yola gidilmiştir Polonya’da Aydınlanma, anayasanın haricinde ilk Milli Eğitim Bakanlığı’nın kurulması,
ÜÇÜNCÜ DOGMA
A. 7 Dilsel Alan
4. EVRENSELLİK ÖLÇÜTÜ PERSPEKTİFİNDEN TÜRK DEVRİMİ
4.1 Düşünce ve Eylem Alanında Türk Devrimi Analiz
4.1.2 Aydınlanma ve Türk Devrim
Começo estas considerações finais com um dado biográfico. Durante a adolescência, fui leitor assíduo, compulsivo e genético da ficção científica produzida por Isaac Asimov. Por influência da coleção de meu pai, facilmente acessível nas estantes de minha casa, e pela sua própria recomendação de que efetuasse a leitura de tal autor, acabei tornando-me fascinado pela sua obra. Assim, minha adolescência de nerd latinoamericano foi, entre ou- tras grandezas, influenciada diretamente por livros como os de Asimov.
Um de seus contos curtos, quase uma anedota, me chama a atenção até hoje. Asimov, de origem judaica e ateu, imagina como teria ocorrido a escrita do Livro de Gênesis. Na sua ficção, representa uma conversa entre Moisés e Arão. Os dois discutem sobre o Big Bang, a expansão do universo, enfim, teorias modernas sobre a origem das coisas. Arão porém inter- rompe o inspirado Moisés: “já viste o preço do papiro? Está pela hora da morte! Vamos ter que abreviar...” Ao que Moisés responde: “No princípio, criou Deus os céus e a terra...”
Salto biográfico intencional. Da década de 90, saltamos sem escalas ao ano de 2004. Eu, então jovem seminarista, iniciando o segundo ano da faculdade de teologia, tive um “choque de realidade” ao adentrar a comunidade de periferia à qual tive a honra de auxiliar em sua caminhada. O culto iniciou com uma oração de guerra, na qual invocava-se uma “redoma de fogo” para proteger o local do culto contra as investidas demoníacas, bem como eram conclamados “o anjo da palavra”, “o anjo da cura”, entre outros, a se fazerem presen- tes no decorrer da celebração.
Para um rapaz criado em meio a Asimovs e computadores, isso fazia muito pouco sen- tido. Oriundo de uma igreja de Porto Alegre dita “tradicional”, tal prática litúrgica se dis-
tanciava e muito da minha própria maneira de entender meu cotidiano vis-à-vis o Deus que eu creio. Ainda assim, penso que por um providencial lampejo de lucidez, não permiti que a repulsa inicial a tal manifestação me impedisse de ouvir as vozes diferentes que se me apre- sentavam.
Ao cabo da convivência, aprendi com eles inúmeras coisas. E descobri, acima de tudo, que é preciso ouvir os outros, mesmo em seus relatos que podem nos parecem os mais ab- surdos e fantásticos. Se para um deles uma melancia virou Deus, não caberia a mim o papel de anular e negar sua experiência do sagrado. Para um jovem que sempre acreditou num mundo relativamente desencantado, tal experiência e convivência se revelaram esclarecedo- ras não da ignorância alheia, e sim do meu próprio olhar muitas vezes preconceituoso.
Disso também surgiu meu interesse pelo milagroso, especificamente os relatos bíbli- cos. Afinal de contas, detectara um claro descompasso entre meu mundo e o dos membros os quais deveria auxiliar no pastoreio. Assim, me aproximei com avidez das obras de John Dominic Crossan, entre outras, na busca de aprofundar esta reflexão então incipiente.
Salto para dois mil e dez. Observo que a narrativa que nos propusemos a analisar, Marcos 4. 35 – 41, “Jesus Acalma uma Tempestade”, nunca ocupou lugar de destaque na pesquisa bíblica. De fato, o referido Crossan dedica-lhe uma pequena porção do capítulo 14 de sua obra O Jesus Histórico, intitulado “Ressurreição e Autoridade”, para analisá-la sob a ótica dos problemas de autoridade da igreja nascente. Isso é o mesmo que relegá-la, por as- sim dizer, à lata de lixo histórica, uma vez que sua associação à ressurreição esvazia boa parte de sua reserva de sentido histórico. É apenas uma maneira de resolver um problema da igreja com uma historinha bonitinha sobre um homem que já sofre os primeiros processos de divinização.
Mas seria esta narrativa inteiramente destituída de um núcleo histórico plausível? Não se trata de estabelecer se “a bíblia tinha razão ou não”, ou de simplesmente buscar esclare- cer a “mentalidade primitiva” através das luzes do Aufklarung. Afinal, no decorrer da pes- quisa, me deparei com historiadores como Carlo Ginzburg, Peter Burke e o próprio exegeta Klaus Berger que deram azo às minhas inquietações metodológicas. Neles, encontrei aca- dêmicos profundamente coerentes em sua construção do saber histórico, lidando com do- cumentação e não abrindo jamais mão da noção de “prova histórica”.
Neles também encontrei profunda valorização da documentação do tipo fantástico. Se- jam na análise dos benandanti ou das idéias de Menocchio esmiuçadas por Ginzburg, ou no desafio da história cultural de sonhos de Burke, e no uso do conceito de “psicologia históri- ca” aplicado aos estudos bíblicos empreendido por Klaus Berger, emerge um padrão que
nos ajudou a perceber que é deletério ao conhecimento histórico relegar ao “buraco da me- mória”, a “lata do lixo histórica”, documentações que revelam mais do universo muitas ve- zes fantástico testemunhado pelas mais diversas culturas.
Assim, a pesquisa por documentação me levou aos Papiros Mágicos Gregos. Neste
corpus, encontramos um verdadeiro receituário para os mais diversos problemas do cotidia-
no, desde a cura da gota à obtenção de sucesso no amor. Mais esclarecedor foi perceber o rico processo de trocas culturais das quais estes documentos são testemunhas. Temos o deus judaico, SABAOTH, sendo invocado juntamente com Osíris e Zeus. O nome de Cristo, nu- ma corruptela, como Chrestos, aparece mencionado como “O Deus dos Hebreus”.
Nesta grande mistura das divindades de diversas culturas, observa-se padrões comuns, os quais intentamos rastrear. A preocupação com os daimons, sejam eles benéficos ou malé- ficos, é uma constante. Neste sentido, invocações a divindades e palavras mágicas revesti- das de poder e mistério ressoam como ferramentas que possibilitam uma negociação com estes poderes superiores à esfera do comum. Um grupo específico de feitiços, os katadesmoi ou feitiços de amarração, mereceram nossa atenção mais detida. Nele, seres humanos adver- sários são mandados se calar. O que garante a eficácia destas palavras é, primeiramente, seu poder numinoso, bem como o receituário de ervas e procedimentos a serem utilizados no ritual.
Também encontramos uma voz bastante curiosa nos Manuscritos do Mar Morto. Ne- les, uma voz proclama com altivez “sentar-se entre os deuses”, ou seja: sente-se confortável na corte celestial. É evidente que isso tudo é parte do filão explorado especialmente pela apocalíptica de ascensões celestiais e comunhão angélica testemunhado por muitos docu- mentos da Antigüidade. Curioso é, porém, detectar nesta voz aparentemente isolada ecos da noção já encontrada nos Papiros Mágicos Gregos de que, afinal de contas, algumas pessoas poderiam se revestir de dignidade e status angélico/divino através de um uso ritual. Partici- par da esfera do sagrado, que lá era obtido por receituários e gestos, aqui se experimenta no contexto litúrgico de uma comunidade.
Por semelhante modo, observamos que nossa narrativa de Marcos se encaixa num conjunto de textos que se origina na narrativa do naufrágio do livro de Jonas, cap. 1. Que as releituras de textos vétero-testamentários são comuns no universo do judaísmo do tempo de Jesus não é novidade alguma. Todavia, é interessante perceber como a tradição acerca de Jonas se desenvolve também de maneira independente do cristianismo, com suas caracterís- ticas próprias, quais sejam, por exemplo, o valor dado à piedade do indivíduo bem como à sua oração eficaz. Nossa narrativa é, portanto, parte deste mosaico de leituras e releituras.
Também observamos figuras como Honi e Hanina ben Dosa, muito provavelmente o- riundas dos estratos inferiores da sociedade e muito provavelmente da própria Galileia de Jesus. Percebemos a dificuldade que o corpus rabínico demonstra na aceitação destas figu- ras, impingindo-lhes muitas vezes o rótulo de rabino e transformando seus gestos mágicos em orações, com comprovação através de citações do Antigo Testmento. Práticas mágicas no judaísmo? É evidente que para certos ouvidos isso soará blasfemo.
Adentramos, pois, nosso texto propriamente dito.
A narrativa como tal dá inúmeras demonstrações de ser, em grande parte, fruto da mão redacional de Marcos. Desde a ausência do nome de Jesus e dos discípulos – no máximo ele é referido como “mestre” – à sua clara conexão com o contexto imediato ligado ao mar e ao contexto amplo ligado ao segredo messiânico e o que Theissen denomina de “arco aretaló- gico” na composição de Marcos, tudo aponta para um caráter artificial da mesma narrativa. Some-se a isso sua possível derivação da narrativa de Marcos 6, na qual “Jesus Anda por Sobre as Águas”, e seu caráter histórico parece se esvair rapidamente.
Ainda assim, é notável observarmos alguns detalhes importantes. A ação de Jesus, de repreender o vento e falar ao mar, com explícita referência às palavras que ele utiliza, nos recorda não apenas do campo semântico dos exorcismos judaicos e suas repreensões, mas ao próprio grupo de katadesmoi que observamos. Portanto, numa ação aparentemente artifi- cial, que visa resolver a tensão da narrativa de moldes míticos, aparece todo um conjunto de associações culturais mais profundas.
Se for verdade que Jesus era uma espécie de mago carismático da Galileia, o que nos parece bastante provável, sua ação se deu justamente imerso neste contexto cultural que nesta narrativa se apresenta. Não se poderá entender sua prática exorcística sem a referência à necessidade de saber nomes de demônios. Isso nos remete ao universo da palavra eficaz, da palavra mágica, testemunhada tanto no universo judaico como no universo Greco- romano mais amplo.
Também não se poderá entender a referência ao vento e ao mar como elementos de representação do caos sem apelarmos a esta documentação. A ação de Jesus, nestes moldes, se reveste da linguagem simbólica do exorcismo, embora nem o vento nem o mar sejam explicitamente associados ao demoníaco. Ao apresentar Jesus como um ser mitologicamente poderoso, capaz de dominar poderes superiores ao da esfera do comum, o texto nos apresen- ta um núcleo histórico, a saber, que a ação carismática deste mago Galileu só pode ser com- preendida contra o pano de fundo da religiosidade Greco-romano-judaica.
Assim, podemos recolocar a pergunta histórica em outros moldes, a saber: não se tra- ta, em absoluto, de defender a ocorrência ou não deste ou daquele evento descrito nos evan- gelhos. Antes, trata-se de compreender o universo simbólico expressado nestas narrativas, procurando apreender sua especificidade. Trata-se também de situar Jesus de Nazaré num contexto outro, distinto do nosso. Não podemos exigir nem das pessoas da Antigüidade nem das fontes que dispomos o mesmo olhar exegético que lhes voltamos. Pode-se, porém, pro- curar captar estas sutilezas.
Ao fazê-lo, o processo histórico de trocas culturais acaba por, afinal de contas, escla-
recer o rico contexto no qual nasceu, viveu e morreu esta enigmática figura histórica, Jesus