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A. İnsan Boyutu

A introdução à perícope, que começa com a iniciativa de Jesus em passar “para a outra margem” já apresenta um problema literário o qual devemos rastrear. Não há, ao longo do texto, quaisquer menções diretas seja a Jesus, seja aos discípulos. Antes, o que encontramos é a primeira característica literária marcante do texto: a forte profusão de “a eles”, “com ele”, etc. Os pronomes (especialmente os pessoais) abundam ao longo do texto.

De fato, a lista é grande:299 no verso 35, temos a forma “disse-lhes [Jesus aos discípu- los]” ( - pronome pessoal dativo masculino plural). No verso 36, encontramos a expressão “levaram-no [os discípulos a Jesus]” ( – pronome pessoal acusativo masculino singular), bem como “com ele” ( ' - pronome pessoal genitivo masculino singular). Este “com ele”, aliás, é interessante, porque faz a ênfase do “acompa- nhamento” dos “outros barcos” ( ) recair sobre o (não-nomeado) Jesus, e não com o barco no qual estava.300 No verso 38, encontramos a expressão “e ele [Jesus] estava” (

! – pronome intensivo nominativo masculino singular), “despertaram-no [os discípu- los a Jesus]” ( – pronome pessoal acusativo masculino singular), “disse- ram-lhe [os discípulos a Jesus]” ( " - pronome pessoal dativo masculino singu-

298 O termo que designa a localidade em questão tem problemas de crítica textual. Cf. MEIER, John P. A Margi-

nal Jew. Vol. 2. p. 651. O autor opta, seguindo Bruce Metzger, pela leitura “região dos Gerasenos”. Cf. tb.

SCHIAVO, Luigi. 2000 Demônios na Decápole. XXX.

299 Aqui não listamos todos os tipos de pronomes do texto, apenas os mais relevantes para nossa análise. 300 Cf. MEIER, John P. A Marginal Jew. p. 925.

lar) e “não te importa [Jesus com os discípulos]” ( – pronome pessoal dativo singular). No verso 40, temos “disse-lhes [Jesus aos discípulos]” ( ! – pronome pessoal dativo masculino plural). No verso 41, encontramos “diziam uns aos outros [os dis- cípulos aos discípulos]” ( - pronome recíproco acusativo masculino plural), “este é [sobre Jesus]” ( * – pronome demonstrativo nominativo masculino singular) e “obedece -lhe? [a Jesus]” ( " - pronome pessoal dativo masculino singular).301

Já por estas observações sobre o forte uso de pronomes no texto, sem que haja sequer uma menção aos discípulos ou a Jesus – o mais próximo que se chega disso é o “mestre” ( ) do verso 38 –, podemos levantar uma questão a ser posteriormente resolvida. Vejamos: o contexto no qual a perícope está situada pode (ou não) lhe completar o sentido, uma vez que só podemos saber que trata de Jesus e dos discípulos apelando para ele. Assim, qual a importância do contexto para a economia do texto?

É importante, porém, observarmos que a ênfase nos pronomes não nos ajuda, ainda, a estruturarmos o texto. Devemos prosseguir nossa busca por outro caminho. É importante, também, observarmos que o texto tem várias perguntas. Estas podem se revelar, afinal, co- mo elementos de estruturação do mesmo. No verso 38, encontramos a pergunta “mestre, não te importa que morramos”. Já no verso 40, encontramos uma dupla pergunta da parte de Jesus: “porque covardes sois? Ainda não tendes fé?” Finalmente, em 41 temos a pergunta conclusiva da narrativa: “quem, portanto, este é que até o vento e o mar obedece -lhe?” Mas estas perguntas não são os únicos diálogos da perícope: há também a própria solicitação de Jesus aos discípulos, que abre a dinâmica narrativa, no verso 35: “vamos para a outra mar- gem”. Além disso, no versículo 39, Jesus se dirige ao próprio vento e ao mar: “cala-te, seja amordaçado”.

Logo, podemos perceber que estas perguntas e intervenções por parte de Jesus servem como elementos que avançam a narrativa: aquele que dispara o curso de ações, Jesus, com sua fala em 35 é o mesmo sobre o qual paira a pergunta final do verso 41 – “quem, portanto, este é que até o vento e o mar obedece -lhe?”. Além disso, esta própria pergunta final está vinculada ao verso 39, no qual Jesus repreende o vento e fala ao mar, ordenando-lhes que se acalmem. Isso tudo contribui para dar um sentido de unidade à narrativa como um todo,

mostrando que a introdução (v. 35) está ligada ao final (v. 41) que, por sua vez, remete à intervenção que resolve a tensão narrativa principal da tempestade no v. 39.

Mas a este esquema também pertencem as perguntas retóricas dos versos 38 e 40. À pergunta rude dos discípulos – ainda que retórica – corresponde a pergunta dupla de Jesus em 40. Meier observa que a pergunta dos discípulos é formulada com o uso da partícula , que indica que a pergunta espera uma resposta afirmativa – ao contrário do que indicaria o uso da partícula mē.302 Já no v. 40, a resposta de Jesus corresponde tanto em conteúdo como em forma à pergunta anterior dos discípulos.303

Essas perguntas retóricas são mais um elemento que vincula a narrativa ao contexto maior de Marcos. A invectiva de Jesus, “por que covardes sois?” aponta, primeiramente, para a situação vivenciada imediatamente, a saber, a tempestade calamitosa. Mas também aponta para o contexto de Marcos ao perguntar na sequência “ainda não tendes fé?”, como que a dizer: e tudo que vivenciaram até aqui, de que serviu? Claro, tal pergunta, por outro lado, também aponta “para a frente”, na medida em que aventa a possibilidade de que os discípulos, afinal, tenham essa fé desejada.

Mas essas perguntas e frases de Jesus, conquanto auxiliem na estruturação geral do texto, não são ainda os elementos estruturais mais determinantes. Estes encontramos na ad- jetivação tripla “grande”, a saber: no verso 37, temos uma “tempestade grande” (

). No versículo 39, uma “calmaria grande” ( ). Por fim, no verso 41, temos um “grande medo” ( ). Esta divisão tripla do texto, em torno do adjetivo “grande”, tem a vantagem de realçar os elementos típicos de uma narrativa de milagres, os quais veremos mais adiante quando analisarmos as formas literárias do texto.304