• Sonuç bulunamadı

3. İSYAN AHLAKINDAN İSLAM İNSANINA

3.3. İsyan Ahlakı

Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004 JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI

A respeito do caso de corrupção envolvendo assessor do Planalto, nunca poderia imaginar que minha amiga e ex-aluna Marilena Chaui pudesse escrever o seguinte, na Folha de ontem: "a crítica é hipócrita porque: a) pretende atingir o governo Lula com um episódio envolvendo o casal Garotinho, em 2002, no Rio de Janeiro; b) não levanta a causa do problema (que também atingiu, por exemplo, assessores de FHC, e levou um amigo a defender publicamente a tese da imoralidade constitutiva da política), qual seja, o inadequado sistema eleitoral, que induz a procedimentos inaceitáveis". Pelo que me consta, Benedita da Silva não faz parte do casal Garotinho, mas do PT. Além disso, como muita gente sabe, o amigo referido sou eu, o que me leva a procurar esclarecer meu ponto de vista.

No final das contas, se até mesmo Marilena não me entendeu, não poderia proceder de outra maneira. Que isso tenha ocorrido, porém, não é de estranhar, pois Marilena tem mantido, nos últimos tempos, uma relação esdrúxula com os fatos. Aqui cabe outro exemplo. Na entrevista à revista francesa "Esprit", de janeiro de 2004, intitulada "La méthode Lula", a respeito dos assessores do presidente, ela afirma: "A equipe econômica é composta de três tipos de conselheiros. De início, há os economistas, professores, consultores etc. Mas esses "experts", diferentemente daqueles do governo Cardoso, não estão ligados aos bancos, às grandes instituições financeiras nem, de maneira geral, às grandes instituições econômicas instaladas". Seria fácil escolher outros exemplos, mas não é o que interessa aqui.

O PT tirará desse episódio a lição devida e se mostrará menos juiz e mais empreendedor?

Nunca endossei a tese da imoralidade constitutiva da política e, todas as vezes que me ocupei dessa questão, sublinhei a diferença entre "imoral" e "amoral". É da essência da atividade política alargar o âmbito das práticas ou das instituições, pois somente assim as regras instaladas servem para guiar condutas em processo. Regras envelhecidas não servem para enfrentar o novo. Daí o próprio exercício da política, no qual o risco é inerente, abrir um espaço onde a ação não pode ser dita, em princípio, moral ou imoral. Em que medida o financiamento das campanhas está sujeito a essa indefinição? Como diminuir a força do poder econômico nas campanhas? Mesmo financiada pelos cofres públicos, sempre haveria um líder comunitário achando-se no direito de pedir liberação de verba sem levar em conta a eqüidade em sua distribuição. Toda ação implica interpretar a regra, o que se faz de um ponto de vista particular, produzindo resultados imprevistos, quando não indesejados.

Voltemos ao que nos interessa. O sr. Waldomiro Diniz foi pilhado negociando em nome do PT, o que afeta o partido como um todo. Aliás, há outros episódios ligando a captação de recursos para o PT com o jogo do bicho, cabendo perguntar até que ponto estão associados às propostas petistas de

legalizá-lo. Suponhamos que um candidato "X" seja favorável a essa legalização e, por isso, tenha apoio financeiro de um bicheiro. Obviamente toda essa ajuda deve ser declarada. Mas o bicheiro não pode declará-la integralmente, pois então não seria bicheiro. Donde a regra: quem aceita dinheiro do jogo do bicho coloca-se à margem da moralidade pública constituída. Suponhamos que esse jogo seja, depois, legalizado. A doação anterior tornou-se moral, e o candidato, uma vez eleito, paladino da renovação das instituições.

À parte a ironia, se a imprecisão da ação política escapa à bivalência do bem e do mal -a uma rígida aplicação da regra moral sem a avaliação das contingências de sua aplicação- como julgar essa ação? A meu ver, saindo da oposição entre vigiar e punir, de maneira a criar instituições capazes de prevenir, na medida do possível, que a ação política seja julgada a partir do extremo do absolutamente moral e santo (como, aliás, tem feito o PT) ou que seja assumida na sua imoralidade, já que os fins justificariam os meios. Isso depende, obviamente, de um longo processo de amadurecimento das próprias instituições políticas.

Houve uma infração a ser punida. Até onde deve ir a punição? Quem se conduz de modo imoral ao coletar dinheiro de campanha, provavelmente, continuará procedendo, posteriormente, da mesma maneira. Suponhamos que se mostre que o ministro José Dirceu esteja envolvido e, por conseguinte, o presidente Lula, responsável pela escolha e atuação de seu ministério. Todos eles devem ser punidos? À medida que o delito recua do ator para outros responsáveis por ele, vai perdendo sua carga moral para se transformar numa questão política. Daí a punição depender do jogo dos próprios interesses políticos e da avaliação de sua oportunidade. A imoralidade subjetiva de Waldomiro Diniz é uma coisa, outra coisa é a imoralidade pública do resto do governo, mesmo que ele esteja envolvido nela. Isso porque o próprio processo político decidirá se o ato individual é ou não coletivamente imoral.

Convenhamos, a corrupção existe no PT como em outros partidos, em maior ou menor grau. Importa saber, além do discurso ideológico e do palavrório simbólico, quais instituições internas trabalham para restringir a corrupção do partido, do governo e do jogo político como um todo. Mas ainda é preciso levar em consideração um paradoxo. Se todo o governo fosse punido, haveria uma crise institucional, com enfraquecimento e talvez desaparecimento das instituições de vigilância pública, o que levaria a corrupção pública às alturas. O PT tirará desse episódio a lição devida e se mostrará menos juiz e mais empreendedor?

José Arthur Giannotti, filósofo, é professor emérito da USP e coordenador