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Passamos agora para a análise da Revista RIBLA176 – Revista de Interpretação

Bíblica Latino-americana. Nela encontramos vários artigos que tratam da temática dos

172 REIMER, Ivoni Richter. O pão na crise. Analisando a resistência criativa. Estudos bíblicos. Petrópolis; São Leopoldo, n. 42, 1994. p. 75.

173 REIMER, Ivoni Richter. O pão na crise. Analisando a resistência criativa. Estudos bíblicos, n. 42. p. 76. 174 REIMER, Ivoni Richter. O pão na crise. Analisando a resistência criativa. Estudos bíblicos, n. 42. p. 76. 175 KONINGS, Johan. Evangelho segundo João. Amor e fidelidade. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal. 2000. p. 65.

excluídos como as mulheres, os doentes, os pecadores e os famintos partindo do Evangelho de João. Nesse sentido, encontramos pelo menos 10 artigos que deixam clara a preocupação de Jesus com os problemas e sofrimentos concretos de seu povo. Citamos, por exemplo, o artigo “Jesus e a Samaritana” de Lúcia Weiler, publicado em RIBLA, número 15, onde se mostra a importância de uma mulher na evangelização da Samaria, no seu próprio contexto cultural: “A versão Joanina, que narra a evangelização da Samaria, pode ser considerada extremamente revolucionária. Uma mulher, marginalizada por ser mulher e por ser samaritana, torna-se evangelizadora dentro de sua própria cultura e a partir dela.”177 O presente artigo busca valorizar a presença da mulher em um contexto de exclusão do qual fazia parte. A partir do encontro com Jesus, narrado em Jo 4,1-46, a samaritana reconhece Jesus como Messias e vai anunciar ao seu povo esta verdade.

Em outro artigo, “Jesus liberta uma mulher”, publicado em RIBLA número 18, Carmina Navia Velasco focaliza a ação de Jesus diante de alguém que está em condição de pecado e que está sendo condenada. No texto de Jo 8,1-11, os fariseus querem que Jesus condene a mulher que foi surpreendida em situação de pecado. Jesus não a condena, mas dá a ela a esperança de uma vida nova: “Neste episódio em que a tradição feminina de resistência guardou para nós, esta mulher concreta, chamada “adúltera”, está resgatada. Mas não só ela. Nessa confrontação realizada por Jesus com as instâncias de autoridade e com o peso da tradição, foram resgatadas todas as mulheres, vítimas de um sistema de poder que as torna indefesas.”178 No presente artigo, a autora trabalha tendo presente a ação de Jesus como aquele que veio para resgatar a pessoa, nesse caso uma mulher que se encontrava em condição de pecado e que, portanto, era marginalizada pelas pessoas de seu tempo.

Citamos ainda um terceiro artigo que contempla a dimensão concreta e o resgate da condição de marginalização em que viviam as mulheres. No artigo “Maria – A mulher, a hora e a glória”, Sandro Galazzi, em RIBLA n. 46, mostra a presença e a importância das mulheres na vida de Jesus, principalmente no que se refere à sua “Hora”. No Evangelho de João, sete vezes se faz memória de uma mulher a começar pela Mãe de Jesus, a Samaritana, a adúltera, Marta, Maria de Betânia e Maria Madalena.179 No presente artigo, o autor resgata a importância da mulher na Igreja de hoje, a partir do resgate realizado por Jesus valorizando a

177 WEILER Lúcia. Jesus e a samaritana. RIBLA. Petrópolis; São Leopoldo, n. 15, 1993/2. p. 102.

178 VELASCO, Carmina Navia. Jesus liberta uma mulher. RIBLA. Petrópolis; São Leopoldo, n. 18, 1994/2. p. 97. 179 “Sua mãe Maria faz acontecer a “Hora” no início e no fim de sua caminhada, nas Bodas de Caná e ao pé da cruz. A samaritana profetiza e anuncia o messias por primeira. A adúltera nos ensina que a casa de Deus é para os pecadores e não para os justos. Marta – e não Pedro- proclama a fé no Cristo, filho de Deus vivo. Maria de Betânia sai com sua cabeça ungida e Madalena recebe a missão de anunciar o centro da fé Joanina; “o Deus de Jesus é o nosso Deus, o Pai de Jesus é o nosso Pai.” – GALAZZI Sandro, p. 53.

presença das mulheres excluídas e marginalizadas. Destacamos a mãe de Jesus no contexto das bodas de Caná e no sinal-da-cruz: “Maria, é assim, a mulher da “hora”. A “mulher” que faz a “hora” acontecer para Jesus e a “mulher” que a vivencia e a faz acontecer para o discípulo amado, quando ele a “recebe” como dom do amor de Deus e fruto da entrega do filho Jesus.”180 A mãe de Jesus é protótipo de mulher forte, corajosa e resistente, presente nos principais momentos da vida de seu Filho Jesus.

Encontramos, ainda em RIBLA, outro texto, que contempla um olhar histórico concreto do Quarto Evangelho para a libertação e salvação do homem. Uwe Wegner, em seu artigo “Aspectos da cidadania no movimento de Jesus e nas primeiras comunidades apostólicas”, publicado em RIBLA n. 32, mostra que a atividade de Jesus e das comunidades apostólicas buscou valorizar as pessoas e retirá-las de sua condição de marginalização encontrando seu fundamento no amor de Deus para com a humanidade. No amor de Deus está o fundamento para uma cidadania que não exclui ninguém. A missão de Jesus foi no sentido de incluir a todos buscando a construção de uma vida mais digna para se viver em condições mais humanas. Esteve ao lado dos mais fracos para tirá-los dessa condição: os pobres, as prostitutas, pecadores e publicanos, samaritanos, doentes: “Estes exemplos bastam para comprovar que o movimento de Jesus é essencialmente includente, com uma forte propensão para amparar, defender, e mesmo enaltecer aquelas pessoas e grupos de pessoas que corriam o maior perigo de rejeição, discriminação e exploração social e religiosa.”181 O referido artigo mostra a concretude histórica e a manifestação do Reino de Deus que se torna presente através dos sinais, e da melhoria da qualidade de vida das pessoas proporcionada por Jesus. No entanto, há que se destacar a carência de citações do Quarto Evangelho. No artigo encontramos 40 citações do Evangelho de Marcos, 36 do Evangelho de Mateus, 26 citações do Evangelho de Lucas e apenas 5 citações do Evangelho de João. Ou seja, os Sinóticos foram citados 102 vezes. Permanece a concepção de que o Quarto Evangelho é “espiritualizante” e, portanto, distante da realidade concreta.

Nessa mesma direção, é sintomático que a edição número 09 de RIBLA, que traz como tema “opressão e libertação”, silencie por completo sobre o Quarto Evangelho. Por outro lado, o recurso aos Sinóticos, especialmente ao Evangelho de Marcos, é grande. Também os Sapienciais, Salmos, Esdras e Jonas aparecem.

180 GALLAZZI, Sandro. Maria – A mulher, a hora e a glória. RIBLA. Petrópolis; São Leopoldo:, n. 46, 2003/3. p. 53.

181 WEGNER, Uwe. Aspectos da cidadania no movimento de Jesus e nas primeiras comunidades apostólicas.