repetição estabelece uma relação de união entre atualização e tradição; qualquer relação que se pode estabelecer semioticamente entre dois elementos de tradição (atos de enunciação ou elementos referenciais) que evocam uma determinada forma textual ou determinados elementos linguísticos empregados. (KABATEK, 2006, p. 512).
Essa definição implica ainda algumas questões e consequências que merecem ser discutidas:
A primeira questão diz respeito à relação entre as TDs e a referência. Uma saudação, por exemplo, possui uma constelação referencial ou situacional relacionada a um texto (a saudação bom dia). Já outros textos não são situacionais, como no caso de textos escritos, que são independentes de uma situação pragmática concreta, uma vez que, na evolução das culturas as línguas criam seus textos autônomos que constroem sua
própria referência discursiva, ou seja, geram seus contornos extralinguísticos com meios textuais, internalizando a evocação.
A segunda questão refere-se a relação entre TDs e variedades linguísticas (variedades diatópicas, diastráticas e diafásicas). Algumas variedades linguísticas podem funcionar como uma TD. Bicalho (2008) apresenta como exemplo para tal fenômeno, o uso do falso gerundismo7 pelos operadores de telemarketing. De acordo com a autora, esse tipo de variação diafásica seria a tradição de falar desse determinado grupo de vendedores, pois dentro do grupo de operadores de telemarketing existiria uma unidade de gênero textual, na qual não se utilizaria outra forma de se expressar. Kabatek (2006) explica que a variação linguística não é o mesmo que TD, pois são fenômenos distintos; todavia, acrescenta que essas formas são transmitidas pelas TDs, pois seu emprego pode ser condicionado por estas.
Sobre as consequências do conceito de TDs, Kabatek faz ainda algumas reflexões:
Na primeira reflexão, o autor enfatiza que uma TD tem valor de signo próprio, por consequência, comunica mais do que um texto sem tradição, pois além do valor proporcional, transmite uma referência. Por isso, “uma TD é mais do que um enunciado; é um ato linguístico que relaciona um texto com uma realidade, uma situação etc, mas também relaciona esse texto como outros textos da mesma tradição.” (KABATEK, 2006, p. 513).
A segunda se refere ao caráter composicional das TDs. O texto de uma TD não se repete de uma mesma maneira, pois tanto pode ser uma forma textual como também uma combinação de elementos. Essa composicionalidade se distingue em dois tipos: a paradigmática e a sintagmática. A primeira consiste nos elementos que definem as TDs; a título de exemplo, o soneto se define como uma TD por conter a forma clássica de quatorze versos, rimas específicas para essa forma e por conter a linguagem poética. Essa composicionalidade se refere à concomitância de referências de outras TDs no mesmo texto. O segundo tipo consiste na inserção de
7 O falso gerundismo se caracteriza por construções que empregam ir + estar + gerúndio: vou estar viajando.
subtextos ao longo de um texto. Isso pode ser constatado no romance Ulisses, que possui uma sucessão de diferentes TDs num texto longo.
Kabatek (2006) ressalta que a partir da composicionalidade paradigmática surgem as possibilidades de transformações das TDs, posto que alguns textos podem sofrer alterações ao longo do tempo, ao ponto de não mais se identificarem com sua forma inicial, pois alguns elementos permanecem e outros adquirem novas características ou mesmo desaparecem de uma determinada forma textual. Algumas TDs são fixas e resistentes às alterações devido ao caráter formal das instituições nas quais estão inseridas, como é o caso dos textos jurídicos e religiosos. Outras TDs são mais flexíveis à medida que acompanham as expressões do falar na oralidade, como ocorre com os textos produzidos nas salas de bate-papo na Rede Mundial de Computadores.