Para entender o processo de formação do patriarcado, com as ordens se transformando em normas internas que configuram homens e mulheres, sob critérios de objetividade e subjetividade, com legiões de mulheres e homens (mesmo que, de forma diferenciada, eles obtenham vantagens da lógica patriarcal) sendo submetidas/os às normas e castigos mais atrozes e, apesar disso, defendendo sua permanência, é necessário que se conheça como se constitui a subjetividade dos seres sociais, como concretude que auxilia a opressão a colocar-se em ação, enquanto contribui para o seu fortalecimento. Para analisar a constituição da subjetividade, sob a égide dos valores patriarcais, utilizo principalmente as análises de três pensadores/as marxistas: Vigotski, Lukács e Izquierdo.
A teoria de Vigotski permite analisar a formação do psiquismo e da importância da linguagem nesta constituição, criando um sistema explicativo do psicológico, que leva em conta a totalidade e que parte do social para o sujeito, sem tirar deste o caráter de ativo e constituinte. O autor analisa o fenômeno psicológico como um fenômeno particular, compreensível apenas quando analisado na sua condição social,
sem se reduzir a ela. O uso da teoria materialista histórica dialética permite a Vigotski analisar as determinações sociais não como forças misteriosas e mágicas que têm vida própria, mas sim o processo como estas determinações se concretizam nas relações e significações.
Essa reflexões se dão na Psicologia Social Sócio-Histórica pois,
“A Psicologia Social crítica busca novos caminhos metodológicos que permitam apanhar o particular como mediação entre a totalidade e os universais constitutivos dos singulares em questão; ela procura apanhar a pessoa totalizando a sociedade nela e por ela, isto é, busca apreender o processo que produz a pessoa no interior de uma classe e de uma dada sociedade, num momento histórico dado, a partir da intersecção da história da vida do ator e da história social da sociedade”
(SAWAIA,1987, p. 77).
Nas pesquisas em Psicologia, é possível utilizar-se de categorias de análise que superem a dicotomia entre análise estruturalista e análise subjetivista, entre objetividade e subjetividade, podendo-se estudar a constituição dos processos subjetivos, sem reduzi-los ao internismo, nem ao indivíduo singular separado de suas particularidades históricas, pois “a essência humana não é uma abstração inerente ao indivíduo singular. Em sua realidade, é o conjunto das relações sociais” (MARX, 1986, p. 13).
Desta forma, a partir da Psicologia Social Sócio-histórica é possível fazer uma análise de como se constitui e se mantém a opressão sobre as mulheres. A obra de Vigotski, psicólogo social marxista, faz, a meu ver, a aplicação mais aproximada – ainda que não completa, devido a problemas da sua biografia, como a morte precoce, aos 34 anos – dos preceitos marxianos na Psicologia. Desse modo favorece que a questão de gênero possa ser analisada, seja quanto à gênese, seja quanto à manutenção – não só como norma e lei (isto é, exterioridade) mas também como
subjetividade (interioridade). Baseando-se assim em Vigotski, é possível dizer que a subjetividade está dentro, mas também está fora, visto que nada existe dentro sem que, anteriormente, não tenha sido produzido fora, na intersubjetividade. O que permite afirmar que o gênero é uma construção social – como definem várias/os pesquisadoras/os – construção esta que é intermediada pela intersubjetividade. Desta maneira, o gênero é um conjunto de características atribuídas/construídas em corpos biológicos, de machos e fêmeas, que se transmutam de acordo com um conjunto de características históricas, que vão da materialidade da sobrevivência corporal – do primeiro ato histórico, como o chamou Marx – por exemplo, de quanta comida é destinada a homens e mulheres, ao vestir, à biologia (ombros mais largos ou quadris mais largos, dependendo de quais esportes podem ser praticados por homens e mulheres) até à questão afetiva (por exemplo, normatização do desejo: monogamia para as mulheres e poligamia para os homens, no capitalismo). A análise das variadas determinações, que compõem os gêneros, quando se usa a dialética subjetividade/objetividade, aponta para existência de que estas determinações não estão só fora mas também são da ordem de como são vividas, sentidas.
O objeto de estudo da psicologia é o ser humano tomado em sua totalidade, como relação entre indivíduo e sociedade. As correntes idealistas na psicologia tentam reduzir o estudo dos seres humanos ao estudo de seu mundo interno, utilizando uma concepção de sujeito autoconstituído, a-histórico, reprodutor de ideologias, monadológico mesmo. É necessário refletir sobre as conseqüências ético- políticas destas visões de sujeito. Sujeitos que aparecem como imunes às mudanças sociais, com características inatas, passando incólumes por épocas históricas. Livre, liberto do ‘outro’, na verdade este sujeito acaba sendo responsabilizado por todos os
atos humanos, desresponsabilizando perigosamente as instituições e o sistema pela forma como a vida se organiza.
“Marx contrapôs a exigência de levar em conta, concreta e materialisticamente, todas as relações da vida humana, e antes de mais nada, as relações histórico-sociais” (LUKÁCS, 1979, p. 15).
Porém no presente momento histórico (início do século XXI), privilegia-se a construção de um saber altamente pragmático, a reprodução eficaz de técnicas de alta aplicabilidade, desvinculada tanto da indagação sobre o sentido ético desta produção, como da capacidade de criar novos saberes. Este dualismo entre técnica e criação reflete um descompromisso da sociedade capitalista com o destino das gerações atuais e futuras, para além da forma que a extração da força de trabalho exige no momento. Descompromisso que apreendido simbolicamente pelos seres sociais traduz-se em uma série de comportamentos que atemoriza todos os setores comprometidos com a manutenção da vida e da espécie humana.
“Embora seja verdade que por trás de qualquer transformação econômica devemos procurar
uma ação humana, a ação iniciadora da transformação decisiva pode ser inspirada por intenção inteiramente estranha ao resultado final e assim, mostrar-se simples produto da situação anterior”
(DOBB, 1987, p. 19).
Então o sujeito que a psicologia materialista histórico-dialética define é o sujeito sócio-histórico, analisado na intersecção de sua história com a história da sociedade em que ele está inserido, produto e produtor da história, capaz da transformação social e não apenas enredado em seus conflitos internos. Mas para analisar o sujeito dessa maneira se faz possível por meio do procedimento metodológico que propõe:
“Trata-se, de uma parte, de arrancar os fenômenos de sua forma imediatamente dada, de encontrar as mediações pelas quais eles podem ser relacionados a seu núcleo e a sua essência e tomados em sua essência mesma, e, doutra parte, de alcançar a compreensão deste caráter fenomênico, desta aparência fenomênica, considerada como sua forma de aparição necessária. esta forma de aparição é necessária em razão de sua essência histórica, em razão de sua gênese no interior da sociedade capitalista” (LUKÁCS in NETTO, 1981, p. 68).
Utilizando as reflexões de Vigotski posso analisar as determinações sociais, as estruturas sociais, tomando-as como concretudes que contêm também as motivações pessoais, os afetos e a biologia. Não uma biologia neutra, mas uma biologia que também é história, o que leva ao rompimento com as visões cartesianas que,na Psicologia, dicotomizam objetividade/subjetividade.
Recorrer às reflexões de Vigotski permite afirmar que o processo histórico não constitui diferentes funções psicológicas para os gêneros, criando algumas específicas para homens e outras para as mulheres. O que ocorre, como discuti em Souza (2000), é que se alteram os nexos, entre as funções psicológicas e as determinações sociais, a forma como a educação, as instituições, as funções sociais, a ideologia é construída e mantida, fazendo com que se fortaleçam algumas funções psicológicas nas mulheres – por exemplo, a afetividade – e outras, nos homens – por exemplo a racionalidade. Estas funções psicológicas, exercidas diferentemente por homens e mulheres, ‘aparecem’ como biológicas, naturais, não como construídas e desta forma acabam se cristalizando como qualidade ‘natural’ de cada um, homem ou mulher. O que significa afirmar que a gênese da consciência é social, mas construída sobre uma base biológica e que ocorre por meio da intersubjetividade anônima e face a face.
“De certa forma, sucede ao homem como à mercadoria. Pois ele não vem ao mundo nem com um espelho, nem como um filósofo fichtiano: eu sou eu, o homem se espelha primeiro em outro homem. Só por meio da relação com o homem Paulo, como seu semelhante, reconhece-se o homem Pedro a si mesmo como homem. Com isso vale para ele também o Paulo, com pele e cabelos, em sua corporalidade paulínica, como forma de manifestação do gênero humano” (MARX, 1988, p. 57).
Para Vigotski, nas sociedades de classe estruturalmente os significados são distribuídos diferentemente para cada indivíduo conforme a posição que ele ocupa na produção. Desdobrando esta afirmação para as questões referentes à etnia/gênero, pode-se dizer que a classe a que o sujeito pertence, bem como sua etnia e gênero, determina quais ordens são recebidas e como se dá seu processo de internalização.
“Um indivíduo ordena e outro cumpre. O indivíduo ordena a si mesmo ele mesmo cumpre. durante o processo de desenvolvimento psicológico, surge, por conseguinte, a fusão em um primeiro momento, toda função superior estava dividida entre duas pessoas, constituía um processo psicológico mútuo. um deles se dá em meu cérebro, outro, no do indivíduo com quem discuto (...). qualquer processo volitivo é inicialmente social, coletivo, interpsicológico. (...) Surge nela um complicado sistema de funções que inicialmente estavam cindidas de determinadas funções que, no princípio, estavam em duas pessoas. a origem social das funções psíquicas superiores constitui um fato muito importante”
(VIGOTSKI; 1999, p. 114).
Na sociedade capitalista atual, esse processo de internalização ocorre inicialmente na família, instituição responsável pela socialização primária das crianças. Mas antes de analisar a instituição nomeada família, investigo quais são as bases sob as quais se constrói esse ser social que internaliza determinadas funções.