F1-Ineficácia de políticas públicas de saneamento básico. A escolha desse elemento parte do pressuposto que os serviços de saneamento constituem um direito social do cidadão, que se ampara em princípios de universalidade e equidade apresentados nas diretrizes nacionais para o saneamento básico (BRASIL, 2007a). Assim, mesmo com a existência de uma lei nacional na área de saneamento, sua eficácia no território brasileiro é diferenciada em função de variações no acesso aos serviços de saneamento devido a fatores socioeconômicos e políticos estruturais que resultam no não cumprimento das diretrizes estabelecidas na política.
F2-Ineficácia de financiamento para implantação de ações de saneamento. O financiamento para a implantação de ações de saneamento pode ser oriundo de fontes públicas ou privadas. Por exemplo, a FUNASA é uma instituição do Governo Federal, que dentre suas atribuições tem a responsabilidade de destinar aporte financeiro para apoiar a implantação de saneamento na área rural. No entanto, dados da FUNASA relativos a ações em saneamento rural
97 mostraram que do total de convênios firmados de 2003 a 2009, apenas 14% foram voltados para ações de saneamento rural, sendo que deste montante 73% foram destinados para projetos de saneamento em áreas indígenas, e o restante (27%) contemplaram projetos em todo o restante do universo rural brasileiro (BRASIL, 2011a). Diante dessa situação, apenas a definição burocrática de fontes de financiamento público ou privado não garante que intervenções no setor saneamento sejam efetivamente executadas. Assim, considera-se ineficaz o financiamento para implantações de ações de saneamento quando não se tem a efetivação de ações de implantação, mesmo existindo o aporte financeiro direcionado para tais ações.
F3-Inexistência de politica pública de direito ao uso da terra e F4-Ineficácia de política pública de habitação. O investimento em infraestrutura do ambiente domiciliar e comunitário e a forma como esses territórios são apropriados pelas populações depende de fatores externos relacionados ao direito de uso das terras onde essas vivem.
No caso da população da área de estudo, na época que trabalhavam dentro dos seringais, os habitantes tinham que pagar uma renda aos proprietários dos seringais (patrões) pelo uso da terra e, portanto, não tinham autonomia sobre o direito de uso da mesma. As habitações só poderiam ser construídas em local permitido pelos patrões e esses tinham total autoridade sobre elas, podendo derrubá-las caso fosse conveniente.
Esse cenário não estimulava o desejo de investimento na melhoria do ambiente domiciliar ou comunitário, pois as pessoas não eram proprietárias das terras e viviam sob ameaça de serem expulsas do seringal, ou terem que mudar de local dentro do mesmo seringal por ordem do patrão.
A viabilidade de reversão desse quadro pode estar relacionada com dois fatores: i) A inclusão dessa população em modelos de UCs de Usos Sustentável, que legitima o direito ao uso coletivo da terra dentro de uma concepção de regularização de áreas historicamente ocupadas para subsistência e/ou comercialização de produtos florestais ii) Ações dentro do INCRA
98 voltadas para a criação de Projetos de Assentamento Agroextrativista6 e disponibilização de créditos de instalação7, que viabiliza condições melhores de moradia.
Nesse novo contexto, o direito ao uso da terra e a possibilidade de melhoria das moradias são fatores macrodeterminantes (Força Motriz), que impulsionam a ressignificação do espaço domiciliar e comunitário, especialmente no que diz respeito ao acesso e à manutenção de serviços básicos e infraestrutura e, consequentemente, geram um impacto positivo na melhoria de qualidade de vida dessas populações.
F5-Ausência de participação em associações comunitárias. Esse elemento foi considerado como relevante, considerando o contexto da população sob estudo, em relação ao acesso a serviços básicos essenciais. Partindo do princípio que o acesso ao saneamento constitui um direito social do cidadão, áreas onde o Estado não consegue garantir o acesso a esses direitos, outras alternativas devem ser consideradas. Em locais onde há déficit de acesso ao saneamento, como no meio rural, o aumento do acesso pode ser alcançado a partir de ações participativas gerenciadas por organizações de moradores, como no caso das associações que gerenciam Sistema Integrado de Saneamento Rural (SISAR) e a Central de Associações Comunitárias para Manutenção de Sistemas de Abastecimento de Água (CENTRAL-BA).
O grau de participação dos comunitários nessas associações é uma variável importante que reflete o quanto a população está sendo representada por ela. Além disso, esse elemento dá uma ideia do grau de envolvimento das comunidades em relação às questões que fazem parte das atribuições da associação, que geralmente são diretamente relacionadas às demandas dos seus associados.
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Os projetos de reforma agrária criados e reconhecidos pelo Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA) estão sob a jurisdição e atuação das superintendências regionais do INCRA. O Sistema de Informações de Projetos de Reforma Agrária (Sipra) inclui a RESEX e a RDS dentro do PNRA.
7 O Crédito Instalação, concedido desde 1985, consiste no provimento de recursos financeiros, sob a forma de
concessão de crédito, aos beneficiários da reforma agrária, visando assegurar aos mesmos os meios necessários para instalação e desenvolvimento inicial e/ou recuperação dos projetos do Programa Nacional de Reforma Agrária.
http://www.incra.gov.br/index.php/reforma-agraria-2/projetos-e-programas-do-incra/credito-instalacao.Os procedimentos técnico-administrativos para a criação e o reconhecimento dessas áreas estão amparados pela Norma de Execução DT nº 69/2008.
99 F6-Ineficácia do Programa Saúde da Família. O PSF foi concebido com o objetivo de reformular o modelo assistencial de saúde no Brasil por meio da ampliação e fortalecimento da cobertura assistencial do primeiro nível de atenção à saúde no SUS a áreas menos assistidas, afastadas de grandes centros urbanos. O programa tem como foco a família e a comunidade e busca seus objetivos mediante a ampliação do acesso, a qualificação e a reorientação das práticas de saúde, incluindo ações voltadas à saúde preventiva, tema que envolve diretamente questões de saúde ambiental (BRASIL, 2011b). Em locais onde o acesso a serviços essenciais é precário, como no meio rural, esse tipo de inciativa pode ser uma variável relevante para o aumento de indicadores de saúde e qualidade de vida relacionados direta ou indiretamente à provisão de serviços de saneamento. No entanto, estudos apontam que o programa tem sido ineficaz em algumas regiões do Brasil, principalmente na Região Norte e, portanto, esse elemento de força motriz pode gerar uma pressão sobre o ambiente social da comunidade que, por sua vez, tem efeitos sobre a situação ambiental do domicílio e da comunidade, resultando em efeitos na saúde da população local.