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2. BÖLÜM

2.3. Birinci ve İkinci Dünya Savaşları Dönemlerinde Açık Hava Mecralarının

2.3.3. İngiltere’de Propaganda Faaliyetleri

Analisemos agora um trabalho que se conecta como o produzido por Collins e Pinch, embora esteja mais relacionado às técnicas e procedimentos dos cientistas em seus laboratórios, e, assim, o aprofunda, no sentido da explicitação das influências sociais no trabalho do cientista. No livro Ciência em Ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora, Latour (2000) constrói analogias, metodologias e esquemas para desenvolver seu relato e colocar suas posições e pesquisas.

Uma das expressões mais conhecidas e que se coloca como uma analogia muito útil para sua argumentação é o conceito de caixa preta. Ele mesmo nos mostra a sua origem, cita que “[a] expressão caixa preta é usada em cibernética sempre que uma máquina ou um conjunto de comandos se revela complexo demais” (LATOUR, 2000, p. 14, grifos do autor). Ele usa esse termo para expressar o fato de que a ciência vista de fora parece algo realmente fechado, da qual não se pode perguntar, questionar ou duvidar. Como forma do prosseguir desta discussão, esse autor usa também a figura alegórica do “Jano bifronte”, para simbolizar as duas faces da ciência, uma representando a “ciência acabada” e a outra a “ciência em construção” (Ibid., p. 160). Aprofundaremos este ponto na sequência.

Latour argumenta que “[i]ncerteza, trabalho, decisões, concorrência, controvérsias, é isso o que vemos quando fazemos um flashback das caixas pretas certinhas, frias, indubitáveis para o seu passado recente” (Ibid., p. 16, grifos nossos). Seguindo este entendimento, ele defende, portanto, dois posicionamentos para a mesma situação: um, considerando a caixa preta fechada, e outro, derivado do entendimento de como ela tornou-se fechada. Reproduzimos a seguir algumas máximas do personagem Jano bifronte que servem para ilustrar as ideias do autor:

Primeira máxima: Acate os fatos sem discutir [ciência pronta]. Descarte os fatos inúteis [ciência em construção].

[...]

Segunda máxima: Fique sempre com a máquina mais eficiente [ciência pronta]. Decida o que é eficiência [ciência em construção].

[...]

Terceira máxima: Quando a máquina funcionar, todos se convencerão [ciência pronta]. A máquina vai funcionar quando as pessoas interessadas estiverem convencidas [ciência em construção].

[...]

Quarta máxima: O que é verdade sempre se sustenta [ciência pronta]. Quando as coisas se sustentam, elas começam a se transformar em verdades [ciência em construção] (LATOUR, op. Cit. p. 21 – 28, grifos nossos).

É fácil perceber, desde já, que a “ciência pronta” muda o foco da exposição, o que de certa forma encobre a “ciência em construção”. Segundo Bruno Latour, isso ocorre porque “[...] poucas pessoas de fora já penetraram nas atividades internas da ciência e da tecnologia e depois saíram para explicar, a quem continua do lado de fora, de que modo tudo aquilo funciona” (Ibid., p. 33). O que coincide com as colocações independentes de Collins e Pinch (2003), quando dizem que “o que realmente acontece [no fazer científico real, existente] nunca foi dito fora de um pequeno círculo” (Ibid., p. 21).

Estas constatações reforçam a importância e a urgência de se inserir, de modo assertivo e amplo, sociologia da ciência na formação do educador científico e no ensino de ciências em geral. Com efeito, o enfoque sociológico permanece ostensivamente ausente dessa formação e desse ensino – e tal enfoque não deve ser confundido com aqueles históricos ou filosóficos, que de forma tímida, mas explícita, já conquistaram reconhecimento e espaço na área de educação científica (espaço, inclusive que se amplia, ao menos nos discursos e em algumas inserções pontuais, o que já é um importante primeiro passo). A omissão na inclusão de sociologia da ciência para a educação em ciências é injustificável e muito grave, dificulta a reformulação necessária da imagem da ciência junto a educadores e à população em geral.

Retomando, Latour ainda argumenta, naquela linha, que, “[c]omo ocorre com milhões ou bilhões de leigos, [também] o que elas [, pessoas relacionadas à ciência, cientistas,] sabem sobre ciência e tecnologia provém apenas de sua vulgarização” (Ibid., p. 34). Nesse sentido, confessa: “[...] espero ajudar a superar duas limitações dos estudos de „ciência, tecnologia e sociedade‟ que, em minha opinião, frustram seu impacto: a organização por disciplina e por

objeto” (Ibid., p. 34, grifos do autor). Dentro desse entendimento de Latour, acrescentaríamos que esse panorama, no qual cada profissional, com a sua disciplina e seu objeto, formam um mundo a parte, contribui para as caixas pretas se tornarem cada vez mais fechadas.

Este autor analisa em cada capítulo da sua obra partes diferentes que ajudam a compor as grandes teorias e “descobertas” da ciência. Mostra que alguns desses fatores estão relacionados à literatura, outros são produzidos com a utilização dos laboratórios. Evidencia também o papel das máquinas na construção de entendimentos sobre teorias e das próprias máquinas, os fatores políticos e retóricos, assim como o papel do que ele denomina “Tribunais da razão” e “Centrais de cálculo” (LATOUR, 2000), como fatores determinantes na construção das teorias e equipamentos.

No que toca à literatura, ele chama a atenção para “[o] aspecto coletivo da construção dos fatos” (Ibid., p. 47), como também para o fato de que “[q]uando nos aproximamos dos lugares onde são criados fatos e máquinas, entramos no meio das controvérsias. Quanto mais nos aproximamos, mais as coisas ficam controversas” (Ibid., p. 53). Isso leva inevitavelmente ao seguinte estágio:

Há sempre um ponto na discussão em que os recursos próprios das pessoas envolvidas não são suficientes para abrir ou fechar uma caixa preta. É necessário sair à cata de mais recursos em outros lugares e outros tempos. As pessoas começam a lançar mão de textos, arquivos, documentos e artigos para forçar os outros a transformar o que antes foi uma opinião num fato. Se a discussão continuar, então os participantes de uma disputa oral acabarão por transformar-se em leitores de livros ou de relatórios técnicos. Quanto mais discordam, mais científica e técnica se torna a literatura que lêem (Ibid., p. 54).

Nesse sentido, Latour analisa também todos os procedimentos muitas vezes presentes, por exemplo, na produção de um artigo: a arregimentação de amigos, parceiros para aquele empreendimento (Ibid., p. 55, et. seq.), o fato de autores reportarem a textos anteriores que lhes dêem segurança (Ibid., p. 59, et. seq.), como também um certo enquadramento num determinado nicho intelectual como forma de ajudar no sucesso da sua empreitada (Ibid., p. 87, et. seq.).

Quando passa a falar sobre a influência da atividade laboratorial para a concretização das teorias, ele percebe que há uma ligação inseparável entre as construções materiais técnicas, o que é pesquisado e o discurso dos cientistas frente a esses dois outros componentes. Ou seja, ele acredita que “[o]s cientistas não dizem nada além do que está

inscrito, mas sem seus comentários as inscrições dizem bem menos” (Ibid., p. 118 – 119, grifos nossos).

Latour prossegue, mostrando que o laboratório é uma ferramenta tão determinante nesse processo, que disputas de teorias fazem surgir “contralaboratórios” (sic) (Ibid., p. 130, et. seq.), como também a configuração de “novos aliados” (Ibid., p. 142, et. seq.). Outro ponto importante levantado por este autor, é o fato das práticas laboratoriais, diríamos empíricas, sempre recorrerem ao “apelo (à/da) Natureza” (Ibid., p. 155, et. seq.). Para isto ele volta a utilizar a alegoria do Jano das duas faces. A face representante da ciência pronta, acabada, da caixa preta, argumenta que “[a] Natureza é a causa que permitiu a resolução das controvérsias. [Enquanto aquela que representa a ciência em construção defende que] [a] Natureza será a consequência da resolução” (Ibid., p. 164). Ou seja, segundo o entendimento de quem veria a ciência como uma atividade separada do social e da sociedade e de tudo que ela engloba, não passando por questões de escolhas internas, argumentações etc. – que é a imagem que comumente é propagandeada e considerada – o ponto de partida é a natureza. Já, vendo a ciência como uma caixa preta que pode ser aberta, a natureza torna-se uma possibilidade de amarrar, apaziguar as controvérsias, um componente a mais na arrumação do argumento teórico.

Esse autor passa, a partir de então, a falar da produção de máquinas, protótipo de motores e etc. Ele deixa claro que uma das coisas que desde sempre estarão presentes são “[a]s incertezas do construtor de fatos” (Ibid., p. 169, et. seq.). Por isso sequencialmente a este primeiro estágio, seguir-se-á a “[t]ranslação de interesses” (Ibid., p. 178, et. seq.), sempre “[m]antendo na linha os grupos interessados” (Ibid., p. 199, et. seq.). Uma vez determinado o protótipo e seus destinatários, passar-se-á agora ao processo de difusão, lembrando que a Natureza “[...] fica atrás dos fatos depois que eles são feitos; nunca quando estão sendo feitos” (ibid., p. 234). Ele expõe ainda, utilizando as duplas faces de Jano, que, semelhantemente ao que disse acerca da Natureza, “[a] sociedade é a causa da resolução das controvérsias [ao se olhar a ciência pronta]. [...] [E que] [u]m estado estável da sociedade será consequência da resolução das controvérsias [ao se considerar a ciência em construção, abrindo-se a caixa preta]” (Ibid., p. 236).

Ele determina que outros artifícios também estão incluídos nas ações dos cientistas na produção científica, como “[d]espertar o interesse dos outros pelos laboratórios” (Ibid., p. 241, et. seq.), “[t]ornando indispensáveis os laboratórios” (Ibid., p. 252, et. seq.). Chama a atenção também para a instauração dos Tribunais da razão, que operam “[o]s julgamentos de racionalidade” (Ibid., p. 295, et. seq.), “povoando o mundo com mentes irracionais” (Ibid., p.

295, et. seq.). Ou seja, determinam o que pode ser considerado racional, portanto, crível, já que o que não se inscreve segundo estes ditos critérios de racionalidade passa também a não mais existir – ou pelo menos esse seria o seu interesse. Após esta triagem, as Centrais de cálculo procedem na “[d]omesticação da mente selvagem” (Ibid., p. 349, et. seq.), através da imposição da lógica dita formal e dos métodos matemáticos característicos daqueles grupos.

Enfim, Latour (2000), a cada capítulo, constrói o que chama de regra metodológica, que nada mais é do que os encaminhamentos presentes em todo o livro Ciência em ação e que expusemos até agora. Ou seja, que a análise da atividade científica deve ter como alvo a ciência em ação e suas associações, sendo que a Natureza, a sociedade etc., não são fins do processo, mas componentes, dentre outras, utilizadas para resolver controvérsias decorrentes das teorias, e que a irracionalidade é uma questão de ângulo e extensão da rede em que se insere.