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Embora haja pouca evidência de seu valor diagnóstico e prognóstico na prática diária, muitos médicos tomam decisões levando em conta também a intuição.

A intuição é um elemento importante, que pode sustentar as decisões clínicas tanto quanto a avaliação, a heurística e o julgamento. Entretanto, apesar de os processos intuitivos terem um determinado valor, há poucas pesquisas sobre o seu papel nos processos de decisão. Em parte, devido à própria característica da intuição, que atua no processo de pensamento de forma rápida e, por isso, de difícil aferição.

Ark, Brooks e Eva (2007) treinaram 48 estudantes novatos para identificar as características dos electrocardiogramas (ECG) e atribuir diagnósticos. Os participantes foram selecionados e instruídos a encontrar diagnósticos de forma sequencial e analítica, seguindo o modelo padrão. Outro grupo foi instruído a identificar cuidadosamente todas as

características, utilizando uma estratégia de raciocínio combinado. Uma maior precisão de diagnóstico foi feita após a aprendizagem contrastiva e instruções para usar uma estratégia combinada de raciocínio. Os resultados ressaltaram a importância de capacitar os estudantes para utilizar múltiplas estratégias de diagnóstico, incluindo abordagens não analíticas.

Médicos, de uma maneira geral, reconhecem que existem intuições surgidas, às vezes, durante uma consulta e que mostram que há algo de errado com o paciente, mas que estes não sabem explicar exatamente o que é. Segundo Stolper, Van Royen e Dinant (2010), uma vez que essas situações são características da prática médica, é notável que na Medicina essa função tenha sido pouco estudada entre os médicos e que não seja bem compreendida.

Em inglês, gut feelings8 é definido como os pensamentos que vêm à mente sem

esforço aparente e que parecem desempenhar uma função no processo de diagnóstico dos médicos quando eles precisam lidar com a incerteza e a imprevisibilidade.

Segundo Stolper, Van Royen e Dinant (2010), o conhecimento científico não é um guia suficiente e, na tomada de decisão médica, o profissional precisa encontrar um equilíbrio entre a razão analítica e uma espécie de avaliação intuitiva. Para os autores, as intuições que fazem parte de uma avaliação intuitiva devem ser consideradas como uma faixa separada de raciocínio diagnóstico dos médicos que complementa as outras duas faixas, a analítica e a não analítica.

O papel da intuição no raciocínio diagnóstico do médico tem várias implicações importantes para a prática da saúde e para a educação médica. Isso significa que as intuições precisam ser levadas a sério, já que ao reconhecer, por exemplo, uma intuição, os médicos podem ser alertados para modificar um raciocínio.

Dinant, Knottnerus e Van Wersch (1992) acompanharam 362 pacientes que estavam sendo vistos por um médico de família por causa de um problema na taxa de sedimentação de eritrócitos. Os médicos registraram o diagnóstico mais provável e marcaram suas decisões em termos de "grave" e "não grave", e os valores esperados da taxa, antes e após o exame. Os autores concluíram que o julgamento clínico do médico, quando ele não suspeitava de patologia grave, foi bastante fiável, mostrando que, muitas vezes, o médico considera variáveis não analíticas e intuitivas no momento de fazer um diagnóstico.

Stolper (2010) relata que os clínicos gerais na Holanda usam frequentemente niet- pluis (NP), uma expressão bem típica, para indicar a incômoda sensação de que pode haver

algo de errado com um paciente, mesmo que ainda não se tenha estabelecido um diagnóstico claro. A palavra pluis (P) parece indicar a situação oposta, na qual um médico se sente seguro sobre como lidar com a reclamação de um paciente, mesmo sem ter um diagnóstico claro. Para o autor, os médicos normalmente preveem um determinado resultado em relação à saúde de seus pacientes, mesmo sem estar certos sobre o diagnóstico. O conceito NPP (niet- pluis/pluis) parece desempenhar um papel nesse processo de avaliação e está presente tanto em médicos experientes como inexperientes, porque está relacionado com as situações de incerteza diagnóstica.

Buntinx et al. (1991) avaliaram a primeira impressão que 25 médicos tiveram da queixa de dor torácica em termos de pluis (que mostra quando o médico se sente seguro sobre o diagnóstico e tratamento do paciente) ou niet-pluis (sensação de que pode haver algo de errado com o paciente) de 318 pacientes. A queixa de dor no peito ou sensação de aperto era nova nos pacientes, por isso não havia histórico anterior. A lista de queixas, sinais e sintomas foi verificada, juntamente com o diagnóstico inicial feito pelo médico imediatamente após o exame físico. O diagnóstico inicial foi comparado com um diagnóstico posterior ao exame. O médico fez um diagnóstico inicial correto em 82% dos pacientes.

Stolper, Van Royen e Dinant (2010) conduziram um estudo com médicos em outros países da Europa além da Holanda e constataram que esse tipo de intuição é familiar para a maioria dos médicos e caracteriza-se por dois tipos de sensação que foram mencionados pelos participantes: a sensação de alarme e a sensação de tranquilidade, corroborando os achados com os médicos holandeses.

Stolper et al. (2009a) descreveram como um grupo focal com 28 médicos mostrou e tornou mais clara a intuição na clínica geral em duas situações emocionais: quando o médico experimentava uma sensação de tranquilidade (quando o médico tinha certeza sobre o prognóstico e tratamento, embora eles nem sempre tivessem um diagnóstico claro em mente) e quando o médico experimentava uma sensação de alarme (quando o médico tinha a intuição de que algo estava errado, embora argumentos objetivos estivessem faltando). Os médicos relataram que muitas vezes perceberam a sensação de alarme como uma sensação física no abdômen ou no coração e consideraram que existia a intuição de que parecia haver algo de errado, mas que não tinham argumentos objetivos para explicar. Concluíram que os médicos dos grupos focais experimentaram sensações profundas como uma bússola em situações de incerteza e confiaram nesse guia para tomar a decisão. O objetivo do estudo confirmou-se nos resultados: embora haja pouca evidência do uso de sensações e intuição na clínica, os médicos utilizam esse recurso na tomada de decisão.

Os mesmos autores, Stolper et al. (2009b), repetiram o estudo com 27 médicos holandeses e belgas e acrescentaram que os dois tipos de emoções, “alerta” e “tranquilidade”, interferiam no processo de raciocínio do diagnóstico. A "sensação de alerta ou alarme", definida como uma sensação desconfortável, estimulou o médico a pesar hipóteses diagnósticas que poderiam envolver um resultado grave ou negativo. A "sensação de tranquilidade", definida como uma sensação de segurança sobre o problema do paciente, estimulou o médico a pesar hipóteses diagnósticas que envolvessem uma sequência de tratamento em que não havia dúvidas sobre o resultado, já que o resultado confirmaria o que era esperado pelo médico.

As pesquisas levantadas mostram que a emoção e a intuição estão presentes no processo de decisão, o que evidencia a interdependência entre cognição e emoção. Não existem julgamentos neutros ou isentos de intenção emocional. Sempre que há a participação de uma função cognitiva, há a participação da emoção. O encontro clínico é um momento em que médico e paciente ligam-se e interagem também por meio das emoções. Nessa interação, as fantasias e as projeções desempenham um papel importante, não só na comunicação, mas também no tratamento, com a tomada de decisão.

5 MÉTODO

A pesquisa utilizou o método misto, pois coletou, analisou e cruzou dados quantitativos e qualitativos, proporcionando uma visão do problema de pesquisa sob o enfoque de duas fontes de dados. O método misto é uma estratégia de investigação que pode ser encontrada na literatura principalmente com os nomes: multimodal, combinados e “quali- quanti”.

De acordo com Creswell (2010), a estratégia de métodos mistos é uma combinação de múltiplas abordagens à coleta de dados, que busca convergência entre os métodos qualitativos e quantitativos.

Os autores Creswell e Clark (2013) identificam seis tipos de pesquisa em métodos mistos, que diferem em termos de interação, prioridade e fusão dos resultados. Nesta pesquisa, utilizou-se o projeto convergente na fase de coleta, pois os dados quantitativos e qualitativos foram coletados de forma simultânea; e na análise o método sequencial explanatório, pois a análise de dados quantitativos orientaram a análise de dados qualitativos.